Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

US_Constitution

 Constituição dos Estados Unidos da América

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Trump, os americanos e nós

 

 

 

Jornais americanos contaram as mentiras de Trump e o cálculo dá mais de 5 mentiras por dia desde a tomada de posse. Para ser justo, o número pouco sentido faz se não for comparado com números equivalentes para os seus predecessores, pelo menos desde Ronald Reagan, inclusive: Bush pai, Bill Clinton, Bush filho, Barack Obama. Obama foi comparado – mentia, mas muito menos - porém estudos dos outros, difíceis e morosos, não foram feitos. Talvez algum bilionário benemérito de extrema-direita pudesse encomendá-los a uma das entidades competentes e impolutas que existem nos Estados Unidos.

 

Não ajuda debate político cada vez mais faccioso ter, de um lado, a diabolização de Trump, e, do outro, a diabolização de Hillary Clinton - e também, para americanos puros e duros, a base evangélica que apoia o Vice-Presidente Pence, desde os cachafundos da cintura bíblica do Sul confederado até ao Knesset em Jerusalém, a diabolização de mulheres que não cozinhem todos dias pontualmente o jantar dos maridos e não criem filhas de maneira que estas venham a portar-se como elas. “She-devils” chamam-lhes os Republicanos mais entusiastas para ganharem votos nas eleições deste ano para o Congresso.

 

À primeira vista, na Europa, é preciso chegarmos a ramalhetes sombrios de curas e fidalgos na Bretanha azul; a aldeias polacas ou austríacas, beatas e anti-semitas; a jovens bávaros ou suecos desempregados, disciplinados na violência, para encontrar tal eflúvio de crenças anacrónicas. Todo o cuidado é pouco mas com Macron em França, a grande coligação na Alemanha (knock on wood!), a Espanha laicizada e a Itália desconfiada de grandes visões, é provável que a Europa escape à ambição de ordem sem democracia que anima os governos de Budapeste e de Varsóvia. (Un polonais, un charmeur; deux polonais une bagarre; trois polonais, la question polonaise, Voltaire).

 

Nos Estados Unidos é diferente. E o que lá se passar vai afectar-nos a todos na Europa. Os números da economia, a curto prazo, confortarão Trump e algumas das suas falhas morais (menos chocantes para latinos do que para europeus do Norte: amigo português, dez anos mais velho do que eu, dizia à mulher: “O nosso azar filha é termos nascido cedo demais – senão tu também me punhas os palitos e eramos os dois felizes”. Já morreram ambos) não abalam o seu eleitorado. Em inquérito recente, 72% dos Republicanos acham Trump um bom modelo para a juventude (faz a gente pensar). O busílis está no assalto a critérios de decência e equilíbrio de poderes (que desde os Pais Fundadores conferem aos Estados Unidos força, atracção e estabilidade) feito escandalosamente por Trump, com desenvoltura que põe os seus interesses próprios à frente dos interesses dos Estados Unidos. Desde a não declaração do património até à publicação recente de elementos de inquérito do FBI contra a oposição do director deste, os casos vão-se acumulando. Se lhe derem mais um mandato, receio que o dano seja irreparável.

 

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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