Quarta-feira, 18 de Novembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Uma invenção recente

 

 

“A guerra é tão antiga quanto a humanidade” disse jurisconsulto inglês em meados do século passado: “A paz é uma invenção recente”. Ilustrando a razão dessa sentença deflagraram, já no século XX, as duas maiores guerras de sempre – até agora. Nós, na União Europeia, nascida como Fénix de brasidos deixados pelo fim da segunda depois da rendição incondicional da Alemanha nazi, parecíamos convencidos de que desta vez a paz era a valer e, sobretudo desde o colapso da União Soviética, achámos que não valia a pena gastar dinheiro em defesa, preferindo sacrificar esta a aumentos na saúde e noutros mimos, possíveis em tempo de paz. (Como escreveu outro inglês, Duff Cooper, ministro no governo de guerra de Churchill, autor de óptima biografia de Talleyrand e embaixador britânico em Paris em 1945 que saiu um dia abruptamente de restaurante explicando que a vida era curta demais para um mau almoço: “A ideia de que cortar nas despesas militares diminuirá os riscos de guerra é tão absurda como pensar que para reduzir o número de roubos se devam fechar as esquadras de polícia”). 

 

A inércia do bem-estar é muito forte. Em matéria de defesa - e de política externa, sem a qual não se saberia ao certo quem defenderia o quê de quem – nada parecia alarmar os nossos povos ou os nossos governos: nem Putin na Ucrânia, nem o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, nem o caos na Líbia depois de lá termos borrado a pintura. (Há alguns meses, antigos países de Leste e antigas Repúblicas bálticas da U.R.S.S., com memórias ainda vivas do bafo do urso no pescoço, conseguiram que a OTAN mostrasse os dentes lembrando que existia - sensatez milagrosa manteve a OTAN pronta a servir, agora com Secretário-Geral à altura - mas, no geral da União, não se pensava nestas coisas ou pensava-se nelas com pouco zelo). 

 

No fim da semana passada, da noite para o dia, as coisas mudaram com os ataques terroristas em Paris, comandados de Racca no Estado Islâmico do Iraque e da Síria e planeados no bairro bruxelense de Molenbeek, à esquerda de quem vá do Jardim Botânico para a Basílica, depois do canal, bairro que já pertencerá ao imaginário do Islão radical - também foram lá planeados o assassinato do comandante afegão antitaliban Massud, 2001, e os quase 200 assassinatos da gare de Atocha em Madrid, 2004 - em partes do qual a policia belga não se atreve a entrar.

 

François Hollande declarou que a França estava em guerra; Angela Merkel acrescentou que o acolhimento aos refugiados deveria continuar como antes. Por uma vez, desde há muito tempo, o eixo franco-alemão falou de cima, com razão e com coragem. Para continuar a existir a Europa precisa de absorver centenas de milhares de jovens que não tem na sua força de trabalho e precisa de saber defender-se de quem a atacar.

 

Vozes já se levantaram – também em Portugal - clamando que uso de força contra o Estado Islâmico não se deve permitir. Há gente que nunca aprende e gente que esquece o que tinha aprendido.

 

 

 

publicado por VF às 07:11
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1 comentário:
De Miguel Vital a 22 de Novembro de 2015 às 19:15
O combate ao terrorismo é indispensável. Porém, O que me causa estupefacção é que se considerem “mimos” investimentos na saúde, no estado social que são sempre e em todas as circunstâncias os alvos das políticas restritivas e de austeridade sejam porque, como agora, é preciso investir mais nas forças de segurança, seja porque é necessário salvar a banca e os banqueiros. Nunca por nunca se procura arranjar outras fontes de receita e financiamento dos estados que bem podiam começar por combater convictamente os “offshore”, a evasão e a fraude fiscais, acabar com a desigualdade fiscal no seio da própria EU, taxar de forma justa a especulação e as mais-valias ganhas nas bolsas, ou até não vender ao desbarato empresas públicas rentáveis, ou não estabelecer Parcerias Público/Privadas que são negócios para garantirem rendas chorudas aos interesses privados.
Isto é tanto ou mais revoltante quando hoje se sabe que a forma como foi determinado a regra dos 3% para os défices orçamentais foi tudo, menos rigorosa e estudada.
Guy Abeille, alto funcionário do ministério das Finanças de França, conta: “Decidimos esse valor em menos de uma hora. Foi escrito no canto de uma mesa, sem qualquer reflexão teórica... Mitterrand queria uma regra; nós demos-lhe”. Declarações de Guy Abeille ao jornal Le Parisien (“A origem do objetivo de 3% do défice público” – esquerda.net).

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