Ruy Cinatti (1915-1986)
Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes", leu o escriturário por detrás do balcão do consulado de Portugal em Londres. Muito novo, era poeta ainda por publicar: acometeu-o uma aura de deslumbramento. Levantou os olhos do passaporte e fitou o homem do outro lado.
"O senhor é o Ruy Cinatti?"
"Sou, sou" respondeu o outro. "Não é por mal..."
Nada foi por mal, na vida do Ruy. Havia rigores desapiedados: "Eu, com o Antigo Testamento entendo-me. Mas depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló — estragou tudo!" Esta dureza mais do que calvinista atravessava sem confrontos mortais a tibieza moral dos nossos costumes por vir entrecortada pelas interjeições onomatopaicas e outras idiossincracias verbais que faziam parte permanente da fala do Ruy. Quem tratava com ele aprendia a dar-lhes sentido (para o Senhor Moreira, há meio século dentro do quiosque do Príncipe Real, entra o ano sai o ano, do nascer do sol à meia noite, "glú-glú e fló-fló" queria sempre e somente dizer "um maço de Porto e uma carteira de fósforos"). Impediam que ele degenerasse de moral em moralista e agasalhavam numa capa de pudor a sua carência afectiva essencial.
Em "O Livro do Nómada meu Amigo" lê-se este verso:
"Quem não me deu amor não me deu nada."
A poesia é uma coisa, a vida outra: entre a palavra escrita e a conversa desconjunta-se um universo; além disso, mais ainda do que em outros grandes poetas, a maneira do Ruy falar de si era muito diferente da sua maneira de escrever. O sentimento que levara ao verso acima, poderia, de viva voz, chegar-nos assim:
"Gadulha, eu quero ir ao cinema..."
Ditos deste — e o jeito de os dizer — irritavam de sobremaneira muita gente que os tomava por exibição oportunista e ridícula de mimo. Mas não irritava quem encontrara em Ruy Cinatti qualquer coisa de inefável, um milagre fugaz e intermitente que nos fora dado testemunhar. Por dentro do casulo de maneirismos luzia um cristal indestrutível. No nosso mundo relativo vingara uma exigência de absoluto.
Nos últimos anos, deambulava pelas ruas de Lisboa, distribuindo fotocópias de poemas seus sobre Timor, espécie de Catitinha literário, figura de escárnio e compaixão. A tragédia de Timor, onde fora agrónomo e etnógrafo, tornara-se para ele uma obsessão moral mas os poderes que havia não o compreendiam nem o consideravam. A esquerda republicana — maçónica e machista — sempre o achara um diletante efeminado. Com os comunistas, em 1974, talvez se pudesse ter entendido mas, do lado de lá de um nevoeiro filosófico, eles eram, afinal de contas, tão brutais como os ocupantes indonésios da terra que ele amara sobre todas as outras. Os amigos de direita tinham desaparecido da política no 25 de Abril e a nova direita desconfiava do seu pendor igualitário. Da nova esquerda estava longe: "Eu fui criado à direita mas foge-me o corpo para a esquerda — e o que vejo por aí é o contrário". Isto no tempo da expansão marcelista, quando ganhar muito dinheiro passara a ser 'de rigueur' para o escol da gente nova, mesmo daquela que fizera nome no antifascismo universitário.
Uma das últimas vezes que estivemos juntos contou da sua ida ao Ballet Gulbenkian perguntar se o aceitavam (aos sessenta e cinco anos). Pôs um disco no gramofone e demonstrou. Depois dele sair, minha mulher, que é coreógrafa, disse-me que nunca vira nada assim: quem tenta dançar ballet sem ser bailarino procura sempre imitar a maneira de dançar dos bailarinos. Ruy Cinatti não imitara ninguém: entrara inteiro na música e, sem técnica, dançara com expressão lírica inultrapassável. Foi-se embora tarde, muito bêbedo e esqueceu-se lá em casa da boquilha que nunca cheguei a devolver-lhe. Guardo-a agora como uma relíquia. Nasceu no exílio em Londres em 1915 e morreu no exílio em Lisboa em 1986.
José Cutileiro
in Publico 9.6.1991
Imagem (e cinco poemas): aqui
