Quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Ricos e pobres? Outra vez?

 

 

You never actually own a Patek Philippe. You merely look after it for the next generation — “Nunca se é de facto dono de um Patek Philippe. Olha-se meramente por ele até à geração seguinte”. Anúncio reconfortante de marca suíça de relógios de luxo, fundada em 1851, posto em jornais e revistas de língua inglesa. Nem sempre acontece mas é boa lembrança.

 

La propriété c’est le vol — “A propriedade é o roubo” sentença alarmante do agitador francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) que, diz o Dicionário Prático Ilustrado de Lello & Irmão – Editores, “preconizava revolução social que salvaguardasse a igualdade dos indivíduos e a sua liberdade; este socialismo libertário e antiestadístico opõe-se ao marxismo”. Verdades como punhos. Os marxistas do meu tempo de estudante em Lisboa consideravam Proudhon um pateta perigoso – não havia o próprio Marx chamado às ideias dele ‘A Miséria da Filosofia’? — mas, na santa simplicidade dos seus verdes anos, gostavam de achar que a propriedade (salvo a deles) era mesmo roubo. Tique fundo que muitos guardaram toda a vida. Há poucos anos, grande figura do socialismo espanhol, génio político estimado em todo o mundo, a quem perguntei se novo ministro conservador do seu país fizera a fortuna ou a herdara, respondeu: “É igual; se não foi ele a roubar foi o avô!”

 

Na Europa Ocidental da Guerra Fria, rica, cheia de bazófia moral, protegida de males interiores pela prudência de patrões, sindicatos e governos — não fosse o urso soviético inspirar bicharada local — e de males exteriores pelo escudo invisível do arsenal nuclear americano — não fosse o urso soviético perder a cabeça e pisar terreno proibido — nessa Europa Ocidental as famílias clientes do relojoeiro de Genebra e os igualitários de pacotilha tocados pelo filósofo de Besançon, coincidiam contentes e arranjava-se sempre um resto de petisco para quem tivesse chegado atrasado à mesa.

 

Bons tempos que já lá vão — amigos bálticos, polacos, checos, eslovacos e húngaros me perdoem — e não se vê jeito de poderem voltar, mesmo quando as leitoras mais novas já forem velhinhas. Sem Mal contra o qual se medir, o nosso Bem vacila e desconcentra-se. A União Soviética deu cabo de si própria e, por muito que Putin barafuste, agrida e ofenda não consegue meter-nos o medo que deveríamos ter dele. Acabou o inimigo comum e com ele de nós se foi o que faz a alma poder ser de herói (para roubar linhas ao homem da Abel Pereira da Fonseca). Quanto aos americanos — dizia Churchill — encontram sempre a solução boa de um problema depois de terem tentado todas as outras. Desta vez ainda vão nessas.

 

O colapso do comunismo não foi a erradicação de uma doença, foi o fracasso de um remédio. Por não termos percebido isso entrámos numa voragem que alarga o fosso entre ricos e pobres e nos volta uns contra os outros como não havia acontecido desde os anos que levaram à subida de Mussolini e Hitler ao poder e, mais perto de cá, à Guerra de Espanha.

 

publicado por VF às 07:55
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