Quarta-feira, 5 de Outubro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Família

 

 

 

 

A família faz-nos amar pessoas de quem nunca gostaríamos se as tivéssemos conhecido de outra maneira. Assim, não gostamos delas mas amamo-las. Treino inestimável para a vida, de que nem nos damos conta: aprende-se sem ter de ser ensinado.

 

Família como é em Portugal. No centro está o próprio, com pai e mãe, irmãos, irmãs, avós paternos e maternos, tios, tias, primos, primas, a certa altura quase sempre também mulher ou marido, filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas (e sogros, sogras, genros, noras). O parentesco traça-se igualmente pelo lado do pai e pelo lado da mãe; este sistema de parentesco, existente na Europa toda e, hoje em dia, em muitas outras partes do mundo, chama-se cognático. Há outras variedades. Se o parentesco se traça só pelo lado do pai o sistema chama-se patrilinear. Se se traça só pelo lado da mãe chama-se matrilinear - o que não quer dizer mulheres a mandar; quem manda são sempre os homens (‘matriarcados’ são ficções mitológicas). O que varia é a transmissão de bens, obrigações, honras de uma geração para outra. No sistema cognático estes são transmitidos pelos dois lados, no patrilinear eu herdo através do meu pai e o meu filho herda através de mim. No matrilinear eu herdo através do irmão da minha mãe e o filho da minha irmã herda através de mim. No primeiro caso não tenho parentes do lado da mãe; no segundo, é do lado do pai que não os tenho. Nalgumas sociedades tradicionais, como as dos aborígenes australianos, há regras de casamento complicadíssimas. Os europeus que as descobriram em finais do século XIX só vieram a entendê-las devidamente com ajuda de modelos matemáticos, enquanto os aborígenes, analfabetos e ignorantes de álgebra, as dominavam tão completamente que sabiam sempre com quem poderiam casar ou não (antes de instrução e envangelização obrigatórias lhes terem começado a embotar a broca do entendimento).

 

Seja como for, a família –no começo disto tudo, à bulha com outras famílias - é o primeiro grupo a que se pertence. Quer para quem acredite, com Jean-Jacques Rousseau, que o homem é naturalmente bom e é a sociedade que depois o estraga, quer para quem acredite, com Thomas Hobbes, que a maldade nos vem da matriz e só a sociedade poderá minorá-la. Desde que há homo sapiens até hoje – um ápice na história do universo – outros grupos foram tirando comando e controle à família até se chegar à visão de superestado que a União Europeia ambiciona ser. Mas quando as coisas dão para o torto como, de há 8 anos para cá, estão a dar na Europa e nos Estados Unidos – “A malta agora é mais pobre do que eram os pais da malta” - a família sai do pano de fundo e volta à boca de cena, nem sempre para maior bem-estar de todos nós. Com ela reforçam-se, em ordem descendente de mal fazer, máfias, nepotismo, corrupção, compadrios. Perde-se respeito pela coisa pública - a res publica, a República – e pelos que enriquecem à custa dela e nossa. A hora é dos gladiadores. Não se irá ao sítio a bem.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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Fábrica de armamentos em Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial 

 

 

 

 

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Pátrias

 

 

 

“O patriotismo é o último refúgio do bandalho” proclamou o Dr. Samuel Johnson, lexicógrafo inglês do século XVIII - na Europa, pátrias começavam a ganhar mais importância do que fés e dinastias - cujo humor cáustico continua a ser apreciado. Reforçadas por revoluções europeias de meados do século XIX, pátrias mostrariam a sua força crescente contra outras lealdades na Primeira Guerra Mundial: as classes operárias alemã e francesa, marimbando-se para exortações a que proletários de todo o mundo se unissem, mataram-se zelosamente uma à outra nas trincheiras da Flandres. “Patriotismo é amor dos nossos; nacionalismo é ódio aos outros” lembrou por seu lado Roman Gary, nascido judeu polaco, morto – por suicídio – cidadão francês, cuja origem estrangeira levara a baixarem-lhe a Note d’amour na academia aeronáutica, se juntara aos aviadores da França Livre de De Gaulle e foi, até hoje, o único escritor a ganhar o Prémio Goncourt duas vezes – a segunda sob pseudónimo, a mangar com o júri - publicando também romances em inglês e casado algum tempo com Jean Seberg de quem se separou e que se suicidou antes dele. Na sua vida e à sua volta desenrolaram-se muitas das barbaridades do fim da primeira metade do século XX no centro da Europa.

 

Nós portugueses, a irmos para nove séculos de história dentro das mesmas fronteiras – que os Amigos de Olivença me perdoem a pequena inexactidão – oito se quisermos contar com Tavira, não damos valor ao sossego ontológico desta periferia com vista para o mar. Devíamos dar. Javier Solana contou-me ter conhecido em Bratislava senhor muito velho que ao longo da vida mudara sete vezes de nacionalidade sem nunca ter mudado de casa. A mim explicou-me há meio século proprietário alentejano, para me contar da vida sob a Primeira República (1910-1926): “Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há”. Para nós, as leis mudaram poucas vezes e, sobretudo, nunca nos mandaram dizer que eramos outros. Logo a seguir aos anos do fim do Império, anos em que tinham realmente querido dar-nos cabo do juízo (diante de mim, no Clube de Évora, um deputado à Assembleia Nacional e dois grandes lavradores do distrito disseram a jornalista francês de Le Monde, vindo por haver ‘eleições’: “Portugal é uno do Minho a Timor” em uníssono sem sombra de ironia na voz), amigo meu que ensinava em Genebra recebia compatriotas incessantemente preocupados com a “identidade nacional” - o que o deixava perplexo porque, dizia, não havia país mais idêntico que Portugal.

 

Talvez por isso, cá o Dr. Johnson não vigore: os bandalhos terão de encontrar outro refúgio. Lá fora, estão ultimamente na maior: patrioteiros como Marine Le Pen em França, Trump nos E.U.A., Putin na Rússia, Orban na Hungria, Duterte nas Filipinas, etc., etc. trazem à superfície o pior na sua gente, voltam-na contra outras gentes e aceleram o mundo para novo desastre.

 

As luzes que em 1914 se apagaram na Europa apagam-se agora pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

 

 

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Defesa europeia, Brexit e bom senso

 

 

 

 

Alguns entusiastas vêm na saída anunciada do Reino Unido da União Europeia não um desastre mas uma oportunidade. O seu argumento é que, ao longo dos anos, o Reino Unido várias vezes impediu com o seu veto projectos de defesa europeia propostos por outros estados membros (na União Europeia, questões de defesa são decididas por unanimidade) como, por exemplo, a criação em Bruxelas de um quartel-general europeu. Deixando os ingleses a União, outros poderão levar os seus projectos avante, aumentando assim, segundo eles, a capacidade defensiva da União Europeia.

 

Hão de poder, com certeza. Mas espero que o bom senso prevaleça e isso não venha a acontecer. Os vetos dos ingleses a tais iniciativas não eram birras, eram resultado de duas condições necessárias para que defesa europeia eficaz possa existir: uma, que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (vulgo NATO) esteja pronta a intervir 24 horas por dia, 365 dias (6 em anos bissextos) por ano em caso de ataque a qualquer membro da Aliança (não aconteceu até agora e só esteve para acontecer uma vez: a 12 de Setembro de 2001, evocando o Artigo V do Tratado, todos os outros Aliados se disponibilizaram para ajudarem os Estados Unidos mas estes agradeceram e recusaram); outra, que os países Aliados elaborem os seus orçamentos nacionais de maneira a poderem arcar com as despesas que lhes caibam na partilha do fardo fiscal colectivo da defesa da Europa, em que os Estados Unidos também participam.

 

Enquanto a União Soviética existiu, medo saudável dela ajudou a arrumar as ideias nas cabeças de ministros, parlamentares e contribuintes na Europa Ocidental, e foram feitos esforços sérios de cumprimento das metas orçamentais acordadas para cada Aliado. Depois do colapso da União Soviética e do fim da Guerra Fria as coisas mudaram. Nenhum Aliado europeu gasta o que devia – e como devia - em defesa, sendo, de longe, o Reino Unido e a França os que mais se aproximam do cumprimento dessas obrigações. Juntamente com dimensão, arsenal nuclear e história (incluindo assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU), tal faz deles os únicos Aliados membros da União que são potências militares mundiais.

 

Na área da defesa, a saída do Reino Unido em nada enfraquece a União Europeia nem prejudica iniciativas Franco-Britânicas. Por uma razão: a defesa dos países membros da União Europeia contra eventuais ataques de terceiros cabe, não à União, mas à OTAN (directamente, para a maioria porque são também Aliados; indirectamente - tradição vinda da Guerra Fria -, para Irlanda, Áustria, Finlândia e Suécia que o não são).

 

O risco de “iniciativas europeias” (bem intencionadas ou/e antiamericanas), por exemplo, a de um quartel-general em Bruxelas seria, por um lado, prejudicarem unidade ocidental, condição sine qua non de bom funcionamento da defesa europeia e, por outro, competirem irracionalmente por fundos escassíssimos dando azo a ainda mais desculpas de mau pagador.

 

 

 

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Quarta-feira, 31 de Agosto de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Gemeinschaft

 

 

 

 

Quando eu era novo, Gemeinschaft era bom. Lembrava o tempo em que palavra de homem valia mais do que papelada oficial de burocratas sem cara e sem alma. Em que costumes seculares de aldeia, validados por gerações seguidas de analfabetos norteados por curas, prevaleciam sobre códigos escritos alheios, impostos pelo estado moderno, que os roubava para seu sustento e lhes levava os filhos para a guerra. Um tempo que provavelmente já não se vivia em parte nenhuma e que a saudade da gente imaginava. Mas o passado não pára de mudar e agora, segundo aprendi num ensaio de Henrique Raposo na revista do Expresso que trazia os Duques de Windsor na capa (“The Windsors were here alright. The bed is still cold”), Gemeinschaft afinal é mau e as nossas saudades dele também. Isto por razões longas de enumerar mas de que se pode dar o tom numa penada: se nesse tempo se falava com respeito de palavra de homem não se falava nunca de palavra de mulher. Era, aparentemente, coisa que não existia ou, se existia, não contava. Só fidalgas ricas, viúvas de jure ou de facto, se podiam dar a tal luxo, como D. Felipa de Vilhena armando os filhos cavaleiros.

 

Marx, sempre a puxar a brasa à sua sardinha, escreveu que não havia uma moral dos senhores e uma moral dos escravos: havia uma moral feita pelos senhores para os escravos. Julian Pitt-Rivers, antropólogo inglês que morreu há quinze anos, entre as três mulheres com quem foi casado contou uma duquesa espanhola, viveu uns tempos numa vilória do sul do país e observou-a bem (“The town begins and ends as abruptly as the Spanish day”) explicava que, em Espanha, os muito pobres – e nessa altura havia muitos - não tinham meios que chegassem para se poderem portar bem, os muito ricos, incluindo então muitas Grandezas de Espanha, tinham meios demais para precisarem de se portar bem, e eram as vastas classes médias que passavam por este mundo permanentemente atormentadas por rosário de penas que temor a Deus ou falatório de vizinhos lhes quisessem causar.

 

Voltando às mulheres, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) que comandara a pacificação de Évora depois da revolta do Manuelinho em 1637 fora claro numa passagem capital da sua Carta de Guia de Casados: “Que o marido sofra da mulher tudo menos ofensas e a mulher ofensas e tudo”. Lido hoje, tal não se enquadra bem no espírito do tempo.

 

Assim nos vamos entretendo por Lisboa, capital do Porto, enquanto a Europa (ou melhor, a União Europeia, invenção política que tem dado aos europeus de hoje peso e força no mundo, isto é, seguro de vida) se vai destricotando em protecionismos protofascistas. Cercada por um mundo onde os valores do Iluminismo e da Democracia Representativa são arvorados em inimigos do povo. Onde Putin, Erdogan, teocratas sauditas e teocratas iranianos praticam com desenvoltura guerras pequenas, preparando-se para grandes guerras. Onde Trump quer privar a OTAN do arsenal nuclear americano e se arrisca a ser eleito em Novembro.

 

 

 

 

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Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

Fernando Guedes, editor e homem de cultura

 

 

Untitled-1.jpgFernando Guedes (1929-2016)

 

 

 

 

Ignoro se têm sido muito ou pouco estudadas eventuais afinidades do nosso modernismo com o dos Britânicos, para além da comum recusa do sentimentalismo (mas talvez não a procura radical da despersonalização e do distanciamento, que quase só encontramos em Pessoa; a estética imagista só terá verdadeira expressão portuguesa com Alberto de Lacerda, mas esta poderá ser uma opinião controversa), mas não resisto a chamar a vossa atenção para os conselhos que William Carlos Williams, um outro americano que foi figura de proa do Imagismo, dava à poeta inglesa Denise Levertov, em 1954, repercutindo ainda nesse momento, de forma bastante fiel, o ideário imagista de Pound e Eliot em 1914. Dizia ele: «Corte, e corte de novo, tudo o que escrever — ao mesmo tempo que por obra da sua arte não deixa vestígios dos cortes — e o resultado final ficará repleto do que tem para dizer».

 

O crítico britânico Harold Monro, num livro intitulado Some Contemporary Poets, publicado em 1920, conta a história de um jovem poeta americano recém-chegado dos Estados Unidos que procurou Eliot a fim de lhe mostrar os seus trabalhos. Este, ponderou longamente em silêncio um poema e, erguendo finalmente os olhos, terá dito: «Precisou de 97 palavras para o fazer; eu acho que poderia tê-lo feito em 56». Mas nada disto era novo e os próprios imagistas não se cansavam de o afirmar: «Estes princípios não são uma novidade; caíram em desuso. Eles são o essencial de toda a grande poesia».

 

É claro que estamos no plano estilístico da precisão. Mas creio que poderíamos articular isto, independentemente dos particulares relativos à diferença de contextos, com o que António Ferro — fundador e referência desta Casa — escrevia, em 1919, em Leviana (publicado em 1921):

 

«O excesso de pormenores embrulha a concepção, a intenção. Já que não podemos simplificar a vida, simplifiquemos a literatura. A literatura, como a vida, está atravancada. Há que descongestioná-la: um só quadro numa parede, dois ou três móveis em cada sala. Simplifiquemos! Simplifiquemos! A falta de espaço é cada vez maior. Há que fazer peças com poucas personagens, romances com poucas páginas, telas com poucas tintas. Seleccionar! Seleccionar! Escrever muito é fácil. Escrever pouco é heróico, muitas vezes. Poucos escritores têm essa coragem».

 

Como é sabido, The Waste Land, o poema de Eliot que Fernando Guedes considera o mais visionário do século xx, foi drasticamente reduzido na sua dimensão pela mão de Pound, que na dedicatória de Eliot é justamente designado como il miglior fabbro.

 

***

 

Há muito que Fernando Guedes se interessa por estes dois autores, Eliot e Pound. Poeta, ligado à Távola Redonda, nessas «folhas de poesia», cuja publicação se iniciou em Janeiro de 1950, apresentou e traduziu ambos (possivelmente pela primeira vez entre nós, como ele próprio notou na sessão de apresentação do livro). Eliot fora distinguido com o Nobel em 1948; Pound, internado num hospital psiquiátrico, recebera o Prémio Bollingen, em 1949. Posteriormente, no final da década, Fernando Guedes haveria de dirigir uma outra revista que logo no título – Tempo Presente – evocava Eliot (O tempo presente e o tempo passado/ São ambos presentes talvez no tempo futuro/E o tempo futuro contido no tempo passado) e que no segundo número apresentava traduções de Pound e saudava a sua libertação, ocorrida no ano anterior.

 

Deste modo, o que Fernando Guedes faz nestas quatro comunicações é arrumar de forma condensada o seu próprio percurso de leitor de Eliot e Pound ao longo de décadas e apresentar a sua visão sobre o lugar de cada um deles na poesia do século xx. Partindo de uma perspectiva, que foi antes de mais geracional, de reavaliação da modernidade face à tradição, de indagação estética (o tal percurso partilhado em fraterna amizade com Fernando Lanhas), mas também ideológica na marcação das suas distâncias, Fernando Guedes engloba no seu interesse por estes poetas a dinâmica concisa e complexa da estética imagista, a relação com as artes plásticas, e, muito particularmente, a sua ressonância mítica e religiosa.

 

 

Jorge Colaço

 

Excerto de um texto lido no Círculo Eça de Queirós no dia 4 de Setembro de 2014 a propósito do livro de Fernando Guedes T. S. Eliot e Ezra Pound – uma tentativa de aproximação às suas vidas e às suas obras, publicado nesse mesmo ano.

 

 

O artigo de Jorge Colaço  Na morte de Fernando Guedes (1929-2016)  aqui.

 

Algumas obras de Fernando Guedes disponíveis na Wook aqui

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 24 de Agosto de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

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Telefonema transatlântico (1927)  

 

 

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Escrita em dia

 

 

 

“Senhoras analfabetas a porem a escrita em dia” disse para mim mesmo, numa de Alexandre O’Neill, quando as vi as duas ao fundo da Comida de Santo, raparigas do meu tempo, exercitando as mandíbulas mais na conversa do que no feijão preto. Passou-se isto antes do Facebook e da restante variedade das chamadas redes sociais – antes do skype, embora já houvesse telefones (modernice que o Marechal Foch, comandante das forças francesas na Primeira Guerra Mundial, detestava, delegando sempre que possível num ajudante de campo e desejando vivamente o seu desaparecimento em tempo de paz) telefones que permitiam e permitem, valha-nos isso, namorar horas a fio, com fios ou sem fios através do éter, emitindo ou recebendo sopros delicados nas orelhas quando tenha de se julgar em vez de se poder experimentar.

 

Esta estranheza com o que é novo e algum medo dele existiu sempre mas é muito pior do que alguma vez foi (isto é, passou a haver muito mais gente assustada com o progresso do que encantada com o progresso, pelo menos no Velho Mundo) porque, por um lado, o ritmo das mudanças técnicas nunca acelerou tanto quanto agora e, por outro lado, também graças a esse ritmo, tudo se sabe in real time (como há quem goste de dizer nestes nossos dias em vez de dizer ‘no mesmo momento’ ou ‘na mesma altura’). Dantes não era assim: a batalha de Waterloo que fixou por quase um século o destino da Europa, derrotando Napoleão e reforçando o poder da Inglaterra e dos alemães, foi travada um pouco ao sul de Bruxelas entre o nascer e o pôr-do-sol do dia 18 de Junho de 1815 mas o resultado dela, levado por estafeta que ia mudando de cavalos – com o Canal da Mancha de permeio - só foi conhecido em Londres quatro dias depois. Washington Irving, romancista americano do século XIX escreveu um conto que ficou célebre, apareceu em antologias, foi ensinado em cursos de literatura, traduzido em dezenas de línguas e se chamava O homem que dormiu vinte anos. O herói, para lhe chamar assim, dormira efectivamente duas décadas e, depois de acordar na mesma cama, encontrara ao levantar-se, no dia-a-dia restabelecido, muitas coisas novas que nunca conhecera antes e muito o perturbavam. Tenho-me lembrado dele mas pensando que, pelo andar da carruagem, daqui a quinze ou vinte anos, outro ficcionista americano dotado poderá publicar novo best-seller sob o nome “O homem que dormiu vinte minutos”.

 

Muito do que se passa agora nas tecnologias de ponta é inédito: entra na categoria das novidades absolutas mas mudanças vertiginosas de outra natureza já várias vezes assustaram gente. Por exemplo, inflações galopantes, de que a alemã dos anos 20 por ajudar à subida de Hitler ao poder ficou célebre, deram quotidianos bizarros. Amiga exilada no Brasil em 1975, no supermercado punha-se à frente do empregado que ia aumentado os preços de uma ponta à outra da loja e teve uma criada que comprava cuecas pagando em dez prestações porque assim lhe saíam muito mais baratas. 

 

 

 

 

 

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Domingo, 21 de Agosto de 2016

Letters to J.D. Salinger

 

 

Penguin-1248 Salinger Catcher on the Rye-rc.jpg

 

 

 

Seymour'd told me to shine my shoes just as I was going out the door with Waker. I was furious. The studio audience were all morons, the announcer was a moron, the sponsors were morons, and I just damn well wasn't going to shine my shoes for them, I told Seymour. I said they couldn't see them anyway, where we sat. He said to shine them anyway. He said to shine them for the Fat Lady. I didn't know what the hell he was talking about, but he had a very Seymour look on his face, and so I did it. He never did tell me who the Fat Lady was, but I shined my shoes for the Fat Lady every time I ever went on the air again — all the years you and I were on the program together, if you remember. I don't think I missed more than just a couple of times. This terribly clear, clear picture of the Fat Lady formed in my mind. I had her sitting on this porch all day, swatting flies, with her radio going full-blast from morning till night. I figured the heat was terrible, and she probably had cancer, and — I don't know. Anyway, it seemed goddam clear why Seymour wanted me to shine my shoes when I went on the air. It made sense.

 

J.D. Salinger in Zooey (1957)

 

 

*

 

 

What stays to me the most from your books is the Fat Lady from Franny and Zooey. I remember Seymour telling his siblings to polish their shoes for the fat lady [...] I remember Zooey explaining years later to Franny that there wasn’t really a Fat Lady, that the Fat Lady is God, or that faceless unknown person in the audience for whom a performer must always do his or her best, even when we don’t feel like it, or when we’re confronted with a cold, unresponsive, audience.

 

Stephen Collins in Letters to J.D. Salinger, edited by Chris Kubica, Will Hochman

 

 

 

Letters to J.D.S..jpeg

 

 

 

 

 Leia também neste blog o post Everyone is the Fat Lady 

 

 

 

 

 

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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2016

Wartime Lies

 

Wartime Lies L. Begley.jpg

 

 

 

 

… upon rereading my book, it is clearer to me than ever, that it is quintessentially a work of fiction and not an autobiography or memoir, and that I had to write the story of Maciek and Tania in the form of a novel. The form was no less necessary than the emotional distance from the events I was going to evoke conferred by exile and the passage of time.

 

Perhaps I should briefly explain what I mean when I refer to the form of the novel. I understand the convention of the realist novel — a tradition in which I place myself — to require the novelist to write avowedly invented stories that so engage the reader's interest and sympathy that, while the spell lasts, he believes they are true or, at least, suspends disbelief. Novelistic invention does not, of course, preclude use of the novelist's own experiences and observations — of himself and others — in addition to material whose connection to his actual experience may be tenuous or indiscernible as he puts words down on paper. That is because the act of writing has the power to release thoughts and images of which one has had no premonition; one did not know they were within one's ability to summon up. Of course, when the novel has at last been finished, none of the material included in it has conserved its nature, whether it be personal experience, make believe, or serendipitous dis­covery; all of it has been transformed, as though the writer were a silkworm, and the bits and pieces of memory, associations, and knowledge leaves of a mulberry bush. These characteristics of the novel as form have an importance for me that I cannot overstate. They give the freedom to invent, consistent with the profound moral and psychological truth of the story being told, that treasure as my essential prerogative, and, like the passage of time and exile, they provide a psychic screen that has permitted me to approach matters, including the annihilation of Jews in Poland, that would otherwise seem intractable, even forbidden.

 

It should by now be clear that my insistence on the fictional nature of Wartime Lies is not a form of coquetry, and has nothing to do with some bizarre need on my part to avoid embarrassment to my mother or me. Neither of us has any more cause to apologize for or be ashamed of our lies or degradation during those war years than did Tania or Maciek — if I exclude the profound shame and disgrace of belonging to the same animal species as the men and women whose cruel and vile deeds I describe.

 

 

Louis Begley

in Wartime Lies [Afterword]

© Louis Begley, 1991 Afterword © Louis Begley, 2004

 

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Terça-feira, 9 de Agosto de 2016

ginasta olímpica (2016)

 

 

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Simone Biles fotografada por Norman Jean Roy para a Teen Vogue, Abril 2016

 

 

“Simone trains hard, but she also has uncanny air awareness. She can judge where she is in relation to the ground, even when she’s upside down. Some things you just can’t teach.”

 

o artigo The Full Revolution na revista The New Yorker aqui

 

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Quarta-feira, 20 de Julho de 2016

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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 Donald Trump e Nigel Farage

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Mundo novo

 

 

 


Pedro Pires de Miranda, com quem tive a honra de trabalhar quando ele era ministro dos negócios estrangeiros (“A política externa é óptima: só se tem inimigos!” disse-me uma vez - e outra vez, quando eu o informava que com três pessoas não conseguiria levar a cabo tarefa de que me encarregara, perguntou-me “Já experimentou com duas?”) pediu-me ao jantar em que o conheci que eu lhe pusesse, para o dia seguinte, em meia página, as diferenças entre as posições da OTAN e do Pacto de Varsóvia na Conferência Europeia de Segurança, em Estocolmo, onde ele viera acompanhar Mário Soares, Presidente da República, ao funeral de Olaf Palme (primeiro ministro sueco assassinado) e onde eu vivia, chefiando a delegação portuguesa à Conferência. No papel que lhe entreguei quando ele ia apanhar o avião escrevera meia dúzia de frases. A primeira, em inglês (língua franca da diplomacia, onde eu estava, e dos negócios, donde ele vinha), tocava no nó do problema: “We are right and they are wrong” (Nós temos razão e eles não). O mundo era menos complicado do que é agora.


Pedro foi-se embora há pouco tempo, eu ainda por cá ando mas nos trinta anos desde esse enterro nórdico especial (o assassino de Palme andava a monte, não se sabia quem era nem se havia cúmplices, desabaram sobre a cidade num fim de semana chefes políticos do mundo inteiro e, para preocupação suplementar dos serviços de segurança suecos, Shimon Peres, PM de Israel, no sábado, em vez de ir como os outros em carros mais ou menos blindados, foi a pé aos lugares onde tinha de se ir) desde esse enterro, dizia, os que tínhamos razão, ganhámos a guerra fria – e a Rússia perdeu-a - sem termos de dar um tiro. Éramos os melhores, os mais fortes, os mais ricos e ainda por cima, para algumas almas optimistas a História tinha acabado. Só que, como escreveu Nelson Mandela, quando se chega ao cimo da montanha que se está a subir descobre-se que há outra montanha que tem de se subir também, depois dessa mais outra ainda e por aí fora.


Ora para as montanhas que se seguiram e para a cordilheira que se vislumbra até onde a vista alcança nem nós nem os americanos - Atenas e Roma do mundo de hoje, houve quem gostasse de pensar - temos mostrado grande jeito. Perante a decadência do Ocidente (será finalmente desta?) avultam novos poderes – China, Índia; menos grandes mas incomodamente perto, a Rússia de Putin, segunda potência nuclear do mundo, batoteira das Olímpiadas, invasora de vizinhos e a Turquia, onde o islamista Erdogan venceu golpe militar pondo o povo na rua pelo FaceTime do seu iPhone – mas o podre vem de dentro.


Na pátria da Magna Carta, políticos encartados mentiram escandalosamente a eleitores que mostraram ignorância abissal e fartura sem remédio das “elites” - como se chama agora a quem saiba ler e escrever e tenha onde cair morto. Do outro lado do Atlântico, “Nós, o povo” reduziu a duas as pessoas entre quem escolher para suceder a Barack Obama e uma delas é Donald Trump. 

 

 

 

   

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