Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

D Pedro

 Infante D. Pedro

 

 

 

José Cutileiro

 

 

De burro para cavalo?

 

 

 

Em tempo normal (se tal se puder ainda dizer nos nossos dias, vendo os filhos desobedecerem aos pais, as mulheres aos maridos, os novos aos velhos, os pobres aos ricos, os pretos aos brancos, os malcriados aos bem educados – tudo coisas que não eram costume quando eu era pequeno neste país que tão generosamente viria a acolher no seu seio o meu chorado amigo Freddy; as poucas que aconteciam, aconteciam à socapa - e quase toda a gente a achar bem que assim seja ou então a achar que não tem nada a ver com isso e a querer que a deixem em paz, o que é diferente - contrário mesmo - a querer que haja paz) o lema que não existia, nem existe, da diplomacia portuguesa que eu conheci por dentro, a do Estado depois do 25 de Abril, isto é, depois do fim da Ilusão Colonial e antes do Tratado de Lisboa, isto é, do renascer aqui e além da Ilusão Federal - mas deixando pela primeira vez porta de saída que Londres, sem gosto pelo contorcionismo comunitário, está agora desajeitadamente a abrir - deveria ter sido as palavras de despedida ao fim do dia de trabalho, que ouvi uma tarde e nunca mais esqueci, a mulher-a-dias da minha Mãe: “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe”. A visão do saguão e o instinto da porta de serviço, por um lado e, por outro lado, o reflexo contrário ao do Infante Dom Pedro a finar-se em Alfarrobeira: “Fartai, vilanagem!” (Avec ses quatre dromadaires/ Don Pedro d’Alfarrobeira/Couru le monde et l’admira./Il a fait ce que je voudrais faire/Si j’avais quatre dromadaires escreveu Wilhelm Kostrovicki, conhecido por Guillaume Apollinaire, que sobreviveu á Grande Guerra – Ah que la guerre est jolie/Avec ses canons et ses cris! – mas foi levado logo a seguir pela Gripe Espanhola, aos 39 anos. Como é que o polaco terá sabido do português?) Mas, desde que nos sentamos à mesa dos crescidos, tem sido um vê se te avias. Qualquer dia há de estranhar-se o Papa não ser português.

 

Releio as linhas acima e desagrada-me a propensão para parágrafos quase tão compridos quanto os do divino asmático mas enquanto este enchia os seus de palavras tão bem escolhidas que a gente chegava ao fim de cada uma dessas ladainhas com a alma consolada e com água na boca para a ladainha seguinte, eu só recebo de volta irritações das leitoras, apostadas às vezes em descobrir erros de concordância, ou predicados sem complemento directo, ou indicativos onde deveriam perfilar-se conjuntivos – que a portuguesa poderá ter muitos defeitos e insuficiências mas, tal como o português, tem um mérito certo: deitar ao desprezo quem julgue esteja a armar ao pingarelho, ou esteja a armar em carapau de corrida, expressões que o Senhor J. Fonseca me disse um dia serem quase mas não serem bem a mesma coisa, sem conseguir explicar-me a diferença de maneira que eu a entendesse. No Negage a gente topava, acrescentou.

 

Infelizmente palpita-me que a minha mania de escrever parágrafos muito compridos seja vista como uma dessas armações por muito boa leitora.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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