Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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José Cutileiro

 

 

Decência e Bom Senso

 

 

 

O bom senso era a coisa mais bem partilhada no mundo em que Descartes vivia ou pelo menos o bom filósofo estava convencido disso. Olhando à roda no mundo em que vivemos hoje, seja o seu centro Nova Iorque, Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, Évora ou Ponte da Barca, não se fica com a certeza de que ainda seja assim mas talvez nos enganemos. Debaixo da espuma insensata dos dias vigora porventura bom senso resistente – quem aguentou desde o organismo monocelular original até ao Homo Deus do sábio professor israelita, aguenta tudo. Forte do seu passado, esse bom senso dá garantias ao futuro. E, de caminho, vai corrigindo contradições, imprecisões e a arrogância de certezas falsas próprias do senso comum que tanto mal nos têm feito. (Quando o senso comum derrota o bom senso e a malta gosta, convencida de que a verdade derrotou o erro, está o caldo entornado. Exemplo: o ensino do criacionismo como alternativa plausível à teoria da evolução nalgumas universidades americanas).

 

O outro cão de cerâmica policromada de Staffordshire, assente sobre os quartos traseiros no lintel da nossa lareira, chama-se decência e é garantia, juntamente com o bom senso, de não querermos entregar o mundo a quem vier depois em pior estado do que aquele em que nos foi entregue a nós. Bom senso e decência constituem par precioso, sempre em risco de que um - ou os dois - seja partido, risco que tem variado ao longo da História e atravessa agora passagem perigosa. Políticos, burocratas, intelectuais, clérigos, banqueiros, industriais, bilionários, comentadores, donas de casa que ainda haja, eleitores de qualquer idade ou sexo – todos nós – assistem agora a coisas muito parecidas com aquelas que, entre as duas guerras mundiais do século XX, levaram ao florescimento brutal do fascismo e do nazismo na Europa. (Na Rússia e na China foi pior). As predileções e fobias de alguns tribunos de hoje - e também daqueles e daquelas que neles sentem o chefe que lhes falta - mostram semelhanças inquietantes com as dos cultos de personalidade fomentados e praticados na Europa no intervalo entre as duas Grandes Guerras. Apesar de vidas cada vez mais longas permitidas pelo progresso da ciência cada vez menos pessoas se lembram desse tempo mas o progresso trouxe também fotografia e cinema. Pode ver-se, ler-se, saber-se muito do que se passou. Ao engano só vai quem quer.

 

Se o bom senso corrige o senso comum, a decência assiste as leis e a aplicação delas. Como no juramento hipocrático, a sua preocupação é não fazer mal. Dos casos maiores aos mais pequenos respeita a pessoa que há em cada um de nós, esperando que esta respeite também as que há nos outros. É moderada em tudo salvo na exigência de moderação. Procura que justiça seja feita com rigor mas sem pieguice nem sanha: mais vale ter dez culpados à solta do que um inocente preso. Viceja quando governantes e governados têm confiança uns nos outros.

 

Nada disto é utópico. Existe nalguns lugares do mundo.

 

 

 

 

publicado por VF às 15:33
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