Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

codorniz65

Capa de La Codorniz celebrando a nova lei de imprensa conhecida como “ley Fraga” (1965)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Mundo Novo

 

 

Assino há muito tempo a New York Review of Books e, desde que vivi em Princeton, professor no Institute for Advanced Study, de 2001 a 2004 passei a assinar o New Yorker que, costumava eu dizer a toda a gente, é o melhor semanário do mundo – ou pelo menos o melhor semanário publicado em língua que eu saiba ler. Veio ocupar o lugar deixado vago há décadas por La Codorniz – “La revista más audaz para el lector más inteligente!”, trazia impresso numa tarja que atravessava a capa – impressa em castanho e cor-de-rosa, publicada em Madrid no tempo de Franco, suspensa de vez em quando pelo Poder (uma vez por causa de boletim meteorológico: “Mañana, como en igual fecha en años anteriores, se sentirá en toda la peninsula um fresco general del Noroeste”; outra, por pôr na capa de um número o desenho de um ovo enorme com a legenda “El huevo de Colón” e, na capa do número seguinte, novamente um ovo enorme com a legenda “El outro huevo de Colón”) e sempre implacável: grande fotografia do próprio com a legenda seguinte: “D. Jose Ortega y Gasset, Primero filósofo de España y Decimoquinto de Alemania”. Quando Franco acabou e veio a liberdade, acabou a Codorniz. 

 

Acontece-me agora uma coisa bizarra. Desde que Trump chegou à Casa Branca, depois de quase dois anos de campanha, com primárias republicanas e democratas primeiro e face-a-face Trump-Clinton depois, em eleições livres e limpas, tirante uma ou outra intervenção secreta e indevida do Kremlin para fazer Clinton perder votos, nunca saberemos quantos (a palavra tirante chegou-me agora directa de Camilo no começo da novela de Cenas da Foz, A Sorte em Preto, quando diz que a fidalguia do pai da heroína – cito de cor – vinha desde os godos em linha pura e varonil, “tirante um ou outro capelão atravessado”) e não se irão impugnar as eleições por causa disso, seja qual for o resultado do inquérito em curso; desde a chegada de Trump ao Escritório Oval dizia eu, perdi a paciência para os dois pontificadores nova-iorquinos – a New York Review; o New Yorker – e deixei praticamente de os ler. Continuam a vir pelo correio, de vez em quando tiro-lhes a cingida bolsa de plástico fino e transparente dentro da qual chegam a minha casa e ponho-os nas pilhas respectivas mas li por junto um artigo do New Yorker porque amigo insistiu. Estou de nojo; é estado que passa com o tempo e não cancelei assinaturas. Mas, por enquanto, raramente lhes toco – porque me sinto enganado. Afinal, eles que julgavam saber tudo mas não tinham percebido nada, deixaram multidões fartas de serem descuradas pela arrogância da mó de cima escolher gente ignorante, mal formada e viciosa para governar o país.

 

Também não tenho desculpa. Cheguei ao Instituto em Princeton logo a seguir ao 11 de Setembro com a América em estado de choque. Poucos dias depois carpinteiro da casa explicou-me como se distinguiam os automóveis do pessoal menor dos dos professores: “A gente cola a bandeira nas janelas dos nossos carros e eles não”.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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