Segunda-feira, 5 de Maio de 2014

Era uma vez... a revolução

 

 

O partido exigia não apenas todo o nosso tempo, como sentia que a nossa entrega só era total se também puséssemos à sua disposição os nossos bens. «É forçoso dizer que grande numero de camaradas (...) procuram modos de vida cómodos; estabelecem por vezes para a sua vida privada padrões de existência abastada e não se importam, nalguns casos, de esbanjar dinheiro inutilmente», escrevia-se numa resolução do comité central. Pior, pecado maior: «alguns camaradas não prescindem e até esperam ansiosamente as férias, não se preocupando com o cumprimento das suas tarefas partidárias e revolucionárias» algo inaceitável, pois «a luta de classes e a revolução jamais poderão ir de férias». A simples ideia de ter férias tinha assim «natureza burguesa e não proletária» e o seu efeito seria semelhante «ao causado pela introdução de droga, ou pela corrupção moral num exército em guerra». Era pois necessário ser muito rigoroso, em nome da «robustez revolucionária», com coisas como «as esquisitices com a comida e com o dormir» ou o «vício de viajar comodamente». Tudo porque «ser comunista não é só um comprometimento, é, antes e acima de tudo, uma transformação real e constante». Ser comunista também implicava «montar a sua vida de acordo com os interesses do Partido e da Revolução», subordinar «incondicional­mente os interesses individuais aos superiores interesses do Partido» de forma a realizar a «condição de fiel ser­vidor do povo pobre». Ser comunista é «sê-lo em todos os momentos, em todas as tarefas e para a vida inteira». Por isso, «o egoísmo pessoal, a vida privada, o tempo li­vre, o aconchego familiar são umas vezes obstáculos, ou­tras vezes desculpas para não se dar ao partido aquilo de que precisa».

 

Exigia-se assim uma espécie de renúncia absoluta ao mundo exterior, uma renúncia que não era imposta pe­las condições concretas da luta política — em ditadura, quando era necessário passar à clandestinidade para fu­gir à perseguição da polícia, a renúncia à vida normal era inevitável —, mas por opção tomada para a vida. Entre­tanto, reforçavam-se os mecanismos destinados a impor o «centralismo democrático» com um objectivo que seria assumido por alturas do II Congresso, em 1977: «conse­guir a homogeneização das ideias e práticas proletário-revolucionárias, marxistas-leninistas», e «romper com resistências que subsistem na aplicação da linha táctica». Ou seja, para uniformizar o pensamento dos militantes, calando todas as vozes internas dissonantes.

 

 

*

 

Ainda hoje, quando olho para a forma muitas vezes arrogante como a esquerda jacobina olha para todos os demais, quando sinto como no debate público todos os que não se filiam, de uma maneira ou doutra, na tradição estatista e dirigista da esquerda sofrem uma espécie de capitis deminutio por, supostamente, não se preocuparem também com o bem da sociedade, recordo a lógica mistificadora da "superioridade moral".

 

 

José Manuel Fernandes

in Era uma vez...a revolução

© 2012 José Manuel Fernandes e Alêtheia Edições

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por VF às 12:41
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