Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Las Vegas 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Patos bravos

 

 

 

As mesmas palavras dizem coisas diferentes segundo os lugares. Em norueguês, “pato bravo” traz logo à cabeça peça de teatro de Ibsen (e em inglês também, em certas circunstâncias: vi uma tarde em Nairobi cartaz de representação teatral nessa noite e noites seguintes, por actrizes e actores negros do Quénia, alguns dos quais lá estavam figurados, de The Wild Duck de Hendrik Ibsen). E poderia ter visto cartaz equivalente, escrito em dinamarquês, numa rua de Copenhaga, porque a língua em que Ibsen escreveu os seus dramas era o dinamarquês, embora Ibsen ele próprio fosse norueguês - não é bem o mesmo que Luís Bernardo Honwana, sendo moçambicano, escrever em português, mas tampouco é completamente diferente porque a Noruega, se não estou em erro, a certa altura foi colónia ou coisa parecida da Dinamarca - e como o disparate não poupa ninguém, nem os escandinavos, quase sempre tão certinhos em tudo, há agora na Noruega espíritos desembaraçados que retrovertem Ibsen para norueguês moderno, oferecendo a públicos de representações teatrais e a leitoras de livros o que eles entendem ser como Ibsen teria escrito agora. Disse-me entendida um dia que o dito norueguês moderno soava feio e tosco, enquanto o Ibsen original soava bonito e subtil, mas essa minha amiga era um alma sensível e considerava que o punhado de homens e mulheres, instruídos obrigatoriamente, que julgavam estar assim a fazer justiça ao verdadeiro espírito do dramaturgo, estavam na realidade a caricaturá-lo, ainda por cima com mau gosto.

 

Já as três palavras Le Canard Sauvage, lidas em parede de uma rua de Bruxelas, só depois de muitas voltas lembrariam o mister – ou arte, ou engenho – de Racine, Goethe ou Shakespeare ou, porque não, do próprio Ibsen (tenho dias em que não consigo impedir-me de complicar as coisas…) mas antes, prosaica e gulosamente, sugeriria restaurante mais ou menos pretensioso. Em Bruxelas, ou em Estrasburgo, ou em Mulhouse, ou em Basileia, ou em qualquer outro vestígio do Reino Lotaríngio, tudo isto em grande parte depois Ducado de Borgonha, e hoje, Suíça, França, Luxemburgo, Bélgica Valónica, um dos ramalhetes de lugares no mundo onde há séculos se come e se bebe muito bem.

 

Em Lisboa, isto é, na Lisboa do meu tempo - não sei se hoje se falará por lá assim – o significado de ‘pato bravo’ era outro ainda. Um pato bravo era um construtor civil que fizera fortuna e passara a novo rico, nem sempre com honestidade pegada à sua reputação, pelo contrário, mas com jeito para escapar a complicações. Muitas vezes, não sei porquê, vindo de Tomar. Nesse Portugal, o equivalente de Trump seria um pato bravo ordinário. Mas o caso de Trump é mais complicado: os patos bravos de Nova Iorque escapam melhor à troça dos ricos-ricos se forem de Manhattan do que se forem de Brooklyn. E Trump é um pato bravo de Brooklyn. São complexos de inferioridade, uns dentro dos outros como bonecas russas, e o homem sempre a achar que não lhe estão a dar o valor devido.

 

publicado por VF às 09:00
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