Quarta-feira, 9 de Abril de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

Le Déjeuner sur l'herbe

Édouard Manet (1863)

 

 

 

 

 

O sarilho francês

 

 

Revolução Francesa e Revolução Americana, feitas para a felicidade ser possível sobre a Terra, tiveram destinos diferentes. No Novo Mundo, os derrotados de 1776 fugiram para sempre. Na Velha Europa, os vencidos de 1789 fugiram também - mas depois voltaram. Em cada francês coabitam um ci-devant e um sans-culotte e a República gosta de armar em Monarquia. A América é igualitária. Um dia no State Department, a discutir defesa europeia (as coisas de que um homem se lembra de tratar…) disse a Peter Tarnoff, vice-ministro dos estrangeiros: “V. sabe, a Europa é complicada”. “Sei, sei. É por isso que nós estamos aqui”. Parte da simplificação transatlântica resume-se assim: riqueza, a que cada um possa e queira mas todos tu cá, tu lá.

 

Durante a guerra de 1939-45 a França adaptou-se tão bem à ocupação nazi que há um livro chamado “Quarenta Milhões de Pétainistas” mas figurou entre as potências vencedoras com lugar cativo no Conselho de Segurança da ONU e ocupação militar de uma das quatro zonas em que a Alemanha foi dividida. Graças ao general de Gaulle, refugiado em Londres donde, a 18 de Junho de 1940, pela telefonia da BBC apelou os franceses à resistência. E graças ao Partido Comunista (depois de Hitler invadir a URSS em 1941; até aí, respeitador do pacto Germano-Soviético de 1939, nem tugira nem bulira). Em país maioritariamente colaboracionista, gaulistas e comunistas morreram pela França livre e ganharam. Os primeiros quatro versos de um poema célebre de Aragon — “Celui qui croyait au ciel/Celui qui n’y croyait pas/Tout deux adoraient la belle/Prisonnière des soldats” — publicado clandestinamente, encapsulam o que ‘spin doctors’ chamariam hoje a “narrativa” francesa da guerra. De Gaulle só esteve no poder 10 anos, o Partido Comunista partilhou governos menos tempo ainda, mas ambos reforçaram o anti-americanismo francês. Os comunistas por fidelidade a Moscovo; De Gaulle por Washington o ter humilhado durante a guerra.

 

Houve caprichos caricatos (o Minitel, tentativa saloia de internet), outros custosos (a semana de 35 horas). Anti-americanismo e anti-capitalismo eram unha com carne; em 2012, após 17 anos de presidentes de direita, o socialista François — “Não gosto dos ricos” — Hollande chegou ao Eliseu. Tal como Mitterand, quis governar à esquerda e perdeu o eleitorado centrista. A seguir guinou à direita e alienou parte da sua base levando tal banho em eleições locais que mudou o primeiro-ministro. Nomeou Manuel Valls, ‘Tony Blair francês’, mas para ofender menos os seus impôs-lhe no governo figurões da ala mais esquerdista do partido. Desrespeito antigo por padrões fiscais europeus mantém-se (embora agastada, a Alemanha continua a pôr-lhe a mão por baixo; sem o eixo franco-alemão a Europa teria esquecido muito menos Hitler).

 

Até 2017 nada mudará. Depois, pouco. A França não quer a Europa para ser mais europeia. Quere-a para a Europa ser mais francesa, para que uma pitada de inflação seja o sal da economia.

 

 

 

 

publicado por VF às 09:31
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