Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Toile de Jouy

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A Ordem Natural

 

 

 

“Venha aqui falar a este Senhor que era muito amigo do seu bisavô!” A menina obedeceu à mãe e parou a trotinete ao pé de nós, virando de repente o guiador de maneira que quase a fez cair e espalhou terra do jardim à volta.

 

É bom ir pondo as crianças diante daquilo que a gente entenda ser a Ordem Natural do Mundo com parentes, amigos e inimigos devidamente colocados no espaço e no tempo, às distâncias certas, para elas não desaguarem na vida real, directas de Facebook e quejandos. E é bom porque, para além de fantasias modernas entretidas que tiram horas sem fim às vinte e quatro que cada dia tem, petizes e petizas levam agora mais tempo a perceberem como as coisas são do que levávamos quando era a nossa vez de sermos pequenos. Não sou filósofo mas oiço muitas vezes telefonia no carro e, uma manhã, voz de mulher parisiense encheu o habitáculo assim que carreguei no botão: “Comme disait Lacan, le réel c’est quand on se cogne!”. Antes de figurar o ‘maître à penser’, por uma única vez, pareceu-me a mim, autor de verdade como um punho, que tanta influência teve – e tem – em gerações seguidas de intelectuais e candidatos a intelectuais do país de Edith Piaf e Marcel Cerdan (e tão pouca marca deixa se se tenta traduzi-lo: quando o meu amigo David Callagher trabalhava para o Times Literary Supplement quiseram dedicar um número à vida intelectual francesa da época e pediram artigos a autores na moda – Lévi-Strauss, Derrida, Leroy Gouraind, Merleau-Ponty, etc., incluindo Lacan – os artigos chegaram, foram traduzidos, tirando o de Lacan que o staff do TLS não conseguiu verter para inglês e foi posto a circular pelos melhores departamentos de francês das universidades britânicas mas sem resultado tangível, enquanto Lacan telefonava insistentemente a David - “Alors, Monsieur Callagher: mon article?” – as repostas sucediam-se, idênticas, implacáveis: It doesn’t make sense in English), antes pois de Lacan figurar no meu espírito, veio François Villon, cinco séculos mais velho, a louvar a fala das parisienses do seu tempo: “Il n’est bom bec que de Paris!” A galanteria francesa arranja sempre maneira de se sobrepor nos nossos espíritos a aspectos menos agradáveis dos costumes e do temperamento gauleses. Os jornais – ou melhor, o que no nosso tempo tecnológico por eles passa na net – informam que Catherine Deneuve e mais noventa e nove mulheres vieram manifestar-se contra o que acham excessos de puritanismo anglo-saxónico do movimento “me.too”. Violação é violação, mas insistência, mesmo desajeitada, em sedução não o é; o que se tem passado e está a passar-se nos Estados Unidos (e noutros recantos protestantes do mundo) nestas matérias e matérias afins, é patético e perigoso. (Cínicos provocadores talvez publiquem Grab my pussy the French way; mas, no geral, Deneuve & Co trazem bom senso e bom gosto a estados de alma que perderam ambos).

 

Velhice é outra questão. Ser muito amigo do seu bisavô põe pontos pesados demais nos is.

 

 

 

 

 

publicado por VF às 15:13
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