Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

 

 

Azar dos Távoras

 

 

A minha amiga Graça correu muito mundo. Quando nos vimos depois da passagem de ano disse-me: “Kung hei fatchoi”, acrescentando que assim lhe desejavam bom ano novo (chinês) quando ela por lá vivia e que a resposta a dar era “Laisi tai loi”, em tradução livre —  sentimentalmente conforme com o original — “passa p’ra cá o dinheiro”. Os chineses que conheceu só pensavam em duas coisas: na família (pai, mãe, marido, mulher, filho ou filha. A chamada “família extensa” — empecilho à iniciativa privada em África, na América Latina, no sul da Europa — desaparecera do seu universo) e no dinheiro.

 

O Partido Comunista Chinês governa sem estados de alma quanto a estado de direito, direitos do homem e outras predilecções ocidentais, e favorece liberdades e tropelias que levem à criação de riqueza. Milionários medram como cogumelos e bilionário é o estatuto mais apetecido pelos milhões de rapazes e raparigas denodados que constroem o futuro. Essa ganância antiga, desde Confúcio mais ou menos enquadrada por tentativas de a apertar num colete de forças moral, permitiu à China resistir a tentativas europeias de colonialismo, às guerras do ópio, ao marxismo-leninismo e à selvajaria de Mao Tse Tung.

 

O Presidente Xi, Imperador do nosso tempo, começa a virar a China outra vez para fora, depois de 500 anos ensimesmados dentro da Grande Muralha. Nos mares, a sul e a leste, crescem tensões sino-nipónicas. A Academia Chinesa de Turismo anunciou que, em 2012, 82 milhões de chineses tinham visitado o estrangeiro, que o número continuará a crescer e  que em 2020 serão 200 milhões. A propensão ocidental à culpabilização não será a melhor arma contra a ignorância chinesa do arrependimento.

 

Século XX comparável ao que a China teve deixou a Rússia pelas ruas da amargura: alcoolismo a aumentar, esperança de vida a diminuir e economia incapaz de aproveitar riqueza natural em gás e petróleo para se diversificar. Talento rufião de Putin para enrolar Obama na Síria e para assediar vizinhos pequenos — com os chineses não se mete — obrigam-nos a prestar atenção à Rússia.

 

Além disso, entre 1990 e 2010 o número de gente vivendo em extrema pobreza (menos de US $1,25 por dia) no mundo inteiro diminuiu de metade. Nunca tanta gente viveu tão bem quanto vive agora. Em muitos outros países além da China — Brasil, India, Indonésia, África do Sul, México, por aí fora – mais e mais pessoas estão a passar à classe média, achando-se com direito a conforto cada vez maior e a levantar a voz na coisa pública. Nunca as mulheres estiveram menos dependentes da vontade dos homens das suas famílas — até em muitos países islâmicos e em pequenas bolsas de cristianismo misógino.

 

Entretanto os europeus queixam-se. A austeridade agravou as perspectivas de recuperação económica e deu uma machadada na solidariedade europeia. Desde 1957 nunca sofremos concorrência tão forte do resto do mundo nem, azar dos Távoras, tivemos chefes políticos tão medrosos e curtos de vista.

 

 

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publicado por VF às 00:12
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1 comentário:
De jorge.ryder a 20 de Janeiro de 2014 às 02:12
Lido com a maior atenção o contributo de Vossa Excelência.

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