Quarta-feira, 5 de Março de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

 

Prolegómenos a qualquer Europa futura que possa apresentar-se como potência

 

 

Ao anunciar sanções contra o (antigo) regime ucraniano a União Europeia mostrou que afinal existia. Vários dos seus membros tinham, até aí, sido contra pois receavam que tal fosse provocar a Rússia (e provocou mas, como dizia o outro, quem não tem competência não se estabelece).

 

As sanções foram anunciadas em Bruxelas. Em Kiev os MNEs de Alemanha, França e Polónia mediaram acordo que diminuía os poderes do presidente e antecipava eleições — mas os manifestantes não desarmaram e o parlamento, com muitos deputados da maioria presidencial a juntarem-se aos da oposição, depôs o presidente, substituiu-o, até às eleições, pelo presidente do parlamento, e nomeou um governo provisório.

 

Apoiando o novo regime, a Europa agiu escudada nos seus valores. Putin de entrada ficou calado; Medvedev disse que o novo poder em Kiev era ilegal; houve manobras militares. A seguir Putin fez rufar tambores na Crimeia (doada à Ucrânia em 1954, muita gente lá acha que estaria melhor entregue a Moscovo do que a Kiev), ameaçando integridade territorial que considerara sagrada no caso da Síria — “a lei é a lei e temos de a cumprir, gostemos dela ou não” dissera na altura. Entre ecos de ópera bufa e avisos de tragédia, o homem para quem o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século XX está a obrigar Europa e Estados Unidos a encontrarem maneiras de o conter. Não é fácil. A nostalgia post-imperial russa assusta; a Ucrânia não é uma pera doce. Obama parece às vezes julgar que a razão, irmã do amor e da justiça, levará sempre a melhor; moles, muitos europeus acham que não é com eles. Mesmo assim, graças sobretudo à Alemanha (mesmo a Alemanha da prudente Merkel) o cerco vai apertando. Se a União Europeia não perder cabeça e coragem e abrir a porta à Ucrânia — e se a Ucrânia perceber que sem estado de direito não sairá da cepa torta — a nossa segurança terá dado um salto em frente.

 

A União Europeia tem fronteiras seguras a Norte, Ocidente e Sul. A Sudeste menos: o Médio-Oriente é viveiro de conflitos (a adesão da Turquia, prometida há décadas mas negociada com vagares de lesma, deve ser acelerada; será melhor tê-la dentro da barbacã, virada para fora, do que fora, virada contra a barbacã). Por fim, a Oriente: Ucrânia significa fronteira. O acordo com a União Europeia que à última hora o presidente deposto se recusara a assinar seria mais um passo para a pôr do nosso lado dessa fronteira. É do nosso maior interesse dá-lo e impedir que a Rússia faça o que sempre fez: mude os marcos da propriedade para ir ganhando terreno.

 

A União Europeia não é empresa multinacional ou ONG filantrópica. É uma ambição política, entrançada com vontades nacionais centenárias. Se quer o seu lugar de grande potência no mundo terá de falar com uma só voz e dar-se ao respeito por toda a parte. Como acontece hoje na Ucrânia, com a Alemanha à frente ou, com a França à frente, no Mali.

 

 

 

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publicado por VF às 00:02
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1 comentário:
De Anónimo a 5 de Março de 2014 às 13:54
Se a UE se unir contra o urso russo, e à sua ideia de refazer o império de Catarina II, o sr. embaixador diz bem. Mas, para variar, se não for a Alemanha, a grande interessada em ter a Ucrânia no seu mercado interno, o resto da Europa vai assobiar para o lado. Os americanos vão ameaçar isto e aquilo mas não vão fazer mais do que isso. Temo que o referendo da Crimeia dê um óptimo pretexto ao sr. Putin. Veremos. Gostei muito.

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