Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Barack+Obama+Barack+Obama+Golf+Mid+Pacific+9s6H4jz

 

 Barack Obama       foto: Bauer Griffin 

 

 

 

 

 

 

“Patrão fora…

 

 

…dia santo na loja!” Quando o dizer foi inventado os dias santos eram os únicos feriados que havia. Sem vigilância do patrão, cada um portava-se como lhe dava na real gana. (Na escola também, quando faltava o professor. Lembro-me, no pátio da Valsassina, de intervalo das 11 que nunca mais acabava, até que um voltou da secretaria eufórico: “É pá, não há aula! Morreu a mãe do gajo!”). Se a loja do mundo tem patrão, é Obama e, de há uns tempos para cá, anda tão distraído que há quem julgue que ele esteja fora.

 

De entrada quase ninguém deu por isso. O mundo estava farto de George W. Bush, a querer impor democracia aos outros, sem dor ou com dor, como charlatães de feira dantes arrancavam dentes; da sucessão de desastres militares que lhe couberam por causa disso; da sua fala de pobre de espírito – tornara-se caricatura de presidente americano, desenhada por estudante marxista burro. Em Janeiro de 2009, Obama era alívio que chegava, elegante, sereno, prometendo paz e decência. Discursava bem, com mais jeito para falar à gente do que qualquer dos seus predecessores de que alguém se lembrasse. “É um enlevo ouvi-lo” dizia-me admirador do tempo da primeira campanha eleitoral.

 

Depois de 5 anos de desilusão crescente, o ex-admirador diz agora: “Teria sido “speech-writer” ideal de presidente com jeito para mandar nos seus”. Nos seus e nos outros, acrescento eu, assustado por Putin em Moscovo, Xi na China, feixe de pimpões no Médio Oriente e mais malfeitores a granel, em confrontação com Obama em Washington e com Merkel no ramalhete pusilânime e indeciso dos europeus de que ela é a flor principal. “Lá vamos, cantando e rindo” cantava-se na Mocidade Portuguesa do meu tempo. Salvo jiadistas nas Arábias e entusiastas do Tea Party nas profundezas dos Estados Unidos, não ouço ninguém cantar assim agora.

 

Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos no começo da ascendência destes, fixou a regra de comportamento: “Falar baixinho e andar com um grande cacete”. Passado mais de um século, depois de duas guerras mundiais que aumentaram poder e persuasão dos Estados Unidos no mundo, e da guerra fria cujo resultado vindicou definitivamente a superioridade do capitalismo sobre o comunismo como criador de riqueza e de liberdade, e deixou os Estados Unidos a Hiperpotência, estamos a entrar em terra ignota: Obama na Casa Branca com béu-béu de pirolito e sem querer usar cacete.

 

A China acordou, outros espreguiçam-se. Milénios a fio poderes mudaram e a questão não é essa. A questão é que o alheamento de Obama, a falta de mão firme ao leme, desacredita o poder do Ocidente, garantia de relações entre governantes e governados e entre homens e mulheres muito mais humanas e decentes do que as que escapem à sua influência. Meninas infibuladas, prisioneiros de guerra decapitados, funcionários corruptos abatidos por balas na nuca — com a autoridade de Washington a sumir-se, faltas de respeito e provocações multiplicam-se por esse mundo fora.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 23 de Julho de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Malaysia Airlines Ukraine Crash Slideshow 16.jpg

 

 Destroços do voo 17 da Malaysia Airlines próximo de Hrabove, leste da Ucrânia, manhã de 19 de Julho de 2014.

(Dmitry Lovetsky/Associated Press)

 

 

 

 

 

A Cereja no Bolo

 

 

“Primeiro julguei que tivesse sido o Mossad, para distrair a nossa atenção de Gaza” disse a rapariga, sentada de Ipad ao colo. “Mas o que se foi sabendo não dava para isso. Entre russos e ucranianos…”

 

Conversa em Bruxelas, quando não restavam dúvidas quanto à origem do míssil terra-ar que deitara abaixo um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo sobre o leste da Ucrânia. Mas para muitos europeus dos nossos dias, criados no soft power e na correcção política, a maldade de Israel não tem limites e Vladimir Putin até nem é mau de todo, dada “a sobranceria com que os Estados Unidos trataram a Rússia a seguir ao fim da União Soviética”. Santa simplicidade.

 

Nesse fim de semana, em Paris e noutras cidades de França, numerosos manifestantes solidários com o povo da Palestina, enquanto partiam montras e ameaçavam sinagogas, gritavam palavras de ordem antissemitas — “Mort au juif!” — como não se via e ouvia em França já há muitos anos. (Coincidência de datas: o primeiro-ministro presidiu a cerimónia de desagravo comemorativa da concentração de 13.152 judeus, incluindo 5.051 crianças, num velódromo parisiense — o Vel d’Hiv — a 16 e 17 de Julho de 1942 antes de serem despachados para extermínio em Auschwitz). O antissemitismo francês tem tido altos e baixos.

 

Quanto ao avião da Malásia e a Putin, a verdade veio depressa ao de cima. Entre gabarolices e aldrabices, os rufias da República de Donesk, locais ou mercenários russos, deixaram poucas dúvidas sobre a selvajaria da sua proeza, e meios nacionais americanos de observação (NSA, etc.) revelaram com precisão cirúrgica o que se passara. Em muitas capitais do mundo, o patrão do Kremlin, cuja fanfarronice nacionalista inspirara a desordem armada no leste da Ucrânia — e cuja intendência lhe fornecera logística — é visto como corresponsável pela criação de ambiente propício à prática da atrocidade. Na União Europeia, até alemães e italianos concordaram no endurecimento de sanções à Rússia.

 

Quanto a Gaza, o horror de civis mortos e feridos por fogo israelita continua e continua também a incompreensão do que se está a passar. Gaza, com uma das mais altas densidades de população do mundo, é gigantesco e trágico escudo humano da armadilha onde Israel tem caído desde que se retirou do território em 1994. O Hamas dispara de lá todos os dias foguetões sobre Israel e cava túneis para por eles fazer mais ataques. Quando Israel pretende atingir rampas de lançamento ou quer escavacar túneis mata e fere inevitavelmente civis. A tática do Hamas não é original (em 1992, muçulmanos da Bósnia mandavam morteiros contra sérvios de pátios de hospitais) mas a escala desta vez é épica. E, lembrava Marx, alterações quantitativas conduzem a alterações qualitativas.

 

O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, tem agora muito menos apoios no mundo árabe. Mas a direita israelita de hoje está como Abba Eban disse um dia dos árabes: não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade.

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Junho de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

Yalta, 1945

A Crimeia era a sala de visitas do Kremlin

 

 

 

 

 

 

Olivença sur mer?

 

 

Pedro Monjardino (pai do João e do Carlos) era homem sábio que usava regras simples para primeira abordagem de problemas complicados. Por exemplo, quando no hospital, no consultório, na clínica, alguém espavorido o avisava “Ai Senhor Doutor vem aí um maluco!”, Pedro que era alto e forte, pegava numa cadeira, levantava-a no braço direito e esperava. Das vezes que tal aconteceu, o tresloucado acalmou e deixou-se levar a bem.

 

O Ocidente – a que os alemães ainda pertencem – embora mais lento e menos decidido do que o meu chorado Pedro, conseguiu fazer o homem do Kremlin vislumbrar a bordoada que levaria se não ganhasse juízo. De há semanas para cá Putin começou a emendar a mão; as relações entre Kiev e Moscovo irão melhorar — Países Bálticos e Moldova darão suspiros de alívio — porque entendimento entre os dois é inevitável (e benéfico quer para eles, quer para nós). Mas levará o seu tempo porque ambos vêm de muito longe. Ministro ucraniano explicou-me um dia: “Na universidade estudávamos materialismo dialéctico, marxismo-leninismo, planificação económica, história dos regimes comunistas, Marx, Engels, Lenine, em suma, sabíamos tudo sobre como transformar um regime capitalista num regime comunista. Mas não sabíamos nada sobre o contrário”.

 

Não se irá, porém, a caminho de paz perpétua de Kant enquanto durar a ocupação da Crimeia pela Rússia. Nem é sarilho fácil de resolver. Por um lado, com desplante pré-moderno, a Rússia quebrou compromissos internacionais solenes que tinha assumido quando da independência da Ucrânia após o colapso da União Soviética e a comunidade internacional não pode senão condená-la. Foi golpe dado à legalidade nas relações entre estados que se procura promover desde a fundação das Nações Unidas — com ânimo novo depois do colapso da União Soviética — para bem de toda a gente e de todos os países. Por outro lado, a vasta maioria dos habitantes da Crimeia (salvo cerca de 10%, tátaros que Estaline perseguiu, deportou e entretanto voltaram) sente-se russa. A Crimeia faz parte do imaginário da Mãe Rússia. Não lhes passará pela cabeça voltar à Ucrânia.

 

A Crimeia não fora conquistada pela Ucrânia, fora-lhe oferecida pela Rússia em 1954 e houve casos no mundo mais ou menos comparáveis, como Macau. Quando Robin Cook disse a Madeleine Allbright que os advogados dele pensavam que o bombardeamento da Sérvia em 1999 era ilegal ela respondeu-lhe que arranjasse outros advogados. Assim, na Crimeia, se Putin indemnizasse pelos estragos e não se tornasse a portar mal (dois grandes ses), dever-se-ia encontrar saída airosa para a crise: talvez outro Krutschef ucraniano pudesse oferecer agora a Crimeia à Rússia, recebendo parte da sua riqueza energética em contrapartida. Talvez advogados pudessem negociar arranjo viável que salvasse faces e enchesse bolsos.

 

A Crimeia é grande e rica demais para ficar num limbo, espécie de Olivença à beira do Mar Negro, de que Moscovo e Kiev pudessem fingir que se esqueciam.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Anúncio do cognac feito pela família de Jean Monnet, inventor da Europa moderna

 

 

 

 

 

Votos, omeletes e ovos cozidos

 

 

De Gaulle menosprezava a construção europeia: as nações eram ovos cozidos e com ovos cozidos não se faziam omeletes.

 

Salvador da França juntamente com os comunistas contra o governo de Vichy, tratando depois da vitória a Alemanha de Bona com magnanimidade (gostava tanto da Alemanha que dizia preferir que houvesse duas), deixou o poder sobre quezílias da paz em 1946, atravessou o deserto em Colombey-les-Deux-Églises de onde o foram buscar em 1958 para presidir à República e salvar segunda vez a Pátria. Em 1969 voltou para Colombey e, morrendo a fazer uma paciência de cartas em 1970, foi poupado à reunificação alemã.

 

Quando Mitterand, inquilino do Eliseu da altura, se deu conta do risco desta já não havia nada a fazer – no Kremlin, Gorbachev fora persuadido por um Kohl determinado como Bismark e pródigo como o Emir do Qatar; de Washington, Bush pai forçara a mão a Londres e Paris. Chirac, sucessor de Mitterand, percebera que tinha acabado a papa doce e começara tentativas de reintegração da França na estrutura militar da OTAN que Sarkozy finalizaria enquanto, colando-se a Angela Merkel, fingia que ainda mandava na Europa. François Hollande tentou entrada de leão mas terá saída de sendeiro.

 

A União que vai a votos esta semana para o Parlamento Europeu não é a do tratado de Maastricht. Não por termos passado de 12 a 28 países mas por duas outras razões. A União Soviética colapsou e acabou o medo dela que unia o Ocidente (Putin é incómodo mas não mete medo comparável porque, por um lado, não prega ideologia subversiva e, por outro, conta com quinta coluna de industriais alemães, banqueiros ingleses e vendedores de armamento franceses ao pé dos quais os partidos comunistas mais estalinistas do Ocidente durante a Guerra Fria eram brincadeiras de criança). E à nossa Alemanha Ocidental com a capital em Bona, discreta para se fazer perdoar pelo Holocausto e mais crimes, sucedeu país da Europa Central com capital em Berlim que retomou alento, herdou tiques geoestratégicos (do reconhecimento da Croácia em 1992 até ao moralismo luterano/calvinista com que sufocou os países do Sul 20 anos depois), manda mais na União do que qualquer outro mas continua uma democracia exemplar.

 

Hoje, em autocarros de Bruxelas, anúncios exortam-nos a votar para escolher “o governo da Europa”. É propaganda mentirosa (o governo da Europa está nas capitais dos países e não nas instituições de Bruxelas) mas não é só propaganda. Na selva da globalização nós, os europeus, só nos safaremos unidos. E contra nacionalismos populistas a União só terá força se os povos sentirem que precisam dela. O caminho passa também pelo Parlamento Europeu por pouco votado, frívolo, irresponsável e distante que nos pareça hoje.

 

Perante concorrência desenfreada e impiedosa do resto do Mundo está-se a descobrir que os ovos afinal talvez não estivessem tão cozidos como isso tudo. A omelete não será baveuse mas, se não a quisermos comer, morreremos de fome.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais uma Guerra Mundial?

 

 

As comemorações de 1914 (ano do começo da Guerra que pôs Fim à Paz, como lhe chama Margaret MacMillan num livro magistral sobre as suas causas) em televisões, telefonias, editoras, revistas, e o à vontade pré-modernista de Vladimir Putin, cujo apetite russo de território evoca o Lebensraum nazi, levam-me a sentir que a nossa paz, o caldo de cultura da construção europeia, ficou de repente muito menos garantida.

 

Até ao fim da Guerra Fria, medo salutar da União Soviética fizera os europeus gastarem dinheiro em defesa (sempre menos do que deviam mas os Estados Unidos, embora queixosos, cobriam a diferença). Quando a União Soviética colapsou inventou-se o “dividendo da paz”. Governantes de quase todos os países europeus — menos Reino Unido e França — ignorantes ou esquecidos da história reduziram orçamentos de defesa a proporções ridículas com a justificação de que o colapso soviético eliminara o inimigo e não havia outro à vista. Agora há — mas há também quem não o queira ver.

 

A questão não é de meios — é de falta de vontade. 1945 foi há 69 anos, 1991 há 23 e, a quem não faça regime, a paz engorda. A Guerra Fria acabou sem tratado que ajustasse regras: essa ambiguidade ajuda Putin a pintar a manta, jogando na curteza de vistas cobarde dos europeus. Grandes patrões têm ido a Moscovo garantir-lhe pessoalmente ‘business as usual’. Apesar disso, os governantes da União Europeia (e todos os do G7), perante o desplante reafirmado do patrão do Kremlin e exortados por Washington têm alinhavado sanções contra a Rússia — começando pelos cortesãos do Czar — a pouco e pouco mais consequentes mas muito longe de causarem a dor precisa para parar provocações com que Putin nos põe à prova.

 

Se impusermos mais sanções económicas e se, simultaneamente, tornarmos bem visível por exercícios militares, patrulhas aéreas, etc., conduzidos na Polónia e nos países bálticos, a capacidade bélica da OTAN e a nossa disposição de recorrermos a ela se um dos Aliados for atacado, ganharemos. Sanções económicas trar-nos-iam prejuízos de curto prazo, exigindo explicação a eleitores mas seriam tão gravosas para a Rússia que Putin teria de encolher as garras. A capacidade de sofrimento do povo russo é grande (nenhum outro teve tantos mortos nas duas guerras mundiais) e a propaganda do Kremlin dissemina catadupas de aldrabices mas no nosso tempo tudo se conhece, se compara e o regime iria mudando. Depois, à Ucrânia e seus demónios daríamos o jeito possível, até com ajuda da Rússia.

 

Se não dermos um murro na mesa já, será depois difícil parar Putin sem guerra. E entretanto o nosso poder no mundo vai levando rombos. Quando votámos agora contra a Rússia na ONU, Brasil, India, África do Sul abstiveram-se. Os nossos valores em direito internacional e direitos do homem não serão universais mas que ao menos sejamos capazes de lutar por eles, com menos retórica e mais acção. Como disse um presidente americano: falar baixinho e trazer um grande cacete.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

 

 

Cem anos depois

 

 

A Primeira Guerra Mundial começou vai fazer cem anos no princípio de Agosto. Livros e televisões evocam o cheiro pungente de milhões de mortos — desde 7.000 para Portugal até 1 milhão e 600.000 para a Rússia — ruínas de cidades e descampados. Os horrores que foram filmados, aqueles sobre os quais se lê e os que se adivinham são muitíssimos. E o horror maior é que menos de 21 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial a Segunda havia começado.

 

Durou de 1939  a 1945, matou mais gente ainda (portugueses, só em Timor) e acabou, tal como a Primeira, pela derrota da Alemanha e seus aliados. A Alemanha ficou arrasada e dividida; em vez de a fazerem pagar pela guerra, perdoaram-lhe dívida e houve o Plano Marshall, foi-se recompondo sem revanchismos que levassem a outro Hitler e à tentação de nova guerra. Reunificada, democrática, cívica e próspera (até 2010, a única das grandes potências europeias invariavelmente decente com os pequenos) os incómodos que, nos últimos anos, a sua fobia patológica da inflação tem causado a vizinhos pequenos e pobres são graves mas não se comparam com a anexação nazi dos sudetas.

 

Os sudetas têm sido lembrados agora não por causa da Alemanha mas por causa da Rússia. O ex-KGB Vladimir Putin anda a armar aos czares e resolveu anexar a Crimeia (dito e feito), perturbar a parte oriental da Ucrânia e não se sabe que mais ainda. Outras terras europeias com minorias russas — Estónia, Letónia, Lituânia (três estados-membros da União Europeia, aliados na OTAN) — sentem-se ameaçadas pela retórica expansionista e revanchista do Kremlin. Juntamente com Polónia e Suécia — e E. U. A — querem que a Rússia seja avisada em termos inequívocos. Além das sanções aprovadas depois da anexação da Crimeia, deveriam explicitar-se sanções mais graves a serem aplicadas se a Rússia tornar a pôr pé em ramo verde. Apesar de Putin insistir em exercícios militares perto de fronteiras, fomento de rebelião na Ucrânia e retórica perigosamente ambígua, membros da União do sul, entre eles Portugal e às vezes Alemanha, estão relutantes a elevar o tom e recomendam “prudência e diplomacia”.

 

Atenção. O Kremlin sabe que nenhum poder ocidental mandará rapazes e raparigas matarem e morrerem pela Crimeia (e presume que pela Ucrânia também não). No mundo pre -1945 que Putin parece imaginar à sua volta, europeus e americanos devem figurar como poltrões anafados e sem chefe, incapazes de resistirem ao quero, posso e mando do Senhor de todas as Rússias.

 

Mesmo sem comemorar a Primeira Guerra Mundial com o começo da Terceira poderíamos sair vitoriosos desta embrulhada. O poder económico conjunto de Europa e Estados Unidos é tão superior ao da Rússia que sanções inteligentes levariam o Kremlin à glória. Mas seria preciso que alemães, britânicos, franceses, todos, fizéssemos pequenos sacrifícios a curto prazo.

 

Sem a coragem de conter Estaline não teria havido OTAN nem União Europeia. Esperemos que Putin chegue para nos endireitar outra vez a espinha.

 

 

 

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Quarta-feira, 26 de Março de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

 

 

Uma invenção recente

 

Há guerras desde que há homens; a paz é uma invenção recente — escreveu jurista inglês do século XIX. Até ao aborrecimento da Crimeia, o pessoal governante dos países da União Europeia e os Democratas de Obama nos Estados Unidos pareciam convencidos de que a invenção chegara para ficar. Mesmo Ângela Merkel, filha de pastor luterano e com juventude passada de Stasi à coca, teria dito a Obama que Putin vivia “noutro mundo” — subentendendo que o “mundo real” era aquele em que o presidente dos Estados Unidos e ela própria viviam.

 

Não perceberam nada — tal como o alto funcionário da Comissão de Bruxelas que me disse há anos, discutindo o lugar da Europa no mundo, que a ideia da União Europeia entrar em guerra era inconcebível para ele. Muitos falavam então no “dividendo da paz” — desde o fim da Guerra Fria não era preciso gastar dinheiro em defesa — esquecendo a exortação romana “se queres paz prepara a guerra” (ou Duff Cooper, ministro de Churchill, quando escreveu que desarmar para evitar a guerra seria como fechar as esquadras de polícia para acabar com o crime). Muita gente caricaturou o académico americano que depois da derrota do comunismo anunciou o fim da história — íamos todos, no mundo inteiro, viver para sempre em democracia+economia de mercado — mas os governos europeus portaram-se como se tivessem levado a caricatura a sério.

 

Arruaceiros de países pequenos e mais ou menos distantes foram metidos na ordem sem grandes custos (com ajuda de Washington). Países maiores que, por exemplo, nos vendam petróleo, podem pintar a manta dentro de casa que a gente não os apoquenta. Regras simples. A hipótese de mau comportamento egrégio, contra os nossos interesses e a nossa bazófia moral, da parte de um dos grandes, terá levado estados-maiores a planos secretos mas não se esperava que tornasse a acontecer mesmo, pelo menos no nosso tempo. Toda a gente acha que governantes como os da Segunda Guerra Mundial — De Gaulle, Churchill, Roosevelt — já não há: até Putin, por incómodo que seja, não chega aos calcanhares de Estaline.

 

Além disso, desde Jack Kennedy em 1960, passou a estar na moda escolher chefes políticos muito novos. A União Europeia está cheia deles e tal acrescenta à impopularidade da classe política numa altura em que esta é acusada de não ter sido capaz de prever a crise económica, de lhe ter acudido de maneira nociva e (se Putin não tomar juízo) de ter deixado a Europa indefesa.

 

Ora o juízo de Putin não é o nosso. Deu-se por missão fazer com que a Rússia torne a meter medo ao mundo, os russos estão com ele — pelo menos até ao preço do petróleo baixar — e a impopularidade dos políticos ocidentais é notória.

 

Para manter paz e honra será preciso vencê-lo pela economia. Começando por fazer do tratado comercial que europeus e americanos estão a negociar, e aumentaria os PIBs respectivos, um objectivo estratégico. A URSS perdeu a Guerra Fria por não ser capaz de competir economicamente com o Ocidente.

 

 

 

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Quarta-feira, 12 de Março de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

 

 

Prepotências, roubalheiras, aldrabices

 

 

Em 2008, corriam os Jogos Olímpicos de Pequim, a Rússia capturou militarmente à Geórgia duas partes do seu território — a Ossétia do Sul e a Abkhásia — de estatuto autónomo e muitos habitantes russófonos. Bush, em Washington, protestou menos do que Obama agora perante Ucrânia e Crimeia. Nós, os da União Europeia, com Sarkozy à frente, inventámos uma “mediação” que nada devolveu à Geórgia, sossegou a Rússia e nos deixou de consciência tranquila. Para o conforto ensimesmado dos europeus (5%, 25% e 50% da população, do produto e da despesa social mundiais, respectivamente) foi como se a crise da Geórgia não passasse de tempestade num copo d’água.

 

Com o Kremlin, continuou-se business as usual. A França vendeu à Rússia navios de guerra que a ajudaram no emprego e na balança de pagamentos; a Alemanha, a Itália e a Holanda pouco fizeram para diminuírem a sua dependência energética da Rússia; Londres e os paraísos fiscais cobertos pelo Reino Unido —  das Ilhas do Canal às Ilhas Cayman — continuaram a gerir e a lavar bem os milhões dos oligarcas (e preços de casas em Londres chegaram à estratosfera). Do outro lado do Atlântico, Barack Obama — que tal como Jimmy Carter com Brejnev, parece convencido de que no fundo, no fundo, Putin reconhece que ele tem razão — meteu-se há anos a tentar pôr no são as relações com a Rússia e com tal inépcia o fez que, em vez de ganhar lealdade de um novo amigo levou o Kremlin a perder o respeito que, antes dele, ainda tinha pela Casa Branca. Entretanto, com a Geórgia no papo, Vladimir Vladimirovich sente-se seguro na sua missão histórica de recuperar a grandeza russo-soviética. Como se diz por lá: comer abre o apetite.

 

E agora, por causa de zaragatas na Ucrânia e na Crimeia, lugares longínquos sobre os quais quase todos os europeus — ainda não refeitos de Lehman Brothers / dívidas soberanas / banca à nora — sabem pouco e mal, porque muito do que nos chega é propaganda russa, espera-se que os nossos governos e o americano se unam e façam recuar o Kremlin. Há de ter que ver. Sem chefia americana e com vendilhões a encherem os nossos templos, receio que as medidas que forem tomadas fiquem aquém do  preciso para fazer a Rússia largar a Crimeia.

 

Na Guerra Fria confrontavam-se capitalismo e comunismo. Hoje de um lado estão estados de direito com sufrágio universal e do outro o feixe de brutalidades, roubos e mentiras que dá pelo nome de capitalismo de Estado. Os europeus que sabem na carne dessa poda — Bálticos; ex-Pacto de Varsóvia — procuram que combatamos por todos os meios ao nosso alcance a opressão asfixiante e corrupta que a Rússia quer impor à Ucrânia, com sanções imediatas que doessem mesmo ao Kremlin e promessa a Kiev de adesão à União Europeia. Alemães, britânicos, franceses, outros, arrastam os pés.

 

Nem Estados Unidos nem União Europeia mandarão os seus morrer pela Ucrânia. Mas com visão, coragem e determinação poder-se-ia travar Putin sem guerra — por enquanto.

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Março de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

 

Prolegómenos a qualquer Europa futura que possa apresentar-se como potência

 

 

Ao anunciar sanções contra o (antigo) regime ucraniano a União Europeia mostrou que afinal existia. Vários dos seus membros tinham, até aí, sido contra pois receavam que tal fosse provocar a Rússia (e provocou mas, como dizia o outro, quem não tem competência não se estabelece).

 

As sanções foram anunciadas em Bruxelas. Em Kiev os MNEs de Alemanha, França e Polónia mediaram acordo que diminuía os poderes do presidente e antecipava eleições — mas os manifestantes não desarmaram e o parlamento, com muitos deputados da maioria presidencial a juntarem-se aos da oposição, depôs o presidente, substituiu-o, até às eleições, pelo presidente do parlamento, e nomeou um governo provisório.

 

Apoiando o novo regime, a Europa agiu escudada nos seus valores. Putin de entrada ficou calado; Medvedev disse que o novo poder em Kiev era ilegal; houve manobras militares. A seguir Putin fez rufar tambores na Crimeia (doada à Ucrânia em 1954, muita gente lá acha que estaria melhor entregue a Moscovo do que a Kiev), ameaçando integridade territorial que considerara sagrada no caso da Síria — “a lei é a lei e temos de a cumprir, gostemos dela ou não” dissera na altura. Entre ecos de ópera bufa e avisos de tragédia, o homem para quem o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século XX está a obrigar Europa e Estados Unidos a encontrarem maneiras de o conter. Não é fácil. A nostalgia post-imperial russa assusta; a Ucrânia não é uma pera doce. Obama parece às vezes julgar que a razão, irmã do amor e da justiça, levará sempre a melhor; moles, muitos europeus acham que não é com eles. Mesmo assim, graças sobretudo à Alemanha (mesmo a Alemanha da prudente Merkel) o cerco vai apertando. Se a União Europeia não perder cabeça e coragem e abrir a porta à Ucrânia — e se a Ucrânia perceber que sem estado de direito não sairá da cepa torta — a nossa segurança terá dado um salto em frente.

 

A União Europeia tem fronteiras seguras a Norte, Ocidente e Sul. A Sudeste menos: o Médio-Oriente é viveiro de conflitos (a adesão da Turquia, prometida há décadas mas negociada com vagares de lesma, deve ser acelerada; será melhor tê-la dentro da barbacã, virada para fora, do que fora, virada contra a barbacã). Por fim, a Oriente: Ucrânia significa fronteira. O acordo com a União Europeia que à última hora o presidente deposto se recusara a assinar seria mais um passo para a pôr do nosso lado dessa fronteira. É do nosso maior interesse dá-lo e impedir que a Rússia faça o que sempre fez: mude os marcos da propriedade para ir ganhando terreno.

 

A União Europeia não é empresa multinacional ou ONG filantrópica. É uma ambição política, entrançada com vontades nacionais centenárias. Se quer o seu lugar de grande potência no mundo terá de falar com uma só voz e dar-se ao respeito por toda a parte. Como acontece hoje na Ucrânia, com a Alemanha à frente ou, com a França à frente, no Mali.

 

 

 

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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

 

 

 

A peste homofóbica

 

 

(Mas, antes dela, noto que a Islândia, vítima há anos de colapso bancário ruinoso, anunciou desistir de candidatura à União Europeia. Saiu da crise ajudada pelo FMI, com flexibilidade que impediu o país de endividar gerações vindouras. No Sul da Europa tivemos menos sorte. A Alemanha, que queria salvar os seus bancos, impôs-nos austeridade com as consequências conhecidas. Moral da história: teria sido perfeitamente possível sair da crise sem pôr o futuro no prego. Faltou visão a Berlim e coragem a todos).

 

Voltando ao título. Como erradicar a peste homofóbica que grassa hoje na África e na Rússia contra mais de um século de progresso social e de decência promovidos na Europa Ocidental e nos Estados Unidos? A maior e mais maltratada das minorias, em todo o mundo, são as mulheres (demograficamente em maioria como os pretos na África do Sul do apartheid) que gozam hoje, na teoria e na prática europeias e norte-americanas, quase dos mesmos direitos e deveres que os homens. Homossexuais, minoria mais pequena, deixaram de ser discriminados, como se sabe, nas leis desses estados. Em cada vez maior número deles, podem casar e adoptar. Nessas sociedades vibram ainda focos de oposição religiosa e de deferência pelos costumes mas liberdade e tolerância têm levado a melhor no debate que continua.

 

Em contraste vivo, o Parlamento da Rússia de Putin, a pretexto de proteger as crianças de riscos de pedofilia, passou legislação que na prática criminaliza a homossexualidade e deixa homossexuais à mercê de arbitrariedades da administração e do público.

 

O que se passa em África é mais alarmante ainda. De 54 estados do continente, 38 criminalizam a homossexualidade (3 —  Sudão, Mauritânia, Somália — e o norte da Nigéria, que adoptam a charia, preveem pena de morte). Nigéria e Uganda endureceram há pouco as suas leis. Mesmo na África do Sul, apesar de ocidentalizada pelo humanismo de Mandela, existe ambiente homofóbico (lésbicas submetidas a violações colectivas, “para as curar”). Uma declaração do Presidente da Gâmbia ilustra o quadro africano: “A homossexualidade nunca será tolerada e poderá incorrer a pena máxima pois quer levar a humanidade a extinção inglória. Combateremos essa bicharia, os chamados homossexuais ou gays como combatemos os mosquitos da malária ou com mais vigor ainda. No que me diz respeito, LGBT só pode significar Lepra, Gonorreia, Bactéria, Tuberculose; coisas nocivas. Esclareço também que a Gâmbia não poupará nenhum homossexual e portanto a imunidade diplomática não será respeitada no caso de diplomatas homossexuais”.

 

David Cameron disse que queria “exportar o casamento homossexual” para o mundo inteiro. Foi logo acusado de neocolonialismo. Tiranetes cruéis encontraram mais desculpas para o mal que faziam. Não sou fanático do progresso; é prudente respeitar tradições mas, neste caso, norte-americanos e europeus têm razão e quem se lhes opõe faz subir marés de fel no sinistro mar da dor humana.

 

 

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publicado por VF às 08:22
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