Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Voz de Portugal (1976)

 

 


 

"Voz de Portugal", Nº 2.467

Rio de Janeiro, 24 de Setembro de 1976

 

 

VOZ de PORTUGALO recente discurso feito à Nação através da televisão pelo Primeiro-Ministro Mário Soares, causou em Portugal — como aliás também no Brasil, em todos quantos o leram — um forte impacto, pela franqueza e coragem com que nele se abordava a crise em que o país se debate. Mas o diagnóstico que o Primeiro-Ministro fez da situação econômica portuguesa é tão grave, que pode pôr-se em dúvida se ele não terá gerado mais pessimismo do que a confiança no futuro, que é indispensável que Portugal readquira. Que pensa V. Excelência disto?

 

 

 

VASCO FUTSCHER — Em minha opinião, era preciso dizer ao país serenamente, mas sem meias verdades, tudo aquilo, exatamente, que o Primeiro-Ministro lhe disse. E que se a crise da economia portuguesa nunca deixou de ser focada em diferentes tons, e num ou noutro sentido, por todas as forças políticas, desde há um ano para cá, a verdade — ainda que aparentemente paradoxal — é que a larga maioria do povo português ainda não sentiu, diretamente, os efeitos negativos. Graças às grandes reservas de ouro acumuladas pelo regime anterior ao 25 de abril, foi até agora possível conseguir internacionalmente todos os empréstimos externos que solicitamos e evitar assim medidas restritivas ou quaisquer dificuldades de abastecimento público. Certo que temos vivido com uma alta taxa de inflação, e que a vida está hoje muito mais cara do que há cerca de dois anos. Mas os grandes aumentos salariais concedidos nestes dois anos — muitos inteiramente justificados, mas muitos outros, também, completamente irrealistas — por tal modo melhoraram o poder aquisitivo do povo, que pode dizer-se que este nunca, desde há muito, auferira um nível de vida tão alto como aquele de que beneficiou desde 25 de abril de 74.

 

Tudo estaria certo se a produção não tivesse sido afetada e tivesse aumentado, porque então teríamos apenas procedido a uma mais justa distribuição da renda nacional. Mas não foi isso o que se deu: não tem sido o produto do trabalho do país que tem sustentado o enorme acréscimo das despesas nacionais. Estas apenas têm podido ser cobertas através da progressiva descapitalização do Estado, a que é agora imperioso e inadiável por cobro.

 

A esta luz, julgo que a alocução do Dr. Mário Soares terá tido sobretudo em vista preparar psicologicamente a nação para as medidas que, com caráter urgente, o governo terá de adotar para sobrevivermos. Como o próprio Dr. Mário Soares frisou, mais importante para qualquer país do que o ouro em cofre, é o trabalho e a sua capacidade de produção. O que hoje é inadiável para recuperar a economia, e recriar uma atmosfera de ordem e disciplina, absolutamente incompatível com greves selvagens, com ocupações ilegais, com o absentismo que hoje se verifica em largos setores da vida económica, com manipulações partidárias disfarçadas de movimentos de "justa luta pelos direitos dos trabalhadores", com reivindicações salariais completamente irrealistas e, enfim, com a política de avales até agora prosseguida pelo Estado e que, como era previsível, em vez de estimular a produtividade, encorajou sobretudo o absentismo e o parasitismo, por os trabalhadores saberem as empresas protegidas contra o risco de falência.

 

A curto prazo, julgo que será impossível restaurar a nossa vida económica e restabelecer os índices de produção industrial e agrícola que havíamos atingido antes de abril de 74. Mas a condição de base para isso se tornar possível é a restauração de um clima de ordem e disciplina nacionais, e creio que é essa tarefa que o governo se consagrará prioritariamente, não numa perspectiva partidária, mas — como o próprio Dr. Mário Soares o disse claramente — numa perspectiva nacional.

 

 

publicado por VF às 11:27
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1 comentário:
De helena cardoso a 14 de Maio de 2011 às 15:49
vai para o face
beijos

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