Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

dicionário pessoal: adaptação

 

A -in-the-form-of-a-tree

 

 

adaptação
a.dap.ta.ção
nome feminino
(de adaptar, originado no latim adaptare + suf. ção)

 

Violência de primeira grandeza é a adaptação. O grande imperativo da sobrevivência e, logo, da evolução das espécies. Existindo antes da palavra que a nomeia, esta cingiu-se com propriedade em volta da ideia, aferrolhando-se numa mecânica articulatória bem reveladora das dificuldades, plena de oclusões e explosões. A-dap-ta-te! – é o que nos dizem como se manuseassem um chicote, fazendo-o estalar secamente sobre os nossos costados para que aceitemos o que temos de aceitar. Para que tomemos a forma que o mundo tomar. Para nos conformarmos. Se não quisermos ficar para trás, perdedores, perdidos, sós. Se nos adaptarmos – se nos ajustarmos, resignarmos, abdicarmos, renunciarmos, sujeitarmos – o mundo perdoa-nos inadimplências e outros deslizes de menor monta. Permite-nos até anestesiar as dores dessa violência maior, que age primeiro no íntimo para depois alastrar, sofrendo mutações cada vez mais subtis, podendo resultar, como sabemos, na desfiguração. E não vale a pena pensarmos em criar carapaças demasiado rijas — acabaremos asfixiados dentro delas. Melhor seria deixar crescer uma tromba ou um quinto membro que permitisse colaborar a maior distância, tratando-se de indispensáveis incumbências presenciais. Isso ou outra forma de acomodação que evitasse a desconfiança devida aos inadaptados, e o consequente tratamento. Por outro lado, a saturação da adaptabilidade pode ser fatal se, sem nos darmos conta, acabarmos presos, esmagados no seu terrível aperto consonântico.

 

(retirado de um diário inédito)

 

 

 

publicado por VF às 16:51
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Domingo, 29 de Janeiro de 2017

dicionário pessoal: melancolia

 

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melancolia
me.lan.co.li.a
nome feminino
(do latim melancholia)

 

Abatimento visceral, estado depressivo. A palavra latina veio do grego e designava originalmente a «bílis negra», um dos humores descritos por Hipócrates e Galeno, entre outros, configurando um dos temperamentos humanos básicos: o temperamento melancólico. Segregada pelo baço (spleen), a acumulação disfuncional da bílis negra nos órgãos internos, nomeadamente no cérebro, produziria um tal temperamento. A melancolia tem sido objecto ao longo dos séculos de largas reflexões, cuja notícia não cabe neste dicionário. Bastará recordar, e sem falar dos Antigos, a obra setecentista Anatomia da Melancolia de Richard Burton (cujas proposições, segundo o estudo clássico de Lily Campbell, muito terão contribuído para a definição da personagem Hamlet) ou o sentimento de spleen, a malaise omnipresente na poesia de Baudelaire e um dos seus traços essenciais. O rei D. Duarte descreve no seu Leal Conselheiro (c. 1438) a crise de melancolia por que passou: «Por quanto sei que muitos foram, são, e serão tocados deste pecado de tristeza que procede vontade desconcentrada, que ao presente chamam em mais dos casos doença de humor melancólico, do qual dizem os médicos que vem de muitas maneiras por fundamentos e sentimentos desvairados, - mais de três anos seguidos muito dele padeci, e por especial graça de nosso senhor deus me pôs de perfeita saúde.» Kierkgaard, Freud e tantíssimos outros autores a estudaram e se lhe referiram, em contextos e épocas diferentes. O autor polaco Marek Bienczyk acrescenta Pessoa à extensa lista, citando o «um nada que dói» do final de um poema de Álvaro de Campos. No entanto, um momento cuja referência é indispensável, pelo significado e alcance, é a gravura (1514) de Albrecht Dürer, precisamente intitulada Melancolia, que de algum modo se tornou o paradigma da condição melancólica. James Thomson, no poema The City of Dreadful Night, descreve a figura que é o centro da composição, concluindo «she gazes/With full set eyes, but wandering in thick mazes/Of sombre thought beholds no outward sight [olha/Com olhos totalmente fixos, mas errando por densos labirintos/De pensamentos sombrios não contempla uma visão exterior.] Num texto sobre a gravura de Dürer, Cioran observou que «c'est dans la mélancolie que l'homme est seul face à l'existence». Talvez seja nesse confronto que nasce uma espécie de tristeza que se origina nos ossos e se exprime num brando alcoolismo de silêncios.

 

 

 

publicado por VF às 01:32
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Domingo, 22 de Janeiro de 2017

dicionário pessoal: desenrascar

 

desenrascar

 

 
 
 
 
desenrascar
de.sen.ras.car
verbo
(pref. des + rasca + suf. ar)
 
 
Rasca ou rascada é, em primeiro lugar, a designação de um tipo de rede de arrasto e designou também um certo tipo de embarcação pequena. Não é de estranhar, portanto, que o termo nos tenha chegado com o significado de desenredar, desenvencilhar, desembaraçar, desemaranhar, desensarilhar, o que é natural tratando-se de redes, mas também, por extensão, de desencrencar, desencravar, desentalar, e, de forma geral, sair de um aperto, de uma dificuldade. Safar ou safar-se. O desenrascado é, por tal razão, o indivíduo desembaraçado, desenvolto. Ágil ou hábil. A lusa raça gosta de se ver como perita no «desenrascanço», em livrar-se de apuros, em improvisar uma forma de se safar. E vê isso como uma virtude. Mas uma ideia esconde a outra: um povo perito em desenrascar-se é o que está permanentemente enrascado. Perito, sim, em meter-se em enrascadas.
 
 
 
 
publicado por VF às 00:39
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Sábado, 14 de Janeiro de 2017

dicionário pessoal: restauração

 

R gold

 

 

restauração
res.tau.ra.ção
nome feminino
(do latim restauratio, -onis)
 
 
 
Reparação, recuperação, conserto, restabelecimento, reposição. A palavra entrou também na língua, por via francesa, para designar a indústria da confecção e fornecimento de refeições em local próprio e aberto ao público. Embora se tenha tornado usual a distinção entre a restauração e o restauro, por exigência dos restauradores de arte (os campistas também fazem questão de não confundir tendas com barracas, por exemplo...), no fundo as duas acepções são similares e a sua génese é comum. Trata-de recuperar ou restabelecer alguma coisa, uma condição física, uma cadeira, um edifício, uma pintura ou um regime político e económico. Restauram-se as forças como se restauram a independência, a monarquia ou a democracia. No primeiro caso, a restauração pode fazer-se através de uma refeição que «nos ponha como novos», isto é que nos faça sentir como antes nos sentíamos. A restauração repara e recupera um estado original (ou bastante próximo disso), seja nos regimes, seja nos móveis, seja nas forças físicas ou anímicas. A perturbação surge quando, após um período de carência nos concedemos uma refeição lauta ou requintada e, no final, a nossa satisfação se traduz em frases como «depois deste almoço, sinto-me outro». No fundo, talvez o objecto restaurado seja sempre um outro objecto, e talvez o que diferencia as boas das más refeições, a boa da má restauração, seja a capacidade de nos fazer sentir outros.
 
 
 
 
publicado por VF às 10:32
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Sábado, 7 de Janeiro de 2017

dicionário pessoal: burgesso

 

 

B letter bricks

 

 

 

 

burgesso
bur.ges.so
nome e adjectivo masculino
(de origem obscura?)
 
 
 
A vida das palavras é realmente fascinante. A generalidade dos dicionários regista o termo dando-o como originado do nome do nadador britânico Thomas William Burgess, o segundo homem a fazer a travessia do Canal da Mancha a nado. O vocábulo usa-se na língua portuguesa como sinónimo de grosseiro, pouco inteligente, estúpido, ignorante, quer na variante vulgar, quer na pretensiosa. Bill Burgess ganhou uma medalha olímpica nos jogos de 1900, realizados em Paris, na modalidade de Pólo Aquático. Em 1904 fez a sua primeira tentativa de repetir o feito do Capitão Matthew Webb, em 1875, nadando de Dover a Calais. Após onze tentativas entre 1904 e 1908, Burgess realizou o feito, devidamente certificado, em Setembro de 1911. Além disso, foi o primeiro nadador a usar óculos de protecção para nadar, usando para tal os óculos que os pilotos de automóvel então utilizavam. O homem treinou posteriormente outros nadadores de sucesso. Como se chega então de Burgess, o nadador, a burgesso, o grosseiro e ignorante? Pela pujança necessária para realizar a travessia? Pela persistência que foi necessária? Pelo seu físico compacto? Não há, aparentemente, na biografia ou no carácter do indivíduo nada que justifique a necessidade ou o rumo do então neologismo. A verdade é que o termo existe, está registado e é usado. E não faltam burgessos que exemplifiquem as suas acepções. Vem logo à memória o Dâmaso Salcede de Os Maias, modelo de um tipo particular de burgesso que nunca perdeu seguidores involuntários e ainda ocupa, hoje, lugar cativo nas bancadas da oligarquia governante. Antes fossem nadadores. Digo, nadadores a sério.
 
 
 
 
publicado por VF às 09:00
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Sábado, 31 de Dezembro de 2016

dicionário pessoal: concisão

 

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concisão

con.ci.são

nome feminino

(do latim concisio, -onis, «acção de cortar»)

 

 

 

Brevidade e clareza na expressão. Na oralidade, a concisão pode ser confundida com secura ou mesmo com rispidez, sobretudo num país em que o discurso derramado faz figura. Na escrita, a concisão pode ser uma disciplina, um propósito. Boileau, no século XVII, teorizou sobre o assunto: «Mais mon esprit tremblant sur le choix de ses mots,/ N'en dira jamais un, s'il ne tombe à propos,/ Et ne saurait souffrir, qu'une phrase insipide/ Vienne à la fin d'un vers remplir la place vide./ Ainsi, recommençant un ouvrage vingt fois,/ Si j'écris quatre mots, j'en effacerai trois.» Carlos Drummond de Andrade afirmou lapidarmente que «escrever é cortar palavras». Dizer do autor de um texto que não teve tempo de escrever pouco, é dizer que a concisão é resultado de um trabalho árduo. «Corte, e corte de novo, tudo o que escrever — ao mesmo tempo que por obra da sua arte não deixa vestígios dos cortes — e o resultado final ficará repleto do que tem para dizer», dizia William Carlos Williams a Denise Levertov, em meados dos anos 50. Já em 1921 António Ferro clamava: «Escrever muito é fácil. Escrever pouco é heróico, muitas vezes. Poucos escritores têm essa coragem.» Para obter concisão submeta-se o texto à peneira da disciplina. O aforismo é, por excelência, o cúmulo da concisão na escrita, ainda que paradoxal, como este de Antonio Porchia, «As cadeias que mais nos prendem, são as cadeias que rompemos» ou este outro de Gustavo Corção: «o tempo é o único inimigo que ataca fugindo». No aforismo, a máxima concisão procura atingir a máxima expressão: a extrema concisão é talvez a obsessão da desmesura.

 

 

 

 

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Sábado, 24 de Dezembro de 2016

dicionário pessoal: sofrível

 

 

S letter

 

 

sofrível
so.frí.vel
adjectivo de 2 géneros
(de sofrer + sufixo ível)
 
 
 
 
Aquilo que é suportável, que se consegue sofrer, aguentar. Noutros tempos, designava também uma classificação escolar que se situava entre o medíocre e o suficiente. É no fundo o que hoje se designa como «suficiente menos», que é o eufemismo de sofrível, tal como o insuficiente, com a gradação de mais ou menos, o é para os antigos medíocre e mau. Imaginam as inteligências pedagógicas que nos governam que é menos humilhante ter insuficiente menos do que mau. Contudo, o «mau» constitui uma classificação clara, sem ambiguidades, ao passo que o medíocre é uma notação envergonhada, usada, tal como o sofrível, como forma de castigo ou de favorecimento. Se o mau não tem apelo nem agravo, o medíocre é um limbo, nem carne nem peixe. Há quem não passe do medíocre, há quem não passe do sofrível. O suficiente, curiosamente, assume-se quase como uma nova expressão da aurea mediocritas horaciana, a pequena felicidade encontrada no que se tem, sem outra aspiração. Não confundir com o sentido religioso do Ich habe genug da cantata de Bach, que é um contentamento de outra natureza. É precisamente no caminho entre o medíocre e o sofrível/suficiente pequeno que se tem construído a danação do país, cuja pequenez geográfica parece ter-se entranhado ao longo dos séculos na alma dos seus habitantes.
 
 
 
 
 
 
 
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Sábado, 17 de Dezembro de 2016

dicionário pessoal: traque

 

 

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traque
tra.que
nome masculino
(de origem onomatopaica)
 
Há coisas que não são convenientes como tema de conversa, mas vale a pena falar, ainda que por alto, da grande variedade de léxico associado à expulsão de metano do organismo por via anal, expressão que é por si só uma perífrase eufemística para designar o que toda a gente chama de outro modo. A nomenclatura das ventosidades intestinais é vasta, variada e muito precisa quanto ao ruído, ao odor e ao carácter de cada uma dessas, digamos assim, formas de expressão corporal: peidostraquesbufas. Cada uma destas variantes tem, por sua vez, expressões particulares. O traque designa, na origem, um género de estalido. Não o explosivo peido vernáculo (de ilustre etimologia latina), nem a insidiosa e fedorenta bufa, mas um estalo discreto e praticamente inodoro. Uma espécie de peido pífio, que não se descaracteriza apenas em vento e mau odor, mas se frustra em ruído inofensivo e pouco comprometedor. Faz lembrar muitos artistas, quer da política quer de outros universos mediáticos, cuja carreira, ideias e actos, anunciados com pompa e propalados com fúria, se esfumam, sem esplendor nem glória, num apagado estalido. Como um traque.
 
 
 
 
 
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Sábado, 10 de Dezembro de 2016

dicionário pessoal: respiração

 

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respiração
res.pi.ra.ção
nome feminino
(do latim respiratio, -onis)
 
 
Função fisiológica essencial para a vida através da qual o organismo recebe oxigénio e liberta dióxido de carbono por meio de sucessivas operações de inspiração e expiração. O ritmo destas pode ser condicionada por numeroso factores internos e externos. Dizemos que nos falta o fôlego ou a respiração se estamos cansados ou sofremos um choque, por exemplo. Usamos a palavra com uma forte carga simbólica quando, ao sair de um ambiente carregado ou de cortar à faca, dizemos que agora podemos respirar. Chamamos irrespirável a um ambiente politicamente claustrofóbico. Os políticos instalados tendem a manifestar uma respiração asmática. No temor, sustemos a respiração. No alívio, respiramos fundo. A respiração é uma ciência extraordinariamente exigente; na vida em geral, mas sobretudo no amor. Usamos a respiração como metáfora para designar um largo fôlego poético ou narrativo ou um certo fulgor volumétrico em arquitectura. E quem gosta de vinho sabe que tem de o deixar respirar para que liberte os aromas e se revele na sua plenitude.
 
 

 

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Sábado, 3 de Dezembro de 2016

dicionário pessoal: influência

 

 

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influência
in.flu.ên.ci.a
nome feminino
(do latim influens, -entis, part. presente de influere, afluir)
 
Acção de alguma coisa sobre outra ou sobre alguém causando um determinado efeito, originando um determinado influxo. A influência pode ter uma origem cósmica: fala-se da influência dos astros sobre certos fenómenos físicos (a relação entre as fases da Lua e as marés, por exemplo), mas também sobre as personalidades e os comportamentos das pessoas, que é o domínio da astrologia. A influência, isto é o poder de agir ou de afectar coisas e pessoas, aumenta proporcionalmente à proximidade do poder e da autoridade, ou melhor, às situações muito diversas em que o poder e a autoridade se manifestam (o poder não é só o poder político ou económico, é também o poder social, que hoje tem origens muito diversas e inesperadas). Estamos longe de Hans Castorp, personagem central de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, que se submetia livre, voluntária e simbolicamente à influência alternada dos seus companheiros de sanatório, Setembrini e Naphta. Os influentes (título português de uma série televisiva francesa que no original se chama significativamente Les hommes de l'ombre) enquanto personagens obscuras ou eminências pardas sempre existiram e existirão. Entretanto, o mundo contemporâneo criou uma nova classe, que, pelo contrário, detesta a sombra: os influenciadores. Gente que pretende ocupar o tempo a influenciar o mundo, nomeadamente o mundo do consumo, no palco das chamadas redes sociais. Por exemplo. Uma espécie de «tráfico de influência» pré-pago. Enfim. E assim o poderoso banqueiro e a meninoca espevitada atingem os seus diferentes patamares de influência. O melhor testemunho sobre a amplitude do uso desta palavra é, porém, o de um lavrador de antanho, fantasista e aspirante a mulherengo, que, com o pudor dos homens simples, utilizava a expressão «estar com influência» para designar a erecção do pénis ou o estado de excitação que a ela conduz.
 
 
 
 
publicado por VF às 09:00
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