Quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

O passado é um país estrangeiro

 

Já sabíamos e descobrimos agora que o futuro também o é. Não o futuro que havia dantes, oculto ou fantasiado por visionários. Mas o futuro que há hoje ao lado dos lares de terceira idade onde os protagonistas do passado agonizam (“em suma, somos os velhos, cheios de cuspo e de conselhos”), praticado por gente nova, homens e mulheres que falam outra língua, têm outros modos, fazem outras contas, tecem a revolução numérica, colonizam o país estrangeiro armado à nossa volta e, sem a gente entender bem como eles e elas sejam, única esperança que nos resta da Pátria vir a ter melhores dias — desde que dons e virtudes diferentes dos nossos, neles e nelas afinados, cheguem para as encomendas.

 

“E com muitas Avé-Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo”, rematou Fernão Mendes Pinto o relato da abordagem do junco do pirata Similau nos mares da China. (Ao tempo não havia Nações Unidas, nem Comissão dos Direitos do Homem, nem Tribunal Criminal Internacional). “Fartar, vilanagem!” gritou Álvaro Vaz de Almada, amigo de D. Pedro, aos áulicos do Rei que o acabavam à espadeirada em Alfarrobeira - em vez de, como fariam pimpões de agora, ameaçar mandá-los para a Haia. Durante pelo menos dois mil anos os europeus matavam e morriam de alma-e-coração; hoje, depois de meio século de Pax Atomica e de room service, não nos sentimos tentados a fazê-lo.

 

Juntamente com os americanos começámos a bombardear do ar os homens sanguinários e vestidos de preto que estão a devastar outra vez Síria e Iraque, assassinam barbaramente gente de outras seitas, querem massacrar todos os infiéis, tentam impor ao mundo o Islão mais fanático, estreito e cruel de que há notícia (pior ainda do que os outros monoteísmos) e, de vez em quando, degolam um dos nossos na televisão porque precisam de se convencer de que são homens e não rapazes. Ora os entendidos sabem que só com bombardeamentos aéreos não se conseguirá acabar com o Califado e se corre mesmo o risco de reforçar o seu prestígio e a sua atracção perante uma juventude muçulmana europeia alienada, que se sente cada vez mais excluída. Seria preciso mandar infantaria - “boots on the ground”, diz-se expressivamente em inglês – mas não há país ocidental que o queira fazer. Como, além disso, o moral e a competência das tropas locais deixam muito a desejar (à excepção das dos Kurdos, a quem o Tratado de Versailles de 1919 não concedeu pátria e nunca ninguém deu mimos) a aniquilação rápida do Estado Islâmico do Iraque e da Síria que seria higiénica e pedagógica para o futuro do mundo inteiro parece, no mínimo, muito improvável.

 

Se a História fosse uma corrida de estafetas regulada pelo Comité Olímpico Internacional não nos deixariam passar testemunho assim às gerações seguintes. Mas não é, o mal está feito e só nos resta esperar, como do jovem guerreiro cantado por Homero: “Que se possa dizer dele quando voltar da guerra: mas este é muito melhor do que era o pai.”

 

 

publicado por VF às 07:07
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1 comentário:
De 64358ug a 14 de Outubro de 2014 às 18:59
Gostei que vivemos de room-service e da paz atómica. Há muito que se sabe que os USA estão fartos do Médio Oriente que só tem trazido dissabores. O acordo Sykes-Picot deixou ali uma série de países semi-articificais, quando não artificiais de todo como o Koweit, que se sabia que seria precário. Eis senão quando aqulela cabeça evangelista do Gerorge W deitou tudo a perder com a invasão do Iraque e as democracias às catadupas como previa só e apenas o gabinete dele. Acham que agora alguém se quer meter com aquele bando de loucos? Os erros pagam-se.

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