Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Oscar Wilde por Max Beerbohm

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Novos e velhos

 

 

Janus Onyszkiewicz, dissidente polaco virado ministro da defesa no intervalo feliz  entre o fim do comunismo e o regime beato e bruto que está a agarrar a Polónia e a tentar tornar a fazer dela uma penitenciária, disse-me que, nisto de novos e velhos, decidira há muito que todos os que tivessem a sua idade ou menos eram novos e todos os que tivessem mais idade do que ele eram velhos. (Velhos ou velhas; novos ou novas. Para não tornar este escrito uma sucessão de solavancos, tal fica subentendido para todo o texto – salvo evidentemente quando não faça sentido nenhum). À volta da meia-idade que ele tinha na altura esta partilha ajuda a genica de um homem. Uns anos mais tarde, se a cabeça continuar viva, faz dele um velho espirituoso. Mais uns anos ainda e é disparate a evitar por quem não goste que o julguem senil. (Seja como for, há casos impossíveis. Oscar Wilde dizia de Max Beerbohm, escritor e desenhador seu contemporâneo em Oxford, tinham os dois vinte anos, que os Deuses  haviam contemplado Max com ‘o dom da velhice perpétua’, ‘the gift of perpetual old age).

 

Conheci senhor português de mais de 70 anos que chorou de emoção perante tanto progresso científico e técnico quando o sputnik de Yuri Gagarin deu lá em cima um par de voltas à terra e toda a gente cá em baixo soube disso in real time. E um bom meio milénio antes, o navegador Juan Ponce de Leon que, no dia de S. João, morreu à vista de terra a que nenhum europeu chegara antes e que hoje chamamos Florida, entrou na história pelas palavras que então pronunciou: « Gracias te seam mi San Juan bendito, que he mirado algo nuevo ! »

 

Se deste lado da curva de Gauss saltitam velhos vivos da costa, do outro lado dela jazem a espreguiçar-se novos com alma de velho – que podem revelar-se de maneira divertida. Há anos sem fim, estava eu a jantar num restaurante de caça em Hampstead com a minha mulher e casal amigo, todos nós ainda novos (todos portugueses), e falou-se do Brasil, talvez por eu ter estado dias antes em festa londrina de brasileiros e portugueses da qual guardara - e guardo ainda – duas sentenças lapidares. Primeira: uma brasileira disse-me “Vocês si detestam!” (‘Vocês’ eram os portugueses; não só os que estavam ali, todos, em geral). Segunda: tendo eu dito de alguém “É o último dos imbecis”, brasileiro ao meu lado sugeriu “Não diga último; diga penúltimo. Deixe sempre lugar para um cara.” Rimo-nos todos à mesa quando contei dessa festa, o meu amigo sentiu pulsão interior e exclamou: “Gostava de ir ao Brasil!”. Depois parou, calou-se um instante, reflectiu e acrescentou “Não. O que eu gostava era de já ter ido e de ter gostado.”

 

Achei a formulação excelente, contei-a a várias pessoas e agora, meio século depois, de repente, ocorre-me que é sinal de velhice,  confortada por vida bem vivida, mas velhice. Emoção simétrica à de Fernando Pessoa quando se lembra de momento bom da infância e acrescenta: “Era eu feliz então? Não sei. Fui-o outrora agora.”

 

 

 

 

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Quarta-feira, 16 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Balthus - La partie de cartes, 1948- 1950, Thyssen

 Balthus, 1948/50

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A nudez forte da verdade

 

 

                 A verdade, Zé, é uma água muito quente onde eu de vez em quando meto um dedo para ver se ainda queima – e ainda!                                               Luís de Sttau Monteiro, em conversa, circa 1960.

 

« Conhecemos bem esse Portugal dos favores, cunhas e notas por debaixo da mesa. Era prática ‘institucional’ que todos condenavam indignadamente mas a que todos recorriam alegremente. Mudar o statu quo de uma penada está a ser dificil » escreve-me sobre o Bloco da semana passada leitora fiel e avisada que usa o pretérito para as malfeitorias e o presente para o começo da mudança.

 

Oxalá tenha razão nos tempos dos verbos. Que neste ano da Graça de 2018 haja começado outro Grande Salto em Frente lusitano, mais de meio milénio depois do primeiro calar tudo o que a musa antiga cantava. Oxalá - mas não estou seguro. Costumes antigos, como burros velhos, não aprendem línguas. E algures entre o roteiro de Álvaro Velho relatando a viagem de Vasco da Gama à Índia (1498) e a carta de Fradique Mendes à madrinha relatando chegada a Lisboa, a Santa Apolónia e de lá para o Hotel Bragança, numa noite de temporal (1885), dera-se grande mudança. Com o criado inglês e a bagagem já no hotel, Fradique confronta o cocheiro que, debaixo de chuva torrencial e sem outro fiacre à vista, antes de começar a corrida impusera preço exorbitante.

 

« Com que então são três mil reis ?’

‘Eu disse aquilo por dizer. Não tinha conhecido o Senhor D. Fradique. Para o Senhor D. Fradique é o que o Senhor D. Fradique quiser.’

Dei uma libra àquele bandido. »

 

A indignação contra a corrupção que borbulha agora é circunstancial e raramente vem do fundo da alma. A retórica das manifestações de desagravo é oportunista. Sem protestantes e sem judeus desde o Concílio de Trento, nós, portugueses, não temos medo essencial de Deus (não o confrontamos directamente; contamos com os Santos que são os Senhores Doutores do Céu  para nos defenderem), temos medo acessório da polícia – e os mais ginasticados viram a casaca enquanto o Diabo esfrega um olho. A seguir à convenção de Évora-Monte, a Câmara de Monsaraz, miguelista durante toda a guerra civil, escreveu a D. Maria II protestando amor e fidelidade « que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fiéis». Vamos ver agora muito disso.

 

Vão ser tempos difíceis. Ou desistimos de morigerar o país, rapaziada esperta passará a desembaraçar-se como no sul de Itália ou na Córsega, controle e riqueza serão partilhados à força com bandidos mafiosos e não haverá turismo ou Europa que nos salve dessas servidões, o que seria uma pena. Ou apesar de tudo como Camus talvez tivesse razão e haja no homem mais de bom do que de mau, insistiremos em querer passar pela porta estreita, seguir pela via direita, portarmo-nos como gente de bem e antes de chegarmos à decência colectiva viveremos tempos dolorosos. A nudez forte da verdade ficará às vezes coberta de nódoas negras.

                                                              

 

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

corruption 2

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

« Onde é que é o guichet da corrupção ? »

 

 

Assim costumava perguntar há muitos anos, tio da Vera indignado por não ter tido ainda direito a nenhuma. Era uma reacção moderada e divertida, bem diferente da indignação tonitruante que viceja agora, abafando a reprovação genuína de alguma gente de bem e disfarçando a inveja (cruzes, canhoto!) que medra no peito fiel de muito patriota.

 

Nesta matéria, às vezes, há casos bicudos. Quando eu vivia em Princeton, New Jersey, soube pelo jornal diário o seguinte. Figura importante de Wall Street fora apanhada por investigação oficial num caso de informação priveligiada, levada a tribunal e condenada a alguns anos de cadeia. Beneficiado com a informação indevidamente transmitida contava-se seu próprio pai, médico reformado (se bem me lembro, nefrologista) com mais de oitenta anos que pudera vender as acções da sua poupança antes destas se desvalorizarem abruptamente - e fora também condenado. Eram judeus, tinham laços de família muito fortes (tal como acontece quase sempre em Portugal) e ocorreu-me na altura que o corretor haveria de ter sentido o que sentiria português trabalhando na Bolsa de Lisboa, apanhado em circunstâncias semelhantes. «Então uma moral universalista, que coloca à mesma distância de mim o último dos estranhos e o primeiro dos próximos, vai-me obrigar a deixar na miséria o meu pai? E numa idade em que já nem poderia tentar sair dela? Qual é o dever de um filho: cumprir lei cega perante valores milenários e deixar o pai pelas ruas da amargura? Ou arriscar-se a ignorar essa lei e cumprir as obrigações da tribo?» Palpita-me que a escolha do hipotético corretor alfacinha seria a mesma da do homem de Wall Street.

 

Impôr de repente leis gerais universalistas a gente regida  por usos e costumes tradicionais que poem a família no coração do mundo, é sempre o cabo dos trabalhos. Todas as potências coloniais descobriram isso. Também o descobriram os liberais portugueses a seguir a 1834, quando, de Lisboa, quiseram fazer chegar o país novo, inventado por Mouzinho da Silveira, a sombrias boticas de Trás-os-Montes, a barbeiros palreiros do Algarve. (Mouzinho escrevera cercado na Cidade Invicta, e já se demitira do governo quando os liberais ganharam a guerra aos miguelistas e se meteram a mudar Portugal).

 

Quase século e meio depois, os laços entre centro e periferia - entre Estado e povo - tinham cristalizado. Quanto ao que chamamos corrupção (termo que não era usado) em Câmara Municipal alentejana que conheci bem as coisas passavam-se assim. Quando camponês, pequeno comerciante ou artífice tinha de lá ir, se o assunto fosse tratado a nível baixo a gorgeta era 25 tostões; a nível alto, 5 mil reis. Dentro do funcionalismo porque presidente e vereadores, todos da mó de cima, não constavam da tabela. Trocavam favores.

 

Havia muito menos negócios, muito menos dinheiro a circular, os ricos nasciam ricos, os pobres morriam pobres. Ao comércio e à indústria o Dr. Salazar preferia a agricultura.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Quentin Metsys - O Cambista e a sua mulher (1519)

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Deutschland, Deutschland über alles

 

 

 

Quem é o maior inimigo da União Europeia? O Reino Unido, de saída no comboio fantasma do Brexit? Itália, onde maioria dos eleitores votaram este ano em partidos que não a querem? Polónia, a submeter o poder judicial ao poder executivo? A Hungria autoritária e xenófoba de Vitor Orban?

 

Ou estará o inimigo fora de portas? Os Estados Unidos de Donald Trump com o seu ataque sistemático ao ambiente e a sua guerra comercial contra mundo? A cleptocracia de Vladimir Putin, incapaz de diversificar economia de gás e petróleo, com 110 pessoas donas de 35% da riqueza russa, a mão de ferro do Kremlin a dominar jornais, telefonias e televisões, controlando a opinião interna, e ordena piratagem informática (e um assassinato ou outro), para tentar destabilizar potências estrangeiras, grandes ou pequenas? Ou será a China, planeando a longo prazo (que já não é o que era: Keynes escreveu que a longo prazo já teremos morrido todos mas agora, a longo prazo, ainda alguns de nós por cá andarão)?

 

Ou, para espíritos seduzidos pela teoria conspirativa da história, todos estes, mancomunados uns com os outros?

 

Nada disso, leitora. O maior inimigo da União Europeia é afinal a Alemanha, que é também o mais populoso e o mais rico dos seus Estados Membros bem como, até há poucos anos, o era a Alemanha Federal – antes da reunificação havia duas Alemanhas - o único a encontrar na Europa um Ersatz de Pátria . Em 1996, em Bruxelas, coronel alemão que trabalhava comigo na UEO e fora no dia 9 de Maio a espectáculo na Grand Place para celebrar o Dia da Europa, contou-me, indignado, que só ele, a mulher e os filhos se tinham levantado quando fora tocado o Hino da Europa (4º andamento da nona sinfonia de Beethoven, sobre a Ode á Alegria de Schiller).

 

Em 1945, os europeus beligerantes estavam de rastos e a Alemanha, além disso, com quatro patas em cima (USA, URSS, Reino Unido e França) para só se levantar devagar e desarmada. Mas em 1957 já assinou o Tratado de Roma (a Itália também); laboriosa e disciplinada fora pagando a sua conta, pagamento muito facilitado porque se precisava dela forte, perante a União Soviética. Com os anos foi recuperando muitas das características de uma grande potência (e uma rara nestas: era o único dos “grandes” a esforçar-se por tratar bem os “pequenos”). Antes de se dissolver, a União Soviética consentiu na sua reunificação. Aí as coisas mudaram.

 

A “construção europeia” fora inventada na esperança de se poder viver em paz com a Alemanha depois das duas tragédias da primeira metade do século XX. Funcionou enquanto a Alemanha era devedora e estava dividida. Cofre pagador e reunificada, opõe-se a qualquer forma de mutualização da dívida. Acredita que o Norte protestante da Europa é bom e o Sul católico e ortodoxo é mau. Dívidas são pecados. Conservadores, liberais, verdes e democratas sociais acham “que a Europa está como está porque não se foi suficientemente duro com os países do Sul”. Nada bom à vista.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

terilene

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O teor de terilene

 

 

Quando eu andava na escola, o 25 de Abril era a 28 de Maio. Na escola e por aí fora, quase até aos meus quarenta anos; depois mudou. Cada regime celebra o golpe militar que levaria à sua instalação: o Estado Novo festejava a revolta de Braga em 1926, chefiada pelo Marechal Gomes da Costa, que pouco tempo durou na chefia; a Democracia festeja a revolução dos cravos, com o General António de Spínola como figura de proa que também depressa se foi. Dos quatro regimes que tivemos no Século XX  - dez anos de Monarquia, dezasseis de primeira República, quarenta e oito de Estado Novo e agora a Democracia, toda foleira pelo Século XXI a dentro, deverá vir a ser esta a mais duradoura, quiçá mesmo muito mais duradoura, se o país vier a juntar mais uns mil anos àqueles que já viveu, quase todos com Rei (ou Rainha) absoluto ou constitucional.

 

«Os portugueses hão-de ser sempre os mesmos porque não há outros» dizia o primeiro Duque de Palmela, segundo me contou há anos o Vasco Pulido Valente, e gosto de o lembrar aqui porque eu não sou historiador e, quanto ao passado, prefiro fiar-me no que eles me digam a pôr-me a armar em carapau de corrida ou a armar ao pingarelho (o sargento-criptógrafo Pina dizia que não era bem a mesma coisa, eu acho, pelo contrário, que é exactamente a mesma coisa e o meu chorado Vasco Graça Moura, Deus lhe tenha a alma em descanço, dava-me razão e considerava o sargento – que ainda por cima era a favor do novo acordo ortográfico – um imbecil: o Vasco não tinha papas na língua). Mas se somos os mesmos há-de ser por genética e imitação de que nem sequer nos demos conta, que geração após geração, repetem-se  momentos – «A beber capilé, fica igual ao bisavô que eu ainda conheci» - e a propósito de capilé vem-me à ideia outro morto. Eduardo Calvet de Magalhães, que Deus tenha, irmão do pedagogo e do diplomata, tão esperto quanto os ilustres manos mas mais divertidos, inventou a publicidade moderna em Portugal e, numa altura em que Salazar não deixava entrar cá a Coca Cola, dizia ter inventado também o refrigerante português ideal – capilé gazeificado – tendo já slogan para ele:«A bebida que lhe corre nas veias».

 

Talvez haja em todos nós um ar de Sul da Europa, de Norte de África sem turbantes. Quando vivia em Princeton, vim a Coimbra, convidado ainda pelo Professor Ferrer Correia, a seminário sobre a Europa. Passava-se num antigo convento ao pé do rio; quando chegou a minha vez, passei para a mesa e me voltei para o público, poucos estudantes com capas, mas muita gente nova, e também velhas e velhos, achei-me de repente no Kosovo, onde eu ia muito nessa altura pelas Nações Unidas: as peles, os cabelos, as roupas, as expressões de espectativa resignada, os olhares. Senti-me quase em Pristina, sabendo que estava em Coimbra.

 

Contei isto dias depois a amigo da idade do meu filho, muito viajado e homem de bom conselho que me disse, meio espantado com o meu espanto:

«É o teor de terilene, Senhor Embaixador.»

 

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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bola de cristal

 

 

José Cutileiro

 

À procura do futuro?

 

 

 

Dois factos

 

Primeiro: Entre 2007 e 2017, os proventos dos administradores das cem maiores companhias do Reino Unido foram multiplicados por quatro, isto é, passaram em média de um milhão para quatro milhões de libras esterlinas por ano. Durante a mesma década, os proventos do geral das pessoas empregues por conta de outrem no Reino Unido aumentaram de 10%, isto é de 1% por ano.

 

Segundo: Também no Reino Unido, à pergunta, corrente em inquéritos de sociedade, ‘Acha que os seus filhos vão ter vida melhor do que a sua?’ as respostas, até 2007, tinham sido quase sempre sim – e, a partir de 2008, passaram a ser quase sempre não.

 

Uma preocupação.

 

Em toda a Europa Ocidental, comentadores nos jornais, nas telefonias, nas televisões alarmam-nos de há alguns anos a esta parte com o crescimento do chamado populismo. Referendo no Reino Unido a escolher saída da União Europeia; eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos; eleição – e reeleição recente e reforçada – de Vitor Orban para primeiro ministro da Hungria; popularidade mantida pelo actual governo liberticida polaco; subida nas sondagens da Frente Nacional em França e – mais ainda – do movimento Cinco Estrelas na Itália, são dados como exemplos, entre outros, desse crescimento. Aos jornalistas juntam-se os cientistas políticos (a final de contas, uma espécie de jornalistas lentos e  possuídos por ‘the craving for generalizations’ que tanto irritava Wittgenstein) os quais tentam definir populismo, classificar variedades, comparar os seus aproveitamentos por demagogos de direita e de esquerda . Uns e outros, os rápidos e os lentos, preocupados por verem a Democracia mirrar dia a dia diante dos seus olhos, espécie de bambu ao contrário.

 

Um lembrete.

 

Ao contrário do que muito boa gente parece pensar, o fim do comunismo – o colapso da União Soviética; o mandarinato marxista-leninista de Beijing – não foi a extinção de uma doença. Foi o falhanço de um remédio e a sua desacreditação. O comunismo perdeu a Guerra Fria porque era pior do que o capitalismo mas a maneira como as coisas têm corrido desde então está a dar ao capitalismo uma vitória pírrica. Prosseguindo na metáfora médica: a doença continua e, esgotadas todas as variedades da mezinha experimentada primeiro em 1917 – de Pol Pot às democracias sociais nórdicas – parece urgente descobrir outro tratamento.

 

Um palpite.

 

Estaline disse a Churchill em Yalta que o embaixador que ele lhe mandara para Moscovo durante a guerra, trabalhista fabiano, era de primeira água mas tinha mania curiosa: querer explicar-lhe a ele, Estaline, o que era o socialismo. Quase 80 anos depois, se os povos fossem gatos, não seria por nenhuma dessas duas vias que iriam às filhoses. Nem pela da Rerum novarum.Inventar-se-ão misturas mais sensatas do que as ortodoxias vigentes. Se os Estados Unidos correrem com o maluco a tempo, mesmo que já não possam ser donos do jardim zoológico talvez ainda possam servir de polícia de trânsito.

  

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 11 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Hungria,2018

fronteira húngara

 

 

José Cutileiro

 

 

Fronteiras

 

 

 

Tinha quatorze anos a primeira vez que pisei uma fronteira. Foi numa tarde quente de verão em S. Leonardo-Fronteira, entre Mourão e Villa Nueva del Fresno, muito antes do burgo espanhol ficar conhecido por a PIDE ter assassinado brutalmente o general Humberto Delgado e a sua amante brasileira e os ter mal enterrado num campo próximo. (A segunda, três anos depois, foi numa manhã nevada de inverno, no passe do Kyberg, marcado por lápides de regimentos coloniais ingleses do fim do século XIX e começo do século XX – Churchill, a cavalo, andou à bulha por lá - em caminho montanhoso entre Peshawar, no Paquistão, e Jellalabad no Afeganistão onde iamos pernoitar mas isso é outra história e ficará para outro dia).

 

Nesse tempo, a Espanha era mais pobre do que Portugal e a fronteira, que atravessava a estrada numa linha oblíqua, marcava a diferença. Do nosso lado o piso era alcatrão, do lado espanhol, terra batida. Tínhamos ido de Reguengos até lá de passeio, no carro do Dr. José Pires Gonçalves, médico e medievalista amador competente (em Portugal, cada homem, além de ser o que é é outra coisa, e essa outra coisa é o que ele gostaria de ser, escreveu Ramalho Ortigão) com o Dr. José Sereto, Secretário do Tribunal e poeta satírico de mérito (em Portugal, cada homem …) que de pé, diante do alcatrão e da terra batida, recitou « Fronteira » de Miguel Torga, que eu não conhecia.

 

De um lado terra, doutro lado terra;                                                                                                                  

De um lado gente, doutro lado gente;                                                                                            

Lados e filhos desta mesma serra,                                                                                           

O mesmo céu os olha e os consente.

 

O mesmo beijo aqui; o mesmo beijo além;                                                                                

Uivos iguais de lobo ou de alcateia                                                                                             

E a mesma lua lírica que vem                                                                                                       

Corar meadas duma nova teia.

 

Mas uma força que não tem razão,

Que não tem olhos, que não tem sentido,                                                                                             

Passa e reparte o coração                                                                                                                

Do mais pequeno tojo adormecido.

 

 

Fiquei maravilhado. Desde esse dia e durante muito tempo as fronteiras para mim foram isso. Fronteiras políticas entre estados. Portugal e Espanha, Espanha e França, França e Bélgica, Bélgica e Holanda, Holanda e Alemanha, separações que a União Europeia, dentro dos seus limites, estava a conseguir apagar deixando-nos passar de um estado para outro quase sem dar por isso.

 

Há poucos anos, quando grandes imigrações inesperadas começaram a dar mau viver, o quadro mudou de cores. A ‘força’ que Torga verbera nos seus versos, a repartir o coração do mais pequeno tojo adormecido, tem afinal razão, olhos e sentido. Quem não os tinha era Torga e tantas almas mais ou menos poéticas, como a minha, embevecidas com o génio lírico do transmontano e distraidas do que se passava diante dos nossos olhos.

 

 

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Quarta-feira, 4 de Abril de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

bíblia

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Falar com Deus

 

 

Julgo haver sido Oliver Sacks – neurologista anglo-americano autor, famosamente, de “O homem que julgou que a mulher era um chapéu” (The Man who Mistook his Wife for a Hat”, de outros ensaios da sua arte e também membro de gang de motociclistas californianos barbudos e tatuados – a afirmar: “Quando as pessoas dizem que falam com Deus, a gente acha que elas estão a rezar; quando dizem que Deus fala com elas, a gente acha que elas estão malucas”.

 

A gente que assim acha, de que Sacks fala - ou melhor, falava: o bom doutor já morreu – não é tanta quanto ela própria julga. Nos últimos cinco séculos, à medida que a ciência, malgrado as violências do Santo Ofício, inexoravelmente progredia, gente assim espalhou-se pela Europa, pelas duas costas dos Estados Unidos e por outras partes ocidentalizadas da Terra. Não é, já se vê, o que se entende em muitas outras partes do mundo. Por exemplo, no Estado de Alabama, ao Sul dos Estados Unidos da América, onde a Bíblia é interpretada literalmente (o Universo foi criado por Deus quando o Livro da Génese diz que Ele o criou, isto é, há cerca de seis mil anos, com a Terra no seu centro e o que se aprenda agora: milhares de milhões de anos de existência do Universo, a partir do nada e começando num enorme estrondo, buracos negros entre nebulosas onde energia entrada nunca mais sai – ou talvez saia, o que harmonizaria teoria da gravidade e física quântica – quiçá universos paralelos, sendo o espaço infinito mas o tempo não, e não sendo nunca preciso um Deus), no Estado do Alabama, digo eu, Deus fala todos os dias com muita gente em seu perfeito juízo. E também em muitos outros lugares do globo, com muito mais habitantes do que aqueles que se contem na espuma agnóstica dos nossos dias esclarecidos a Oeste.

 

A conversa vai puxada, leitora. Fiquemo-nos pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacob, na versão retida pelo cristianismo ocidental e depois dividida pela Igreja de Roma, a Sul, e pelas Igrejas Reformadas, mormente as de Calvino e Lutero, a Norte. Lembrei-me disto fustigado pela quantidade de aldrabices de políticos, de homens de negócios, de banqueiros, de comerciantes, de doutores e para-doutores, pais e mães de família, estudantes e professores, compatriotas todos, que a imprensa cada dia mais nos revela. Protestantismo, capitalismo, catolicismo é conversa vasta e exigente; vou ficar-me por dois aspectos. Os protestantes têm de ler a Bíblia; os católicos contentam-se com o que os curas lhes digam dela, sem precisarem de aprender a ler. Os protestantes rezam a Deus; os católicos rezam também aos Santos, incluindo a Virgem Maria.

 

Ora, não só gente letrada se defende melhor da vida do que gente analfabeta, mas também a Deus não se mente - enquanto, com os Santos, tal tratamento é corrente e tolerado, em qualquer fase da transacção, mesmo no pagamento de promessas (isto é, quando o Santo cumpriu).

 

Mesmo longe de fés e liturgias, Portugal é um cabaz de Natal de falcatruas e pantominices.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 28 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

pain_au_chocolat

pain au chocolat

 

José Cutileiro

 

 

Nova Iorque dos Pobres e Espírito de Contradição

 

 

 I

Há muitos anos chamei a Bruxelas a Nova Iorque dos pobres e dá sempre gosto ao inventor verificar que a coisa inventada existe. (Tem riscos, como tudo quanto seja levado ao excesso; Camões lembrou-o cruelmente: Torna-se o amador na coisa amada/Por virtude de muito imaginar).

 

Hoje, em minúscula clínica dessas que há agora onde a gente se sente muito melhor do que num hospital, de tal maneira que os anestesistas para nos porem a dormir precisam só da quarta parte do líquido que nos injectam nos ditos hospitais, fizeram-me pequena intervenção. O cirurgião era grego, a anestesista polaca, a enfermeira uruguaia, eu português (a minha mulher, cujo telefone lhes dei, é francesa). Belga, só talvez a recepcionista que, nos cinco minutos que passei na sala espera, desembaraçava-se em francês e no holandês que se fala aqui – 60% no país,12% em Bruxelas. Na meia hora de chá preto e pain au chocolat que passei entre acordar e ir-me embora, a conversa terá sido mais variada e divertida do que teria sido na Mãe Pátria sobre mexeriquices de colegas, amigos, parentes e os altos e baixos do Desporto Rei. À uruguaia lembrei embaixador reformado inglês encontrado em Londres na casa de amigos ingleses, há mais de meio século, que em Montevideo fora raptado pelos «Tupamaros», terroristas urbanos, todos de boas famílias e educadíssimos que o trataram sempres bem e foi libertado incólume, aprendendo, todavia uma lição: nunca acreditar em quem prometa paraíso futuro onde só se possa chegar através de inferno intermédio (foi a enfermeira que me lembrou o nome dos guerrilheiros). A anestesista, que tem vergonha do actual governo polaco, fez-me pensar em Geremek, o grande medievalista e ministro dos negócios estrangeiros polaco da Solidarnosc, a contar-me, em Varsóvia, cena entre Walesa e Ieltsin,os dois bêbados, com o russo a garantir ao polaco que deixava a Polónia juntar-se à OTAN enquanto os seus colaboradores lhe repetiam que não podia ser, e o electricista de Gdansk perguntava, do outro lado: «Quem é que manda na Rússia ? És tu ou são eles ?». E ao cirurgião, que trouxera ele mesmo o pain au chocolat e me explicara não haver razões para preocupação, disse que ele conseguira criar, no coração de Bruxelas, uma espécie de Atenas sem corrupção. (Grego nosso conhecido impressionara-nos há dias com a aventura de conseguir internar e tratar bem a sua velha e lúcida mãe num hospital privado de Antenas: só mediante gorjetas e subornos tais que me indignaram, e eu sou d’Évora, não de Oslo nem de Helsinquia. No Peloponeso, assim se vive e se acha natural viver. Viva a Nova Iorque dos pobres!

 

II

John Bolton, como Conselheiro Nacional de Segurança de Trump, poderá ser benéfico. Um defeito de Trump é o espírito de contradição e desconfia tanto dos conselheiros que talvez agora, para mostrar que não depende de Bolton, passe a usar de bom senso. (Estariam ambos melhor em Rilhafolhes mas não se pode ter tudo…)

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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Stephen Hawking (1942-2018)

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Escala nossa

 

 

 

Treze milhões e setecentos mil milhões de anos é um ror de tempo. Só a muitíssimo poucos de entre nós é dado imaginá-los e esses usam estratagemas algébricos ou geométricos que tornam os raciocínios sustentáveis e plausíveis. Porque os sábios destas coisas dos nossos dias estão convencidos de que foi nessa altura (há quase quatorze mil milhões de anos) que o universo começou, a partir do Big Bang inicial. Isto é, o tempo começou aí e acabará um dia; o espaço é outra história: porventura infinito, ou haverá mesmo uma infinidade de universos paralelos ao nosso.

 

Faz espécie que assim seja – mas faz mais espécie ainda que se saiba que assim é. Pondo de parte as tentativas dos poderes que houvesse de abafar conhecimentos novos – nesta matéria, o caso mais conhecido e melhor documentado de obscurantismo é o do processo e julgamento de Galileu há pouco mais de trezentos anos – que são epifenómenos menores, o que realmente nos pode deixar estupefactos (ou, pelo menos, me deixa estupefacto a mim) é olhar para céu de noite, limpo e sem luar, ver os milhares de astros que o cravejam e saber que a todos foi dado um nome, de todos se sabe o tamanho e a posição relativa, a distância da Terra de cada um deles e as distâncias entre eles de uns para os outros; das estrelas as quantidades de luz que emitem e, dos planetas, que reflectem; dos cometas, as respectivas periodicidades.

 

É, por assim dizer, uma estupefacção compensatória. Passados alguns séculos inebriados a seguir à consolidação do poder cristão e consequente arrumo nosso no centro do Universo (que, em lugares sem televisão e sem alfabetização, poderá durar ainda, porventura juntamente com a crença de que o mundo é plano) vieram Copérnico, Tico Brae, Galileu, pôr-nos em rota inexorável para uma periferia qualquer e, passando do cósmico ao terrestre,veio depois Charles Darwin que, cheio de escrúpulos e de descobertas contrárias às suas convicções de infância (era filho de um pastor da Igreja Anglicana), nos deixou muito mais longe dos anjos e muito mais perto dos símios do que estávamos antes.

 

Mas esta passagem de cavalo para burro, de camarote à boca de cena para banco no galinheiro, foi mais aparente do que real porque a ciência, retomando o fio de meada que passara pela Grécia nela se reforçando e juntando-lhe catadupas de experiência aumentou de maneira incalculável o conhecimento do mundo e de nós próprios. De maneira que, se é verdade que muitos de nós deixaram de crer ser feitos à imagem e semelhança de Deus e que todos nós (salvo talvez no Alabama profundo) deixámos de estar no centro geográfico do universo, sabemos muito mais de nós e do mundo do que os nossos antepassados e os nossos netos saberão muito mais ainda do que nós.

 

O tempo histórico é diferente do cósmico. Quando era pequeno, conheci Senhora muito velha que, quando era pequena, conhecera Senhora muito velha que, quando era pequena, vira entrar em Lisboa os soldados de Junot de que se lembrava ainda.

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por VF às 09:00
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