Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

Lembrança de um Nómada Meu Amigo



 

 

 

Ruy Cinatti (1915-1986)




Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes", leu o escriturário por detrás do balcão do consulado de Portugal em Londres. Mui­to novo, era poeta ainda por publicar: acometeu-o uma aura de deslumbramen­to. Levantou os olhos do pas­saporte e fitou o homem do outro lado.

"O senhor é o Ruy Ci­natti?"

"Sou, sou" respondeu o outro. "Não é por mal..."

Nada foi por mal, na vida do Ruy. Havia rigores desa­piedados: "Eu, com o Antigo Testamento entendo-me. Mas depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló — estragou tudo!" Esta dureza mais do que calvinista atravessava sem confrontos mortais a ti­bieza moral dos nossos costu­mes por vir entrecortada pe­las interjeições onomatopaicas e outras idiossincracias verbais que faziam parte per­manente da fala do Ruy. Quem tratava com ele apren­dia a dar-lhes sentido (para o Senhor Moreira, há meio sé­culo dentro do quiosque do Príncipe Real, entra o ano sai o ano, do nascer do sol à meia noite, "glú-glú e fló-fló" queria sempre e somente di­zer "um maço de Porto e uma carteira de fósforos"). Impediam que ele degeneras­se de moral em moralista e agasalhavam numa capa de pudor a sua carência afectiva essencial.

Em "O Livro do Nómada meu Amigo" lê-se este verso:

"Quem não me deu amor não me deu nada."

A poesia é uma coisa, a vida outra: entre a palavra escrita e a conversa desconjunta-se um universo; além disso, mais ainda do que em outros grandes poetas, a maneira do Ruy falar de si era muito diferente da sua maneira de escrever. O sentimento que levara ao verso acima, poderia, de viva voz, chegar-nos assim:

"Gadulha, eu quero ir ao cinema..."

Ditos deste — e o jeito de os dizer — irritavam de sobremaneira muita gente que os tomava por exibição oportunista e ridícula de mimo. Mas não irritava quem encontrara em Ruy Cinatti qualquer coi­sa de inefável, um milagre fugaz e inter­mitente que nos fora dado testemunhar. Por dentro do casulo de maneirismos lu­zia um cristal indestrutível. No nosso mundo relativo vingara uma exigência de absoluto.

Nos últimos anos, deambulava pelas ruas de Lisboa, distribuindo fotocópias de poemas seus sobre Timor, espécie de Catitinha literário, figura de escárnio e com­paixão. A tragédia de Timor, onde fora agrónomo e etnógrafo, tornara-se para ele uma obsessão moral mas os poderes que havia não o compreendiam nem o consi­deravam. A esquerda republicana — ma­çónica e machista — sempre o achara um diletante efemi­nado. Com os comunistas, em 1974, talvez se pudesse ter entendido mas, do lado de lá de um nevoeiro filosófico, eles eram, afinal de contas, tão brutais como os ocupan­tes indonésios da terra que ele amara sobre todas as ou­tras. Os amigos de direita ti­nham desaparecido da políti­ca no 25 de Abril e a nova di­reita desconfiava do seu pen­dor igualitário. Da nova es­querda estava longe: "Eu fui criado à direita mas foge-me o corpo para a esquerda — e o que vejo por aí é o contrá­rio". Isto no tempo da expan­são marcelista, quando ga­nhar muito dinheiro passara a ser 'de rigueur' para o escol da gente nova, mesmo daque­la que fizera nome no anti­fascismo universitário.

Uma das últimas vezes que estivemos juntos contou da sua ida ao Ballet Gulben­kian perguntar se o aceita­vam (aos sessenta e cinco anos). Pôs um disco no gra­mofone e demonstrou. De­pois dele sair, minha mu­lher, que é coreógrafa, disse-me que nunca vira nada as­sim: quem tenta dançar bal­let sem ser bailarino procura sempre imitar a maneira de dançar dos bailari­nos. Ruy Cinatti não imitara ninguém: entrara inteiro na música e, sem técni­ca, dançara com expressão lírica inultra­passável. Foi-se embora tarde, muito bêbedo e esqueceu-se lá em casa da bo­quilha que nunca cheguei a devolver-lhe. Guardo-a agora como uma relíquia. Nasceu no exílio em Londres em 1915 e morreu no exílio em Lisboa em 1986. 

 

José Cutileiro 

in Publico 9.6.1991

 

Imagem (e cinco poemas): aqui


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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

T.S. Eliot em Portugal (1938)

 




Sintra (Portugal) 1938:

Seated are T. S. Eliot and Guilherme Pereira de Carvalho, editor of «Lisbon-Courier». — Middle row (from the left): Robert de Traz, Jacques de Lacretelle, Mme de Lacretelle, Mme. A Ferro [Fernanda de Castro], António Ferro — Upper row (from the left): Máximo Buontempelli, Aldo Bizarri, J. Silva Dias.

 


In 1938 T.S. Eliot came to Portugal at the invitation of the Secretariado de Propa­ganda Nacional and took part in the jury which awarded the Camoes prize to Gonzague de Reynold. In June 1943 — in the middle of World War II — Eliot sent the editor of the Portuguese magazine «Aventura» Ruy Cinatti a letter: 

 

 

I am convinced (I may say in explanation) that the ultimate unity of Europe cannot come through identity of political organization, or a legal-political federation, or a vague brotherly love, or an identity of interest among the masses of the people, but from the unity of the Christian Faith, and the unity in diversity of civili­zation and cultures which Christianity brought about in the past.

And for the latter, I believe that the literary periodicals of the highest standards in each European capital have a responsibility, not only to their readers at home, but to each other.

For a few years it seemed as if my hopes might approximate as nearly to realization as human hopes can; and there were half a dozen literary periodicals, some now extinct, some, alas! the same only in name, which could, in time, have done a great deal in spontaneous co-operation (1).

We know what happened; and we saw political divergences, which in part represented a normal reaction against the nineteenth century illusion that there must be one ideal form of government equally suitable for every nation, encroach upon the field of culture, until political variety became cultural disunion. In a situation in which the chief cultural effort of each country is to protect itself against the culture of others, such interchange as my review The Criterion and the other reviews I have in mind required, became impossible.

Those of us who were engaged in that attempt during the twenty years between the wars, may have resigned our personal hopes, but have not, I am sure, abandoned our aspirations. We trust that Europe will not follow the same course again; and we look for another literary generation to realize our frustrated ambitions.

 

 

in "Lisbon Courier"  nº 33, Dezembro 1948


Notes:


1. The Managing Editor of «Lisbon-Courier» [Dr. M. W. Clauss] had met T. S. Eliot in 1928 in London, in his former capacity as Managing Editor of the «Europaeische Revue». Until 1932 this monthly revue, published in German in Vienna, Leipzig, and Ber­lin by Austrian Prince Charles Antoine de Rohan, established a close cooperation and exchange of articles with the «Nouvelle Revue Française» (Paris), «Nuova Antologia» (Rome), Ortega's «Revista del Occidente» (Madrid) and, last but not least, Eliot's «New Criterion».

 

2.«Lisbon-Courier» published this photo and text in 1948 to mark the award of the Nobel Prize for Literature to T.S. Eliot.

 

3. T.S. Eliot and the other members of the jury of Camoes Prize-1938 here





 

 


Ruy Cinatti aqui


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Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

Lisbon Courier (1948)

 

 

 

 

Lisbon Courier - Le Courrier de Lisbonne

Terceiro Ano, Nº 30 - 1 Setembro 1948

(foto de Ruy Cinatti)

 

 

 

 

 

História de uma ilha

 

Quando, antes da guerra, o português ido do ocidente. depois de muitas semanas por mar até o oriente, e após caminhar dias e dias ao longo de Sumatra e de Java e ter serpenteado por entre pequenas ilhas misteriosas. cheias de perfume e de cor, desembarcava em Dili, não encontrava decerto, nem a «metrópole», de tipo mais ou menos europeu, com que o europeu inadaptado se procura iludir, nem a "cidade misteriosa do Oriente» que o europeu sem experiência julga ir encontrar a cada passo. Díli era acolhedora, sem dúvida, com a sua população variada, constituída por europeus, por árabes, por chineses, por negros e enfim, pelos indígenas, com o seu comércio de capital dum território de 450.000 habitantes, com os seus bazares onde tudo se comprava, desde o «best-seller» americano até o amendoim, desde o equipamento desportivo até à linha de coser. Mas era, apesar de acolhedora, uma cidade pequena e modesta, sem grandes pretensões.

Os encantos que a cidade não possuía, possuía-os porém, de sobra, a ilha misteriosa e verde que para lá dela se estendia e sob cujo sortilégio, adivinhado do largo, antes do barco fundear na baía, o europeu desembarcava.

Para lá de Díli era a Natureza. Uma Natureza pujante e viçosa—sob cuja magia ficou sempre quem algum dia a percorreu. As estradas a meia encosta dos montes, por vezes atravessadas pela água cantante que cai em cascatas frescas dos cerros altos, as ribeiras das montanhas onde se colhe um camarão tão saboroso como o do mar, grande e bonito, as matas frondosas de madeiras raras, como a teca, o tamarindo ou o sândalo...

Perante uma Natureza como a de Timor, não há obra humana que resista ao interesse dos homens. E o caminho para quem tem de falar da obra humana, mais exactamente: da obra portuguesa nesta colónia que dista de Lisboa mais de 13.000 milhas, terá de ser o de não falar na Natureza...

Como escreveu o Capitão Pinto Correia, «certos aspectos há em que Timor se torna documento excelente de colonização portuguesa».

O primacial, de entre estes aspectos, é o da "política de ocupação ter cedido o lugar à política de administração e de fomento». Por isso acentuava, antes da guerra, o mesmo notável colonialista português, que Timor se renovava e progredia mercê dum escasso punhado de portugueses, corajosos e activos, que, isolados no interior da colónia, desenvolviam um esforço notável de criadores de riqueza agrária e de reformadores da mentalidade indígena.

Foi esse esforço, que ininterruptamente, ao longo de quatrocentos anos, a administração portuguesa veio dispendendo, que a guerra e a ocupação estrangeira fizeram duramente interromper.

Quando, ao terminar a guerra no oriente, teve o seu termo a ocupação estrangeira, não era só a capital da ilha— Díli — que se encontrava arruinada. Se a cidade, e com ela todos os outros grandes aglomerados urbanos, era um monte de ruínas, através dos quais o mato crescera por tal modo que tornava difícil reconstituir a linha dos antigos arruamentos, a verdade é que toda a ilha estava em ruínas, quer na sua rede de comunicações, quer agrícola e economicamente.

Com a destruição dos principais aglomerados urbanos, e em particular de Díli, destruíra-se a base do comércio que a colónia mantivera até à invasão, com a Austrália e com as índias Holandesas, Por outro lado, as pequenas indústrias locais dos couros, da ourivesaria e dos panos perdiam a base da sua laboração, que era, evidentemente, a paz e o comércio.


 

 

Bazar de Díli, 1948

 

 

 

A riqueza pecuária, uma das mais importantes bases da vida do indígena, era entretanto consumida pelos exércitos que ocupavam a ilha, podendo calcular-se, a despeito de faltarem índices seguros, que, finda a ocupação, estava reduzida a um terço do que o fora antes da guerra.

 

Se a este quadro acrescentarmos a situação da agricultura— arruinada em parte pela devastação dos campos, em parte pelo abandono das culturas pelos indígenas atemorizados com a ocupação e, ainda, o estado da rede de estradas, que ao findar da guerra se encontravam quase completamente intransitáveis, teremos traçado as linhas gerais da situação em que se encontrava a colónia de Timor em 5 de Setembro de 1945, quando de novo as autoridades portuguesas, passado o período da ocupação estrangeira, voltaram a exercer as suas funções de chefia e administração.

Tudo era urgente, tudo era necessário fazer, e se o prestigio português só se robustecera aos olhos dos indígenas durante o período da ocupação, — como o atesta de uma forma inequívoca a paz social que tem rodeado a administração e a obra da reconstrução levada a cabo pelo Governo da colónia de Timor — a verdade é que o que havia a fazer excedia largamente as possibilidades do momento.

O que já se fez atesta, porém, já hoje, honrosamente, o valor e o esforço do punhado de homens de quem se exige tudo e que se tem de contentar com muito pouco. E se a obra de restauração não está ainda terminada, isso deve-se, porventura, sobretudo, à circunstância de não se ter querido reconstruir apenas, mas também emendar e alargar o que, feito ao longo dos anos que precederam a guerra, sem plano nem perspectivas, precisava agora de ser desenvolvido e modificado com vista ao futuro desenvolvimento económico da colónia.

Assim, em menos de 3 anos, o governo da colónia, não só aproveitando a antiga rede de comunicações mas também alargando-a e alterando-a, pôde reconstruir toda a rede de estradas que liga já hoje todas as povoações mais importantes de Timor. A par das comunicações terrestres, entendeu o governo da colónia garantir também uma rede de comunicações aéreas; foi assim que, enquanto se construía em Baucau um aeródromo com características internacionais — que é hoje o maior de Timor — onde pode aterrar qualquer avião moderno, se construíam junto das povoações mais importantes pistas de aterragem cuja importância sob o ponto de vista da saúde pública, é enorme, dado o uso, corrente hoje na colónia, de aviões sanitários para o transporte de doentes.

A par da reconstrução do sistema de comunicações, e em breve estarão também asseguradas as comunicações telefónicas e telegráficas através de toda a ilha — o problema mais importante a resolver, era, naturalmente, o da reorganização da vida agrícola e da riqueza pecuária, bases do sustento da população indígena. Se, pelo que respeita à vida agrícola, a paz social de que acima se falou foi o elemento essencial que levou os indígenas a regressar ao trabalho da terra, já o problema da pecuária requereu medidas do governo. Assim, compraram-se na Austrália exemplares de gados diversos, enquanto a colónia era dotada de técnicos e de todo o apetrechamento necessário à fecundação artificial. Não é de resto estranho ao problema do rendimento agrícola de certas culturas, o problema da existência do gado bufalino, sabido como é que, desconhecendo a charrua, o indígena utiliza o búfalo para preparar a terra; é o que acontece sobretudo com as plantações de arroz.

A par destas medidas, o governo da colónia tem trabalhado no repovoamento das matas de sândalo e de teca, enquanto por outro lado construiu campos experimentais para entregar aos colonos e que são constituídos por terras destinadas a todas as culturas, pomares, uma residência de alvenaria e abundante água corrente.

A grande obra, porém, que há que levar a cabo, é a da reedificação de todos os edifícios que a ocupação estrangeira deixou em escombros ou ao abandono. E foram todos os que, através duma administração quatro vezes centenária, os portugueses haviam construído: casas de habitação, hospitais, edifícios públicos, escolas, igrejas...

Esta obra em via de realização por toda a ilha, será coroada com a construção da nova capital—Nova Díli— num planalto que se eleva a 800 metros sobre o nível do mar, sobranceiro à zona da antiga cidade de Díli. O local onde esta estava construída fora realmente escolhido por razões de ordem militar que, há cento e cinquenta anos, se sobrepuseram à circunstância da falta de salubridade não aconselhar nessa zona qualquer construção, devido à proximidade de pântanos.

Aí, nesse planalto, se construirá a nova cidade capital, com o palácio do governo, os demais edifícios públicos, a residência do Bispo, os consulados da Austrália, Holanda e China, e a zona comercial de europeus e indígenas. Entretanto, no local da antiga capital, o plano prevê a reconstrução da zona portuária de modo a assegurar o seu interesse comercial local.

Por toda a ilha haverá que construir igrejas, escolas, postos sanitários, campos para feiras francas, bazares...e, a par destes edifícios, casas para habitação de funcionários, de colonos, de comerciantes.

Toda esta obra, que levará decerto anos, atestará quando estiver realizada, que a obra de colonização dos portugueses não é uma obra do passado de que o presente se aproveite, mas sim uma obra do presente para benefício dos vindouros e atestará ainda que se, ao cabo das 13.000 milhas que separam Lisboa de Timor, o mundo é outro e novo, continua a ser mundo português.

 

 

 

Vasco Futscher Pereira

"Lisbon Courier"  Nº 30- 1 de Setembro de 1948

 

Fotografias de Ruy Cinatti

 

 

 

Mais fotos de Timor de Ruy Cinatti aqui 


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Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

A thing of love

 

Em finais de Abril de 2009 saiu o livro “Retrovisor, um álbum de família” e nesse momento mudei de assunto neste blog, admitindo regressar mais tarde ao arquivo familiar para partilhar mais algumas curiosidades. Aos leitores interessados que não acompanham o blog desde o princípio sugiro a leitura dos posts “Um álbum de família” aqui e “Kill all your darlings” aqui.

 

 

Regresso pois ao livro “Retrovisor” neste aniversário, com a apresentação da resenha de José Cutileiro, que me honra e faz sentir feliz com a(s) história(s) que conta.

 

 

 

 

 

 

 

 

Serra do Marão, 1946

 

 

 

 

 

 

A thing of love is a joy forever

 

 

 

 

RETROVISOR

UM ÁLBUM DE FAMÍLIA

de Vera Futscher Pereira

Editora: Rui Costa Pinto Edições

Lisboa, 2009

 

 

 

 

 

 

O QUE SENTI quando acabei de ler e ver "Retrovisor" chegou-me numa paráfrase do primeiro verso do Endymion de Keats (1), de que me sirvo agora para dar nome a esta resenha do livro. Da capa à contracapa é amor de filha, de irmã, de neta, de tia, de sobrinha, de viajante em vários mundos, que dá coração à aventura em que a autora se meteu, ajudada por legados de Pai e Mãe, escravos desde pequenos do tão certo secretário com quem a pena desafogavam e meticulosos na guarda de escritos assim feitos e de mais papelada.

 

Sobre esse espólio muito variado — de poesia lírica intimista a telegramas diplomáticos, passando por 'O livro do bebé' —, um acervo de fotografias e mais documentos coevos, o livro acompanha por algumas gerações uma família burguesa de Lisboa -, ou melhor, porque o nosso sistema de parentesco é cognático, várias famílias vindas do século XIX que em duas gerações afunilam até ao casal Margarida-Vasco e alargam depois noutras duas chegando às novas famílias dos seus filhos e netos. Margarida e Vasco são por assim dizer o epicentro, os heróis principais do livro, mas este demora-se também em mais gente que com eles teve a ver, da família chegada a amigos de passagem, em Portugal, no Brasil e noutras partidas do mundo. A autora entremeia na narrativa informações sintéticas datadas que nos recordam o que se ia entretanto passando, em paz ou em guerra, na história de Portugal e do mundo.

 

O livro está muito bem escrito, é graficamente bem-sucedido, folheia-se com gosto e como acontece com fotobiografias, a cujo género pertence, presta-se a ser lido de várias maneiras, desde ir olhando para os bonecos como se de um 'coffee table book' se tratasse — assim comecei eu — a escrutínio atento de fio a pavio, que me entreteve um serão em seus enredos romanescos. Embora me pareça que, para quem goste de História e de histórias bem contadas, o livro possa interessar mesmo quem não tenha conhecido qualquer dos seus personagens, enriquece com certeza a leitura ter privado com alguns deles, sobretudo com os principais. Por mim, não conheci Margarida, pessoa quasi inteiramente privada, de quem Ruy Cinatti me falou às vezes com grande ternura e cujos versos só agora li mas conheci um pouco Vasco, de quem fui colega, que em 1982 e 1983 foi meu ministro e que é de longe a figura pública mais importante entre as capas do volume (outra é o pai de Margarida, colaborador chegado de António Ferro quando este dirigia o Secretariado de Propaganda Nacional).

 

Encontramo-nos pela primeira vez num almoço al fresco na Gôndola, organizado para o efeito pelo Vasco Valente e o Fernando Andresen, estava eu em posto em Estrasburgo e Futscher em Nova Iorque. Chegou atrasado, como era seu costume, e contou-nos que na véspera à noite não conseguira falar ao telefone com a Malu, que ficara em Manhattan, devido a impossibilidade da Marconi estabelecer a ligação. Nas conversas que pela noite fora, em sucessivas tentativas, tivera com a operadora — de quem fora fazendo amiga e aliada - julgara identificar problemas de pessoal e de organização que levavam à insuficiência de serviço de que fora vítima. A seguir ao último ensaio vão de atingir Nova Iorque, metera pena ao tinteiro (era assim que gostava de escrever) e passara o resto da madrugada e a manhã a compor uma carta sugerindo soluções ao director da Marconi, que acabara de ir entregar na sede da companhia, já não me lembro em que rua da Baixa pombalina. Era um português transitivo.

 

A esse primeiro encontro seguiram-se outros, ao acaso de circunstâncias. Vindo do Conselho de Segurança, ficou em minha casa em Estrasburgo numa visita ao Conselho da Europa. E, ministro dos estrangeiros quando Francisco Balsemão era Primeiro-Ministro veio com ele numa viagem oficial a Maputo ao fim da qual negociou com Chissano, seu homólogo moçambicano, o comunicado de imprensa. Eu participara antes na negociação de outro comunicado de visita oficial a Moçambique, dessa vez do Presidente da República, sempre com Chissano do lado de lá, mas com outro ministro dos estrangeiros do nosso lado. Ambas as sessões foram correctas e eficazes mas na segunda, mal se sentara à mesa e haviam sido trocadas as cortesias de circunstância, Chissano tinha já, por assim dizer, absorvido dois valiums que o charme de Vasco infiltrara nele e passamos todos a seguir uma hora feliz.

 

Esse charme legendário, ao serviço de considerável intelecto e de uma curiosidade voraz, ajudou muitas vezes Vasco Futscher a levar a água ao seu moinho mas havia quem lhe fosse insensível. Nessas ocasiões o meu amigo ficava, como o desertor do poema de Desnos, a parlamentar com sentinelas que não compreendiam o que ele lhes queria dizer. Mas, do começo ao fim da vida, tal aconteceu-lhe muito raramente. Quando ele morreu dei por mim, que sou ateu tal como ele era, a imaginar a conversa com S. Pedro em que o Santo, seduzido, lhe abria as portas do céu.

 

Comunicações diplomáticas suas em momentos complexos da história portuguesa, páginas do seu diário, testemunhos de colegas e amigos nutrem a narrativa, recordando o diplomata excepcional que ele foi (e pondo muito justamente em relevo ter sido ele quem, em ocasião crítica, mantivera viva a causa de Timor-Leste nas Nações Unidas, tornando assim possível a independência negociada do país anos depois). Toda a gente que com ele - ou contra ele - trabalhou sentiu o cunho da sua personalidade invulgar na aplicação das regras intemporais da arte diplomática. O poder de uma pequena potência pode ser aumentado pelo talento eficaz de quem a represente e o exemplo de Vasco Futscher afinou a minha capacidade de avaliar o desempenho dos diplomatas. Desde então tenho para mim que um embaixador mau não representa o seu país, que um embaixador razoável representa o seu país – e que um embaixador bom disfarça o seu país.

 

O encanto e interesse de "Retrovisor" não se esgotam no que nos diz ou sugere sobre os dois personagens principais. Amor filial não impede a autora de contar feitos e mostrar caras de muitas outras pessoas, situando nos seus lugares e no seu tempo os múltiplos actores e actrizes desta saga, desde os que já morreram há muito tempo aos que agora começam as suas vidas. E aprendem-se coisas. Eu, por exemplo, não sabia que o Bernardo, meu antigo chefe de gabinete na União da Europa Ocidental, tinha sido campeão nacional de florete dos menos de 20 anos - e descobri que o primeiro Futscher chegado a Portugal, no século XIX, fora um austero suíço alemão protestante - e não, como eu imaginara do convívio com Vasco, um judeu céptico e bon vivant do Império Austro-Húngaro.

 

 

 

José Cutileiro*

in Negócios Estrangeiros . Nº 15 - Dezembro de 2009.  pp. 179-181

 

 

1. A thing of beauty is a joy forever.

 

* Embaixador

 

 

 

Na fotografia, da direita para a esquerda:

Vasco Futscher Pereira, Mª Helena Brion Pinto, Mª Madalena Brion de Vasconcelos, Margarida Futscher Pereira, Amândio Pinto, António Teixeira de Vasconcelos, Maria do Carmo Brion Sanches.

 

 

 

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Domingo, 8 de Março de 2009

Paisagens Timorenses

 

 

… mencionemos Alberto Osório de Castro (…) O «poeta simbolista / de facunda compleção», foi também um dos que, a par de Alain Gerbault, mais provocaram a minha ida para Timor, depois da leitura do seu livro A Ilha Vermelha e Verde de Timor, a que se seguiu a de O Sinal da Sombra e Flores de Coral, este impresso cm Díli em 1910, em papel de arroz, e com um esmero gráfico, que deixa a desejar o que hoje lá se faz. Sobre o primeiro livro escrevi, em 1950 (Explorações Botânicas em Timor):

«Quando, nos primeiros tempos da minha chegada a Timor, olhava de relance as árvores e procurava notar-lhes as diferenças ou — estranhas analogias, pude observar, desde logo, como graças a qualquer singular particularidade, algumas se fixavam na memória, enquanto outras recordavam, por semelhança, imagens conhecidas anteriormente.

De entre elas, lembro uma que se assemelhava pela cor e disposição dos ramos e das folhas à forma do alianto, exótica há multo aclimatada a Portugal e que se encontra com frequência no Ribatejo e na região de Coimbra (serra da Lousã), além de ser cultivada como ornamental em muitos jardins particulares.

Não tardei em indagar o nome por que era identificada a árvore em questão, mas infelizmente, as respostas eram nulas ou vagas demais para que pudesse conseguir o propósito desejado. Os indígenas, esses sim, conheciam-lhe o nome chamavam-lhe Ai-Feu.

Foi então que por amabilidade do Bispo de Díli, D. Jaime Garcia Goulart, obtive a titulo de empréstimo o livro de Alberto Osório de Castro, A Ilha verde e vermelha de Timor, que eu já conhecia através de uma leitura superficial, feita ainda em Lisboa.

Ao folhear as páginas deste livro deparei com a seguinte passagem: «... as Garuga pinnata rubescentes, de um primeiro aspecto de aliantos, mas duma arquitectura de ramos tão fina, em forma de candelabro».

A surpresa foi notável. Não só encontrara a nota associativa de uma imagem comum a dois espíritos de épocas e formação diferentes, como a via precisar-se através de outra imagem mais sugestiva: «... em forma de candelabro».

Desde então o livro de Alberto Osório de Castro foi lido e relido tantas vezes quantas o progresso do meu conhecimento de Timor e o convívio com as suas formas naturais o permitirem. Foi na leitura deste preciosíssimo livro — modelo de todos os que podem ser escritos por leigos sobre as possessões ultramarinas — que eu pude encontrar o pormenor saliente, a striking feature inicial de muitas espécies botânicas e de outras visões paisagísticas do mundo físico e humano de Timor. Não se pode ir mais longe na descrição, ao mesmo tempo poética e exacta, cientifica e literária, provando-se, uma vez mais, que o conhecimento poético supera o conhecimento cientifico quando aquele afina pelo tom da verdade objectiva. O livro de Osório de Castro, além de ser exemplar único da história literária e de se assemelhar por este e outros motivos à obra de Fernão Mendes Pinto, há-de ficar na literatura da especialidade como sendo a primeira contribuição moderna da fitografla timorense.... O amadorismo cientifico e a falta de elementos informativos, longe de prejudicar a estrutura da obra, estimulou todas as faculdades da Inteligência do autor, obrigando-o a aplicar a um mundo ignoto as várias facetas do seu poderoso talento descritivo. Qualquer coisa que se lhe depare é descrita com aquela frescura e novidade de quem inventa palavras certas para um conjunto de imagens que se experimentam pela primeira vez, sendo para considerar, sob um aspecto filosófico e político, que em 1909 tenha sido escrita por um poeta a seguinte afirmação: «Hoje a obra de colonização ou é científica ou não é nada...».

Não obstante o acervo de obras científicas que, entretanto, se foram acumulando sobre Timor, pouco ou nada se fez para que o mesmo servisse de base a qualquer empreendimento digno desse nome, mormente no plano infra-estrutural, que é o da própria Natureza, em si.

Em 1909, escrevia ainda Osório de Castro.

«A arborização das montanhas timorenses, a criação de grandes florestas do Estado, é hoje um imperioso, inadiável dever».

De 1909 até hoje, passados que foram 65 anos, não só não se arborizaram as montanhas timorenses, como se destruíram as florestas que ainda restavam. Para tal concorreu não poucas vezes a Administração, sob o pretexto «desenrascado» de que os terrenos de montanha recobertos pela floresta eram excelentes... para batatas (que até o são, mas sem que o facto justifique economicamente o argumento)!

Será que os poetas, por amor de Deus e do próximo (e também da sua musa) terão sempre que lutar contra iníquos, ridículos e imbecis? Ora batatas!

 

Ruy Cinatti

in Paisagens Timorenses com Vultos

Editora Pax, Braga, 1974

 

 

 

 

 

Mais sobre Ruy Cinatti e Timor aqui

 

 

 

 

 

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Sexta-feira, 6 de Março de 2009

carta de Timor

 

Carta de Ruy Cinatti para Margarida, 1946

 

 

A minha vida aqui tem sido um verdadeiro paradoxo. Sinto-me simultaneamente muito feliz e muito infeliz. Tudo que diz respeito aquilo que amedronta aqueles que vêm para Timor me encanta: a terra, o clima, a vida. Mas o trabalho é desolador. Já não falo na quantidade. Dias há que anda aí pelas 14 horas. Mas a natureza do trabalho é a mais oposta à minha múltipla vocação. (...) Valem-me aqueles momentos de contemplação verdadeiramente inefável da paisagem das minhas ilhas, “da minha ilha”.

 


O poeta-antropólogo Ruy Cinatti foi um nómada como os seus amigos Margarida e Vasco, mas nunca se perderam de vista. Deu uma ajuda importante a Margarida na preparação do seu segundo livro de poesia, "Bens Adquiridos" (Guimarães Editores,1974). Dos cinco poemas dela que escolhi para figurarem em "Retrovisor, um Álbum de Família", dois são dedicados a Ruy Cinatti.

 

 

Mais sobre CinattiTimor aquiaqui

 

 

 

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Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Ruben A. e Ruy Cinatti

 


Carreço, c. 1950

 


 

Ruy Cinatti foi um dos amigos mais queridos de minha mãe, e queria dedicar-lhe um post, a seguir aos Monteiro Grilo, e ilustrá-lo com esta fotografia. No entanto, ao procurar documentos sobre Cinatti numa pasta, encontrei a carta que a seguir transcrevo, e me faz regressar a Ruben A.. A fotografia pertence à fotobiografia "O Mundo de Ruben A." (Assírio e Alvim).

 

Coimbra a dos poetas 5-N-42

 

Caro Vasco,

É com um prazer enorme que te escrevo estas linhas pois além de me fazerem lembrar de ti, um bom e franco amigo me leva a recordar a tua simpática comparência ao nosso castiço jantar. Foste de facto um bom amigo – “a real friend”.

Feita esta introdução académica e pompadouresca mas sincera no seu realismo e surrealismo, vamos contar-te o que este menino vindo de Lisboa viu e ouviu. Excedeu em tudo não poderei dizer, mas em quási tudo a minha expectativa, esta Musa do Mondego. Tirando duas ou mais cenas cómicas duma graça infinita que me aconteceram à chegada e no dia seguinte, tudo se tem passado num ambiente clássico e de bom gosto. Uma das cenas de que fui protagonista é esplêndida e por isso te conto. Ei-la: como sabes não conhecia nada de Coimbra, cheguei de noite com a etiqueta ao pescoço, que dizia Rua de Sta Teresa 33. Cheguei a casa. Comi e dormi como todo o mortal, (lá alguns mortais, coitados negam a utilidade dum bom bife e dum carrascão) Deixá-los viver.

Aqui começa propriamente a cena. Segunda-feira de manhã, oito e meia depois de perguntar à criada mais ou menos o caminho para a Faculdade, ou melhor a Universidade, saio de casa e dirijo-me a passos largos pelo tal caminho. Chego a um sítio lindo ao pé dos Arcos e do Jardim Botânico e indeciso fiquei com respeito ao rumo a tomar. Olhei as plantas mas não me senti botânico, vi um eléctrico que dizia Calhabé e pensei que iria para a cidade dos rapazes pois o nome é próprio para ser adorado pelos “enfants terribles”. Nisto aparecem três tipos em capa e batina e outro com uma pasta, fiquei radiante, já não poderia fazer figura fraca perguntando o caminho para a Universidade. Foi a Universidade que fez a cidade! (Não lhes perguntei nada) Segui-os a passo rápido, andei, andei já um pouco desconfiado quando de repente os “bichos” (nome dado aqui aos alunos do liceu) param e entram para um jardim, então eu leio na casa, escrito em grandes letras: Colégio Luiz de Camões, Externato e internato — Ambos os sexos!!!!!

Eis caríssimo Vasco o que foi o meu primeiro contacto com isto tudo. Ri,ri e tornei a rir. A minha chegada a Coimbra como vês foi brilhante e cómica. Conto-te algumas coisas que se passam  na Liberalium Artium Facultas e que tu companheiro de louros nessas coisas deves apreciar. Tenho professores esplêndidos. Damião Peres a H. Dos Descobrimentos que ultrapassou tudo o que pensava a seu respeito.

Maximino Correia a Psicologia Geral, com muito sistema nervoso e localizações mas falando de Bergson, Freud e escolas modernas. Não me posso ainda pronunciar a seu respeito. H-F-Moderna (teóricas) Joaquim de Carvalho que fez duas aulas de introdução ao estudo da F. Moderna e a alguns aspectos da Renascença, falando e dominando o assunto com uma claridade imensa. (Práticas) Magalhães Vilhena, ainda não tive aulas com ele mas já lhe falei, andou-me a apresentar a todos os tipos dos institutos estrangeiros. Foi simpático.

H. Moderna tenho um Dr. Brandão, ainda só houve apresentação ??? Arqueologia tive hoje a primeira aula é o Orlando Ribeiro, já sabes a classe dele.

H.F. Portugal (2º semestre) Joaquim de Carvalho. Numismática (2º semestre) Damião Peres.

Eis um resumo completo da minha actividade escolar em que tenho uns colegas que só se interessam por futebol e animatógrafo. A mentalidade e o interesse cultural aqui é baixíssimo. Espero sem ser vaidade que isto seja óptimo para mim. Tirando os tipos do Novo Cancioneiro que são excelentes de resto a Academia aqui não tem interesse nenhum.

Os teus exames? A Margarida e sua morada? Tu naturalmente com muito amor. Enfim tenho de acabar a carta pois graças a Deus tenho mais amigos a quem escrever. Espero em Deus que passes e venças sempre pois este é o meu maior desejo. Aguardo carta tua com grande ansiedade recebe muitos abraços e dá cumprimentos a tua família.

 

Teu sempre amigo e futuro padrinho,

 

 

Ruben

 

Carta de Ruben para Vasco

 

 

Poemas de Ruy Cinatti aqui

 

Mais neste blog sobre Ruben A. e Cinatti aqui e sobre os estudos do meu pai em Coimbra aqui


publicado por VF às 09:54
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Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

O Mundo à Minha Procura

 

 

Nos corredores da Faculdade surgia o neo-realismo, receita de um estado novo ao contrário. Eu lia. Comprava esse movimento de sinceros e insinceros, sangue na estrada, miséria no lar, justiça que se impunha. O Alentejo dava porcos e neo-realismo, e passados mais de vinte anos continuava ainda a dar mais porcos e neo-realismo, tal o atraso de subdesenvolvimento em que nos encontramos. A cobertura quase total, os críticos mais apaixonados, tudo que não estivesse na defesa do povo, era condenado. Eu estaria para sempre condenado — um apátrida das letras. Mal sabia que daí a meses o acaso, mais uma vez na vida, me faria mudar de rumo. Iria encontrar em cheio, no domínio do poder literário, a força antídota e semelhante à situação política — aguardava-me em Coimbra a maçonaria poderosa e crescente do neo-realismo. O público estava já habituado ao ersatz, os editores caldeiravam a ração sem razão, não sabiam, dava-lhes dinheiro, como o algodão de Angola, o café e os diamantes. Havia que emborcar, e estar calado, saíndo fora da linha resultava levar na cabeça. E do Alentejo continuava a desembarcar mais prosa e mais suinagem. Tudo era verdade, quem não estivesse dentro da ordem nova, um excomungado. Havia que pertencer a uma ordem maçónica. Estar junto, amancebar o nosso espírito. Talvez a exigência da época, pensava eu. Qual época qual carapuça, sim a exigência mesquinha do português de querer tudo arregimentado. Essa a triste conclusão. O intelectual português passou séculos de perseguição e de miséria, não pode ter grandeza, a grandeza é produto da liberdade. No útero da sua natureza andrógina ele ainda ouve os sons da Inquisição, o silêncio da procissão dos autos-de-fé. Como haviam de aceitar um artista? Um artista só se aceita quando há liberdade de expressão. Foi assim que receberam Eça de Queirós, que sentiram Raul Brandão. Se eles ainda respirassem, seriam pasto para se queimarem vivos, tanto por parte dos neo-realistas como dos estado-novistas, ambos totalitários, ambos negadores de uma verdade de expressão que se sobrepunha à sua receita. Como podia eu ter consciência de culpa de um crime que não praticava?

A resposta foi dada pelo Cinatti ao publicar a revista Aventura. Ele não fazia cerimónia para dizer a verdade, menos ainda o Jorge de Sena, o Carlos Queirós, a Sophia, o José Blanc de Portugal, o Casais e tantos outros que colaboravam — "uma cidadela fundamentada na Amizade".

 


 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura (vol.II)

 

 

 

Dedicatória aos meus pais

do segundo volume da autobiografia de Ruben A.

1966

 

 

Mais sobre o autor aqui , a sua autobiografia aqui e a sua fotobiografia aqui

 

 

publicado por VF às 13:08
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