Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

A Écloga e a Epopeia (2)

 

 

 

 

 

Maria do Carmo de Barros Pereira de Carvalho

(Mariêta)

Baía, Brasil, c. 1897

 

 

A camélia desbotada que Unamuno encontrou no Santuário do Bom Jesus do Monte, seca, espalmada contra o vidro duma tosca moldura, guarda muito do segredo da emigração minhota: "Em 14 de Março de 1874, retirei do Senhor do Bom Jesus do Monte uma camélia com a promessa de lha restituir, caso ele permitisse que eu voltasse um dia a esta terra, da minha volta ao Minho. E como ele o permitiu, nesta data lhe devolvo como prova de fé e de religião... Braga, Junho de 1895, Maria Emília Santos Mayor."

 

Não leva o minhoto consigo, como o inglês, hábitos de vida que na simplicidade do seu quotidiano difícil mal teve tempo de criar. Mas permaneceram com ele os costumes, os modos e a paisagem que lhe deram carácter. O caldo verde tem tanta importância como o trajo típico que manda ir da cidade ou da aldeia natal para a sua filha, lá no Brasil, assim que pode. Depois, na criança que nasce, no aniversário de família, no casamento longe, o fotógrafo lá está para fixar em postal a cores a pose lusíada que por vezes pode guardar um pequeno coração que só conhece Portugal de ouvir dizer.

 

Qual o segredo deste patriotismo entranhado, que não exclui, no entanto, a rápida capacidade de adaptação do minhoto à terra que procura? A paisagem, às vezes, responde-nos. Tenho na minha frente, materializada nessa branda policromia que é uma das suas características, os campos silenciosos do Minho à hora discreta do entardecer. Até à fímbria do horizonte sobe, aqui e além, o fumo dos casais. Findou o trabalho rural — e é a hora em que outro se inicia o do lume amigo onde se prepara a ceia. Esta paisagem, tímida na sua alegria amena, dá ao minhoto certo sentido das proporções que o acompanha sempre — e envolve uma população cada vez mais densa, que talvez não desejasse senão viver e morrer aqui, entregue à terra ou a um artesanato agrário, tradicional. Mas a industrialização da época é contrária às calmas recompensas dessas antigas ocupações, cujo valor económico era também moral. Por isso, o minhoto emigra e, se é preciso, em conjunto, como já, no século XVI, Campo Tourinho fazia, levando de Viana para Porto Seguro,de que era donatário, dizem os livros, "mulher, filhos e outros moradores casados, como parentes e muita outra gente". Ao emigrar, o minhoto transmite a sua confiança ao solo onde chega e oferece-lhe, além da força do seu braço e do seu ímpeto, a madura perspicácia da sua intuição. E tenho para mim que, talvez contraditoriamente, também deve estas qualidades à paisagem, que, longe de adormecê-lo, o estimula, não lhe fechando o sonho nos limites da terra, por demasiado estreita. Quando lhe foge, sublima-se.

 

Afinal, a écloga não é incompatível com a epopeia.

 

 

 

 

 

Luís Forjaz Trigueiros (1956)

in Paisagens Portuguesas, Uma viagem literária

© Guimarães Editores Lda (1993)

 

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publicado por VF às 12:27
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