Sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2014

Retrato de Amílcar Cabral

 

 

 

Noronha da Costa, 1976

Tinta celulósica sobre tela fotosensível, 1200 x 800 mm

colecção P.O.P.

© Noronha da Costa

 

Imagem: "Abecedário", edição comemorativa/catálogo da recente exposição 40 anos do Ar.Co (1973-2013) no MNAC- Museu do Chiado.

 

Visite a exposição de Luís Noronha da Costa (obras de 1967 a 1974) patente no CAMB – Centro de Arte Manuel de Brito  até 2 de Março de 2014. 

 

 

Guiné-Bissau hoje aqui e aqui (English | Français| Português )

 

 

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Domingo, 5 de Janeiro de 2014

Eusébio da Silva Ferreira (1942-2014)

 

 

 

Sport Lisboa e Benfica 1966/1967

 

 

Postal reproduzido no livro Retrovisor, um Álbum de Família. Texto e outra foto neste blog aqui.

 

A crónica de Ferreira Fernandes Nunca passei por ele sem dizer "obrigado" aqui

 

O ensaio de Nuno Domingos As lutas pela memória de Eusébio aqui

 

Alexandre O'Neill sobre Eusébio aqui

 

Perfil de Eusébio aqui

 

 

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Sábado, 4 de Janeiro de 2014

RDC "article 15"

 

Maître SYMS

"Article 15"*, 1992

Courtesy: Gallery Lucien Bilinelli, Brussels

© Plazier, Brussels 

 

 

Écoutez mes bêtes,

la conjoncture de la 2ème République

ne permet pas de vous héberger!

Allez vous débrouiller

 

Snif... Maitre nous sommes ici pour vous!

Pourquoi tu nous abandonnes comme ça?

Où pouvons nous aller

 

 

 

Visitei recentemente o Musée Royal de l'Afrique Centrale, em Bruxelas, agora fechado durante 4 anos para obras de remodelação. Queria ver pela última vez as colecções na versão século XIX. A crónica de José Cutileiro no primeiro dia do ano — Nuers e Dinkas — serve-me agora de pretexto para regressar a África com mais umas curiosidades (ver tag Congo).

 

O artigo e o breve documentário recomendados abaixo são antigos mas permanecem actuais.

 

 

*Article 15:

 

After a series of deflationary measures announced by the Zairean government in September 1983, prices for basic commodities rose by 30 to 40 percent while salaries remained unchanged. This further reduced the standard of living of the average Zairean. A schoolteacher in Kinshasa, for example, makes $13 per month. A civil servant with a university diploma, earns $25 per month.

 

''With such salaries,'' a Western diplomat explains, ''you can't make both ends meet. To survive most Zaireans make ample use of what is known here as Article 15.'' In clearer terms this means many Zaireans give way to corruption: teachers sell diplomas. No official form is available from a civil servant without a tip.

 

O artigo Zaire, An African Nation rich in natural resources but plagued by political instability and economic stagnation na íntegra aqui 

 

Defined as 'Manage by Yourself', the mythical article 15 founded an 'informal' economy in Zaire. Squatting in the grey mud of the market Place, black 'Mamas' barter for survival, singing as they prepare their wares. They manage to supplement their husbands' earnings by running a 'black market'.

 

O documentário The Definition of Poverty - DRC  April 1996 aqui

 

 

 

 

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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

Vidas Poupadas (2)

 

 

 

 


A avaliar pelas aparências dir-se-ia que Aristides de Sousa Mendes era o próprio anti-herói. Senhor beirão, brasonado, proprietário, conservador, católico devoto com uma família extensa, nada parecia separá-lo dos seus pares. Como diplomata, a sua carreira, mesmo nos baixos, permaneceu perfeitamente dentro dos cânones até à aposentação compulsiva em 1940, aos 55 anos. Um homem maduro, com mundo, politicamente atento, avisado pela burocracia de Lisboa, estava agudamente consciente da retribuição que as suas acções iriam provocar.

De facto, diante dos milhares de refugiados apinhados junto ao Consulado Geral de Portugal em Bordéus, deu voz a essas preocupações:


Como informei toda a gente, o meu Governo recusou terminantemente todos os pedidos para concessão de vistos a todos e quaisquer refugiados. [...] Todos eles são seres humanos, e o seu estatuto na vida, religião ou côr são totalmente irrelevantes para mim. [...] Sei que a minha mulher concorda com a minha opinião e estou certo que os meus filhos compreenderão e não me acusarão se, por dar vistos a todos e cada um dos refugiados, eu fôr amanhã destituído do meu cargo por ter agido [...] {contra} ordens que em meu entender, são vis e injustas. E assim declaro que darei, sem encargos, um visto a quem quer que o peça. […]


 

                


Ao agir no plano do real, acudindo na medida das suas possibilidades à situação dramática dos milhares de pessoas em perigo, sabendo que teria de enfrentar uma hierarquia que considerava o diplomata um militar à paisana, Aristides de Sousa Mendes gritava para Lisboa que a liberdade de consciência não é assunto de conveniência. O crime de Sousa Mendes fora tornar claro ao regime que as arquitecturas políticas sobre que assentava o seu perfil internacional e as suas linhas de defesa burocrática eram, realmente, apenas, construções.

O diplomata foi punido mas o “crime” foi abafado. E a maior parte das pessoas que se apresentaram às fronteiras portuguesas foram admitidas, na certeza de que a Espanha não as aceitaria de volta. Pretender que nada acontecera era a maneira mais expedita de reduzir o impacto do precedente e de lidar com a situação tida por desprestigiante de nem o Ministério do Interior nem o Ministério dos Negócios Estrangeiros terem sabido evitar o acontecido. E a habilidade do regime em transformar o vício em virtude ressalta de um Editorial do Diário de Notícias de 14 de Agosto, uma lauda ao humanismo português, que Aristides de Sousa Mendes recortou e enviou ao MNE para juntar à sua defesa...

 

Manuela Franco

in "Razões e Humanidade" [texto na íntegra aqui]


Fotos  aqui  e Documentos aqui



 



 

 

Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial 

Exposição documental

 

Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 
Documentary Exhibition


site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

© 2013 Governo da República Portuguesa 

 

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Segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

Vidas Poupadas


Portugal participou na II Guerra Mundial como neutro. A lúcida apreciação das condicionantes internas e internacionais, especialmente a experiência da recente guerra civil espanhola, a posição geoestratégica da península ibérica, aconselhavam-no. E, em 1939, a neutralidade era ainda um conceito político-jurídico de aplicação relativamente simples. Mas, para além do soez plano de conquistas territoriais e de esferas de influência, a Alemanha movia uma guerra ideológica, total. Perante a aplicação dos mandamentos do movimento totalitário, o estabelecer em terras conquistadas da vassalagem à mundivisão nazi, a destruição segura dos valores em que a civilização ocidental até então tinha funcionado, a semântica da neutralidade foi-se alterando. Tornou-se uma posição de difícil gestão, tanto mais quanto Portugal era governado em regime autoritário, por um ditador que operava sobre certezas, no caso um conjunto de princípios feitos à medida de um Mundo que a própria guerra se encarregava de destruir.


As certezas são inimigas da verdade. No caso português, escondida pela auto-satisfação de nos termos poupado ao conflito, quem sabe até termos ganho algum dinheiro com ele, a verdade ficou por captar até ao fim da guerra, com o luto oficial por Hitler e, até aos nossos dias, com a apreciação legalista, apolítica e amoral que ainda prevalece sobre a neutralidade portuguesa. Na equidistância perante os dois lados, no não ter compreendido que vencedores e vencidos não se equivaleriam, que o Estado nazi não comportava regeneração, em suma, no fugir a tomar partido no conflito político e moral postulado na II Guerra Mundial, Salazar remeteu a nação portuguesa para a periferia da modernidade e para fora da história da Europa. A democracia demoraria mais trinta anos a chegar a Portugal que, só então, reencontraria o caminho político de regresso à Europa.


Sabe-se que durante os anos da II Guerra Mundial passaram por Portugal dezenas de milhares de refugiados, sobretudo judeus. Muitas vidas foram poupadas pela actuação decidida de três diplomatas portugueses documentada na presente exposição: Aristides de Sousa Mendes, Cônsul de Portugal em Bordéus, Carlos de Sampaio Garrido, Ministro de Portugal na Hungria e Alberto Teixeira Branquinho, Encarregado de Negócios de Portugal em Budapeste. O primeiro, em Junho de 1940, elevou-se pela força do seu carácter acima do pânico dominante e, agindo por decisão e risco individual, no momento certo, abriu as portas de Portugal aos fugidos de França. Seria esmagado pelas certezas de um Salazar vencido pela criação de um facto político cuja reversão arrastaria questões complicadas de enquadrar nos parâmetros escolhidos para a neutralidade portuguesa. Os segundos, em 1944, confrontados com a ocupação alemã da Hungria e o programa acelerado de eliminação dos húngaros judeus, empenharam o seu sentido de valores e a sua coragem na concretização de uma operação de salvamento programada pelos representantes dos países neutros em Budapeste, e que contou com a aprovação e o envolvimento activo de Lisboa. Humana e politicamente de natureza e dimensão muito diferentes, estes dois episódios ilustram bem o evoluir da política portuguesa quanto aos refugiados do nazismo: uma atitude inicial muito restritiva, que se foi flexibilizando progressivamente com o andar da guerra, chegando mesmo a assumir formas de acção positiva quando o regime começou a ter por certa a derrota alemã e a imaginar que a neutralidade proporcionaria uma plataforma de protagonismo político no pós-guerra.

 

Manuela Franco

in "Moral e Política" [o texto na íntegra aqui ]

     " Politics and Morals" [text  here]




 



Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial

Exposição Documental 

Documentary Exhibition


Na escolha dos documentos patentes nesta exposição sobre a acção de três diplomatas portugueses guiamo-nos principalmente pela possibilidade de proporcionar um máximo de leitura directa de dois momentos reveladores da administração da neutralidade portuguesa.

No caso de Aristides de Sousa Mendes, os acontecimentos foram rápidos, as posições extremadas, e o material do processo que lhe foi movido mostra, mesmo ao leitor mais desprevenido, o quadro moral e político em que o drama se desenrolou. Limitamo-nos aqui a juntar alguns documentos que contribuem para contextuar o caso, tanto quanto às atitudes – antecedentes – das autoridades portuguesas perante a questão dos refugiados, como em conclusão, nos pareceu interessante mostrar o ponto de vista crítico da política de vistos de Lisboa que o Cônsul em Marselha, um diplomata completamente alheio ao processo Sousa Mendes, comunicava a Lisboa no final de 1940.

No caso da Hungria, a correspondência trocada entre Lisboa e as Legações de Portugal em Budapeste, em Berlim, e em Berna – onde Sampaio Garrido, saído da Hungria, passou quase todo o Verão de 1944 – permite seguir, às vezes dia a dia, um processo onde o empenho pessoal de dois diplomatas galvanizados pela arrogância do ocupante alemão e pelo terror das perseguições movidas aos judeus de Budapeste, encontrou eco numa Administração politicamente orientada para transformar em créditos na paz, uma neutralidade que entretanto se tornara incómoda.

Esperamos que a presente exposição possa ser uma achega para o concretizar da profecia feita por Salazar, a 18 de Maio de 1945, perante a Assembleia Nacional, no seu discurso “Portugal, a Guerra e a Paz”: “A História, serena e imparcial, como os literatos dizem que é, há-de um dia catalogar os nossos actos desta guerra e classificar a nossa neutralidade”.

 

 


 

 

 Artigo censurado (versão integral aqui)

 

 

 

 

 

Foto: Refugiados em Lisboa durante a II Guerra Mundial aqui  

 

 

Exposição e Textos aqui


Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 

Documentary Exhibition

 




site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

© 2013 Governo da República Portuguesa 

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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

carta de Timor (4)

 

Quarta Semana:

 

Esta semana chegou finalmente a oportunidade de assistir a um discurso do presidente. Full treatment.

Presidente feliz com lágrimas, de acordo com o Público. De 2a a 5a decorrreu na “Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação” a primeira audiência pública sobre a guerra civil de 75 em que andaram todos a matar-se uns aos outros. Para quem não leu o Adelino Gomes, já várias vezes tinha sido marcada e outras tantas adiada. É um assunto do mais sensível já que muitos responsáveis políticos de hoje (tanto governo como oposição) foram responsáveis por grandes matanças na época. Desta vez fez-se mesmo. Era aguardado com enorme expectativa e durante as sessões Dili andou colada aos rádios para ouvir os depoimentos; os motoristas aqui do PNUD não saíam dos carros o dia inteiro, sintonizados na Rádio Timor-Leste, e quando saíam era para se juntarem em volta dum transistor. 

 

Note-se bem que isto na altura era Portugal. As nossas maravilhosas RTP, RDP e Lusa têm correspondentes em Dili. Adivinha quantos jornalistas portugueses estavam nas audiências? Quantos passaram por lá, nem que seja 5 minutos? Resposta – Um. Quem? Adelino Gomes que veio de propósito de Lisboa (no voo mais barato que encontrou e pagando do bolso dele as despesas em Dili...). Timor não é notícia. Como não estão a matar ninguém, não interessa para nada. Foram mortos uns milhares em 75 e nunca se falou disso? As feridas são fundas e a gente também teve responsabilidade. Mas o que é que isso interessa agora? Os jornalistas portugueses em Dili foram para a praia.

 

 

 

 

Aconselho vivamente a leitura dos artigos do Adelino Gomes, não posso acrescentar nada. Resta-me a minha própria comoção ao ver toda a gente a chorar com o discurso do Xanana (a começar pelo próprio, voz quebrada, olhos e nariz vermelhos, assoando-se, limpando a cara com o lenço, no meio das suas longas pausas habituais, desta vez mais longas ainda). Nem as moscas (abundantes) se ouviam.

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Foto de Pedro Martins

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui 

 

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Quinta-feira, 2 de Maio de 2013

Vagamente à procura de Pasárgada

 

Num conjunto muito variado de textos, Eduardo Côrte-Real discorre com simplicidade e humor sobre a descoberta doutras paisagens, povos e mentalidades à luz dos seus autores de cabeceira e da sua história pessoal de filho do Império: 

 

"nesta parte do mundo [Macau], os portugueses fizeram-se à vida sozinhos, verdade que nem sempre se conta, só isso já dá a dimensão da aventura de quem vai para a China, para a civilização mais antiga de todas, agora um gigantesco casino, com Moulin Rouge e tudo" ... "Em Moçambique o apartheid era uma realidade, nunca tive um colega de escola preto e fiz lá o liceu todo. Naquele tempo, entretido a crescer, não me parecia estranho. Os únicos pretos com quem falávamos eram os nossos criados — sete."

 

O Médio Oriente, a Rússia e a China registados pelo autor nos finais do século XX também já não são hoje exactamente os mesmos, e nesse subtil desfasamento reside outro dos interesses deste livro. 

 

 

 

 

 índice de capítulos aqui

 

 

Tive a sorte de viver, longamente, em três continentes - África, Ásia e Europa. O persa de Homero, esse ainda desconhecido dos eu­ropeus e, no entanto, a viver ao nosso lado, foi o meu best friend nesses idos. Também gosto imenso da América, tanto do norte como de al­guns países do sul, daqueles onde não mora o pecado como no Brasil, a glória portuguesa. Gosto de árabes — o que é raro nos europeus — uma matriz complicadíssima porque política e religião são do mesmo grupo de conceitos neles. [...] Não há lares de terceira idade na China, o filho mais velho toma conta dos pais até eles morrerem. É assim. Praticar o Li (o bom caminho) não é muito diferente das éticas gerais, religiosas ou ateias. Individuo versus Universo é a questão do confucionismo chinês. O Ocidente individualista deusificou a Humanidade - mais interessante para filosofar — que a abstração dessa alma coletiva chinesa, nunca individual. No confucionismo não há salvação isolada, egoísta, nem alminhas. O historiador, o antropólogo, o humanista ocidental europeu, o jornalista, levo-os a todos como se fosse a escova de dentes, se possível sem eurocentrismos que são só excesso de peso. Não é só fazer a mala. É saber ao que vamos.

 

Eduardo Côrte Real

in Vagamente à procura de Pasárgada (Introdução)

© RCP Edições 2012 

 

Leia o poema Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira aqui

 

 

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Quarta-feira, 6 de Março de 2013

R.B. Kitaj

 

 

 

Desk Murder 

Oil on canvas, 76.2 x 122 cm, c.1970–1984

 

 

R.B. Kitaj  (1932-2007)

 

em Londres até 16 de Junho de 2013  aqui

 

Leia aqui

 

 

 

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Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2012

Boas Entradas

 

 


postal (2012)


Radio Presenter Sister Melianise Gabreus, Les Cayes, Haiti
© Paolo Woods
World Press Photo 2012 aqui




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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Natal Timorense

 

 

 Timor, anos 20 do séc. XX?

 


Jesus mouris iha manu kokoreek!  Jesus nasceu ao cantar do galo!

A luz do petróleo incendiava a casa de estrelas. E íamos, toda a gente, a família e os que viviam connosco em família, festejar o nascimento de Jesus que o galo anunciara.[…] Recebíamos presentes trazidos do bazar e que tinham entrado em casa às escondidas. Não eram bem brinquedos, mas coisas que nos enfeitavam — tecidos bonitos, alfinetes de ouro, chinelas bordadas...

A Princesa minha mãe morreu, era menina ainda. Mas o Natal ficou nos meus olhos e na minha alma como afirmação de que Jesus passeara por toda a ilha de Timor tal como o fizera desde Belém a Jerusalém.

 

*

 

Na linha de cultos lunissolares, que imprimiu e imprime sinais e marcas indeléveis na alma dos Timorenses, a consubstanciação de Maromak como ente supremo, Deus, não representava qualquer oferta de paz ou de alívio. Pelo contrário o conhecimento, a consciência de Maromak impunha receio e inquietação. […] Carregado de superstições, crente da existência de espíritos vagueando, dominado pela vontade e atitudes de bruxos e feiticeiros, responsabilizado pelos oráculos ou sacerdotes, o Timorense não pôde despir-se de todas as suas vestes ancestrais para com simplicidade tornar-se cristão. Isso explica em grande parte que ainda hoje se prenda tanto à terra e considere os objectos mais variados e lugares, montes, rios, árvores e casas como tabus ou luliks. De facto, entre o Homem e a Terra, e entre o presente e o passado há tão intimas e tão vivas alianças que dir-se-ia ser fácil fazer reviver todas as gerações do passado. De crenças totemísticas, há também animais luliks ou tabus, o que explica a atitude suave de todo o timorense para com os animais. Deve assinalar-se, para melhor acentuar a importância dos luliks na vida dos autóctones de Timor, que tabu significa exactamente uma prática supersticiosa da Oceânia que dá carácter sagrado a determinado ser ou a determinada coisa, proibindo o contacto com ele ou o seu uso. [...] O Cristianismo só o entendem na medida em que lhes garante o caminho para encontrar a Deus, mas querem, na busca, ter presente o melhor e mais subtil do seu passado. Por isso os uma-luliks ou templos permanecem na sua beleza estranha e misteriosa encastoados na paisagem grandiosa da ilha e cultuados pelos que têm os pés mergulhados no húmus mais fundo e mais rico daquele chão. Muitas das cerimónias dos uma-luliks, as de maior relevo, conduzem os crentes a um tal estado de histerismo que findam em incontroláveis orgias. As famílias autóctones cristãs já se despegaram dessas orgias, porque receberam a suavidade da Presença de Jesus e a magnitude da Sua mensagem. [...] Como no tempo em que eu era pequeno e a Princesa minha mãe menina, os autóctones cristãos dessa ilha suave e viril, fruto de uma inexplicável simbiose de beleza e força, cultuarão o Menino Jesus na noite de Natal. E tal como eu, também os meninos de agora ouvirão das bocas de suas mães as palavras de anúncio do Anjo Gabriel:

Ave Maria, graça barak liu iha Ita-Boot; Maromak ho Ita-Boot; Ita-Boot di'ak liu feto hotu-hotu; Ita-boot nia Oan, Jesus, di’ak liu.

Santa Maria, Maromak nia Inan, haro-han ba Na'i Maromak tan ba ami-ata salan, oras ne'e ho oras ne'ebé ami-ata becik atu mate. Amen.

 

 

Fernando Sylvan aqui

Excertos de “Iha Kalan Boot – Jesus Mouris –  Iha Manu Kokoreek” 

Foto (data desconhecida) e texto publicados em Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961 - Edição do SNI, Lisboa

 


 

 

 


publicado por VF às 12:21
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