Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Norte Coreanos inclinam-se diante de estátuas dos antigos líderes Kim Il-sung and Kim Jong-il na capital Pyongyang.

foto: J.A. de Roo via Wikimedia Commons. 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Grande chatice à vista?

 

 

 

Com o psicopata de Pyongyang na maior, parece-me que estamos mesmo pela primeira vez em perigo de guerra nuclear, desde o colapso da União Soviética. Ora na guerra, escreveu Thomas Hobbes (1588- 1679) e eu vi acontecer à minha frente, força e fraude são as duas virtudes capitais. Exactamente o contrário do que a correcção politica da presidência de Barrack Obama queria impor aos americanos. Ao fim de oito anos, a malta yankee fartou-se de tanta bondade e, em vez de votar terceira vez seguida nos democratas, votou em Trump, toma lá que já almoçaste. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, mas acontece quase sempre assim.

 

Em Portugal é diferente. Cá, as tentativas de correcção política são sempre ridículas – mesmo quando não cheguem à insensatez fascistoide da proibição dos livros para meninos e para meninas da Porto Editora. Não por sermos desajeitados mas porque a correcção política resulta de exagero inapropriado de exigência moral – e em Portugal tal exigência moral não existe. Não há noções de mal e de bem universalistas, fontes de satisfação ou de culpabilização geral. O centro dos direitos e deveres é a família e não uma obrigação abstracta aplicada por igual a toda a gente. Pai de amigos meus, grande commis d’État do regime de Salazar (mas poderia ter sido um dos manda-chuvas de hoje menos iletrados) teria candidamente dito que nas relações dos governantes com os governados se deveriam favorecer os amigos, prejudicar os inimigos e, a quem fosse nem uma coisa nem outra, aplicar a lei. O cocheiro da tipoia que levara Fradique Mendes de Santa Apolónia ao hotel em noite tempestuosa, por preço exorbitante exigido à cabeça, quando Fradique lhe perguntou no fim “Com que então são três mil reis?”, respondeu: “Eu disse aquilo porque não tinha conhecido o Senhor D. Fradique. Para o Senhor D. Fradique é o que o Senhor D. Fradique quiser”. Dei uma libra àquele bandido, desabafa Fradique. À gente destas terras do Sul europeu – nós, os espanhóis, os italianos, mais de metade dos franceses, os croatas, os sérvios, os albaneses, os gregos – Lutero e Calvino não chegaram. Mas chegaram às grandes tribos anglo-saxónicas e germânicas que estão a agora a perder o controle do mundo, depois de dois séculos a mandarem vir. (De caminho, deixaram estado de direito e democracia nalguns lugares – a Índia é o mais conspícuo – que espero não venham a desaparecer). No estertor desse poder temos hoje em casa as batalhas inglórias da austeridade.

 

Voltando à Coreia do Norte. Devemos ajudar os americanos a definir sensatamente qual seria o mal menor – a fim de que o Ocidente não se desconjunte diante da China e da Rússia. A história da Coreia do Norte com a arma atómica vem de longe e quando se julgava que no mundo multipolar se encontraria enquadramento propício, o psicopata mandou matar tio e irmão e bateu o pé. A nosso favor: em 1914 e 1939 guerra era natural e grandes potências a queriam; hoje não o é e nenhuma potência a quer.

 

 

 

 

publicado por VF às 14:24
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