Sábado, 13 de Junho de 2009

Sinal da Cruz

 

 

 

 

 

 

Para a sé vai Stº António

Vestidinho de encarnado

Leva o menino nos braços

No seu livro vai sentado

 

Os anjos que o viram ir

Ficam de rosto inclinado

Vendo ir o Deus menino

De outro menino levado

 

Chega ao altar da Stª Virgem

Com muito amor muito agrado

Entrega-lhe o bento filho

Seu amor e seu cuidado

 

Adeus Jesus da minha alma

Adeus menino sagrado

Que são horas de matinas

E o sino não está dobrado

 

Deita a correr à torre

À torre em passo dobrado

Que das horas de matinas                              Para tocar a matinas

O tempo é quase passado

 

Os cónegos que o não ouvem

E que tinham bem ceado

Na cama se espreguiçam

E se viram do outro lado

 

À porta da igreja o demo

N’um cantinho acanhado

Espreita o santo menino

Para o colher em pecado

 

Toda a vida o bom do santo

C’o demo andou apostado

A qual há de ser mais fino

Qual há de ficar logrado

 

Vendo-o a correr à torre

E o tempo quase passado

Disse o demo agora António

Que te tenho apanhado!

 

Deixa dormir os meus cónegos

O seu sono regalado

Que à ceia estive eu com eles

E ficou tudo arrasado

 

Não és tu que hoje os despertas

Com o teu sino dobrado

Que da seca das matinas

Eu os tenho dispensado

 

Trás almoçar no aljube

Meu santinho desregrado

Que já não tangerás a matinas

No tempo determinado

 

Passou-lhe adiante dum salto / dum pulo

E se foi pôr emboscado

Na volta que a torre dá

Para o deixar assombrado

 

Salta o santo a dois e dois

Os degraus sem mais cuidado

Senão quando que deparou                       Senão quando de repente

Com o anjo condenado                              lhe apareceu o condenado

 

Com tão feia catadura

De tanto fogo cerrado

Que todo o valor de António

Ali ficou soçobrado                                     desmaiado

 

Queria bradar Jesus

E em gesto de assustado

Quis dizer-lhe vade retro

Da garganta está tomado

 

Mas erguendo a mão direita

Mesmo assim desatinado

Na dura pedra da torre

Deixou o sinal sagrado

 

Toda a sé velha tremeu

E Satanás despeitado

Nas profundas dos infernos

Foi cair precipitado.

 

Tocou o sino a matinas

No tempo determinado

Os cónegos despertou

O demo ficou logrado

 

 

O bento sinal da cruz

Na pedra ficou gravado

E ainda hoje de memória                     Ainda hoje o sinal santo

Na torre está conservado                     Na muralha está gravado

 

 

 

 

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

Imagem: Santo António de Pádua (detalhe de Bom Pastor), marfim, séc. XVII,  encontrado aqui

publicado por VF às 01:30
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