Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Charlie Chaplin

 
 

 

 

 
 
Sempre houve ricos e pobres
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Assim suspirava a Avó Berta quando eu, adolescente, primeiro me intrigara e depois me indignara com a vinda regular de alguns mendigos à porta de sua casa. Eram os pobres dela. As senhoras do seu tempo tinham cada uma os seus mas acontecia às vezes que os netos delas, encandeados pelo faróis de Marx e Lenine, achavam que a assistência competia ao estado e que esmolas dadas por donas de casa burguesas a pedintes proletários atrasavam a Revolução e a chegada da sociedade sem classes.

 

Visto de agora, tudo isto não passa de uma ninhada ou duas de asneiras. Mas o que realmente espantaria a Avó Berta se ainda estivesse connosco é que a distância entre a riqueza dos ricos e a pobreza dos pobres seja hoje não só maior do que era no tempo dela mas também maior do que alguma vez foi desde que o mundo é mundo. Quer entre países ricos e países pobres – quer, com raríssimas excepções, dentro de cada país.

 

 

O aumento da distância entre a riqueza dos países disparara dramaticamente a partir do século XVIII com a revolução industrial na Europa, acentuara-se com a emergência dos Estados Unidos como potência económica; começara a diminuir em tempos mais recentes, com a ascensão industrial do Japão, da China, dos chamados “Tigres Asiáticos”, mas ainda hoje a desigualdade entre países continua a ser maior do que a desigualdade entre os habitantes de cada país.

 

 

Nos países desenvolvidos as desigualdades internas têm-se acentuado. Os números dos Estados Unidos são instrutivos. O PIB quadruplicou nos últimos 40 anos (e quase duplicou nos últimos 25) mas quem ganhou com isso foi quem estava na mó de cima e, muito mais ainda, no cimo da mó de cima. Em 2012, 1% da população recebeu 22% do rendimento do país; 0,1% recebeu 11%. Estatísticas mostram que, desde 2009, só se verificaram melhorias de rendimento nesse 1% dos contribuintes. Como hoje se mede tudo, sabe-se também que, desde há quase um quarto de século, o rendimento médio no país não mudou mas que o americano médio leva hoje menos dinheiro para casa do que levava há 45 anos.

 

 

A fractura social, chamemos-lhe assim, começou no tempo de Reagan com cortes nos impostos dos ricos e regulação cada vez menos rigorosa do sector financeiro, foi alargada pelos seus sucessores e conforta preconceito norte-americano: a culpa de ser pobre é do pobre. Preconceito da esquerda europeia igualmente absurdo – a culpa de ser pobre é dos ricos – levou bordoada fatal com a queda da União Soviética. Na grande rebaldaria que se instalou, o liberalismo teve mais olhos do que barriga. Por fim, sem sentido nem visão da história e fundados em ciência errada, os promotores da austeridade envenenaram os europeus com o remédio que lhes estão a dar.

 

 

O susto espalha-se para lá dos suspeitos do costume. O Papa indigna-se com o capitalismo. E eu percebo o alentejano que dizia de uma comadre que ela era boa rapariga mas tinha “aquela coisa do lucro”.

 

 

A cruzada contra os pobres está a fazer mal ao mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por VF às 00:59
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