Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

Lisbon Courier (1948)

 

 

 

 

Lisbon Courier - Le Courrier de Lisbonne

Terceiro Ano, Nº 30 - 1 Setembro 1948

(foto de Ruy Cinatti)

 

 

 

 

 

História de uma ilha

 

Quando, antes da guerra, o português ido do ocidente. depois de muitas semanas por mar até o oriente, e após caminhar dias e dias ao longo de Sumatra e de Java e ter serpenteado por entre pequenas ilhas misteriosas. cheias de perfume e de cor, desembarcava em Dili, não encontrava decerto, nem a «metrópole», de tipo mais ou menos europeu, com que o europeu inadaptado se procura iludir, nem a "cidade misteriosa do Oriente» que o europeu sem experiência julga ir encontrar a cada passo. Díli era acolhedora, sem dúvida, com a sua população variada, constituída por europeus, por árabes, por chineses, por negros e enfim, pelos indígenas, com o seu comércio de capital dum território de 450.000 habitantes, com os seus bazares onde tudo se comprava, desde o «best-seller» americano até o amendoim, desde o equipamento desportivo até à linha de coser. Mas era, apesar de acolhedora, uma cidade pequena e modesta, sem grandes pretensões.

Os encantos que a cidade não possuía, possuía-os porém, de sobra, a ilha misteriosa e verde que para lá dela se estendia e sob cujo sortilégio, adivinhado do largo, antes do barco fundear na baía, o europeu desembarcava.

Para lá de Díli era a Natureza. Uma Natureza pujante e viçosa—sob cuja magia ficou sempre quem algum dia a percorreu. As estradas a meia encosta dos montes, por vezes atravessadas pela água cantante que cai em cascatas frescas dos cerros altos, as ribeiras das montanhas onde se colhe um camarão tão saboroso como o do mar, grande e bonito, as matas frondosas de madeiras raras, como a teca, o tamarindo ou o sândalo...

Perante uma Natureza como a de Timor, não há obra humana que resista ao interesse dos homens. E o caminho para quem tem de falar da obra humana, mais exactamente: da obra portuguesa nesta colónia que dista de Lisboa mais de 13.000 milhas, terá de ser o de não falar na Natureza...

Como escreveu o Capitão Pinto Correia, «certos aspectos há em que Timor se torna documento excelente de colonização portuguesa».

O primacial, de entre estes aspectos, é o da "política de ocupação ter cedido o lugar à política de administração e de fomento». Por isso acentuava, antes da guerra, o mesmo notável colonialista português, que Timor se renovava e progredia mercê dum escasso punhado de portugueses, corajosos e activos, que, isolados no interior da colónia, desenvolviam um esforço notável de criadores de riqueza agrária e de reformadores da mentalidade indígena.

Foi esse esforço, que ininterruptamente, ao longo de quatrocentos anos, a administração portuguesa veio dispendendo, que a guerra e a ocupação estrangeira fizeram duramente interromper.

Quando, ao terminar a guerra no oriente, teve o seu termo a ocupação estrangeira, não era só a capital da ilha— Díli — que se encontrava arruinada. Se a cidade, e com ela todos os outros grandes aglomerados urbanos, era um monte de ruínas, através dos quais o mato crescera por tal modo que tornava difícil reconstituir a linha dos antigos arruamentos, a verdade é que toda a ilha estava em ruínas, quer na sua rede de comunicações, quer agrícola e economicamente.

Com a destruição dos principais aglomerados urbanos, e em particular de Díli, destruíra-se a base do comércio que a colónia mantivera até à invasão, com a Austrália e com as índias Holandesas, Por outro lado, as pequenas indústrias locais dos couros, da ourivesaria e dos panos perdiam a base da sua laboração, que era, evidentemente, a paz e o comércio.


 

 

Bazar de Díli, 1948

 

 

 

A riqueza pecuária, uma das mais importantes bases da vida do indígena, era entretanto consumida pelos exércitos que ocupavam a ilha, podendo calcular-se, a despeito de faltarem índices seguros, que, finda a ocupação, estava reduzida a um terço do que o fora antes da guerra.

 

Se a este quadro acrescentarmos a situação da agricultura— arruinada em parte pela devastação dos campos, em parte pelo abandono das culturas pelos indígenas atemorizados com a ocupação e, ainda, o estado da rede de estradas, que ao findar da guerra se encontravam quase completamente intransitáveis, teremos traçado as linhas gerais da situação em que se encontrava a colónia de Timor em 5 de Setembro de 1945, quando de novo as autoridades portuguesas, passado o período da ocupação estrangeira, voltaram a exercer as suas funções de chefia e administração.

Tudo era urgente, tudo era necessário fazer, e se o prestigio português só se robustecera aos olhos dos indígenas durante o período da ocupação, — como o atesta de uma forma inequívoca a paz social que tem rodeado a administração e a obra da reconstrução levada a cabo pelo Governo da colónia de Timor — a verdade é que o que havia a fazer excedia largamente as possibilidades do momento.

O que já se fez atesta, porém, já hoje, honrosamente, o valor e o esforço do punhado de homens de quem se exige tudo e que se tem de contentar com muito pouco. E se a obra de restauração não está ainda terminada, isso deve-se, porventura, sobretudo, à circunstância de não se ter querido reconstruir apenas, mas também emendar e alargar o que, feito ao longo dos anos que precederam a guerra, sem plano nem perspectivas, precisava agora de ser desenvolvido e modificado com vista ao futuro desenvolvimento económico da colónia.

Assim, em menos de 3 anos, o governo da colónia, não só aproveitando a antiga rede de comunicações mas também alargando-a e alterando-a, pôde reconstruir toda a rede de estradas que liga já hoje todas as povoações mais importantes de Timor. A par das comunicações terrestres, entendeu o governo da colónia garantir também uma rede de comunicações aéreas; foi assim que, enquanto se construía em Baucau um aeródromo com características internacionais — que é hoje o maior de Timor — onde pode aterrar qualquer avião moderno, se construíam junto das povoações mais importantes pistas de aterragem cuja importância sob o ponto de vista da saúde pública, é enorme, dado o uso, corrente hoje na colónia, de aviões sanitários para o transporte de doentes.

A par da reconstrução do sistema de comunicações, e em breve estarão também asseguradas as comunicações telefónicas e telegráficas através de toda a ilha — o problema mais importante a resolver, era, naturalmente, o da reorganização da vida agrícola e da riqueza pecuária, bases do sustento da população indígena. Se, pelo que respeita à vida agrícola, a paz social de que acima se falou foi o elemento essencial que levou os indígenas a regressar ao trabalho da terra, já o problema da pecuária requereu medidas do governo. Assim, compraram-se na Austrália exemplares de gados diversos, enquanto a colónia era dotada de técnicos e de todo o apetrechamento necessário à fecundação artificial. Não é de resto estranho ao problema do rendimento agrícola de certas culturas, o problema da existência do gado bufalino, sabido como é que, desconhecendo a charrua, o indígena utiliza o búfalo para preparar a terra; é o que acontece sobretudo com as plantações de arroz.

A par destas medidas, o governo da colónia tem trabalhado no repovoamento das matas de sândalo e de teca, enquanto por outro lado construiu campos experimentais para entregar aos colonos e que são constituídos por terras destinadas a todas as culturas, pomares, uma residência de alvenaria e abundante água corrente.

A grande obra, porém, que há que levar a cabo, é a da reedificação de todos os edifícios que a ocupação estrangeira deixou em escombros ou ao abandono. E foram todos os que, através duma administração quatro vezes centenária, os portugueses haviam construído: casas de habitação, hospitais, edifícios públicos, escolas, igrejas...

Esta obra em via de realização por toda a ilha, será coroada com a construção da nova capital—Nova Díli— num planalto que se eleva a 800 metros sobre o nível do mar, sobranceiro à zona da antiga cidade de Díli. O local onde esta estava construída fora realmente escolhido por razões de ordem militar que, há cento e cinquenta anos, se sobrepuseram à circunstância da falta de salubridade não aconselhar nessa zona qualquer construção, devido à proximidade de pântanos.

Aí, nesse planalto, se construirá a nova cidade capital, com o palácio do governo, os demais edifícios públicos, a residência do Bispo, os consulados da Austrália, Holanda e China, e a zona comercial de europeus e indígenas. Entretanto, no local da antiga capital, o plano prevê a reconstrução da zona portuária de modo a assegurar o seu interesse comercial local.

Por toda a ilha haverá que construir igrejas, escolas, postos sanitários, campos para feiras francas, bazares...e, a par destes edifícios, casas para habitação de funcionários, de colonos, de comerciantes.

Toda esta obra, que levará decerto anos, atestará quando estiver realizada, que a obra de colonização dos portugueses não é uma obra do passado de que o presente se aproveite, mas sim uma obra do presente para benefício dos vindouros e atestará ainda que se, ao cabo das 13.000 milhas que separam Lisboa de Timor, o mundo é outro e novo, continua a ser mundo português.

 

 

 

Vasco Futscher Pereira

"Lisbon Courier"  Nº 30- 1 de Setembro de 1948

 

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