Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Zé Povinho

"Zé Povinho" de Rafael Bordalo Pinheiro

 

 

José Cutileiro

 

 

Portugal, 10ª democracia do mundo

 

  

Vinda de iniciativa séria e respeitada, a notícia enriquece pela variedade a lista habitual de triunfos pátrios. Não tenho nada contra o futebol ou qualquer outro desporto/espectáculo de sucesso (há muitos anos Bernard Shaw escreveu que a maioria dos seus compatriotas – ingleses - estaria de acordo em considerar que o Arcebispo de Cantuária tinha mais valor do que um campeão do mundo de boxe; a dificuldade estava na quantificação: quantos campeões de boxe valia um arcebispo? Ou, adaptando ao Portugal de hoje, quantos pontas-direitas vale um cardeal? O problema é que quem decide nestas coisas – já decidia no tempo de Shaw mas sem tanta desenvoltura - é o mercado e nele as contas são ao contrário: quantos cardeais seriam precisos para pagar um ponta direita? Aí é que está o busílis e está também a razão pela qual os Estados Unidos da América – com uma única hierarquia, a do dinheiro - não poderão nunca ser modelo do mundo por muito que se goste de Coca-Cola, de Ella Fitzgerald ou de Frank Lloyd Wright, entende amigo sagaz que viveu lá muito mais tempo do que eu).

 

Felizmente a questão não se põe quanto à distinção de ser classificado a 10ª democracia do mundo porque esta abrange todos nós, incluindo a leitora e incluindo-me a mim (Porquê Mário? Porquê Cesariny? Porquê, ó meu Deus, de Vasconcelos?– vem-me à cabeça nesta altura). O que a distinção traz, isso sim, é a obrigação de melhorarmos ainda mais. Por muito que continue a pesar a alguns dos nossos pedagogos, a concorrência não é pecado e faz bem a quem se mete nela. Sendo mais importante de tudo a level playing field, isto é, para ricos e pobres, altos e baixos, espertos e burros, as mesmas condições à partida, sem cunhas (Portugal); Old boys net (Grã Bretanha); Guanxi (China).Há excepções de resistência: lembro-me, era eu miúdo, em concurso de carreira hospitalar, o Zana Mello e Castro retirar candidatura quando a PIDE impediu colega esquerdista de concorrer. Já não há PIDE, continua a haver gente honrada mas excepções à prática má continuam a ser poucas.

 

E deveriam passar a ser muitas porque, escreve-me leitora, a corrupção é um dos piores males do mundo: “Primeiro pelo mal directo que causa, ao fomentar os outros males todos, segundo porque é praticamente impossível de eliminar em tempo útil, terceiro porque desencoraja e tira a esperança às pessoas de que seja possível fazer as coisas de outra maneira sem ter de se arrancar o sistema pela raiz.

 

‘Eles (políticos, governantes) são todos iguais’ deve ser um dos poucos sentimentos verdadeiramente comuns a toda a humanidade”.

 

Tarefa hercúlea? Talvez mas rombos nos privilégios de ricos e afins perante o poder político, impensáveis há 10 anos, ajudaram a chegar ao 10º lugar; a renomeação de Joana Marques Vidal talvez ajude a guindar-nos ao 9º - brinca brincando, felizmente bem longe da definição de República atribuída ao monárquico Voltaire: “Le malheur de chacun pour le bonheur du tout”.    

 

    

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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

Corinne-ou-l-Italie

Mme de Staël 

 

 

José Cutileiro

 

Guanxi

 

 

O homem da Chicago que, quando a União Soviética se eutanasiou levando consigo o comunismo, julgou que a história tinha acabado – a democracia capitalista viera para ficar per omnia saecula saeculurum– acha agora que a ruptura quase geral entre elites e bases (seria elitista chamar-lhes ralés) que faz parte do dia-a-dia político europeu e norte-americano de há uns dez anos para cá (ninguém vivo se lembra de nada assim e, na história, talvez só Madame de Staël se tenha apercebido de coisa parecida em Paris, no começo da Revolução Francesa) vem das bases se terem zangado por se acharem deitadas ao desprezo. Respeito é do que muita gente sente a falta nas nossas sociedades, julga o homem da Chicago.

 

Respeito é também o que querem mafiosos e ditadores; por isso é capaz mesmo de ser isso que faz falta às bases. Quando brancos pobres desempregados de alguns Estados americanos souberam - microfone ligado por engano - de Barack Obama perceber compungido que eles se agarrassem a Deus ou às espingardas (‘they cling to guns or religion’) e a antipatia por gente diferente, ofenderam-se com essa simpatia condescendente e, nas eleições de 2016, votaram em Trump que acharam parecido com eles na fala e, ao contrário dos doutores do costume, disposto a meter a mão na massa. (Estilos: no começo desta semana quer Obama quer Trump afirmaram ser mais responsável do que o outro pelo baixíssimo grau de desemprego no país). Mutatis mutandis, no Leste da Europa onde décadas de comunismo tinham abafado gosto pelo fascismo herdado dos anos 30, está a passar-se coisa parecida, com chefes políticos a reanimarem nas almas paixões que alguns julgavam extintas, incluindo por Hitler – e na Itália (que voltara a ser do lado de cá), apesar de mais de meio século de Democracia Cristã e de Eurocomunismo, por Mussolini.

 

O bom e o bonito, sobretudo para europeus e americanos convencidos (antes de Lenine querer reservar isso para os seus) de sermos a vanguarda do mundo. A reflexão grega, a moral de Cristo – cada um de nós é infinito e insubstituível – e a experimentação deram-nos aspirina e Estado de direito, isto é, melhor vida que em qualquer outra parte do planeta que já não leva P grande, perdido na Via Láctea, uma de muitos milhares de nebulosas. (“Porque é que a gaja se lembrou de dar uma dentada na maçã? Perdão, Deus seja louvado” – rosnará por ventura algum José Régio de hoje).

 

Porque éramos os melhores. Até Portugal, agora décima democracia do mundo, a querer afastar-se de privilégios injustos, de cunhas e favores que afundam os pobres na pobreza - e medram em sentido contrário ao da liberdade. Existem em todo o mundo, desde Cosa Nostra e seus juízes mortos à bomba até ao Guanxi chinês, a maior rede informal de pressões e favores do nosso tempo que consolida poder de governantes, tolhe iniciativa de governados e impede que a China algum dia se transforme numa democracia. Como a Sicília - mas a China é a maior economia do mundo e quer mandar nele.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

12 angry men

Henry Fonda em “Doze homens em Fúria”

Sidney Lumet, 1957

 

 

José Cutileiro

 

 

Homens brancos cristãos e budistas de ambos os sexos

 

 

 

Às vezes há quem julgue que a invenção do pecado original foi  estratagema de poder destinado a reforçar a lei e ajudar a meter o pessoal na ordem, mormente as mulheres. Noutras alturas, os sinais de bestialidade humana são tão evidentes que não estranha que povo de pastores de há três mil anos, sem recurso a Nações Unidas, ADN ou Facebook, recorresse a mitologia própria para tentar criar espaço onde o bem, que também existe, pudesse medrar.

 

O que não falta hoje são sinais desses. Donald Trump é considerado o mais divisivo dos presidentes dos Estados Unidos de que há memória mas coisas lamentáveis que se vão sabendo dele não enfraquecem a determinação dos seus eleitores. Mais de 80% dos Republicanos agradecem a Deus tê-lo como presidente (mesmo os que lhe encontram defeitos e pecados graves estão contentes e acham que é preciso “deixar trabalhar o homem”). Hoje estuda-se tudo e sabe-se que os seus apoiantes mais incondicionais e determinados são homens brancos cristãos. Porque eu entendo que Trump está a fazer muitíssimo mal aos Estados Unidos e ao mundo, pu-los no começo do título desta página de bloco-notas.

 

Pus a seguir budistas, de ambos os sexos. Na Birmânia, durante décadas, a Senhora Aung San Suu Kyi viveu em prisão domiciliária donde chefiava protesto contra a ditadura militar do país, atraiu a simpatia de defensores de direitos do homem de toda a parte, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1991, foi comparada a Gandhi e, ajudada por mudanças no mundo – o colapso da União Soviética, o fim do apartheid, a eleição de Barack Obama, por exemplo - conseguiu liberalizar o regime e tornar-se uma espécie de primeiro-ministro, com fiel acompanhante como presidente. Entretanto, porém, as autoridades civis e militares da Birmânia têm perseguido com ferocidade rara a minoria muçulmana dos Rohingya - na Birmânia há 209 minorias; em Portugal e Ilhas Adjacentes, por muito que se puxe pelos mirandeses, não há nenhuma - de tal maneira que activistas indignados têm exortado a Senhora a devolver o Prémio Nobel e missão das Nações Unidos condenou o que lá se passa e recomendou inquérito a crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O governo da Birmânia declarou que não autorizara a missão a entrar no seu território e por isso não aceita os resultados.

 

Duas ilusões de adolescência que haviam sobrevivido a mais de 80 anos de atribulações do mundo foram assim levadas em duas penadas.

 

Os americanos do povo, bons, simples, capazes de chegarem à boa solução dos problemas (às vezes, depois de terem experimentado todas as outras lembrara Winston Churchill), defensores da verdade e da decência, admiravelmente ilustrados no filme de Sidney Lumet  “Doze homens em Fúria” (Twelve angry men), 1957, com Henry Fonda.

 

E os budistas, homens e mulheres com religião mais sábia e bondosa do que as outras, incluindo peculiaridades irracionais tal o Dalai Lama, mas incapaz de deixar fazer mal a uma mosca.

 

 

 

 

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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

fotos-autores-alexandre-oneill

 Alexandre O'Neill

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Inveja do Mundo Real

 

 

Pegara em casa num bloco A5 para tomar notas em Agosto (há sempre blocos à minha volta; este é da Presidência Portuguesa da U.E.O. no primeiro semestre de 2.000, tinha eu deixado de ser o manda-chuva lá do sítio há um mês e logo a seguir  a U.E.O. foi extinta) e já tinha com certeza mexido nele. No canto superior direito da primeira página encontrei escrita pela minha mão mas com caligrafia que permite identificar cada letra, a palavra Nietzsche. Devo-a ter posto ali depois de verificar a ortografia no Google, instrumento precioso para quem tenha «linhas mortas» como diria o falecido embaixador António de Faria; deadlines, dir-se-á correntemente porque tal é o caso de quase toda a gente que escreva nestes dias. Instrumento precioso porque poupa não só idas laboriosas a livrarias ou bibliotecas mas também simples viragens de torso na cadeira para o braço alcançar a estante dos dicionários mais utilizados.

 

É claro que nesta terra de poetas haverá muitas e muitos, sobretudo entre gente nova desempregada ou em busca de primeiro emprego, ou em reformados com décadas de tempo para matar à sua frente, a escrevinhar por amor à arte. Mas a vasta maioria dos escribas do nosso tempo (escriba – o que escreve), acocorados ou não, estará mais inclinada a dar razão ao Dr. Johnson, sempre lapidar: «No one but a blockhead would write except for money». O Dr. Johnson, Samuel de sua graça, é especialidade regional inglesa tão típica quanto a ausência de bilhete de identidade, a condução à esquerda ou a falecida Rainha Mãe, née Elisabeth Bowes-Lyon no seio de família fidalga escocesa. A Rainha a que nós chamamos Isabel II não tem uma gota de sangue inglês nas veias, salvo se, como diria Camilo, tiver havido ao longo dos séculos um ou outro capelão atravessado. De resto, o escritor Evelyn Waugh – juntamente com George Orwell um dos dois gigantes da prosa inglesa do século XX – que era profundamente monárquico, era também visceralmente anti-snob porque, dizia, depois de séculos de costumes ligeiros e divórcio impossível, vá lá saber-se.

 

Hoje uso às vezes expressões ou palavras estrangeiras não traduzidas, como aconteceu em blocos anteriores. Traduttore traditore e, além disso, quem leia hoje português, lê algum inglês e às vezes até um resto de francês. Prefiro fazer assim a arriscar-me a tradução, arte muito difícil, com praticantes prestigiosos e astutos (quem fez de The Importance of being Earnest «A Importância de ser Severo» vem logo à mente), monumentos históricos (o primeiro Fausto de Goethe no francês de Gérard de Nerval), divergências insanáveis (em línguas modernas, do grego de A Guerra do Peloponeso) e puro génio (Mais où sont les neiges d’antan,  segundo Alexandre O’Neill: «Ai onde transpira agora/O bom sovaco d’outrora!»).

 

Há mais ainda.A passagem de língua sem escrita para português deu-nos Inveja do Mundo Real, nome de pessoa nascida em PALOP e não frase deliberadamente confusa para comentar em exame de Filosofia.

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Edmund Burke retratado por Joshua Reynolds
via Wikimedia Commons

 

 

 

 

José Cutileiro

 

O primeiro pecado é ser pobre

 

 

Assim declarava o anglo-irlandês Bernard Shaw (1856-1950) e acrescentava: Quando alguém me diz sou inculto mas é porque sou pobre, está a desculpar um mal com outro pior; é como se me dissesse: sou coxo mas é da sífilis. Shaw morreu velho demais para a altura – partira o colo do fémur e respondera a jornalistas à entrada do hospital: se eu escapar desta é porque sou imortal – mas não era e lá ficou. Isto há quase três quartos de século mas, há pouco tempo, tão pouco que lhe escrevi IN MEMORIAM no Expresso, morreu quase tão velho quanto Bernard Shaw mas sem ninguém estranhar isso (hoje, morrer com mais de noventa anos é banal) o francês Claude Lanzmann (1925-2018), autor do filme de dez horas «Shoah», monumento cinematográfico e ariete da condenação do antissemitismo (e único amante de Simone de Beauvoir  autorizado a viver debaixo do mesmo teto que ela), várias décadas antes de morrer declarara: Falhei a vida – J’ai raté ma vie – porque não nasci rico.

 

Sentimentos assim são raramente expressos com essa clareza cirúrgica mas muita gente os alberga, sobretudo em alturas em que o futuro vislumbrado pareça ser menos  agradável do que o presente; em que se pense que os filhos vão ter pior vida do que os pais, como está a acontecer agora na Europa e nos Estados Unidos da América (salvo entre aqueles que os espanhois chamam los ricos-ricos) e não acontecia desde o fim da Segunda Guerra Mundial, décadas em que a gente, de um e do outro lado do Atlântico, até já se esquecera de que tal poderia acontecer. E quando, ao contrário do que se passa agora, cada um sabia ir ganhar mais para o ano, como neste ano ganhara mais do que no ano passado; quando a minha mulher a dias, sabendo que trocaria vantajosamente o seu Toyota em segunda mão, tanto se lhe dava quanto se lhe desse que eu tivesse um ou dois BMWs ou que banqueiros milionários fotografados em revistas a cores coleccionassem Bentleys ou Ferraris. Tout allait pour le mieux dans le meilleur des mondes possibles.

 

Chão que deu uvas e, entretanto, tudo se complica: sem benevolência cúmplice do pobre para o rico, o fel de tribunos enraivados enche as almas do povo que os aplaude. (Os Burke* têm quase sempre razão mas os participantes quase nunca lha a dão a tempo – L’on immole à l’être abstrait les êtres réels et l’on offre au peuple en masse l’holocauste du peuple en détail observou Benjamin Constant sobre o chamado Terror da Revolução Francesa, ninharia por padrões contemporâneos mas marco de infâmia na história europeia). Tal se passa agora nos Estados Unidos: a energia de Trump assegura preferência e apoio inabaláveis de brancos pobres, que metem medo aos parlamentares do Partido Republicano os quais por isso não se opoem a medidas calamitosas, prometidas em campanha pelo Presidente. Por detrás do espectáculo acumulam-se dolos e prejuízos crescentes – materiais e morais – para os Estados Unidos e riscos de mais incómodos, alguns fatais, para toda a gente.

 

 

*Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, Londres, 1790

 

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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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 dragões imperiais chineses 

 

 

 

José Cutileiro

 

    

Volta do marxismo ? Todos substituíveis ?

 

 

 

Muitas coisas nos arreliam este Verão a começar pelo calor, que envergonhou Eça de Queiroz diante de Fradique Mendes por só lhe ocorrerem expressões reles e em calão: «derrete os untos», «está de ananazes». Amigo do coração lembrou-me que calor passa e outras arrelias não arredam. Há duas que me têm tirado o sono, centrada uma nos Estados Unidos, outra na China.

 

Primeiro, a América. Quando o Muro de Berlim foi deitado abaixo eu estava na Cidade do Cabo (Greet the Ambassador of the 4th Reich! faíscou o meu colega alemão à guiza de Boa noite, no jardim da casa onde íamos os dois entrar); quando Yeltsin desfez o império de cima para baixo sem sangue, estava eu em Lisboa. A Verdade triunfara sobre o erro, o Bem sobre o mal. E, salvo no caso peculiar da China, a ilusão marxista desabou como castelo de cartas de jogar. Ficaram Cuba, Coreia do Norte, alguns salpicos na União Indiana mas a ideia de que por lá passaria a salvação do mundo parecia ter-se sumido de vez. Se o comunismo perdera, porém, o capitalismo ganhara muito mal. Houve quem percebesse logo – comunismo não era doença, era remédio que falhara – mas  o grosso da cavalaria tomou o freio nos dentes e a eleição de Trump animou-a mais ainda. Na América – mais do que alhures – os poucos ricos estão cada vez mais ricos e os muitos pobres estão cada vez mais pobres. O socialismo marxista que desaparecera por lá desde o fim da Segunda Guerra Mundial (durante três décadas, em todas as classes, os filhos iam sendo sempre mais ricos do que os pais), seduz agora cada vez mais gente. Começou com Bernie Sanders, alastra como fogo de mato: numa «primária» em Nova York, mulata socialista de 28 anos derrotou o número 2 do Partido Democrático no Congresso, branco, sexagenário, não socialista. Mais socialistas marxistas serão eleitos em Novembro.

 

Segundo, a China com arranjo de partido único, dito marxista, a coincidir com capitalismo robusto, balisado pelo Estado. Mas a arrelia que me tira o sono não é essa. Desde a «desmaozição» imposta por Deng Xiaoping fomos notando, a pouco e pouco, o que nos parecia ser alguma liberalização do regime, uma aproximação aos nossos critérios e aos nossos valores. Como, para nós, a democracia parlamentar, monárquica ou presidencial, juntamente com a separação de poderes, a independência do judiciário, o exercício de direitos humanos e eleições livres e limpas é a evidência mesma de saber político universalista, sossegava-nos supor a China no bom caminho.

 

Erro nosso. O Presidente Xi passou a vitalício em regime mais próximo de monarquia absoluta do que das nossas modernices. E, em vez de ser padrão universal como os graus Celsius ou o teorema de Pitágoras, a nossa sabedoria política é um disparate aos olhos dos chineses. E agora?

 

Em filme antigo contra a pena de morte, capelão da cadeia dizia a condenado: Tu es immortel et irremplaçable. Se a China governar o mundo passaremos todos a ser substituíveis?

 

 

  

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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

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cuecas de Marks & Spencer

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O Macho da espécie

 

 

 

O homem, isto é, o macho da espécie, sejam quais forem a côr da sua pele, o desenho dos seus olhos, a sua estatura grande, meã ou pequena, as suas inclinações metafísicas e religiosas – judias, cristãs, mussulmanas, de outros monoteísmos, dos incontáveis animismos que vigoram até em recantos esquecidos do Planeta, alguns tão pequenos que quando alguém mais morrer acabou uma outra eternidade, de afirmações de ateísmo tenazes mesmo neste tempo em que tantos de nós cling to their guns and to their Gods, na expressão feliz do então presidente Barack Obama (ao falar em privado de brancos pobres americanos mas estava lá microfone que não fôra desligado e a privança acabou-se) -, sejam quais forem também as suas preferências sexuais, o seu feitio bom ou mau, é sempre ser inseguro de si, desconfiado de que outros machos da espécie, piores mas mais astutos do que ele, o queiram fazer passar por parvo ou pior ainda, susceptível como primadona e bruto como arruaceiro de claque clubista, convencido contra abundância de evidência que a ele serve também, como fato feito por medida pelo falecido Mendonça da extinta Piccadilly ou em Saville Row, o nome que Isabel a Católica deu ao nosso Rei D. João Segundo: El Hombre.

 

Mas talvez eu esteja a exagerar. Antes de escrever o parágrafo acima tinha-me lembrado do Marks & Spencer de quando eu chegara a Londres há quase meio século (já Marks fora nobilitado e tomara nos Lords partido pelos trabalhistas), comerciantes sábios que fidelizavam a clientela e na secção de roupas de homem tinham cuecas de três tamanhos. Em ordem decrescente: Large, Medium e Average. Small não havia – e nessa altura não ocorreu a ninguém processar a companhia por descriminação; nem nessa altura nem desde essa altura, com tantas feministas à solta que por aí há. Em 1963, o Império já fora abandonado e muita gente vinda dele e de alhures pegava-se a Londres como moscas a papel para apanhar moscas mas de outras partes do mundo vinha muito menos gente do que agora. Nesse tempo, por exemplo, quase ninguém conseguia saír da U.R.S.S. e dos países do Leste da Europa; por toda a parte, excepto em bizarrias folclóricas tais como o País Basco espanhol e a Irlanda do Norte, a Guerra Fria impedia ou matava no berço zaragatas menores de vizinhos ou fanáticos, evitando assim, inter alia, as múltiplas e desgraçadas migrações a que assistimos agora, algumas das quais transformaram o Mediterrâneo num cemitério marinho, desta vez verdadeiro. Londres tem gente de muitos lugares mas talvez não de todos os conhecidos e, por isso, a minha generalização foi indevida: em vez de ‘sempre’ eu deveria ter dito ‘se for cliente ou potencial cliente das lojas Marks & Spencer de Londres’.

 

De resto, para lá do caso presente, a mania das generalizações ou, como dizia Wittgenstein em inglês, sua língua profissional, ‘the craving for generalizations’, faz muito mal ao hábito de pensar, criando problemas onde não os haveria e erros escusados.

 

 

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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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 Napoleão Bonaparte em Santa Helena

 Benjamin Robert Hayden

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O Bem, o Mal e o Outro

 

 

Napoleão nasceu na Córsega, Estaline na Geórgia e Hitler na Áustria. Não há muitos franceses a detestar Napoleão que, do Panteão à Legião de Honra domina a paisagem (cada francês é coluna salomónica de um Ci-devante um Sans Culottee Napoleão ampara os dois). Quanto a Estaline, os pareceres estão divididos e pulhas como Putin hão de querer sempre puxá-lo para cima e esquecer as atrocidades. No que diz respeito a Hitler, circunstâncias garantiram que por mais de meio século a enormidade do Mal continuasse bem presente mas a canalha saudosista e os seus herdeiros começam a criar espaço, não só na Alemanha, para conversa ambígua que, ao longo da História, acabou sempre em anti-semitismo.

 

É a natureza humana. A escala modesta: quando eu era pequeno, em aldeias do Alentejo onde só houvesse uma loja que vendia de tudo, o dono tinha quase sempre vindo de fora (é mais fácil não fiar a estranhos do que a amigos e parentes que no dia do enterro segurarão borlas ou maçanetas). E as lealdades da tribo não aguentam sempre. No Reino de Aragão da Idade Média, em zaragata de feira, homem acossado gritava o seu nome e quem fosse da família saltava para o pé dele já de espada desembainhada ou de punhal na mão. O estado moderno, mais complexo, não instila fraternidades tão intensas. Quando, em 1994, fui escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental (na altura, a única organização de defesa europeia) houvera outros candidatos, entre eles Enrique Baron Crespo, que fora ministro de Felipe Gonzalez e Presidente do Parlamento Europeu. Passado mais de um mês recebi de amigo espanhol do meu tempo de Oxford carta manuscrita em inglês, datada em Darkest Périgord que começava assim: Dear José, The joy of seeing Enrique Baron lose the job, almost made me forget to congratulate you on getting it.

 

É por estas e por outras que os povos desconfiam das elites e nos têm mimoseado nos últimos tempos com criaturas mais ao gosto deles: Trump nos Estados Unidos (isto é, por toda a parte), Orban na Hungria, Erdogan na Turquia, o gémeo sobrevivente na Polónia e outros, às vezes ainda mais ou menos contidos pelo pendor democrático das instituições, como o jovem Chanceler austríaco. Na Alemanha a extrema-direita entrou pela primeira vez no Bundestag. E, por fim, a maior barbaridade de todas: o resultado do referendo britânico em que a maioria do povo quis sair da União Europeia, sem saber de todo o que isso significaria nem tampouco como o fazer. O espectáculo em Londres tem sido penoso e, do lado europeu, há também quem esconda mal a alegria de se ver finalmente livre da grande achega de decência e bom senso que o Reino Unido nos continuava a dar a todos.

 

Voltando ao começo: faz sempre jeito ter um bode expiatório para levar com a ira de Deus (ou, mais modestamente, com as sanções terrenas do inimigo vencedor). Mas my country right or wrong foi chão que deu uvas: as piores guerras são as civis. Quand je tue je sais qui je tue.

 

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Quarta-feira, 25 de Julho de 2018

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

250px-Ouroboros

Ouroboros @ wikipedia

 

 

José Cutileiro

 

 

Versões do Mito do Eterno Retorno

 

 

 

Federico Garcia Lorca achava que no Verão o calor em Granada era tão grande que era impossível fazer fosse o que fosse. E exemplificava: no Verão, em Granada, dois e dois nunca chegam a ser quatro. Quedan siempre y solamente dos y dos.

 

O poeta de ‘Romancero Gitano’ e dramaturgo de ‘La Casa de Bernarda Alba’, mesmo que, um serão no começo da guerra civil em Espanha (1936-1939), não tivesse sido levado à força por voluntários franquistas de casa de amigos em Granada com quem insistira em ir passar uns dias em vez de aceitar convite da actriz Margarita Xirgu e ir com ela para Buenos Aires, e morto a tiro e enterrado sem cerimónia em vala comum andaluza, certamente por ser esquerdista e homossexual, não teria quase de certeza chegado aos nossos dias porque, até hoje, nunca homem, mulher ou transgender chegou a fazer 120 anos. Senão teria visto os costumes mudarem no seu país ao ponto das pessoas se poderem casar umas com as outras, independentemente do sexo que tenham, e tal ser considerado progresso por muitos. 

 

Mas, se deitasse até aos 140 (agora estarei a futurar demais) seria capaz de assistir a retrocesso nos costumes e nas leis e encontrar a populaça nativa contente com tais recuos. E, apesar disso, olhando desta ponta da Europa e comparando-a com o resto do mundo, sentir-se-ia perigosamente só na sua vida, na sua liberdade, e na sua busca da felicidade, como náufrago em jangada no mar alto.

 

A história é um vaivém ou pelo menos assim parece agora, por um lado porque a grande aventura imaginada com princípio, meio e fim a caminho do Paraíso na Terra que tomou conta de metade do mundo durante bem mais de meio século e oferecia Criação e Juízo Final sem Deus a cortar as voltas, era afinal uma aldrabice enfeitada com crimes. E que, por outro lado as mudanças são agora cada vez mais rápidas do que costumavam ser. Até à revolução industrial, criar uma criança era ajudar a fazer com que ela se parecesse com o pai em crescida, se fosse menino ou com a mãe, se fosse  menina. Em Portugal, onde o que o pouco que houve de revolução industrial chegou mais tarde do que a outros países e onde o grosso da grei continuou graniticamente analfabeta quando tal já não acontecia em quase toda a Europa ocidental, o bonheur de vivre de que falava Talleyrand durou quase até ao tempo da minha escola primária.

 

Onde isso já vai tudo – tão longe que pode dar a volta. O que se fazia em várias gerações não leva hoje metade da vida de um homem a fazer. Lorca teria visto o progresso tornar os seus sonhos reais – mas se continuasse a sobreviver arriscar-se-ia a que nova realidade se instalasse e os tornasse irreais outra vez. Trump, Duterte, Erdogan, Orban, Bolsonaro - uma espécie de Trump tropical - outros ainda e candidatos a sê-lo. Para não falar do Império do Meio que, ao contrário do que a gente julgava desde Den Xiao Ping, acha que os nossos valores não são universais e acabou de instaurar a sua Monarquia Absoluta.

 

 

 

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Sexta-feira, 20 de Julho de 2018

Evora-Africa

Até 25 de Agosto de 2018 em Évora

O programa completo pode ser consultado em http://evorafrica.pt/

 

 Chéri Samba

Chéri Samba

© http://www.magnin-a.com

 

A exposição de arte contemporânea "African Passions", no Palácio Cadaval, com curadoria de André Magnin e Philippe Boutté - a primeira que realiza em Portugal - inclui obras de artistas plásticos e fotógrafos do Congo, Costa do Marfim, Moçambique, Mali, Senegal, Benim, África do Sul e Madagáscar.

 

O festival "Evora Africa", que se prolonga até 25 de Agosto, apresenta um diversificado programa de exposições, concertos, performances, conferências e DJ'S e reúne trinta artistas plásticos contemporâneos, músicos e performers africanos. 

 

 

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Omar Victor Diop, Série Diáspora

© http://www.magnin-a.com

 

Para além do Palácio Cadaval, o Templo Romano, o Cromeleque dos Almendres e a Biblioteca Pública de Évora serão palco de espetáculos da Orquestra Ballaké Sissoko, Costa Neto, Irmãos Makossa, Rita Só, Johnny Cooltrane, Mbye Ebrime, DJ Rycardo, Companhia Xindiro e os jovens dançarinos, Celeste Mariposa, Bambaram, Bassekou Kouyate, Selma Uamusse, Bubacar Djabaté, Áfrika Aki, The Zaouli de Manfla, Miroca Paris, DJ Ibaaku, Sara Tavares, Congo Stars de Vibration, Dj Lucky, Lady G Brown.

 

 

Malick Sidibé | Courtesy Galerie MAGNIN-A, Paris

 Malick Sidibé, Nuit de Noël (Happy Club), 1963

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Centro de Arte Quetzal, Vidigueira

 

No contexto do festival, o Centro de Arte Quetzal apresenta uma selecção de trabalhos dos artistas sul-africanos Marlene Dumas, Moshekwa Langa e William Kentridge, incluindo a série de curtas-metragens de animação (Dez desenhos para projecção 1989-2011), e um mural tipográfico da artista egípcia e libanesa Bahia Shebab, com o título Mil Vezes Não.

 

W Kentrridge

William Kentridge Levitation 1996

 

 

 

Marlene Dumas

Marlene Dumas Cain+Abel (Twins) 1989

 

 

 

publicado por VF às 12:25
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