Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

budchen5

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Voltas do Mundo

 

 

 

Na segunda-feira de manhã, a telefonia do carro lembrou-me que fazia 50 anos desde a morte de Che Guevara. 50 anos, dantes, eram um ror de tempo, mais do que a vida de muita gente (o meu Pai, por exemplo, morreu com 44, tinha eu 21); hoje os números são outros: casa-se bem mais tarde, muitas mulheres dão à luz pela primeira, e geralmente última vez por volta dos 40. Foi a pílula – a pastilha, dizia amiga minha, também aí há 50 anos, mas nunca ouvi mais ninguém usar a palavra com esse significado, de maneira que não figurará em dicionários de sinónimos: a excentricidade morreu com quem a inventou.

 

No começo de Outubro de 1967 eu vivia em St. Antony’s College, Oxford, e dava-me com economista francês, Jean-Marc Fontaine, chegado há pouco de Sciences-Po. Carregado de todos os preconceitos anti-ingleses que qualquer francês que se prezasse, fosse ele sans-culotte, ci-devant ou mistura dos dois, trazia consigo desde as batalhas de Azincourt, de Waterloo, teve todavia de ir reconhecendo, com relutância, os grandes méritos do que lhe davam agora a ler na pérfida Albion (embora a maneira de pensar fosse tão diferente da sua que lhe acontecia chegar ao fim do primeiro capítulo de um livro com a sensação de ter chegado ao fim do livro). Só na Páscoa seguinte, depois de discussão épica no correio de North Parade, ao virar da nossa rua, julgou entender. “Pourquoi ces types sont, d’une façon générale, si stupides mais leurs intellectuels sont, quand-même, assez astucieux? C’est que, pour eux, penser ce n’est pas naturel. It’s a job. You either do it well or you don’t do it at all”.

 

Jean-Marc era um romântico e quando a notícia chegou pela televisão, e a seguir nas capas de jornais, a preto e branco, com o Che deitado de costas morto, nu da cintura para cima, lembrando Cristo famoso pintado por Mantegna na Renascença, e soldados bolivianos armados em pano de fundo, que geralmente as redacções tiravam da fotografia, achou que era preciso mandar pêsames à embaixada de Cuba em Londres. Ele ia mandá-los, não era comunista mas o Che era figura impar que merecia homenagem e eu deveria mandá-los também. Eu tampouco era comunista; nem sequer tinha a simpatia por Cuba revolucionária que muitos lhe estendiam só por serem anti-americanos – eu não o era – mas também não chegava aos rigores dos que falam dos comunistas como de peste bubónica. O comunismo não foi uma doença; foi um remédio que falhou; o manifesto dos dois alemães (como o Sermão da Montanha do nazareno) não queria dar cabo do mundo, queria endireitá-lo. Deu para o torto; a emenda foi pior do que o soneto - mas o Che morreu convencido do contrário. Mandei os pêsames – e não parei de me arrepender. Passei a receber em quantidade e com regularidade exasperantes toda a espécie de propaganda impressa daquela ditadura de ilhéus, crassa e mentirosa, enquanto estive em Oxford. Três anos depois, quando mudei para Londres, o Colégio passou a devolver tudo e perderam-me o rasto.

 

 

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
link do post | comentar | favorito

pesquisar

mais sobre mim

posts recentes

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

tags

todas as tags

links

arquivos

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Creative Commons License
This work by //retrovisor.blogs.sapo.pt is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Blogs Portugal

blogs SAPO

subscrever feeds