Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Giovanni Francesco Rustici (ca. 1495)

 

 

 

 

 

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Civilização

 

 

 

André Malraux, escroque francês de génio que se distinguiu nas letras (L’Espoir, La Métamorphose des Dieux), na guerra contra o fascismo (Brigada Internacional em Espanha), na guerra contra o nazismo (Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial) e na política (ministro da cultura de De Gaulle que, quando o amigo François Mauriac, prémio Nobel da literatura, lhe perguntou como conseguia aturá-lo, respondeu: “Malraux c’est mon vice”), escreveu: “Nós somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem.”

 

Era bom, era. O “nós” de Malraux referia-se a um grupo de pessoas muitíssimo mais pequeno do que aquelas que a nossa “civilização” abrange. Apesar de nas escolas actualizadas dos países mais desenvolvidos se aprender que o Big Bang, origem de nós e de tudo o resto, se deu há 13,8 biliões de anos, nada se sabendo do nada que houvesse antes, a vasta maioria da gente – sem chegar aos excessos de literalismo bíblico dos evangélicos americanos (ou, noutra variante de monoteísmo, igualmente candidata a civilização, ao literalismo corânico dos salafistas sauditas) – conforta-se com mitos de criação e redenção que – tal como água de Fátima desde que seja fervida – não fazem mal a ninguém, a não ser se, como acontece agora entre os salafistas, exijam a matança dos infiéis. (Há uns séculos também éramos assim: “E com muitas Ave Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num credo” conta Fernão Mendes Pinto, com o desembaraço de um tempo em que não havia ONG dedicadas aos direitos do homem nem governos empenhados na salvaguarda do estado de direito).

 

No século XX os europeus (e os chineses) foram apanhados em cheio por novo mito, na aparência tão radicalmente diferente das restantes fés – também vinha curar os nossos males mas tudo se passaria neste mundo - que podia ser tomado por outra coisa. Raymond Aron chamou-lhe o ópio dos intelectuais. O estardalhaço foi enorme mas o paraíso não se instalou na Terra. Gato por lebre, dirão alguns, mas o problema é que a lebre, ou melhor, as lebres também não dão conta do recado. Ao mesmo tempo que ser marxista passou a opção privada (assim como ser vegetariano ou filatelista), fés mais antigas - duradouras por nunca terem caído na esparrela de se considerarem ciência - reapareceram no esplendor da sua intolerância. E no mundo globalizado de hoje podem chegar a toda a parte. Na Birmânia, maioria budista maltrata sem dó nem piedade minoria muçulmana. 1.300 anos de cizania sangrenta entre sunitas e xiitas levaram o mês passado à matança de Paris, inspirada, planificada e executada por salafistas.

 

A Europa, adubada pelo Iluminismo, separou a igreja do estado: não matamos nem morremos por mitos religiosos. Considerá-la fortaleza cristã é disparate nocivo. A sua força vem da tolerância. É para defesa desta contra intolerâncias (budista, sunita, xiita, calvinista, católica romana, marxista, o que for) que precisamos de nos armar até aos dentes.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2015

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Atenas, 2015

 

 

 

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Depois da vitória do Syriza

 

 

 

Das flores postas por Alexis Tsipras diante do muro em Atenas que recorda e condena o fuzilamento de 200 resistentes gregos por soldados alemães do III Reich em 1944, do seu anúncio da intenção de ficar na Europa e no euro, fazendo entretanto coligação de governo com partido de extrema direita, hostil à Europa, depois do anúncio de posições de partida, grega e europeia+FMI, aparentemente irreconciliáveis, seguir-se-ão semanas de regateio digno de bazar turco ou da antiga Praça da Figueira ao fim das quais a Grécia irá ficar no euro (onde nunca deveria ter entrado, mas é assim).

 

Saída seria golpe mortal no projecto europeu. Hoje a alternativa europeia é: ou prosperarmos juntos ou arruinarmo-nos separados. Apesar de haver partidos estridentes contra a União nos quatro grandes países membros (e também nalguns pequenos) o bom senso tem levado a melhor de indignações causadas pela falta de cabeça e de coração dos nossos chefes políticos. Há quem pense que a mediocridade é inevitável depois de tantas décadas sem guerra; eu julgo que ela venha de um encurtar de vistas deliberado para agradar aos eleitores, garantindo paz sem ter de gastar em defesa. Com o fim da Guerra Fria, deixara de haver rapazes maus. Entretanto, essa aldrabice levou um rombo: a Rússia de Putin, na Ucrânia; muçulmanos sunitas salafistas no Estado Islâmico destaparam-na.

 

O projecto europeu fora lançado a seguir a 1945 para acabar com guerras entre a França e a Alemanha e para resistir ao expansionismo da União Soviética. Deu boa conta do recado – tal como a OTAN, a qual se houve tão bem que no conceito estratégico russo congeminado no Kremlin de Vladimir Vladimirovich (“A maior tragédia geopolítica do século XX foi o fim da União Soviética”) ocupa, juntamente com os Estados Unidos, lugar de papão-mor.

 

Tsipras manobra trunfo táctico que o alinha com os bons sonhos inocentes da troika: combater antes de tudo a corrupção - que Pasok e Nova Democracia sempre cultivaram - fazendo cumprir leis, pagar impostos, escolher funcionários por mérito e não por parentesco e compadrio. Em suma: inventando um estado novo. Tentar substituir a Grécia que há, com ascendência fantasiada de zénite intelectual e artístico e misérias e manhas de província otomana, por uma espécie de Holanda de 5ª Divisão.

 

Talvez os europeus, cercados de perigos, decidam que têm de se entender. Fala-se de perdões de dívida: são muitos na história do capitalismo, sobretudo à Alemanha em 1953. Há quem esqueça que então a URSS existia e era vital prevenir tentações neutralistas de Bona. Hoje o quadro é outro mas encontrar-se-á maneira de aliviar o erro da austeridade aplicada como remédio à doença grega (falsa teoria e prática nefasta) sem lesar outros contribuintes europeus.

 

O direito internacional é flexível. Quando, em 1998, Robin Cook disse a Madeleine Albright que, segundo os seus advogados, bombardear a Sérvia seria ilegal, ela respondeu: “Arranje outros advogados”.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Brasão da Cidade de Évora

 

 

 

 

 

 

Decapitações

 

 

O brasão da minha cidade natal representa guerreiro a cavalo que levanta na mão direita um montante e segura na esquerda as cabeças, cortadas de fresco e agarradas pelos cabelos, de um homem e de uma mulher. É Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, que para recair nas boas graças do rei D. Afonso Henriques que o banira da corte lhe ofereceu a tomada de Évora aos mouros. Para isso meteu-se a namorar a filha do vigia que, de uma torre fora de portas, indicava à noite, por sinais de fogo, se hostes que se aproximassem da cidade eram amigas ou inimigas. Ganha a confiança de ambos, organizou bando de gente sua, um serão degolou pai e filha, assinalou à cidade chegada de amigos, o bando cavalgou pela porta escancarada da muralha, matou os defensores num Credo e — Real, Real por El-Rey de Portugal! — Évora passou a ser nossa. Foi um dos momentos altos da reconquista cristã da Península.

 

Consta-me haver agora em Évora quem queira mandar o Sem Pavor para o caixote do lixo da História e inventar brasão que não ofenda correcção política. Espero que tal nunca aconteça. A correcção política liofiliza ditos e feitos de cada um, no afã de transformar a hipocrisia em virtude, e em Portugal agora o efeito é muito pior ainda do que em lugares que não tenham escolhido, como nós, a mediocridade para ambição e a subalternidade como regra de vida. Em anos passados, menos rasteiros, a despedida do trabalho ouvida a uma mulher a dias — “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe” —  já me parecera às vezes lema plausível para a política externa portuguesa. Desde então as coisas só têm vindo a piorar, incluindo a nossa aquiescência à adesão da Guiné Equatorial à CPLP que alia incongruência linguística e ganâncias despudoradas a incómodo moral, escusado para quem se proclamou democracia em 1976 e aderiu à Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Há quem goste de dizer que democracias são invenções ocidentais e que há outras maneiras de governantes e governados viverem a contento de todos. Mas a questão não é essa. É que, inter alia, o presidente fundador da Guiné Equatorial, país paupérrimo até à descoberta do petróleo, matou ou forçou ao exílio um terço da população, tendo crucificado adversários políticos dos dois lados de estrada que leva a Malabo e o sobrinho igualmente meio louco que o mandou assassinar e lhe sucedeu, além de manter a opressão brutal não se livra da fama de ter comido (literalmente) opositor exilado em Madrid que resolvera, insensatamente, voltar à pátria. Eu sei que tivemos o casal Ceaucescu em Queluz - mas que Diabo…

 

Voltando a decapitações. Lamentavelmente, as reacções dos Estados Unidos e da Europa às façanhas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria e do seu Califa de Rolex no punho têm sido sobretudo retóricas, o que é erro perigoso. Os americanos começaram bombardeamentos; esperemos que os continuem; que aliados aptos a fazê-lo se lhes juntem e que deixem por fim o EIIS como Roma deixou Cartago – arrasada e sem ninguém. 

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Maio de 2014

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

Domingo Ortega

 

 

 

 

 

 

O saber dos antigos

 

 

“Os velhos mestres estabeleceram as regras” lembrou o professor, irritado com modernices do caloiro. “Quando eram novos” disparou o caloiro e pensou com os seus botões: Game, set and match. Era numa escola de belas-artes de Londres, passou-se há mais de meio século e o professor já era anacrónico.

 

Nas artes plásticas, a boa-vai-ela tinha começado em França, com “O Salão dos Recusados” dos impressionistas em 1863. Pintura, escultura, desenho não pararam desde aí de viver em sobressalto; arquitectura e artes decorativas entraram também na voragem (incluindo a fantasia de Gaudi em Barcelona, inimitável à época porque em Paris ou Londres ou Berlim a mão de obra era muito mais cara do que na Catalunha). Na música e artes conexas, na literatura, o vendaval começara um pouco mais tarde mas o vento também não caiu ainda.

 

Antes, tudo fora diferente. Numa conferência pronunciada no Ateneo de Madrid, em 1950, sob o título “El Arte del Toreo” (desculpando-se por ter ousado saltar de espontâneo para arena tão sábia) o grande matador Domingo Ortega definiu génio como a acção de uma personalidade excepcional dentro de normas que são eternas. Desde o começo do toureio a pé – prática plebeia libertada no século XVIII do toureio equestre dos fidalgos – segundo Ortega, as normas da arte eram quatro: parar, templar, cargar y mandar. E dizem-me que continuam a sê-lo nos nossos dias. (Ao contrário do que acontece noutras artes, em tauromaquia há limites impostos pela realidade ao sucesso, até à própria viabilidade do experimentalismo. Como lembrou Jacques Lacan num momento raro de lucidez: “Le réel c’est quando on se cogne”).

 

O que aconteceu às artes aconteceu à educação. Durante milénios educar crianças consistia em tentar fazer com que os filhos ficassem iguais aos pais e as filhas iguais às mães. Na Europa e nos Estados Unidos da América, a revolução industrial inglesa e a revolução política francesa acabaram com essa simplicidade. A complexidade que lhe sucedeu e a pouco-e-pouco se espalhou por todo o mundo foi-se tornando mais variada, alargando-se agora às virtualidades do mundo digital. Toca a todos, premeia algumas originalidades e quando a Áustria, que perdeu o império na Primeira Guerra Mundial e os judeus na Segunda — isto é, que ficou sem corpo nem alma — se reencontra num transsexual com voz de soprano e barba de Capitão Haddock, talvez “normas eternas” tenham ido parar às urtigas — ou talvez os austríacos estejam enfim em paz uns com os outros e com o mundo.

 

Mas aprendi muito com a velhice: com a dos outros, em novo, mais do que com a minha, agora. Até coisas práticas. Quando o PREC nacionalizou Pancada & Moraes e o meu chorado Albaninho Costa Lobo levou grande rombo financeiro não lhe ouvi queixas mas notei uma mudança sensata. Antes de almoço no Belcanto passou a mandar pôr no copo whisky Red Label e não, como antes, Black Label (quer um quer outro com água lisa natural). Talvez gente nova não fosse tão avisada.

 

 

 

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Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Menino Jesus prefigurando a Paixão

 

 

 

Goa? séc. XVII
Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra
Arquivo Nacional de Fotografia / Carlos Pombo da Cruz Monteiro

 

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Domingo, 31 de Março de 2013

Ovo Fabergé (1912)

 

 

 

 



Presented to Alexandra Feodorovna by Nicholas II

Dated 1912

Designed in the style of Louis XV, this egg is carved from a solid block of lapis lazuli of superb quality, and is enclosed in an elaborately carved and chased gold cage-work composed of conventionalized motifs including scrolls, shells, baskets of flowers, winged cherubs and the Imperial double-headed eagle beneath a canopy hanging from a fretted arch. The crowned Imperial monogram and the year are shown under a rect­angular portrait diamond surmounting the egg; a large brilliant diamond is set in the base. Inside the egg, a crowned double-headed Imperial eagle, richly set back and front with rose diamonds, frames an oval miniature painting of the Tsarevitch Alexey; this important jewel is supported on a diamond-set base with four diamond leaves, curled to serve as feet. The reverse side frames a miniature showing the back of the eight-year-old Prince.


Here in this whole composition is a striking instance of the beauty of the frame, sur­passing by far the picture it holds, for it must be confessed that the miniature portrait, which is understandably not signed, provides in its weakness of execution, a melancholy anti-climax to a good design.


Signed by Henrik Wigstrom. 

In the Lillian Thomas Pratt Collection of the Virginia Museum of Fine Arts.

 

 

Kenneth Snowman

in The Art of Carl Fabergé

New York Graphic Society Ltd 1964

© Kenneth Snowman 1962 

 

 

 





 
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013

postal

 

 

Handpaar einer Doppelstatue des Echnaton und der Nofretete
Neues Reich, 18. Dynastie, um 1350 v. Chr.  Amarna; Quarzit
Inv. - Nr. 20494 Foto: Jürgen Liepe
Staatliche Museen zu Berlin - Ägyptisches Museum


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Terça-feira, 25 de Dezembro de 2012

The Child (XVIII century)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

22 x 38 x 23 cm 

Image from the CD-Rom The Madre de Deus Crib

photographs: José Pessoa/Cintra&Castro Caldas

© Instituto dos Museus e da Conservação / Museu Nacional do Azulejo  2007

 

on-line collective catalogue of Portuguese Museums  MatrizNet



 

publicado por VF às 00:26
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

Touro (séc. VII/VI a.C.)

 

 

encontrado aqui

 

 

Esta escultura em cerâmica recuperada no sítio arqueológico Cinco Reis 8, zona intervencionada no âmbito da empreitada do Troço de Ligação Pisão-Beja do Subsistema de Rega do Alqueva, pode ser vista até ao próximo dia 29 de Junho na sala de exposições da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva, S.A., em Beja.  A peça, representando um touro, em posição natural de repouso, deitado sobre o ventre e com a parte traseira ligeiramente recostada sobre a perna esquerda, tem uma altura de 23 cm, 17 cm de largura e 45 cm de comprimento. 

O sítio arqueológico de Cinco Reis 8, uma necrópole da 1ª Idade do Ferro, constitui uma das intervenções arqueológicas realizadas pela EDIA no âmbito da minimização de impactos da implantação do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva.

 

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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

presépio (séc. XIX)

 

 

 

 

Maquineta Adoração dos pastores*

Século XIX, início

 

 

 

Maquineta de autoria desconhecida, mas que traduz de modo eloquente o gosto pelo presépio no século XVIII português. Nesta tripla Adoração – as Sagrada Família, dos Anjos e dos Pastores – podemos observar que remetem para um certo arcaismo, como a posição das mãos e os cabelos soltos da Virgem, evocação das imagens de Dionísio e António Ferreira, ou a indumentária de dois dos músicos, memória de figurinos seiscentistas.  

 

 

 

* Presépio da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva

 

  Imagem e texto encontrados aqui

 


 


publicado por VF às 11:36
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