Quinta-feira, 13 de Junho de 2019

Santo António de Lisboa

santo antonio blog copy

Tronos 19

Livraria Sá da Costa, Montra da Rua Serpa Pinto, Lisboa

Esta iniciativa integra-se na exposição de rua “Tronos de Santo António´19”, organizada pela EGEAC, com o objectivo de estimular a participação de todos no espaço público da cidade de Lisboa durante o mês das festas da cidade.

 

 

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Quarta-feira, 12 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

palavrao

 © drante/iStock

 

José Cutileiro

 

Calão

 

Dizem-me que a gente nova fala com constantes palavrões os quais no meu tempo (e mesmo no tempo do meu filho) seriam impensáveis em tal profusão salvo em pequenas bolsas de proletariado marginal, criminoso e embriagado, ou em meia dúzia de excêntricos e excêntricas bem nascidos para quem a ordinarice no falar era uma maneira de sublinhar superioridade impune. Lembro-me da Madalena Machado Macedo que fazia gala em praguejar como o proverbial carroceiro, no aeroporto de Lisboa de há sessenta anos, a querer entrar para a alfândega, que se via do hall através de grande vidro, para lá esperar o Manuel Eugénio. Guarda-fiscal parou-a dizendo-lhe que era proibido passar. «Porquê ?» «São ordens do Senhor Director.» «Diga ao Senhor Director que eu me chamo Madalena Espírito Santo Mello e passo sempre» respondeu ela e assim o fez. O calão dela, usado sobretudo em conversa com gente da sua roda, era chocante (e divertido) por ser usado por uma mulher, configurando transgressão muito mais severa do que a de um homem. O português, sobretudo o português escrito, língua franca de curas, tabeliões e academias é tão hostil ao calão quanto uma tia solteirona beata. Nesse português, palavrões ou falas sexuais são agressões postas de lado ou mandadas para trás como pedras no arroz ou vinho bouchonné. Talvez de resto se deva a essas restrições a necessidade e o gosto de exagero e espampanância no calão dos jovens. (Definição operacional de jovem: Criatura entre os 12 e os 35 anos, de qualquer dos sexos disponíveis, que se recusa a obedecer ao pai).

 

E é pena porque há histórias, exemplos dir-se-ia dantes, nessas falas interditas e, se a Vera me deixar, ousarei contar duas aqui, ligadas ao atelier do meu chorado Frederico George. Antes dos computadores, ateliers de arquitecto estavam cheios de desenhadores temperamentais e volúveis, entre artesão e artista).

 

No dia de 1968 em que Marcelo Caetano falou pela primeira vez como Presidente do Conselho à Assembleia Nacional eu tinha ido trabalhar com o Frederico para o Palácio Fronteira, onde ele vivia com a mulher, mãe do então Marquês. Para verem Marcelo na televisão, juntaram-se-nos a Maria João Mangualde e dois colegas com quem ela estudava medicina. No fim, depois deles saírem, Frederico perguntou-me: «Você já viu isto ?» «Isto o quê, Mestre?» «Você é doutor por Oxford, e estes estudantecos trataram-no por você!» «Nem reparei, Mestre, e não tem importância nenhuma.» «Ah tem, tem» concluiu o Frederico. «Eu, estas coisas tu cá, tu lá, pontapé na cona, não gosto!» Desenhador seu apaixonara-se por puta de um bordel e vivera lá mais de um mês a procurar tirá-la da vida. Sem sucesso - mas aprendendo, entretanto, novas maneiras eloquentes de dizer coisas.

 

Segundo exemplo. Uma tarde, armara-se no atelier discussão gabarola e animadíssima, sobre comprimentos de pénis. Ao fim de uma hora, Frederico George interveio a arrumar o assunto: «Essas coisas querem-se pequeninas. São para senhoras.»

 

Outros tempos.

 

 

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Quarta-feira, 5 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Vicentes CarnavalCandeeiros (Os dias dos nossos carnavais) - Museu Vicentes, Madeira

 

 

 

José Cutileiro

 

Gemeinschaftzinho

 

 

«Vossas Excelências não têm nada a declarar? Não há malinhas de mão ?»

 

Assim pergunta de cais de estação de caminho de ferro florida, numa manhã cheia de sol, ‘fardeta agaloada’ e, dentro da carruagem, Zé Fernandes que acompanha o seu amigo Jacinto na primeira visita à terra dos antepassados deste, percebe que, havendo deixado para trás a rudeza da noite castelhana, tinham acordado em Portugal.

 

Malinhas, não malas, disse a fardeta na raia seca. «Já acabei de limpar a metralhadorazinha» diria algures em Angola, quase setenta anos depois, soldado raso a tenente miliciano do exército português. Este outro caso fora contado pelo miliciano em questão, depois de regressado à metrópole e desmobilizado, ao Gérard Castello Lopes que o contara ao Antonio Tabucchi que mo contara a mim. Gérard tinha uma teoria sobre o uso português dos diminutivos, não sei se verdadeira se falsa, mas que acho valer a pena expor à leitora. Segundo ela, nós usamos diminutivos para mostrarmos ser bem educados e darmos primazia ao nosso interlocutor. Da mesma maneira que em muitas pinturas medievais em que se vejam várias pessoas o tamanho de cada uma delas não varia segundo regras de perspectiva (quanto mais longe mais pequenas) mas segundo regras de hierarquia social (quanto mais importantes maiores) assim nas nossas trocas de palavras. Ao usarmos diminutivos, colocamo-nos em posição respeitosa perante a pessoa com quem falamos. Tal fizera, com efeito, a fardeta agaloada ao chamar malinhas de mão à bagagem dos viajantes sem sequer a ter visto. De caminho vinha sugestão de hospitalidade e bonomia, de rejeição de hostilidade, mais importantes ainda numa fronteira do que longe dela. (Mesmo antes de alguns horrores fronteiriços norte-americanos e europeus recentes devidos a questões de emigração terem chocado muita gente, fronteiras eram amiúde lugares onde a viajante – ou o viajante - se sentia insegura e indefesa. Lembro-me de malas abertas e roupa espalhada na alfandega paquistanesa em Lahore, lidando com passageiros vindos de avião de Nova Deli, cinco anos após as independências da Índia e do Paquistão a partir da Índia colonial governada por Vice-Rei mandado de Londres - os ingleses, neste caso, não dividiram para reinar; dividiram para se irem embora).

 

Talvez o Gérard tivesse razão – mas tal não explica a exuberância e a frequência actual de diminutivos, a torto e a direito – além do clássico um beijinho grande, o pezinho, o bracinho, o enfartezinho (do miocárdio), a escadinha (Magirus); presumo que por correcção política deixei de ouvir dois, correntes na minha infância: pretinho e pobrezinho. Numa espécie de primavera que se apossou ultimamente dos portugueses, talvez toda a gente queira estar bem com toda a gente e atiremos diminutivos uns aos outros como dantes, no Carnaval, se atiravam serpentinas.

 

Gérard, António – só me vem à cabeça o medievo Villon a lembrar-se de amigos idos: Repos aïent au Paradis/Et Dieu garde les demeurants.

 

 

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Quarta-feira, 29 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

torre de Belém

 

 

José Cutileiro

 

Português e vivo

 

Português e vivo/É diminutivo./Só fazemos bem/Torres de Belém.

 

Esta quadra popular de Carlos Queiroz, a quem ficámos a dever algumas magníficas, não é das melhores que ele escreveu. Nos dois últimos versos dá ideia de não ter percebido a visão e a força precisas para construir a Torre de Belém quanto mais várias. Tomáramos nós!

 

Antes dessa tontice, porém, os dois primeiros versos exprimem aquilo que desde que me lembre – e desde pelo menos Os vencidos da vida– os portugueses que pensavam e julgavam conhecer o seu país achavam e diziam. Assim Oliveira Martins – um dos vencidos– a propósito de Os Lusíadas: « Há países para quem a epopeia é, ao mesmo tempo, o epitáfio» - ou palavras no mesmo sentido; cito de memória conversa ouvida em casa dos meus pais, quando era pequeno. Salvo em propósitos de propaganda, na monarquia liberal, na primeira república, no estado novo, no Portugal democrático, era o que se ouvia – e a culpa caía sempre nos inimigos políticos de estimação de quem estivesse a falar: os Braganças, a República, Salazar, os comunistas, a reacção; ultimamente (desde que ao Beato Obama sucedeu o Mafarrico Trump), até a América, isto é, os Estados Unidos. No começo do século XX, até ao arrumo do jacobinismo oficial em 1926, a igreja católica foi o bombo da festa. Em 1911, folheto anticlerical esclarecia na primeira página: A palavra padre é aqui empregue no seu sentido o mais pejorativo.A seguir ao 25 de Abril não houve nada disso. Os católicos progressistas – «pessoas que tinham a coragem de dizer aquilo que já não era preciso ter coragem para dizer» na formulação de Luis Sttau Monteiro – eram bem acolhidos pela oposição histórica ao regime; anticomunismo popular veemente no Norte de Portugal foi apoiadíssimo pelos curas locais; o Dr. Mário Soares, que tinha mais jeito para a política do qualquer dos seus compatriotas contemporâneos, fez gala em aparecer a almoçar e jantar com bispos nas televisões e em fotografias de capas de jornais. (O estado novo dizia mal de democracia e de comunismo, metendo-os no mesmo saco, o que facilitou a tarefa da oposição mas foi preciso esclarecer depois do 25 de Abril).

E os portugueses continuavam tristes. Pobres e tristes: Les portugueux sont toujours gueux, escreveu Alexandre O’Neill. Tenho experiência de voltar a Portugal desde 1952, umas centenas de vezes; falei com muitos estrangeiros que cá vieram. Havia, como dizem agora, um consenso: os portugueses eram tristes.

Uso o pretérito porque parecem ter deixado de o ser. Neste último regresso, desde a tripulação da TAP a encontros em lojas e transportes, às pessoas que lidam profissionalmente comigo, é como se toda a gente se tivesse livrado de fardo que levara às costas. E estão alegres (!). Não sei por quanto tempo mas julgo saber porquê. António Costa (cuja maneira de chegar a PM muito me irritou na altura) nasceu com talento redondo para o que está a fazer e dá aos portugueses conforto de que nós precisávamos.

 

 

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Quarta-feira, 22 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

-letter-f-from-soccer-football-balls

© Getty Images

 

 

José Cutileiro

 

The F words

 

Em inglês, as ‘F words’ são várias, têm significado sexual e, quase sempre em tom de imprecação, soam brutas e violentas. No português de Portugal não se passa nada disso. Alhures, em São Salvador da Baía, Quelimane, Cabinda, Medina do Bué, Príncipe, gueto de Macau, vilas antigas da Malásia, Timor-Leste, ladinos turcos, que sei eu, não faço a menor ideia.

 

No Continente e Ilhas Adjacentes – suponho que ainda se possa dizer assim – as F words são três e caiem como gotas de mel na maioria dos ouvidos que as sintam vibrar ou dos olhos que entendam o seu recorte escrito: Fátima, Fado e Futebol, as três com maiúscula. Era assim quando eu era pequenino, acabado de nascer, e daí até agora nem o sobressalto breve causado pelo golpe militar de 25 de Abril de 1974 – quando os nossos compatriotas fardados para morrer pela Pátria passaram de tropa a forças armadas (porque a verdade, leitora, é que o Estado Novo viveu apoiado no poder militar e caiu quando este se virou contra ele) – lhes fez mossa que durasse. Estou a passar uns dias em Portugal e ouvi relatos emocionados do Marquês de Pombal – e do resto do sul do país em festa quando no fim de semana o Benfica ganhou o campeonato. A leitora que ache que foram festejos demais – ou de menos – lembrarei a inauguração do Estádio Nacional em 1942, estava a Europa em guerra, com um jogo de futebol Portugal-Espanha (que acabara há dois anos a sua própria guerra civil), empatado 2 a 2. Antes do jogo, avionete espalhara milhares de panfletos. De um lado, as equipas com seus lugares marcados no terreno. Do outro, texto político com o título: O QUE NÓS QUEREMOS É FUTEBOL! A Europa estava em guerra aberta mas nós, fora desta graças à sabedoria do governo, vivíamos a nossa vida, trabalhávamos, descansávamos, comíamos e dormíamos sem tais preocupações. Hoje, não já não há guerra na Europa nem sequer fria mas o que parecemos continuar a querer é futebol.

 

O fado triunfa. Dizem-me que do clero, da nobreza e do povo, por um lado, do povo unido, por outro, continuam a surgir vocações. Ao seu público conhecedor junta-se agora outra gente atroando os lugares da noite com férreas sapatorras de turistas. E mesmo que os lusíadas se fartassem dele, lá fora não o esquecem. Desde que me lembre, dos dois único portugueses a quem The Economist dedicou obituários, uma foi Amália Rodrigues. (O outro, Ernesto Melo Antunes).

 

Fátima é mais complicado. Fé é o que não falta por aí mas assaltada por novas igrejas evangélicas, contrabandistas do além, diz indignado católico meu amigo. O Papa Francisco irrita mais os ricos do que convence os pobres. E haverá ainda velhos como Francisco Gião (deu-me o meu primeiro charuto tinha eu 14 anos) que sendo ateu mandava sempre pôr colchas às janelas em dias de procissão e não o fez quando passou a primeira de Nossa Senhora de Fátima. «Em tudo deve haver sempre um bocadinho de respeito» explicou aos filhos «e vistas bem as coisas essa Senhora é muito mais nova do que eu».

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 15 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Vaclav-Havel-001Vaclav Havel em 1989 - foto Hulton Archive @ The Guardian

 

 

José Cutileiro

 

O Povo é quem mais ordena…

 

…ou Deus, Pátria, família que é dizer o mesmo, julga amigo meu que quase toda a gente considera reaccionário mas insiste em achar que não o é: tem é bom senso que muitas vezes falta aos outros. O cabrão do povo é quem mais ordena, seria variante vernacular para exprimir a sua desilusão com algumas consequências do 25 de Abril mas o meu amigo acha a fórmula grosseira e recusa-se a ser malcriado.

 

Tal como com quase tudo agora, estas coisas vão sobretudo por modas que se espalham pelo mundo como fogo de mato – ou de floresta californiana - a velocidade inédita na História, o que faz velhos eruditos sentirem-se novos analfabetos. E por causa das redes sociais – acho que se diz assim – o povo fala directamente com o povo, sem os filtros colocados entre uns e outros por várias camadas de doutores. Directores de jornais, de rádios, de televisões, leitores que trabalham para editores, e alguma outra gente no sacerdócio ou laica, em encruzilhadas importantes das vidas de agora, agindo esses mais como agulheiros do que como censores, ajudavam a manter coerência e compatibilidade nos discursos de uns e de outros e agiam com grande eficácia no que dissesse respeito a fake news. Nem todas. Tem sido até agora privilégio das religiões, escaparem a exigências do senso comum e da ciência, e proclamarem, urbi et orbi, fake newstão evidentes como a Imaculada Conceição ou a Ressurreição, bookends, por assim dizer, da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo tal como ela é contada no Novo Testamento. Isto para falar apenas de uma das três grandes religiões reveladas, monoteístas, e aquela que quase todos os europeus conhecem melhor. Além destas, pululam muitas mais por esse mundo fora e beneficiam todas da mesma licença. (Salvo da parte de ateus mais ou menos filosóficos: a força da convicção destes pode ser tão rígida e arreigada como a de muitos crentes e, comentava jesuíta meu conhecido, sofrem de orgulho humanista. No meu caso, por exemplo, só aí aos dezasseis anos me dei conta de que havia católicos muito mais inteligentes do que eu).

 

Fora das fés, porém, não há razão que justifique dar cidadania a fake news. (Dentro das fés também não mas os costumes são arreigados demais para serem desaconselhados a bem. Na União Soviética aparatchiques faziam baptizar filhos e filhas às escondidas; não sei o que se passe na China com isto de fé em Deus – palpita-me que nada de bom).

 

Sem agulheiros e censores fiáveis, a conversa dos povos que depois de unidos jamais serão vencidos é um desastre permanente, parecido com o que está a acontecer com o cristianismo. Em Portugal, por exemplo, enquanto as igrejas católicas estão vazias, brotam todos os dias novas igrejas evangélicas, No geral, Deus, pátria, família, libertados da propaganda estreita e beata do Estado Novo e dos rigores da Cúria romana, ganham viço novo e impõem-se cada vez mais à razão, irmã do amor e da justiça. Cada dia se vê melhor o túnel ao fundo da luz, diria Vaclav Havel.

 

 

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Quarta-feira, 8 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Waterloo 1Batalha de Waterloo

 

 

José Cutileiro

 

Viagem na minha terra

 

 

Nota introdutória  Este título ignora que a Vera tem relação especial com os escritos do autor de Frei Luís de Sousa. Desencantou em casa manuscritos dele que acrescentam ao espólio do homem que inventou o português que nós falamos. Sem Garrett antes, Eça não poderia ter encantado tanto tantos de nós  nem haveria porventura, no pior dos casos, passado do janota do Porto que o meu chorado amigo Carlos Leal insistia erradamente em desprezar nele. Vá lá saber-se. Por mim devo confessar que Camilo (Castelo Branco) – é com ele que a comparação era feita em serões de província, alguns ainda iluminados a petróleo – me fascina às vezes – o fim de A Sorte em Preto, por exemplo, é uma pequena joia – mas que, na maior parte das vezes, me aborrece. Garrett e depois dele, mais ainda, Eça, purificaram o dialecto da tribo, expressão de Mallarmé que T. S. Eliot tirou do esquecimento ao metê-la na língua franca dos nossos dias. Entretanto, deste lado do mar não tivemos James Joyce, Marcel Proust ou Graciliano Ramos. O Zé Cardoso Pires foi o que mais perto dessa limpeza   andou, sobretudo em Lisboa livro de bordo.

 

Adiante. Estou sentado com a Myriam, que empurrara a cadeira de rodas pela manga abaixo, na segunda fila. As cadeiras são as mesmas e são poucochinho – no Alvar Aalto here – bengaleiros para casacos há muito desapareceram, viajamos assim como que em versão formicada e voadora de antiga camioneta para Sintra da Eduardo Jorge. Faltam bilhas de água de Caneças que dariam toque ecológico, sempre benvindo por estrangeiros mais ricos do que nós. Por outro lado, com louvável empenho cultural e alguma consciência do país que servem – não esquecer que o dia nacional de Portugal é o dia da morte do nosso maior poeta (e não, como acontece com outros, o de uma batalha ganha ou perdida ou, pior ainda, o da tomada sangrenta, por multidão armada, de cadeia para fidalgos tarados) – os dirigentes da TAP dão a cada um dos seus grandes aviões de passageiros o nome de uma ou um grande artista português, julgo que quase sempre das letras, e ontem calhou-me um chamado José Saramago. Infelizmente, porém, eu não gostava do homem nem gosto dos escritos dele.

 

Parado com as rodas quietas e firmes no plancher des vaches, como diria médico sábio meu amigo, o avião ia deixando entrar pessoas, muitas desejosas do sol de Portugal (que não haveria desta vez). Um homem mais bem vestido do que os outros, de barba cuidada, riu-se para nós e parou de pé contra a fila da frente. Era o Bernardo, irmão da Vera, vindo de reunião europeia, onde os participantes agora, com ingleses nem cá nem lá e eurocépticos à frente das sondagens eleitorais se sentem como Fabrice em Waterloo, sem perceberem como está a correr a batalha.

 

Quando todos se sentaram vi que o Bernardo, na fila atrás da nossa, ia já em economia. Eu julgara que se tivesse acabado com essa pelintrice do tempo de Passos Coelho mas não: alinhar por baixo continua a ser a regra. Coitado do país.

 

 

 

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Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Donald e IvanaDonald Trump e Ivana, a sua pimeira mulher

 

José Cutileiro

 

 

A eficácia do mal…

 

 

…ou a incompetência do bem ou porque é que eu apostaria, dobrado contra singelo, que Trump será reeleito 45° presidente dos Estados Unidos, como o foram o 44°, o 43° e o 42°. Disseram-me um dia que os chineses dizem – e não sei se quem mo disse conhecia algum chinês que o tivesse dito - Deus nos livre de viver em tempos interessantes. Mas desta vez não nos livrou e, lendo alguns propósitos de bispos e teólogos cristãos contemporâneos, reverendas e reverendos ditos progressivos, talvez nem sequer o pudesse fazer pela razão simples de afinal não existir.

 

Faz mais de 80 anos que, no começo da Guerra de Espanha , 1936-1939, Federico Garcia Lorca foi assassinado na sua Andaluzia natal por fascistas homófobos parecidos com muitos dos que acabam de levar o partido espanhol Vox às Cortes em Madrid. Lorca era um progressivo que morreu cedo demais para ter virado reaccionário com a idade, mas era também um grande dramaturgo e nem todos os seus personagens, homens ou mulheres, falam connosco na flor da idade – além disso, falam como eles e elas eram e não como ele foi – tal uma mulher, não me lembro se na Yerma se nas Bodas de Sangre (não tenho os livros à mão): «A mi me gustan las cosas asi: los hombres hombres, el trigo trigo». Eu estou com ela e receio que número crescente de eleitores americanos, de qualquer idade e sexo, esteja também, sobretudo desde que o Partido Democrata ganhou maioria gorda na Câmara dos Representantes e, entre correcção política e visões mirabolantes do futuro próximo, assusta os moderados de um lado e do outro, precisos para derrotar Trump quando este se bater por segundo mandato.

 

O receio instalou-se na noite das eleições e, desde então, nunca diminuiu. As minhas primeiras reacções, sem serem imediatas, foram simbólicas. Quando chegaram as alturas próprias não renovei as assinaturas da New York Revue of Books e do New Yorker – apesar de tentivas de ambos  de me levarem de novo aos respectivos redis. Tão-pouco lhes escrevi a explicar a minha retirada; antecipei que não concordariam com a explicação e que, por isso, menos a mereceriam ainda. Eu achara que, regressado depois de uns anos à Europa (Montemor, Marinha, Ilha de Ré, Bruxelas) não haveria melhores bisbilhoteiros para me manterem ao corrente de andanças transatlânticas. Consideram-se os mais inteligentes da costa oriental do seu continente, assim como os franceses se consideram os mais inteligentes da costa ocidental do continente deles.  Se os fosse lendo regularmente saberia tudo.

 

Puro engano. Não perceberam nada de nada do que, da costa à contracosta, a sua gente queria. Pior que Macron com os franceses. E, dado o tempo decorrido da eleição até hoje, não parecem ter emenda. Na quinta-feira passada o New York Times, em anúncio para angariar novos assinantes, gabava-se assim: Whatever happens next, we’ll help you to make sense of it. A arrogância não mudou. E The Donald – como lhe chamava a sua primeira mulher – irá ser reeleito.

 

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Quarta-feira, 24 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Notre Dame após incêndioCatedral de Notre Dame após o incêndio © Bloomberg/Getty Images

 

José Cutileiro

 

Notre-Dame e o resto

 

O Presidente Macron fez o que  pôde  para trazer o Papa Francisco a Paris no rescaldo do incêndio de Notre Dame mas o Papa que não só não é italiano mas tampouco é europeu, não se deixou convencer. Se tivesse vindo ajudaria talvez também a fazer esquecer em peitos fieis franceses as suas manifestações de amizade por Cardeal francês, compincha de longa data que muito o ajudou a subir ao trono pontifício, condenado há pouco em primeira instância em tribunal francês por ter protegido padre pedófilo, que Francisco recebeu em Roma recusando-se a aceitar a sua demissão (há apelo e há presunção de inocência, sublinhou o Vaticano). Macron, que precisará de legitimidade quase divina para conquistar de novo legitimidade eleitoral, há de ter ficado desapontado (decidira fazer-se baptizar aos 12 anos contra a opinião de pai livre-pensador; ultimamente diz-se que pende para o agnosticismo mas o ponto evidentemente não é esse – é a política: trazer o Papa a Paris teria aumentado a sua cota na França profunda e na outra).

 

Victor Hugo tem sido muito citado, com o corcunda Quasimodo e a cigana Esmeralda em primeira linha; a história de França relembrada desde o século XII, com as provações da catedral postas em relevo, mormente durante o Terror na Revolução Francesa de 1789 em que pensaram deitá-la abaixo e serviu de armazém. Rompendo com tradição da monarquia foi lá que Napoleão se coroou Imperador. E têm-se enumerado os tesouros perdidos no fogo bem como os tesouros salvos dele (entre estes últimos, discretamente, às vezes de maneira quase envergonhada, a mais notável das relíquias lá guardadas: a coroa de espinhos, que só os mais beatos entre os beatos acreditam ser a original – e que para espírito como o meu evoca sobretudo a visita a Jerusalém do Raposão, anticlerical e desavergonhado d’ A Relíquiade Eça de Queiroz e não o Calvário, com Cristo entre os dois ladrões).

 

Que as religiões – incluindo o catolicismo apostólico romano bem como suas Cruzadas e Inquisição – tenham sido dos maiores criadores de sofrimento no mundo é convenientemente esquecido nesta altura até porque também criaram, e continuam a criar, felicidades e êxtases sem paralelo e porque o catolicismo está a perder fieis, não tanto para o judaísmo e o islão mas para religiões protestantes evangélicas. E isso nota-se todos os dias: em França as igrejas católicas estão vazias nos dias e às horas de culto e as mesquitas estão cheias. Pior ainda, igrejas protestantes carismáticas, muito populares há décadas em África e na América Latina, estão agora pela primeira vez a entrar em força no Hexágono. E, ainda por cima, nenhum destes outros cultos (nem as igrejas protestantes tradicionais) está marcado pela mancha da pedofilia que a igreja de Roma começou por procurar esconder e negar. Tempos difíceis.

 

NB Vítimas têm-se queixado, passados anos. Ainda não soube de ninguém agradecer ao padre que o seduzira havê-lo colocado na via da sua própria natureza.

 

 

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Quarta-feira, 17 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

bar-do-ritz

Bar do Ritz, Lisboa

 

 

José Cutileiro

 

Mais um bey de Tunis !

 

 

Prometi ontem ao almoço no bar do Ritz à Vera que ela teria hoje até ao fim do dia, sem falta, na sua casa da rua dos Caetanos, esta folha de bloco-notas, para depois procurar ilustração condigna. Não contei com já não vir a Portugal há quase seis meses, o país ter entretanto mudado, as mudanças serem no geral para pior e uma delas residir exactamente na qualidade do bacalhau à Braz do Ritz, que piorou escandalosamente desde a última vez em que eu o tinha lá ido comer, excursão até ontem sempre feita, de há muitos anos para cá, com o sossego de espírito dado pela certeza antecipada de coisa boa ao fim da viagem. Papa dôce que acabou. Um dos segredos do bacalhau à Braz é a espessura dos bocados de bacalhau que nele se metem com os ovos e a batata finamente cortada. Para se fazer justiça ao nome do prato tem de se sentir o bacalhau mas se este se sente demais, se as fibras são demasiado espessas, estraga-se o equilíbrio dessa joia da nossa culinária, quebra-se o encanto – e foi isso que aconteceu ontem ao almoço no bar do Ritz.

 

O melhor bacalhau à Braz da minha vida foi o do cozinheiro chinês do clube da Covilhã, teria eu uns vinte e cinco anos e ele aí setenta, onde o António Alçada Baptista e a Zezinha me tinham levado a almoçar. O chinês fora trazido de Macau em pequeno por doutor da administração ultramarina e sua mulher, crescera na Covilhã e lá envelhecera, dando aos sócios do clube e aos convidados destes maravilhas culinárias para lá dos costumes da Beira Baixa - o segundo foi o de um homem discreto e simpático, com restaurante onde o mano João me levou um par de vezes em Évora, perto dos arcos baixos do aqueduto e da Rua das Amas do Cardeal, que morreu de repente há anos, tendo o restaurante fechado. A seguir a esses dois sinais de excelência, bem mais abaixo mas ainda bons, espalhados por Portugal, havia vários outros e, em Lisboa, valia-me o bar do Ritz, o qual, a certa altura, me pareceu mesmo estar a querer melhorar ainda.

 

A leitora poderá achar que a partir de receita falhada uma vez só, só se declararia a decadência do país num excesso de arrogância e de cegueira. Permito-me discordar. Aconteceu ao bar do Ritz, com a abundância recente de cada vez mais turistas endinheirados, o que aconteceu ao resto de Lisboa: uma perda de exigência quanto aos seus próprios padrões, sobre os quais a nova clientela não sabe pronunciar-se, deixando nós assim que esta nos deseduque, em vez de sermos nós a ensinar-lhe coisa nova. É pena.

 

E o bey de Tunis? Esse, leitora, vem de Eça de Queiroz que também escrevia para os jornais e um dia, sem lhe ocorrer assunto, resolveu, a despropósito, atacar o bey de Tunis (que ainda por cima acabara de morrer: « Que importa ? Em Tunis há sempre um bey ») – ou pelo menos Eça assim conta a Pinheiro Chagas em polémica a fazer troça dele. No meu tempo adorávamos todos Eça*.

 

*Tirando o meu chorado Carlos Leal que achava Eça um janota do Porto e preferia Camilo Castelo Branco.

 

 

 

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