Quarta-feira, 29 de Novembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Fotografias de vítimas do massacre de Srebrenica expostas à porta do Tribunal de Haia

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Guerra, Paz, Bem, Mal

 

 

O general sérvio Ratko Mladic, conhecido na parte muçulmana da Bósnia e Herzegovina e nalguns meios cosmopolitas dados ao proselitismo moral por “O Carrasco de Srebrenica” mas considerado um herói nacional na parte sérvia da Bósnia e Herzegovina e, com algumas nuances, na própria Sérvia, foi este mês condenado à pena de prisão perpétua pelo tribunal na Haia que há mais de vinte anos se ocupa de crimes de guerra, contra a humanidade, etc. cometidos durante as guerras que assolaram a Jugoslávia, na sua transição para ex-Jugoslávia, no começo dos anos noventa do século passado. (Tal como, oitenta anos antes, no começo do segundo decénio do século XX outras guerras tinham assolado a região no seu caminho de pré-Jugoslávia a Jugoslávia). O general, para além de outros crimes menos vistosos, foi considerado culpado pelo assassínio de cerca de 8.000 homens e rapazes muçulmanos, separados de mulheres e crianças e encaminhados à parte pela tropa sérvia a quem guardiões da paz das Nações Unidas - os capacetes azuis - no caso vertente, oficiais e soldados holandeses, mandatados para garantirem que Srebrenica fosse um “porto seguro”, isto é, inexpugnável perante atacantes, os entregaram sem resistência nem objecção no verão de 1995. (Para se chegar lá foram precisas incúria e hipocrisia irresponsáveis dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que ofereceram às populações civis garantias que sabiam ser incapazes de assegurar).

 

O massacre foi o maior cometido até agora na Europa desde o fim da guerra de 1939-1945 e não resta dúvida de que ocorreu sob o comando do general. Depois de anos de negação, a “narrativa” sérvia passou a ser a seguinte. Durante muito tempo, da população muçulmana de Srebernica confinada no burgo durante o dia, saiam à noite pequenos grupos armados que iam matar camponeses sérvios (com efeito, o campo à roda é quase todo sérvio e houve muitos ataques assim). Um conhecido malfeitor/patriota (segundo o lado em que se estiver) organizava e comandava essas sortidas – e fugiu nas vésperas da queda da cidade. Quando a tropa de Mladic tomou conta, a sede de vingança era muita, a identificação de culpados problemática e o princípio da cruzada contra os albigenses terá prevalecido: “Tuez les tous. Dieu reconnaitra les siens”. Os sérvios lembram a seguir que tempo de guerra não é como tempo de paz (“quem mata primeiro, ganha” dizia o meu motorista Vasco dos townships de Cape Town); se a conversa animar, podem lembrar Dresden.

 

O caso de Mladic foi o último do Tribunal para a Jugoslávia; adjudicará ainda alguns recursos e depois fecha. A meu ver, nunca deveria ter aberto. A sua maneira de promover paz futura é absurda; promove, sim, vendetas antigas e cria vendetas novas. Até agora, em casos assim, com nações apanhadas em grande remoinho, a maneira mais sábia de tentar prevenir que a horrores se sigam horrores, é a criação de comissões de verdade e reconciliação, como fez a África do Sul.

 

publicado por VF às 14:43
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