Quarta-feira, 27 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

E. Munch.winter

 Edvard Munch, 1899

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Winter is coming

 

 

 

Toulouse-Lautrec adorava o Outono, que para ele era a Primavera do Inverno, e embora esta semana Bruxelas esteja banhada no que os ingleses imperiais apodaram de Verão Indiano, o Inverno avizinha-se como monstro em pesadelo que exigiria almas ainda mais torturadas do que a do fidalgo-pintor – há mais de meio século, em cantiga portuguesa traduzidota de filme a cores de Hollywood, “…por mais que fizesse/Vivia a lembrá-la/E bebia absinto/Pelo cabo da bengala” – para apetecerem a estação das trevas e sofrerem por ela levar quase um ano antes de nos tornar a visitar (no Hemisfério Norte. Não sei como a correcção política dá conta do recado sem ofender as/os do Hemisfério Sul).

 

Para mim, como em todos os sistemas simbólicos que o bicho homem foi inventando durante milhares de anos para tentar viver com a noite e o dia, o mal e o bem, a força e a fraqueza, a mulher e o homem, a vida e a morte, o Inverno é coisa péssima (ao contrário do que achava o aleijadinho genial, que “ia ao Moulin Rouge/Enfrascar-se no vinho”) - e o de 2017-2018 vai ser “très very péssimo” como diria chauffeur de táxi poliglota que me levou o ano passado de casa ao aeroporto, onde ainda decorriam trabalhos de reconstrução, consequentes de terrorismo bombista.

 

No verão de 1914, ministro britânico ganhou nota de pé de página no grão livro dos viventes por ter dito que por toda a Europa as luzes se estavam a apagar. Para os europeus, a primeira metade do século XX foi uma Bernardette do caboz e, para muitos – incluindo, leitora, este seu criado – a segunda foi work in progress até ao colapso da União Soviética. Mas o mundo é mais complicado do que cada um de nós julga. Um bem que hoje se alcança/Amanhã já o não vejo/Assim nos traz a mudança/De esperança em esperança/E de desejo em desejo - ou, olhando para o ano que se aproxima e tomando outra inspiração clássica, de Bernardette do caboz em broncalina do camandro. Na América, Trump – e quanto melhor se percebe no que deram quer o partido Republicano quer o partido Democrático menos a gente se espanta. Na Europa, da Polónia ao Reino Unido, da Hungria à Catalunha, poucos dizem coisa com coisa; Macron procura, em vão, que os franceses se portem como alemães e Frau Merkel descobre com alarme que quem quer cada vez mais portar-se como os alemães são os alemães eles próprios. Très very péssimo.

 

O mal vem de longe. Durante a Guerra Fria, para encostar a URSS à parede, armámo-nos em defensores dos direitos do homem, levantando a fasquia bem acima das nossas posses – mas, como os soviéticos podiam muito menos ainda do que nós, passámos por virtuosos (assim um bocadinho como a filha do general birmanês). Ainda por cima, financeiros e economistas acham mais graça a tornar os ricos mais ricos do que os pobres menos pobres e o mau viver está a espalha-se por toda a parte. Por um tempo, sabedoria e bondade foram valores seguros. Se deixarem de o ser, acabou o meio milénio de intervalo lúcido a que tivemos direito.

 

 

 

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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

 

António Guterres

António Guterres, secretário geral da ONU 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O Circo da ONU

 

 

 

Tenho fraca opinião das Nações Unidas embora lhe reconheça algumas vantagens, que pude medir pela primeira vez no Cairo, onde o Superconstellation fizera escala ao começo da noite, voando de Genebra para Bombaim em Janeiro de 1952. A altura era especial: o General Naguib tinha tomado o poder, levando o país a caminho do Terceiro Mundo (depois de correr com ele, o seu sucessor, Nasser, juntamente com o Pandita Nehru e o jugoslavo Tito – que viriam os três a morrer fiéis ao posto, de morte natural e cercados de acólitos – iriam criar o Movimento dos Não-Alinhados) forçando o Rei Faruk, deposto e exilado, a contribuir pessoalmente para a plausibilidade de vaticínio seu: daí a cinquenta anos só haveria cinco reis no mundo, o Rei de Espadas, o Rei de Paus, o Rei de Ouros, o Rei de Copas e o Rei de Inglaterra. (Voltei a passar no Cairo, daí a pouco mais de seis meses, tinha Naguib sido deposto. Mas a memória mais exótica dessa escala foi outra: ao pequeno-almoço no restaurante do terminal, servido por criados de fez encarnado, se se pedia bacon & eggs vinham sempre três ovos com o bacon. Nunca me acontecera antes nem aconteceu depois, em nenhum lugar do mundo).

 

Nós viajávamos com laissez passer das Nações Unidas porque o Pai trabalhava para a Organização Mundial da Saúde. No mesmo avião vinham duas enfermeiras inglesas de meia-idade, também funcionárias da OMS, que insistiram em se fazer identificar pelos seus passaportes britânicos, válidos e legais no Egipto – e desde há mais de um século impositores de ordem, respeito e eventual subserviência desde o Suez até Pequim. Mas as autoridades fronteiriças do Egipto agora ao serviço de Naguib – nem imagino como terá sido quando passaram a servir Nasser – fingiam não perceber a insistência das Misses e, sabendo que estas viajavam pela OMS, exigiam os laissez-passer da ONU, para eles organização acima de todas as outras no mundo, subalternizando assim os British Passports emitidos por agentes de Sua Majestade Britânica - propósito evidente e inflexível da sua diligência. As enfermeiras a certa altura perceberam que não as deixariam seguir para a Índia, submeteram a razão ao bom senso, e seguiram para Bombaim indignadas.

 

Passados 34 anos, na minha primeira ida à ONU em Nova Iorque, pego à chegada no New York Times, vejo na primeira página artigo sobre a Assembleia Geral que começava e, no segundo parágrafo, leio “Diz António Monteiro, de Portugal: é psicoterapia de grupo para o mundo”. Ele não era ainda embaixador mas diplomata na nossa Missão – e nunca esqueci essa maneira de explicar a utilidade do ritual. Outro momento a não esquecer, 8 anos mais tarde. Nos 50 anos da Organização, o Fernando Andresen, embaixador em Washington e eu, secretário-geral da UEO, entrávamos às 9 da manhã no grande anfiteatro cheio de convidados. “Tu põe-te a pau” disse ele sem olhar para mim. “A maioria desta malta é estrangeira”.

 

Quem não seja burro de todo também aprende com os mais novos.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Schubert

 Franz Schubert, aguarela de Wilhelm August Rieder, 1825.

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O quinteto em dó maior, D 956, de Schubert

 

 

 

O mano Jorge, que morreu com dez anos e tinha menos nove do que eu, era o único dos três filhos com jeito para música. O piano que fora da Mãe veio de Évora para nossa casa em Lisboa e a Professora Mariana que dera lições ao Babalhú, à Luzinha e à Nucha, filhos de João Cid dos Santos e de sua mulher Nazaré Vilhena, amigos lá de casa – o Pai era padrinho da Nucha – começou a dar lições ao Jorge quando ele tinha seis anos.

 

O Pai cantara em novo cantigas alentejanas (lembro-me da confusão que me fizera ouvi-lo nos Olhos da Marianita em casa do avô quando eu sabia estar ele em Lisboa: era um disco gravado quando era estudante e posto na telefonia naquela manhã pelo Radio Clube Português ou a Emissora Nacional) mas quer o João quer eu pouco ou nada herdámos dessa inclinação; o João, nada mesmo: se fosse inglês poderia dizer como Winston Churchill que só conhecia duas músicas – uma era o God Save the King e a outra não era; eu saíra um bocadinho menos duro de orelha, distinguindo alguns compositores de outros e sentindo preferências fortes por alguns deles.

 

Nunca saberemos o que o Jorge teria dado. Na geração seguinte, a inclinação reapareceu. O meu filho toca há muitos anos em dois grupos pop holandeses que têm conhecido algum sucesso em Groningen e outras cidades do Norte dos Países Baixos. E o meu sobrinho Tiago, que agora vive em Berlim, é compositor, inter alia, de uma ópera, de música orquestral e de música de câmara, tendo também sido professor de composição. Para entender melhor estes saltos de gerações é útil saber que não são à toa. Existe toda uma ciência destas coisas a partir das experiências de um monge agostinho de Brno, hoje na República Checa, chamado Mendel que, passou oito anos a cruzar ervilhas de cheiro e descobriu as leis segundo as quais, em cada espécie, os caracteres hereditários passam de geração em geração, fazendo comunicação científica em que explicou tudo isso, incluindo a existência de pares do que hoje chamamos genes, em 1865. Ficou esquecido meio século, depois inspirou investigações que ainda hoje continuam: é um gigante da biologia, ombreando com Darwin. Ver-se-á o que darão o meu neto e os netos (e o bisneto) do mano João.

 

Tudo isto porque na telefonia do carro ouvi hoje mais uma vez o quinteto em dó maior de Schubert D 956 quase todo, tocado não sei por quem. De há um século para cá ouve-se música que nos chega assim, por acaso ou de propósito, em discos e em maneiras mais modernas ainda de a reproduzir sem ter de haver músicos a tocá-la diante de nós ou nessa altura. Ouvi-o pela primeira vez em casa do Ruy Cinatti e, na minha ignorância musical, tocou-me muito e veio-me à cabeça linha de Eliot “ an infinitely gentle, infinitely suffering thing”. Volta sempre que o oiço (a última vez o ano passado, ao vivo). Quando estou em sala, dá-me para achar que não devia haver discos. Depois caio em mim: sem discos, teria ouvido muito pouca música, quase toda má.

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

1463490499619

Norte Coreanos inclinam-se diante de estátuas dos antigos líderes Kim Il-sung and Kim Jong-il na capital Pyongyang.

foto: J.A. de Roo via Wikimedia Commons. 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Grande chatice à vista?

 

 

 

Com o psicopata de Pyongyang na maior, parece-me que estamos mesmo pela primeira vez em perigo de guerra nuclear, desde o colapso da União Soviética. Ora na guerra, escreveu Thomas Hobbes (1588- 1679) e eu vi acontecer à minha frente, força e fraude são as duas virtudes capitais. Exactamente o contrário do que a correcção politica da presidência de Barrack Obama queria impor aos americanos. Ao fim de oito anos, a malta yankee fartou-se de tanta bondade e, em vez de votar terceira vez seguida nos democratas, votou em Trump, toma lá que já almoçaste. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, mas acontece quase sempre assim.

 

Em Portugal é diferente. Cá, as tentativas de correcção política são sempre ridículas – mesmo quando não cheguem à insensatez fascistoide da proibição dos livros para meninos e para meninas da Porto Editora. Não por sermos desajeitados mas porque a correcção política resulta de exagero inapropriado de exigência moral – e em Portugal tal exigência moral não existe. Não há noções de mal e de bem universalistas, fontes de satisfação ou de culpabilização geral. O centro dos direitos e deveres é a família e não uma obrigação abstracta aplicada por igual a toda a gente. Pai de amigos meus, grande commis d’État do regime de Salazar (mas poderia ter sido um dos manda-chuvas de hoje menos iletrados) teria candidamente dito que nas relações dos governantes com os governados se deveriam favorecer os amigos, prejudicar os inimigos e, a quem fosse nem uma coisa nem outra, aplicar a lei. O cocheiro da tipoia que levara Fradique Mendes de Santa Apolónia ao hotel em noite tempestuosa, por preço exorbitante exigido à cabeça, quando Fradique lhe perguntou no fim “Com que então são três mil reis?”, respondeu: “Eu disse aquilo porque não tinha conhecido o Senhor D. Fradique. Para o Senhor D. Fradique é o que o Senhor D. Fradique quiser”. Dei uma libra àquele bandido, desabafa Fradique. À gente destas terras do Sul europeu – nós, os espanhóis, os italianos, mais de metade dos franceses, os croatas, os sérvios, os albaneses, os gregos – Lutero e Calvino não chegaram. Mas chegaram às grandes tribos anglo-saxónicas e germânicas que estão a agora a perder o controle do mundo, depois de dois séculos a mandarem vir. (De caminho, deixaram estado de direito e democracia nalguns lugares – a Índia é o mais conspícuo – que espero não venham a desaparecer). No estertor desse poder temos hoje em casa as batalhas inglórias da austeridade.

 

Voltando à Coreia do Norte. Devemos ajudar os americanos a definir sensatamente qual seria o mal menor – a fim de que o Ocidente não se desconjunte diante da China e da Rússia. A história da Coreia do Norte com a arma atómica vem de longe e quando se julgava que no mundo multipolar se encontraria enquadramento propício, o psicopata mandou matar tio e irmão e bateu o pé. A nosso favor: em 1914 e 1939 guerra era natural e grandes potências a queriam; hoje não o é e nenhuma potência a quer.

 

 

 

 

publicado por VF às 14:24
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