Domingo, 25 de Agosto de 2013

Delírio Lisboeta (1947)


Eu vi um corvo coxo numa taberna de Santos e uma caravela em relevo no mármore de um chafariz e disseram-me que era Lisboa. Acreditei. As ruas escusas cheiram a gato e a manjerico; as artérias, a coiro da Rússia e a sangue azul, um poucochinho corado. Oh! que horizontes, do Castelo! e que betesgas, da Graça! Já lá vai Palmela com seus adarves no azul do Sul, e a Arrábida redonda e perdida no céu. Voici Sr. Neves retroseiro (on parle français a refugiados) e o inefável Poço do Borratém ainda com um olho encarnado ao luzir da noite alfacinha. Lisboa está florida de bandeiras, frutificada de nêsperas, semeada de cláxones de táxi. Ó ver a lista!, eh!, tás tu...e lá lhe foram sete paus àquele, a quinze 'stões a bandeirada!...Se me vejo em Alcântara enterneço-me.


Os marinheiros comem tremoço saloio; as meninas da Promotora assomam de permanente às sacadas. Uma abada de glicínias — e é um palacete à Junqueira; um martelo-pilão — e é a massa compacta e gris do Porto de Lisboa. Chamo Cesário Verde, mas só vejo um retrato de adolescente numa sala fechada; ainda oiço a tesoura de podar guiando a videira diagalves. Mas já não há Liverpool na caligrafia dos escritórios do Cais do Sodré, nem encontro no Martinho da Arcada a luneta cristalizada de Álvaro de Campos, engenheiro. Da Ribeira Nova foram-se as naus e os galeões. Agora só Leontina lá bate sua tairoca de varina e manda-me dizer pela amiguinha feia se lhe eu compro um oleado para o fundo da sua canastra. Os pintores do meu país pintam o peixe e a flor no paninho adorado de Leontina, e a ferradura e a cabeça de cavalo no peitoral da égua do Aterro.


Se abro o batente ao bar da Rua Nova do Carvalho é tal qual a Cannebière: merci Marseille, quai des Belges... Além disso bebemos ginger-beer como qualquer inglês; capilé-copo-com-água. E ginjinha... No coração de Lisboa há um frémito dourado e um centilitro de sangue moiro, de má fama. Estes olhos pretos da Mouraria quem são? Que ardor é este que trago no peito e que levo pela Calçada dos Cavaleiros acima como um amolador leva a carreta e os panos do guarda-sol? De bombazina é que era! e uma mecha de cabelo furando pelo buraco da boina! Oh manhãs douradas de azeitona a tanto o selamin, com centelhas de prata tiradas pelo sol das clarabóias!

 

Só me falta morar às Escolas Gerais e passar os serões do meu último inverno numa farmácia ao pé. Quem quer avenidas e bairros bonitos — pois também tem ! Há desde o azul ao diplomático, e do pátio às casas económicas é tudo roupinha lavada e cheirinho a café, graças a Deus! Mas eu quisera ardor mavioso e solidó! Uma violeta é pouco se o jornal da tarde trás a bola... Ao Domingo iríamos ambos ao Campo Grande andar de bicicleta e, pelo Arco de Cego, com flechas de Cupido, juraríamos eterna comunhão. Tenho um tio que mora na Parada dos Prazeres, um amigo na Praça da Alegria. Que mais queres? Com o fado da Triste-Feia era uma tarde bem passada... Mas já não querem dar valor e apreço às coisas sérias! Um homem não pode estar sempre a fingir que é só aquilo que come e o chapéu que tira às pessoas, pois também há o desejo, o dia de domingo, a estufa fria, o viaduto da auto-estrada — e a alma que quer e nada encontra... Lisboa é boa. Tem torres, garages, ardinas; tem tudo o que é preciso para se chegar no paquete e se partir de avião. Nossa Senhora do Monte vê a neblina no Tejo e o fumo no Cata-que-Farás. Às 8 da manhã o destroyer entrou a barra. Cheira a goivos! Cheira a goivos no Alto de S. João!

 


Vitorino Nemésio

Panorama, Revista Portugesa de Arte e Turismo

Número 32 e 33, Ano V, 1947

Edição do Secretariado nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo


 

 

 

Vitorino Nemésio

Retrato de António Dacosta



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Terça-feira, 20 de Agosto de 2013

Vista de Lisboa (1946)

 

 

Panorama, revista portuguesa de arte e turismo
número 29, Ano IV, 1946

ilustração de Eduardo Anahory (1917-1985)




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Sábado, 29 de Dezembro de 2012

roteiro (1942)

 

 

 

 

 

 

Partindo de Lisboa no sábado de manhã, haverá tempo suficiente (dormindo em SETÚBAL), para apreciar lindíssimos trechos marítimos (do OUTÃO, da ARRÁBIDA e de SESIMBRA), o maravilhoso panorama do Castelo de PALMELA, palácios, quintas, monumentos e, no percurso, os mais pitorescos aspectos da risonha paisagem estremenha.

 

Desenho de Bernardo Marques?

Revista Panorama, nº 11, Ano 2, 1942



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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

Boas saídas...

 

 

 

Contracapa de Revista Panorama, 1960



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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Natal Timorense

 

 

 Timor, anos 20 do séc. XX?

 


Jesus mouris iha manu kokoreek!  Jesus nasceu ao cantar do galo!

A luz do petróleo incendiava a casa de estrelas. E íamos, toda a gente, a família e os que viviam connosco em família, festejar o nascimento de Jesus que o galo anunciara.[…] Recebíamos presentes trazidos do bazar e que tinham entrado em casa às escondidas. Não eram bem brinquedos, mas coisas que nos enfeitavam — tecidos bonitos, alfinetes de ouro, chinelas bordadas...

A Princesa minha mãe morreu, era menina ainda. Mas o Natal ficou nos meus olhos e na minha alma como afirmação de que Jesus passeara por toda a ilha de Timor tal como o fizera desde Belém a Jerusalém.

 

*

 

Na linha de cultos lunissolares, que imprimiu e imprime sinais e marcas indeléveis na alma dos Timorenses, a consubstanciação de Maromak como ente supremo, Deus, não representava qualquer oferta de paz ou de alívio. Pelo contrário o conhecimento, a consciência de Maromak impunha receio e inquietação. […] Carregado de superstições, crente da existência de espíritos vagueando, dominado pela vontade e atitudes de bruxos e feiticeiros, responsabilizado pelos oráculos ou sacerdotes, o Timorense não pôde despir-se de todas as suas vestes ancestrais para com simplicidade tornar-se cristão. Isso explica em grande parte que ainda hoje se prenda tanto à terra e considere os objectos mais variados e lugares, montes, rios, árvores e casas como tabus ou luliks. De facto, entre o Homem e a Terra, e entre o presente e o passado há tão intimas e tão vivas alianças que dir-se-ia ser fácil fazer reviver todas as gerações do passado. De crenças totemísticas, há também animais luliks ou tabus, o que explica a atitude suave de todo o timorense para com os animais. Deve assinalar-se, para melhor acentuar a importância dos luliks na vida dos autóctones de Timor, que tabu significa exactamente uma prática supersticiosa da Oceânia que dá carácter sagrado a determinado ser ou a determinada coisa, proibindo o contacto com ele ou o seu uso. [...] O Cristianismo só o entendem na medida em que lhes garante o caminho para encontrar a Deus, mas querem, na busca, ter presente o melhor e mais subtil do seu passado. Por isso os uma-luliks ou templos permanecem na sua beleza estranha e misteriosa encastoados na paisagem grandiosa da ilha e cultuados pelos que têm os pés mergulhados no húmus mais fundo e mais rico daquele chão. Muitas das cerimónias dos uma-luliks, as de maior relevo, conduzem os crentes a um tal estado de histerismo que findam em incontroláveis orgias. As famílias autóctones cristãs já se despegaram dessas orgias, porque receberam a suavidade da Presença de Jesus e a magnitude da Sua mensagem. [...] Como no tempo em que eu era pequeno e a Princesa minha mãe menina, os autóctones cristãos dessa ilha suave e viril, fruto de uma inexplicável simbiose de beleza e força, cultuarão o Menino Jesus na noite de Natal. E tal como eu, também os meninos de agora ouvirão das bocas de suas mães as palavras de anúncio do Anjo Gabriel:

Ave Maria, graça barak liu iha Ita-Boot; Maromak ho Ita-Boot; Ita-Boot di'ak liu feto hotu-hotu; Ita-boot nia Oan, Jesus, di’ak liu.

Santa Maria, Maromak nia Inan, haro-han ba Na'i Maromak tan ba ami-ata salan, oras ne'e ho oras ne'ebé ami-ata becik atu mate. Amen.

 

 

Fernando Sylvan aqui

Excertos de “Iha Kalan Boot – Jesus Mouris –  Iha Manu Kokoreek” 

Foto (data desconhecida) e texto publicados em Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961 - Edição do SNI, Lisboa

 


 

 

 


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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012

Panorâmicas (séc. XVIII)

 

 

 

Quatro panorâmicas e figuras aguareladas de usos e costumes das cidades ou regiões representadas:

1a Panorâmica—Configuração da Entrada da Barra de Goa; 2/1 Panorâmica—Perspectiva da Praça de Dio vista do mar; 3ª Panorâmica—A entrada do Rio de Janeiro; 4ª Panorâmica—Vista da Ilha de Moçambique, tirada do seu porto. Séc. XVIII.

 

in Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

 

 

Nota:

Documento apresentado em exposição no Museu Militar de Lisboa integrada nas comemorações do V Centenário da Morte do Infante Dom Henrique, 1960.

 

 

  

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Domingo, 6 de Maio de 2012

brinquedos (séc. XX)

 

 

 

 

 

 

Brinquedos populares inspirados na arte de tourear 

 

 

 

Fotos: Horácio Novaes
Revista Panorama (1945)

 

 

 

Grotescos toureiros farpeando, movimentam-se pelo afrouxar e retesar de cordéis, accionados por uma esfera de barro que se faz oscilar em movimento de pêndulo. Em muitos desses objectos recreativos, fabricados a trouxe-mouxe para divertimento das crianças de parcos recursos, as duas placas independentes, em que assentam o touro e o toureiro, são forçadas a giro circulatório, impulsionadas pelo rodar de uma simples carreta que os petizes puxam numa plenitude de entusiasmo. E os bonifrates azougados — como peças de fogo preso em arraial minhoto — bandarilham com fúria, mexendo exaustivamente os braços e a cabeça, enquanto o touro, circungirando, distribui chavelhadas a esmo...

 

 

 

Guilherme Felgueiras

In “Os Touros na Arte Popular” 

Revista Panorama Números 25 e 26, Ano de 1945, Volume 5º  aqui 

 

 

 

 

 


Estúdio Horácio Novais 

aqui

 

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Domingo, 29 de Abril de 2012

Tauromaquia Portuguesa

 

 

 João Branco Núncio

Vila Franca, Portugal 1949

 

 

À portuguesa tradição do toureio a cavalo se referem já crónicas de Strabão, citando os antigos lusitanos como amigos dos jogos hípicos, com touros, e outras que dão notícia de D. Sancho II alanceando touros ao estilo da época, e as de Fernão Lopes em relação a D. Fernando, e as de Garcia de Rezende que descrevem el-rei D. João II no gosto pelas touradas e fazendo frente e matando à espada um touro que em Alcochete lhe saiu ao caminho quando ia com a rainha. Outras crónicas descrevem façanhas do rei D. Sebastião como toureiro a cavalo, e dizem que o neto de Carlos V rojoneou em Cadiz, de abalada para o sonho de Alcácer. E muitos monarcas foram toureiros a cavalo, até D. Miguel que farpeou em Salvaterra, e na praça de Xabregas desta cidade de Lisboa, que teve redondéis no Rossio, no Terreiro do Paço, na Junqueira, no Largo da Anunciada, no local onde está o jardim da Estrela, no Salitre, no Campo de Santana e agora no Campo Pequeno. D. Carlos criou touros e D. Luís e D. Miguel entraram em tourinhas. E quantos fidalgos lanceando e rojoneando nas festas dos nascimentos de príncipes e das suas bodas e nos torneios peninsulares com os continuadores del Cid e de Villamediana, nas Praças Maiores de Espanha, em nobre competência, por sua dama, em alardes de valentia e de pompa pela gente de cada bando, a cavalo e a pé, com as armas e as cores de cada qual! Em Portugal manteve-se e aperfeiçoou-se a Arte de Marialva, tomando o nome do grande senhor e cavaleiro a quem mestre Andrade  dedicou o seu famoso tratado de equitação. Desde aqueles tempos, e até aos nossos dias, têm sido sucessivas as gerações de cavaleiros tauromáquicos. Estes e os forcados são os representantes do toureio português, uma vez que os bandarilheiros, e os antigos «capinhas», quási se limitam a imitar, até na indumentária, os seus iguais de Espanha.

Os cavaleiros  tauromáquicos têm indumentária própria: a casaca bordada e o tricórnio de plumas, e botas altas à Relvas — outro bom cavaleiro, do século XIX, em que brilharam também Mourisca, Tinoco, Castelo Melhor e outros. E os forcados, que, como os campinos, são do Ribatejo, terra dos touros, também vestem de forma característica, e também têm sua arte, porque não é apenas função de força o pegar um touro de cara, de costas ou de cernelha. Há que saber cair na cabeça da fera, evitando a violência do choque quando, para colher, humilha, e depois aguentar-se, «embarbelando» bem, ou, na melhor ajuda, torcendo bem a «pombinha», vértebra da cauda. E para se julgar da arte que pode caber em sorte tão rude, basta ver os últimos grupos de forcados-amadores, como os de Santarém e de Montemor, tão elegantes e pundonorosos, e até alguns profissionais que sabem dar terreno, com ritmo, com graça, como Edmundo e Garrett e os seus valentes conterrâneos do Ribatejo.

E tem ritual a sua aparição com a azémola das farpas, estas em duas arcas cobertas com pano rico, de veludo, que eles desdobram cuidadosamente ante a presidência, que manda recolher as caixas com os ferros para o uso da lide. Depois retiram-se os forcados para saltarem à arena quando o «inteligente» entende que o touro mete bem a cabeça e as hastes permitem a sorte. Os cavaleiros surgem, então, para as cortezias, outrora feitas ao som do hino real, caminhando passo a passo até sob o camarote da presidência, que saúdam em vénia de cabeça descoberta, depois recuando cerimoniosamente, voltando a avançar para se separarem nos cumprimentos ás quatro partes da assistência, ladeando e cruzando-se no meio do redondel, e sempre no cuidado dos cavalos bem ensinados, e na praxe dos movimentos.

 

 

 
 
Pepe Anastasio (aqui)
Algés, Portugal, 1949

 

 

 

Assenta o toureio equestre em três princípios básicos: cravar de alto a baixo, ao estribo e sem deixar tocar a montada. E, de uma maneira geral, além do mérito de equitador, necessita o cavaleiro de ser toureiro, isto é, de conhecer os touros e saber medir os terrenos. Carece o cavaleiro de firmeza de joelhos para as reacções do cavalo, que o deve temer mais a ele que ao touro, boa mão esquerda para mandar rápido, e boa direita para cravar, com pulso para aguentar a resistência, e certeza para encontrar o sítio próprio, com precisão. E o cavalo deve estar ensinado para todo o toureio, especialmente para entrar e sair nas quatro sortes clássicas: de cara, à tira, à meia volta e à garupa. E quando tudo corre bem, em tarde quente de verão, e o público, entusiasmado, aplaude cavaleiros e forcados, estes agradecem juntos, abraçando-se num gesto simbólico do seu convívio nos campos de Portugal — que a ambos dá o pão, o azeite, o vinho, e a alegria de viver ao sol.

 

 

El Terrible Perez

in  "Tauromaquia Portuguesa, Cavaleiros e Forcados"

Revista Panorama Números 25 e 26, Ano de 1945, Volume 5º

 

 

Fotos: Fernando Henrique Lezameta Simões (1920-2011) 

 

 

 

 

 

 capa de Panorama 

Nºs 25 e 26, 1945, Vol. 5º

 

 índice aqui 

 

Excerto do livro ABC da Tauromaquia de El Terrible Pérez, Edições VIC, 1944, aqui

 

 

Excerto do artigo Touradas em Portugal  de Conde de Sabugosa aqui 

 

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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

interiores (c.1942)

 

 

 

 

 

 

Fernanda de Castro, Lisboa c. 1942

Foto: Cecil Beaton
 
Revista Panorama nº 12 ano II 1942
 
 
 
 
Um blog sobre Fernanda de Castro aqui
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Domingo, 18 de Dezembro de 2011

Natal de Goa (1961)

 

 

 

 

 

A Virgem e o Menino

Ângelo da Fonseca (1902-1967)

 

 

 

Também em Goa, pobres e ricos, muito portuguêsmente, fazem presépio. Certas famílias, com alguma antecipação, semeiam nachiniru, cereal que grela rapidamente, em terra espalhada sobre uma pequena tábua. Quando as folhinhas começam a aparecer, formam um tapete verde sobre o qual é armado o presépio de palha.

 

*

 

Os preparativos iniciam-se com grande antecedência, principalmente com a confecção de certos doces típicos, que não faltam em nenhuma mesa, como os mandarês, hóstias grandes feitas de abóbora, secas ao sol e fritas em óleo de coco no momento de servir, assemelhando-se a bolachas muito finas, de excelente paladar. Outro doce peculiar a esse dia é o dodol, preparado com farinha de trigo, sumo de coco, jagra, castanha de caju e manteiga. O dodol ocupa sempre na sua confecção duas ou mais pessoas, que se revezam, pois cansa muito mexê-lo continuamente. De resto, a maioria dos doces goeses é feita por esse processo, como o doce de grão, o doce  bagi, a mangada, a cocada, e outros. [...] E não podemos esquecer os neureus, semelhantes a rissóis mas recheados com coco ralado, cozido em mel de açúcar ou lentilhas, sendo tudo frito em óleo de coco ou assado no forno. E ainda os oddés (lê-se ores), feito- de farinha de trigo amassada em agua e sal, redondos e fritos também em óleo de coco a ferver.

 

*

 

Outro elemento digno de menção especial é a iluminação das casas. Desde as vésperas de Natal até aos Reis, todos os lares católicos irradiam externamente uma luz suave proveniente de lanternas chinesas de diversos formatos e desenhos, com velas de cera acesas. [...] Um elemento, porém, é comum a todas: a estrela! É feita de bambu e forrada de papel de seda, branco ou de cores, e presa a um pau comprido espetado no chão. À noite, quando iluminada, dá-nos a impressão de uma estrela suspensa no céu límpido, evocando a que surgiu aos Reis Magos, assinalando o caminho de Belém.

 

*

 

E a véspera de Natal termina com a Missa do Galo. Todos voltam lentamente para casa, cheretas a servir de lanternas, abrindo buracos na noite. Os doces ficam à espera, pois a consoada é a 25, no próprio dia de Natal, em puro convívio familiar, regalando-se então todos com a boa comezaina, variada e gostosa.

E a meio do dia surgem os farazes.

Os farazes são talvez a classe mais baixa, sem casta, descendente dos primitivos habitantes dravídicos. Vivendo em comunidade mais ou menos tribal e dedicando-se à manufactura de utensílios de bambu, constituem uma das camadas populacionais de Goa mais sinceramente católicas, desprezados como são pelos brâmanes e pelas outras castas arianas. Isso recorda-me palavras que o grande poeta Paulino Dias, na sua narrativa dramática Os párias, põe na boca de um faraz:

 

Os nossos maiores, Pralada, Ravana, Hiraniaxipú, Bali, bateram os Árias e comeram a sua carne. É a vingança, ó Jiubá, dos crimes das eras, os crimes de defender a sua choupana, a sua mulher e os seus filhos. Hoje o estrangeiro os devora com garganta de cobre aquecido. Eu sei que num país depois do mar os Árias são expulsos, feridos, sem poderem passar pelas ruas, entrar nos Dharmasadas e nas pousadas. Pagam pelo que nos fazem, ó Jiubá. Nós temos ainda os deuses deles, Shivá, Rama e Parvati, e eles não nos deixam pisar o degrau do seu templo. Mil vezes melhores os cristãos e muçulmanos que nos aceitam como irmãos.

 

 

Vimala Devi

in "Natal de Goa"

Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961

Edição do SNI Lisboa

 

 

Notas:

 

Vimala Devi, Paulino Dias e outros autores da literatura indo-portuguesa  aqui

Angelo da Fonseca aqui

 

 

Museum of Christian Art, Goa aqui 

 

 

 

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