Quarta-feira, 15 de Julho de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Kennan.jpg

 George Frost Kennan

Desenho de Mary Bundy

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Isto do Sul

 

 

«Porque é que Vocês gostavam tanto de Salazar?»

 

«Porque ele não era corrupto» respondeu-me Kennan que começara a transaccionar com o Presidente do Conselho de Ministros português a cedência das Lajes aos americanos durante a guerra de 39/45, quando era encarregado de negócios da embaixada americana em Lisboa entre dois embaixadores (e também algumas vezes ainda sob o primeiro, homem de negócios bonacheirão que achava Salazar esperto demais para ele e arranjava desculpas que justificassem mandar Kennan em seu lugar).

 

«Robespierre também não», quase me saiu da boca mas contive-me. Acabava de conhecer George F. Kennan, 97 anos, monumento vivo da diplomacia e da história diplomática americanas que me recebia em casa dele em Princeton, fora eu convidado para me candidatar à cátedra que leva o seu nome no Institute for Advanced Study, onde estive de 2001 a 2004. Começara por me dizer quanto tinha gostado de Portugal.

 

Ainda bem que me contive porque, primeiro, Kennan não tinha vestígio do zelo escuteiro que tantas vezes torna ridículos (ou, excepcionalmente, admiráveis) compatriotas seus do corpo diplomático e porque, segundo, a ausência de corrupção faz um chefe ser respeitado por aqueles em quem mande, mesmo que tenha a mão pesada.

 

Está a acontecer agora no Califado, ou Estado Islâmico. É constituido por cidades e campos de que se apossou na Síria e no Iraque, países inventados a seguir à guerra de 14/18, talhados no que fora o Império Otomano pela França e o Reino Unido, e corruptos desde a sua criação. É propósito das relações públicas do Califado aterrorizar toda a gente, a começar pela sua. Inimigos são massacrados com crueldade. Espectadores distantes, como os europeus, são mimoseados na televisão com execuções atrozes que deixámos de praticar entre nós de há algum tempo a esta parte. No Califado, porém, é diferente: a lei é dura mas é a lei. Infieis e apóstatas são decapitados; ladrões, cortam-lhes a mão; adúlteras e adúlteros lapidam-nos (apedrejam-nos até à morte) – mas, dizem-me entendidos, a corrupção acabou: já não é preciso dar dinheiro indevido a toda a gente ligada ao estado, para tudo e por toda a parte. Passados excessos da conquista, quem acate as leis e cumpra as regras é menos incomodado pelo poder do que no tempo do Iraque e da Síria.

 

Se for sunita e dos bons. Gente doutras crenças ou com fantasias do género as mulheres devem saber ler terá de se pôr ao fresco se quiser salvar a pele. E o Rolex do Califa Al Baghdadi sugere luxos escondidos. A Utopia não foi desta mas para o camponês, o pequeno comerciante, o mestre d’obras de aldeia, está-se melhor do que sob as prepotências anteriores. Comer e calar.

 

Salazar era incorrupto mas a pobreza ajudava. O país antigo tinha esmoído as modernices do liberalismo. Por 1960 começou a haver mais dinheiro e as coisas mudaram. O 25 de Abril trouxe liberdade; a União Europeia despejou dinheiro fresco a rodos; o euro foi o fim da picada. Muito sizo temos nós tido.

 

 

 

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publicado por VF às 08:13
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