Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

NYSE 

 

 

 

 

 

Sem Marx nem Reagan

 

 

Nos restaurantes imaginativos que há agora as palavras “ Marx” e “Reagan” deveriam ser escritas a giz branco sobre a ardósia preta do menu, na secção “Sabores do Dia”.

 

Estão os dois na moda — se se pode chamar moda à péssima fama que ganharam — Marx já lá vão duas décadas; Reagan apenas há um lustre. 24 anos depois do derrube do Muro de Berlim anunciar o fim da grande ilusão da esquerda, inchada como um balão pelo génio do panfletário de Trier, e 9 anos depois da morte de Ronald Reagan, paladino bem disposto do triunfo do privado sobre o público, dos empresários sobre os burocratas – “o governo não é parte da solução, é parte do problema” —  25 desde que deixara de ser Presidente dos Estados Unidos, 19 depois de anunciar que sofria de Alzheimer e — desta vez para mal dos seus pecados — 5 anos passados sobre a falência de Lehman Brothers, damos connosco desamparados no meio dos órfãos dos dois, convencidos alguns deles de que o pai ainda está vivo.

 

Estado a mais, decorrendo das prescrições do judeu alemão londrino e de Lenine, seu Paulo de Tarso, pôs metade do mundo de pantanas (os chineses sobreviveram ao pior porque negócio e jogo lhes estão na massa do sangue). Na nossa parte do mundo, Estado a menos, como pregava o cowboy da Califórnia, acabou por deixar a rapaziada bancária e para-bancária tomar o freio nos dentes - ainda por cima com chorudos bónus anuais a desencorajarem quem tentasse prever para lá do curto prazo.

 

In medio stat virtus - mas como chegar lá? A “Regra de Volker”, aprovada nos Estados Unidos, conjunto de medidas destinadas a impedir os bancos de arriscarem demais, como é costume de Obama começou por declaração eloquente aos americanos e acabou em mil páginas cheias de ambiguidades que vão dar rios de dinheiro a advogados sem morigerarem ganâncias em Wall Street. Dinheiro é poder. E, disse em 1640 D. Luísa de Gusmão, mais vale ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida. Regulamentar a banca sem matar a galinha de ovos de ouro não é para idealistas nem para demagogos. Mas terá de haver correcções. A finança nunca tomou tão grande proporção da actividade económica; os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres; as classes médias, motor da Europa desde o fim da Idade Média, atacadas por todos os lados estão a deixar de poder cumprir o seu papel. A Alemanha, esquecida do perdão das dívidas de guerra de 1953, mostra falta de solidariedade chocante. Se ao menos um presidente francês ameaçasse acabar com o Eixo Franco Alemão, retirando a Berlim o atestado de bom comportamento que readmitiu a Alemanha no concerto das nações.

 

O mundo à nossa roda não perdoa. Num discurso a partidários do Presidente Yanukovich arrebanhados até Kiev, o primeiro ministro da Ucrânia disse que tomar o caminho da Europa era apoiar o casamento gay e mais imoralidades ofensivas da alma ucraniana. Putin acha bem. Foi em Kiev que S. Vladimiro baptizou os russos e o Kremlin não quer largar a presa.

 

 

 

Post Scriptum  Ainda Portugal e o apartheid. Numa manhã de Verão de 1990, estava eu numa sala de espera da sede do ANC em Joanesburgo antes de ser recebido por Nelson Mandela quando a porta se abriu, um preto alto, atlético e sorridente entrou e me perguntou: “É o embaixador de Portugal?”. “Sou”. “Desculpe irromper assim mas soube que estava cá e tinha de vir dizer-lhe muito obrigado! Não calcula quanto apreciámos o que nos mandou. Tornou os nossos serões agradáveis e entretidos. Não podia deixá-lo sair de aqui hoje sem lhe apertar a mão e lhe agradecer pessoalmente”.

 

Eu tinha-o reconhecido: era Tokio Sexwale, chefe de relações públicas do ANC, que passara 13 anos preso em Robben Island. Álvaro Mendonça e Moura, encarregado de negócios de Portugal durante muitos meses, entre a partida do meu predecessor e a minha chegada à África do Sul, havia-lhe mandado, e aos seus colegas de cativeiro, cassetes de futebol português, nomeadamente a da final da Taça dos Campeões entre o Porto e o Bayern de Munique que o FCP ganhara em 1987. Era isso que ele agora viera agradecer-me.

 

Não arriscaria generalidades sobre as relações entre Portugal e a Africa do Sul, ou sobre as relações entre os emigrantes portugueses e os nativos de variadas cores do país que os acolhe. Mas uma coisa posso assegurar: nos últimos tempos do apartheid as relações entre as autoridades portuguesas e a direcção do ANC não poderiam ter sido mais cordiais do que foram. 

 

 

 

Imagem: aqui 

 

 

 

publicado por VF às 20:43
link do post | comentar | favorito
1 comentário:
De duplamente colega a 19 de Dezembro de 2013 às 05:00
Dear Ambassador,
graças a um post da Vera F.P. no facebook descubro-o bloger! Vou passar a passar por aqui, claro.

O seu Duplamente Colega


Comentar post

pesquisar

mais sobre mim

posts recentes

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

O Bloco-Notas de José Cut...

tags

todas as tags

links

arquivos

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Creative Commons License
This work by //retrovisor.blogs.sapo.pt is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Blogs Portugal

blogs SAPO

subscrever feeds