Quarta-feira, 14 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Fake news

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Et nunc et semper

 

 

Há agora grande animação a propósito de fake-news e de aldrabices quejandas que fervilham desde que os americanos escolheram para Presidente um mentiroso compulsivo (mas - ao contrário dos mitómanos que ás vezes se prejudicam com as mentiras que inventam – este está sempre a ver se leva água ao seu moinho e, quando não o consegue, foi por limitação de inteligência, de cultura ou de informação como acontece tantas vezes a chicos espertos e não por reconhecimento de a razão estar do outro lado. Há quem diga nessas alturas que o Presidente é sobretudo narcisista, como se tal fosse grande pecado, mas eu não estou convencido: Oscar Wilde contava que as águas do lago, quando lhes perguntaram se Narciso era realmente belo, responderam que não sabiam porque, quando Narciso vinha ver-se nelas, não olhavam para ele - olhavam para si próprias nas meninas dos olhos dele. Atirar a primeira pedra…

 

Felizmente, pelo menos por enquanto, a algazarra passa-se sobretudo nas chamadas redes sociais, uma gigantesca bolha, porventura ela própria dentro de uma outra bolha - e por aí fora - onde vivem deusas e deuses, homens e mulheres, onde se mata, se morre, se ama, se odeia, se acaba e se recomeça, como se se a vida fosse uma fantasia impune de ricos e, enquanto assim for, não virá daí mais mal ao mundo do que aquele que já tinha vindo ao longo de milénios, por mor de quezílias semelhantes, explodindo em amores e ódios, dividindo famílias, nações e fés, pelo menos desde Abel e Caim (para leitora que prefira ou esteja mais calhada com a mitologia cristã). Se fake news e fantasias acopladas tomassem conta dos livros texto, da experimentação e dos debates em cirurgia torácica, por exemplo, ou na construção de pontes sobre rios ou na pilotagem automática de automóveis e de aviões ou na análise, selecção e engarrafamento da Água do Luso – aí haveria razão para grande susto. De algoritmos a física quântica, muita coisa hoje nos organiza as vidas, cujo entendimento escapa a muitos de nós mas cujo estatuto científico e técnico não é minado pela tagarelice cacofónica zumbindo constantemente ao nosso alcance visual e auditivo nas redes sociais. O que é minado, esse sim, é o chamado conhecimento comum, já de si vago, incoerente, gabarola, e há eras sem fim, constantemente posto à prova pelas religiões do mundo, sobretudo pelas religiões reveladas e, destas, pelas três maiores: Cristianismo, Islamismo e Judaísmo.

 

O que mudou, quase desapareceu, são os guardas florestais e mais arranjos destinados a prevenir fogos incontroláveis no Pinhal de Leiria que é o espírito. O aparelho científico e, pelo menos por enquanto, a máquina judiciária estão seguros, olhando pelos conhecimentos lógico e empírico, por um lado, e pela aplicação das leis, por outro. No resto dos espaços públicos e privados, a razão arrisca-se a perder crédito; a autoridade e o acaso a constituírem-se soberanos – mas isso já o temia o Cavaleiro de Oliveira (1702-1783). Não há de ser nada.

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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