Quarta-feira, 8 de Junho de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Black_Hole_Milkyway.jpg

Buraco negro, Via Láctea 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

E a brancura duns ossos a apontar…

 

 

 

…o caminho que já não passa ali. Cito Miguel Torga de memória, não me lembrando do título do poema, do nome do livro em que o poema foi publicado nem do que os seus versos dizem para lá deste fragmento (e mesmo quanto ao fragmento: escreveu o autor duns ou de uns?). A idade não perdoa: a memória vai passando cada vez mais de esquecimento descriminado a esquecimento a granel. Que a leitora me perdoe e pense que, quando chegar à minha idade, também será apoquentada por vezes assim e esperará que, ao contrário da idade, os mais novos lhe perdoem.

 

Lembro-me, sim, que Torga antecipava o desaparecimento do Homo Sapiens – julgo que não lhe chamasse assim mas vernaculamente homem no sentido de homem ou mulher – causado por desmando grosso feito pelo próprio homem, talvez a bomba atómica, porque na altura da publicação daqueles versos a ciência, todas as ciências estavam muito mais atrasadas do que estão agora, não havia tampouco ecologistas alarmados, do género de pessoas que se consideram permanentemente à beira do abismo, independentemente dos valores que apregoem e da moda que lhes vista as mentes: é pulsão que se acomoda a todas a ideologias (alentejana que conheci menina e moça militante da JIC - Juventude Independente Católica, para quem não o saiba –, na força da vida militante do PC com entusiasmo igual e, um pouco mais madura, agitadora ecologista de ânimo indómito, foi sempre a mesma debaixo destas máscaras: quem se recusasse a aceitar a evidência do que pregava na altura era por ela considerado ou débil mental, ou monstro imoral ou ambos). Fim da espécie próximo era imaginado como resultando de guerra nuclear impiedosa e expedita ao virar da esquina. Estar a brancura dos ossos à vista indicava tempo histórico ou quando muito pré-histórico, maneirinho, à nossa escala - e não à escala de dimensão no tempo e no espaço, medida em biliões de anos-luz, de buracos negros e ondas gravitacionais e isto para ficarmos só por um universo, o nosso, pois ele haverá outros.

 

Contei as batidas – incluindo pois intervalos entre palavras – e, no fim do parágrafo acima, ia em 2.047. Acrescentando “da era de Cristo” pergunto-me como será o mundo nessa altura? 31 anos passam num instante, por isso palpita-me que o Deus de Abraão, Isaac e Jacob existirá ainda e o Profeta Maomé também bem como divindades orientais mais longínquas. Religiões não reveladas continuarão a vingar, erva miúda, um pouco por toda a parte. Protectores dos animais insistirão terem alguns deles direito a direitos humanos. Por sua vez, génios da informática ter-nos-ão dado máquinas conscientes de que existem, capazes de inventar outras máquinas mais conscientes ainda, assim se reproduzindo. Como há 500 anos teólogos espanhóis fizeram quanto aos índios da América, teólogos de Silicon Valley debaterão se tais engenhos têm alma quer se julgue, quer não, que nós a temos também. Barrigas de aluguer? Onde isso já irá, perdido no tempo antigo.

 

 

 

publicado por VF às 15:44
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