Sexta-feira, 26 de Março de 2010

A presença do outro

 

 

 

 

 

Sobre e contra tudo, o apaixonado afirma a sua paixão como valor. Combate-a em palavras de desespero, toma regularmente a decisão viril de se recompor, enuncia para si próprio, com rigor implacável, todas as razões que teria para não amar, mas uma voz interior «dura mais um pouco» e, como escreve Barthes, «opõe a tudo o que no amor não corre bem a afirmação do que nele vale (1)». O que vale são precisamente os períodos de fraqueza, os acessos de timidez, o sentimento de impotência, em suma, as próprias derrotas da vida amorosa, desprezíveis aos olhos da ideia marcial que o eu faz de si próprio, mas que assinalam a presença do outro. É preciso perder a iniciativa para ter a revelação do Outro. Perder a iniciativa, quer dizer, já não poder expulsar nem incluir, nem manter o ser amado à distância nem assimilá-lo ao que sabemos dele. Amar é encetar uma relação com um rosto que está fora e está dentro, que não se deixa esquecer nem se deixa encerrar. Não podemos fechar a porta à pessoa que amamos, também não podemos fechar a pessoa atrás dela.

Falha dupla pela qual o apaixonado dá graças à paixão como se, no pasmo e na hospitalidade, ele escapasse à estupidez duma existência soberana. A estupidez, isto é, o facto de nunca ser estúpido e de evitar sempre a queda, a prontidão em integrar todo e qualquer rosto novo no reportório de significados conhecidos e ideias feitas. Não é falha do espírito, é presença ininterrupta do espírito em si próprio, serenidade contra a qual nada nem ninguém leva a melhor. Os homens falam, a caravana passa : a estupidez reconhece-se pelo calmo caminhar de um ente que as palavras do exterior não demovem nem afectam. Ela não é o contrário da inteligência, mas essa forma de intelectualidade que põe todos os seres à sua altura e dissolve todos os começos numa intriga familiar.  Para a estupidez, nunca nada de humano é estranho : o que constitui, para além do ridículo, a sua força inabalável e a sua possível ferocidade.

 

 

Alain Finkielkraut

in La sagesse de l’amour (Visage et vrai visage) pp. 85-86

© Éditions Gallimard, 1984

 

Tradução de Helena Cardoso para este blog.

 

Imagem e mais traduções de Helena Cardoso aqui



 

1. Barthes, Fragments d’un discours amoureux, p. 29



publicado por VF às 17:39
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2 comentários:
De VF a 27 de Março de 2010 às 20:48
obrigada Helena!
De eduardo corte real a 10 de Agosto de 2010 às 17:30
Foi Barthes, e Foucoult também, que me levaram ao "persa de Homero", sem eurocentrismo. Como Malraux que conseguiu penetrar o hindu adoptando o ponto de vista deles. O Outro amoroso são mesmo fragmantos. Mas sei que não posso julgar um árabe fora do contexto antropológico dele, assim como o budista. Pensar que o eixo do desenvolvimento no Pacífico vai acelerar o processo de aceleração mental das populações dali não é líquido. Tudo o que não estiver no estériotipo "cathô" nos pode parecer bizzaro, uma chinecise. O Outro para Lévi-Strauss foi sempre um estranho que nunca decifrou e chamou à sua obra mais conhecida os Tristes Trópicos, meramente político, para tirar partido da celeuma que se iria criar entre a antropologia francesa, porque não acho os trópicos tristes, acho-os pobres, como é tudo fora da Europa e USA. u

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