Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

george-orwell-a-linguagem-como-construcao-de-poder.html

George Orwell

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

 

Ano Novo. Vida Nova ?

 

 

 

 

Sou velho demais para acreditar no automatismo de mudanças assim mas há o que a Natureza nos traz e nos tira; quer queiramos quer não. A seguir ao solstício de Dezembro (a 21 do mês; dia de anos, a propósito, do presidente francês Emmanuel Macron, cuja eleição foi, de longe, a melhor novidade política a animar a Europa desde a nefasta eleição de Trump e, antes disso, da escolha imbecil dos ingleses de se separarem da União Europeia) os dias vão roubando cada vez mais tempo às noites até ao solstício a 21 de Junho, a partir do qual as horas de luz do dia vão passar a mirrar em vez de se expandirem como fora o caso durante os seis meses anteriores, até chegarem ao seu mínimo no próximo dia de anos de Emmanuel Macron.

 

Antes que me esqueça: leitora do meu último Bloco-Notas, escreveu-me a dizer que não sabia que os jornais ingleses dantes dedicavam a sua primeira página a anúncios. Ainda conheci nesse apuro o último a fazê-lo, The Times, de Londres, que nessa altura era um jornal sério, e cujos anúncios me davam leitura obrigatória juntamente com os obituários e as cartas dos leitores. Havia, evidentemente, uma ordem no arranjo dos anúncios que nós leitores lá liamos ou lá púnhamos para outros lerem. Coisas para vender; precisão de comprar coisas; procura de casas; ofertas de casas; procura de emprego; ofertas de emprego; assuntos mais pessoais; busca de pessoas, parentes ou não, há muito desaparecidas do convívio dos anunciantes; mensagens amorosas mais ou menos crípticas – em suma, um manancial de informação sobre a vida e os costumes dos leitores do Times de Londres desse tempo, quase todos vindos das fatias mais altas da sociedade – não há na Europa estratificação mais minuciosa que a inglesa mas, ao mesmo tempo, com capacidade única de capilaridade social (“Não é o lado da moda” comenta Lady Bracknell quando o pretendente à mão da filha lhe diz o número da porta de sua casa em Belgrave Square “mas isso pode mudar-se”. “O quê? A moda ou o lado?” pergunta ele. “Ambos, se preciso for!” fulmina ela, peremptória). Era entretém fascinante e dos milhares de anúncios que ao longo dos anos li nessa primeira página do Times, houve um, nesse dia à cabeça da coluna das Vendas de que nunca mais me esqueci: “Parrot. Unsuitable for vicarage. Any offers?”

 

Mas, entre uma coisa e outra, não creio que o ano novo vá trazer vida nova. Trump irá provavelmente cumprir dois mandatos: embora os grandes beneficiários do orçamento agora aprovado estejam na fina camada de cima dos bilionários mais ricos, toda a gente vai ver um pouco mais de dinheiro nos bolsos, pelo menos nos anos mais próximos – e como dizia Bill Clinton na primeira campanha para a Casa Branca: It’s the economy, stupid!. Isto, por um lado. Por outro lado, como George Orwell, na sua fala única, disse de maneira lapidar, o homem às vezes precisa de mal, apetece-lhe o mal. Trump satisfaz anelos desses e, por todo o mundo, estamos numa de desconfiar uns dos outros.

 

 

 

 

publicado por VF às 12:53
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