Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Mudança climática

 

 

 

 

Véspera de Natal com 15° Celsius à sombra em Montemor-o-Novo e sol a luzir no céu azul entre farrapos de nuvens e édredons espaçados e espessos de nevoeiro de que não me lembro por estas partes e de que não conheço as causas (mais água por esses campos fora desde a barragem da Alqueva?) mas não chegam a escangalhar a amabilidade do tempo, rara há muitos anos por esta quadra.

 

O meu amigo Olivier, belga francofone, quadragenário de fresca data, vegetariano, ecologista, preocupado com o futuro do planeta Terra (Le septième planète fut donc la Terre… etc.), com três filhas pequenas (a mais velha, chinesa, adoptada por ele e pela primeira mulher, irlandesa, as seguintes nascidas da actual mulher, cambojana) sente-se culpado com inverno tão ameno que deveria obrigar os europeus a fazerem tudo quanto pudessem contra o aquecimento global mas, como a ausência de frio lhes sabe bem, os torna mais desleixados ainda do que já eram nesta matéria de vida ou de morte (em Bruxelas, na véspera de lá sair para Portugal, ouvi na telefonia que o dia anterior fora o dia de Dezembro mais quente registado desde que se passara a tirar a temperatura aos dias).

 

A Conferência de Paris – frivolidade perdulária para candidatos a candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, pessoas cuja ignorância militante é escandalosa e deletéria; insuficiência desprezível para ecologistas puros e duros; mas, para gente sensata versada nestas coisas (e não só por quem pontifique, no contentamento da mediocridade, “o óptimo é inimigo do bom”), o passo possível e indispensável para tentar prevenir males no tempo dos nossos filhos e netos que não seriam remediáveis – trouxe um desafio inédito. O problema de escolher entre prazer imediato e prazer futuro é tão velho quanto a humanidade ou, pelo menos, quanto a filosofia (ou, para quem rume no sentido oposto, como muitos biólogos contemporâneos gostam de fazer, buscando animais com razão, sentimento, previsão e escolha – golfinhos? elefantes? outros? – mais antigo do que o homem e porque não: em alturas em que resvalei do ateísmo para o agnosticismo ocorreu-me que, se eu tivesse alma, o meu chorado cão Nero haveria de, à maneira dele, ter alma também) e foi bem abordado por filósofos ingleses do século XVIII, ditos utilitaristas, dos quais o mais conhecido era Jeremy Bentham (que ainda impressiona, embalsamado, numa sala de University College, Londres).

 

O dilema é simples: ceder à tentação do momento ou prescindir desse prazer para obter outro, mais sólido, num futuro determinado. Bom senso e experiência sugerem que a segunda via é mais prometedora, mas puxa-nos demais o pé para a primeira. O que é inédito – salvo talvez em dinastias antigas – é sofrermos não pelo nosso futuro, mas pelo futuro de gerações vindouras. A pessoas narcisistas e hedonistas, como nos dizem que somos agora, vivendo em quase 200 países diferentes, nem sempre ocorrerá a culpa generosa do meu amigo Olivier.

 

 

 

 

 

 

publicado por VF às 10:28
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