Quarta-feira, 28 de Agosto de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Soufflé Grand-Marnier aqui

 

José Cutileiro

 

O bistrot do francês

 

 

Mais exactamente, Le Bistrot Pierre-Marie, na Rua da Torre, acima e do outro lado do cemitério da Guia, encostado a um 5 à Sec, deixou de existir. Durante alguns dias os vidros guardaram o nome embora o lugar estivesse fechado e vazio. Depois, desses vidros foram tirados todos os dizeres. Referências aos prazeres da mesa fora de casa, que se encostavam a referência mal disfarçada aos prazeres do adultério citadino no nome da franchise de limpeza a seco, desapareceram de vez. Assim acabou ali a joie de vivrefrancesa.

 

Por Facebook e outras artimanhas dos nossos dias sabemos que Pierre-Marie pretende voltar a dar-nos prazeres gustativos não mais longe, presumo eu, do que umas cinco léguas em redondo. Mas tais notícias são poucas e vagas; não  noto progresso nelas; não vivo cá todo o ano e cheguei a idade na qual, no dia para que se acorda de manhã, as estatísticas dizem que tanto se pode viver quanto morrer  pelo que o regresso de Pierre-Marie e do seu bistrot é para mim urgente porque a sua falta faz minguar a qualidade de minha vida.

 

É certo que ao longo da costa, para quem, passado Paço d’Arcos, venha de Lisboa pela Marginal  e, de vez em quando, bem para dentro dela, desde os Santos do Estoril até ao Guincho – ou até à Praia Grande para os mais aventureiros – os restaurantes se seguem que sabem grelhar peixe (com distinção muito especial para Lourdes, na Boca do Inferno e Suzette na Adraga) mas o bistrot do francês não tinha nada a ver com isso. Estabelecera-se ao lado de Cascais, a estrada que da Rotunda Pedro Monjardino deitava até à sua porta pouco se afasta do tradicional vôo do corvo e não chegará a cobrir um quilómetro mas ele não  estava ali para grelhar peixe. Sem pretensões, com bons preços e bom senso, criara como um pequeno restaurante parisiense de bairro, onde souflés de queijo – e ultimamente também de Grand Marnier – e outras joias da gastronomia francesa eram feitos para serem comidos por clientela como eu que sabia ao que viera e encontrava o que queria.

 

O bistrot não fechou por Pierre-Marie ter adoecido ou estar cansado ou tal lhe dar na real gana. Fechou porque o contrato de arrendamento (o bail, dizem os franceses) acabara e para o renovar, animado pela explosão teratológica do mercado em Lisboa e arredores, o senhorio pedia tal montante que Pierre Marie, homem de coragem e experiência, habituado a lidar bem com riscos em várias partes do mundo, decidiu não poder aceitá-lo. Assim, a subida escandalosa de preços num sector do mercado imobiliário, provocado sobretudo por oferta francesa inesperada de que tantos portugueses à procura de casa se queixam agora, negou-nos a presença de pequeno restaurante francês que nos trazia presença civilizada única, livre por um lado de exageros regionais e, por outro, de pretensões universais falhadas de guindar a gastronomia ao estatuto de oitava arte. Comia-se como em pequeno restaurante de bairro parisiense, competente e sossegado – e faz falta.

 

 

 

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Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

Os nomes das coisas

 

A cozinheira – que veio com a casa onde estamos este Agosto, ganhou na televisão um concurso da sua arte, recusara por razões pessoais meter-se em empreendimentos comercias de grande restauração e trabalha para famílias de Cascais e amigos delas – tinha-nos feito já uma vez farófias (îles flottantes dizem a minha mulher e a minha cunhada, colocando as da cozinheira premiada muito alto na sua experiência francesa de sobremesas) e eu pedira-as outra vez para o jantar de ontem.

 

Vizinha de mesa de quem gosto há quase meio século, tem geralmente conversa hilariante, é bom garfo e óptimo copo (de bons tintos) chamou às farófias nuvens porque assim aprendera em pequena dos manos mais velhos. De resto toda a gente lá em casa, senhores, senhoras, criados e criadas, dizia nuvem e para ela tal era o nome da coisa.

 

Ela é do Norte eu do Sul de Portugal e o doce em questão, à primeira vista da minha ignorância, tanto poderia ter  vindo de serralhos muçulmanos quanto poderia ter saído de conventos do catolicismo de Trento. (Tem em todo o caso característica rara: a grande maioria dos doces de ovos usam gemas, aproveitadas do fabrico de vinhos que precisam das claras. As farófias usam claras em castelo; os bolos mais conhecidos de de Bordéus, terra dos melhores vinhos tintos jamais feitos são os canneletscozinhados com gemas de ovos, cujas claras ajudaram a criar nectares sublimes e a boa Mariana Alcoforado que os franceses conhecem por la religieuse portugaise há de se ter consolado com trouxas de ovos – se realmente existiu que os estudiosos não deixam nada quieto e há quem pretenda que as suas famosas cartas foram escritas por um homem).

 

O resto da mesa falava de coisas diferentes – greve, mundo (Mundo, mundo, vasto mundo/Se eu me chamasse Raimundo/Seria uma rima e não uma solução escreveu Carlos Drummond de Andrade e continuamos a ver hoje diante de nós mais rimas do que soluções) férias em outros lugares, maroteiras de fidalgos, amigações, pulhices, trocavam-se  os epigramas e os calembourgs  – e eu não quis interromper-lhes o fim do jantar com farófias.

 

Além disso as diferenças entre o Norte e o Sul são fundas e podem levar a proclamações extremas. Amigo tripeiro assistia a jogo de futebol entre Salgueiros e Boavista e o árbitro, que era de Lisboa, tomou decisão desagradável para uma das claques que começou a insultá-lo: «Ah mouro, se num fossemos nós inda andabas de lençol à cabeça!». Amigo alentejano sustentava que Portugal era o Alentejo, porque do Tejo para cima eram beirões e os algarvios beirões faladores. Sobre a rivalidade entre alfacinhas e tripeiros, porquê Mário, porquê Cesariny, por quê, ó meu Deus, de Vasconcelos, escreveu a linha definitiva: «Lisboa, capital do Porto».

 

Não chegaríamos a tanto e, entretanto, como acontece em jantares, a conversa perdeu-se noutras. Foi pena porque fiquei sem saber qual a guloseima a que ela, desde pequena, chamava pegamócolo porque era assim que os manos diziam lá em casa.

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Agosto de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

CaminhadasCaminhadas na Serra de Sintra aqui

 

 

José Cutileiro

 

Se o verniz estalar?

 

Vai para três meses que dei pelos portugueses – ou, pelo menos, os alfacinhas e gentes de seus arredores, outrora saloiada entalada entre mouros e cristãos – contentes, pela primeira vez na minha vida, ao reencontrá-los vindo de fora. E tenho experiência disso: a primeira vez que os reencontrei vindo do estrangeiro tinha dezassete anos; hoje tenho oitenta e quatro e, tirante entre os dezoito e os vinte e oito, quando saí pouco, não tenho deixado de o fazer ano nenhum, amiúde várias vezes por ano. E as reacções não mudaram – ‘Então?’ ‘Estou pior, pá!’; ‘Tudo bem?’ ‘Que remédio…’; Les portugueux sont toujours gueux (Alexandre O’Neill dixit) – durante sessenta e sete anos, desde desembarque de Madrid, achando o Diário de Notícias lido no avião da TAP pessimamente escrito – por razões longas de enumerar tinha estado longe de Portugal nove meses, só levara livros bons comigo e, nessa altura, longe era longe e não vira nenhum jornal lusitano – as pessoas na rua vestidas como se fossem para um casamento e toda a gente com cara de enterro. Essa tristeza iria acompanhar-me seis décadas, sempre que voltava a pôr pé na Pátria.

 

Tudo mudou nesta Primavera, a começar pela tripulação da TAP que me trouxe a Lisboa, gente nova e bem disposta, sem sequer lamúrias quanto à decadência da companhia (e à situação aberrante, acrescento eu, de ainda agora ser ainda um bocadinho da leitora e um bocadinho minha). E outros e outras a ela se seguiram, prestáveis, divertidos, afirmando o seu sotaque entre o dos brasileiros e brasileiras circundantes. É claro que há muitos turistas e também grande quantidade de reformados sobretudo, ao que me dizem, de franceses a quem são dadas aqui condições fiscais bem favoráveis (e porque não? Quando grandes empresas nossas estão sediadas fiscalmente nos Países Baixos e no Luxemburgo em vez de pagarem os seus impostos na ocidental praia lusitana, acho bem que o nosso fisco faça o que possa para trazer para aqui algum dinheiro ganho alhures). Até agora tudo bem – ou so far so good como, por enquanto, quem quiser pode ainda dizer em Hong-Kong sem apanhar com mangueirada de água ou ser despachado para a China a toque de caixa.

 

Mas será que vai durar? Apesar de altos e baixos damos uns novecentos anos de garantia que é muito mais do que o geral dos estados membros das Nações Unidas seriam capazes de fazer. Mas há costumes e maneiras que parecem escondidos agora e poderão reaparecer, impôr-se de um momento para o outro – e está o caldo entornado. O hábito de aldrabar como se fosse a coisa mais natural do mundo (e entre muitos de nós é capaz de ser…). Por exemplo, a naturalidade com que médicos passam atestados falsos para justificarem segundas chamadas. As perenes cunhas para tudo. São teimas antigas: em 1934, quando o meu Pai, finalista de Medicina, fez exame de Obstetrícia, a primeira coisa que o professor lhe perguntou foi: «O Senhor não tem vergonha de vir fazer exame sem uma recomendaçãozinha?»

  

 

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Quarta-feira, 7 de Agosto de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Max Weber imagem aqui

 

José Cutileiro

 

As coisas são como são

 

Há uns vinte anos, em Princeton, li no jornal de um escândalo em Wall Street, pequeno por padrões a que a ganância, nesta época de financeiros desregulados e sindicatos enfraquecidos, nos tem levado a adoptar mas suficiente para entreter leitores do New York Times. Homem importante e tido por super honesto daquela praça financeira fora parar à cadeia, culpado do delito de informação privilegiada. Até aqui nada de especial mas li a seguir que o pai dele, urologista reformado com mais de 80 anos, a quem o filho informara e assim pudera vender a tempo a poupança de uma vida inteira e evitar a ruína, fora também condenado. E aí o caso mudou de figura porque o imaginei, leitora, em Portugal.

 

Quem atiraria a primeira pedra ao filho que salvara o pai? Quem acharia que ele se deveria ter submetido às obrigações de uma moral universalista que trata igualmente, segundo regras gerais aplicadas a todos, o filho predilecto da leitora e os ciganos que devem com certeza ter roubado a trotinete eléctrica da filha do vizinho da sua mulher a dias? Quem o condenaria em tribunal? E, se fosse mesmo condenado, quantos tratariam de arranjar maneira de lhe encurtar a pena ou até de o amnistiar?

 

Na Idade Média, desenvolveu-se na ponta noroeste da Eurásia sistema de regras de convivência entre quem tinha a terra e quem a trabalhava ou tinha misteres correlativos a que se chamou feudalismo, que foi ensinando a toda a gente como se comportarem uns com os outros e irem vivendo em paz, sobreviveu às matanças das grandes guerras religiosas europeias e chegou ao nosso tempo sob a forma de democracias parlamentares e de monarquias que reinam mas não governam. Entretanto, fiéis ofendidos não só por alguns dogmas da Igreja Católica mas também pela depravação do Vaticano (em festa dada ao papa Alexandre Borgia, cinquenta cortesãs dançaram primeiro vestidas, depois nuas, apanhando no fim - com as vaginas - castanhas do chão de mármore), com Lutero e Calvino à frente, reformaram o cristianismo. Os fieis passaram a ler a Bíblia e a falar directamente com Deus. A moralidade tornou-se ingrediente indispensável da salvação, e integrou o progresso material. No começo do século XX, o sábio alemão Max Weber publicou A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo que pareceu fazer sentido a muitos, enquanto este florescia, primeiro na ponta noroeste da Europa, depois nos Estados Unidos – e hoje no mundo inteiro, China à cabeça.

 

A ponta sudoeste da Europa onde nós estamos, não conheceu tais vivências. Enquanto a norte, em princípio, se acredita em estranho que nos fale e o poder que haja é legítimo, no sul desconfia-se do estranho e o poder que haja nunca é tão legítimo quanto isso. Com União Europeia ou sem ela, levará muito tempo e muitas dôres de cabeça legislativas acertar as peças que fechem este puzzle.

 

Entretanto, o afilhado da sobrinha do irmão do presidente da câmara que fez fornecimentos sem concurso pode continuar a dormir em sossego.

 

 

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Quarta-feira, 31 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Lope de Vega   1562-1635

 

 

José Cutileiro

 

Writer’s block

 

Quando se faça ofício de escrever, a vida é como o porco para o talhante: aproveita-se tudo. Mas há dias em que tal não chega e mesmo os mais pimpões às vezes desacertam o passo.

 

(Contei agora 315 caracteres, compreendendo espaços. A dimensão convencionada destes blocos que envio à Vera para ela depois os ilustrar é de 3.000 caracteres, compreendendo espaços. Já passei pois os 10%; e com mais folga, porque o que vai dentro deste parentesis conta também: pouco mais de 20%).

 

Que eu saiba, na literatura portuguesa o caso mais explicito destes apuros deve-se a Eça de Queiroz (espero que os mais novos ainda o leiam: ninguém melhor do que ele escreveu prosa portuguesa). Cito de memória, porque há dois anos, com mais de metade dos meus livros em caixas de cartão da Galamas e quase metade dispersa por três moradas diferentes, doei tudo a departamento simpático do estado, com o aliciante de irem para o que fora convento beneditino, com monges beneditinos lá dentro e tudo, por assim dizer ao jeito da agricultura bio. Entretanto, parece que os monges afinal não eram monges e foram mandados à vida mas consta-me que os livros lá continuam. O que é certo é que não os tenho comigo e cito de memória – e em matéria de respeito pelo que os comunistas chamavam verdade objectiva, a memória é pior do que as mulheres. Adiante.

 

Eça prometera artigo ao director do jornal, para o dia seguinte de manhã, o moço da tipografia, no pátio para o receber, tinha botas que rangiam, e Eça, sem se lembrar de outra coisa, acabara por desancar o Bey de Tunis, velho estimável que ainda por cima parece que acabara de morrer, mas tanto fazia: «Em Tunis há sempre um Bey!» e fora-se a ele. O episódio, se não se estudava em escolas de jornalismo como «o pé da Luizinha Carneiro à Boavista», ficara na conversa de todos os dias. Agora fala-se destas coisas em inglês, como se fala de tudo onde haja progressos técnicos. Writer’s block com explicações várias, da psicologia tradicional às variações psicanalíticas disponíveis, se contadas de viva voz com entusiásticos sotaques norte-americanos, incómodamente seguros de si.

 

(Contei agora 2.331 caracteres, compreendendo espaços. Estou a aproximar-me do fim, beneficiando ainda deste parêntesis).

 

Eça contou depois a do Bey de Tunis, se é que não a inventou. No género – não é bem a mesma cosa, mas no género, a melhor para mim é de Lope de Vega: Un soneto me manda hacer Violante/ Qui en mi vida me he visto en tanto aprieto./Catorce versos dicen qui es soneto/Burla, burlando van los tres delante./Yo pensé que no hallara consonante/Y voy a la mitad de otro cuarteto/Mas se me veo en el primer terceto/No hay cosa en los cuartetos que me espante./Por el primer terceto voy entrando/Y me parece que entré con pie derecho/Pues fin con este verso le voy dando./En el segundo estoy y aun sospecho/ Que voy los trece versos acabando. Contad si son catorce y está hecho.Mais uma vez, citei sem livro à mão nem tempo para cotejar no Google.

 

 

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Quarta-feira, 24 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

LumumbaPatrice Lumumba e o Rei Balduíno, Congo 1961

 

José Cutileiro

 

Calor

 

Num país como a Bélgica, dividido entre duas nações que se detestam, Bruxelas é uma ilha de tranquilidade, variedade e decência – uma espécie de Nova Iorque dos pobres, se a leitora entende o que eu quero dizer. Talvez por haver aqui muitos estrangeiros, o ódio recíproco de valões e flamengos esbate-se num universo muito mais vasto. (Não estou a exagerar quanto a esse ódio. Muitos anos antes de eu pôr os pés na Bélgica, tive colega belga, embaixador como eu no Conselho da Europa em Estrasburgo, quase na idade da reforma, jovial e rubicundo, que um dia, a propósito de coisa nenhuma me perguntou: Tu sais ce que c’est que la pollution? E respondeu ele próprio: Un Wallon dans la Meuse ! Et tu sais ce que c’est que la solution? Tornou a responder: Tout les Wallons dans la Meuse!! O homem não era só belga: era embaixador da Bélgica, e deveria ter por obrigação defender os interesses de todos os belgas, mas tal não lhe passava pela cabeça.

 

Em tempo de paz, o ódio esbate-se melhor. Nas grandes guerras dos europeus do século XX,  essa sanha recíproca, pelo contrário, arranjou pano para mais mangas ainda. Embora, em 1914, um dos primeiros actos de guerra alemães tivesse sido a queima brutal e viciosa da biblioteca da Universidade de Louvain, barbaridade equânime pois aquela estava cheia de livros preciosos franceses e   holandeses, durante a  guerra os flamengos colaboraram muito com os alemães, enquanto os valões penderam para os franceses e os ingleses e os ajudaram. Na segunda guerra, tudo isso se repetiu, mas com mais violência e crueldade, porque, bem vistas as coisas, ser pro-nazi era feito muito diferente do que ser pro-alemão. Neste país, algumas das cicatrizes de 39-45 estão mal fechadas e deixam ainda sair pus e sangue.

 

Neste mês de Julho em Bruxelas, porém, não se dá por isso. Perfilou-se mal maior: o calor, para o qual Bruxelas está ainda mais mal apetrechada do que Lisboa está para o frio. (As duas cidades onde vivi mais convencidas de terem um bom clima, foram Lisboa e a Cidade do Cabo, tão convencidas, a despropósito, que se rapava nelas no inverno frio de rachar. Quando eu era novo, em Lisboa, não percebia porque é que os vestiários para sobretudos estavam dentro de casa. Deviam estar fora, porque era dentro de casa que se tinha mais frio.)

 

«Pior que Kinshasa» ouvi em francês belga, de mesa ao lado da minha numa esplanada. Cada um tem as suas referências africanas e as belgas são diferentes das nossas  e menos frequentes. Não houve colonialismo mais bruto e desumano e a juventude belga de hoje condena-o muitas vezes. Mas a grande maldade dos dias que vivemos é o calor: 44 graus Celsius previstos para quinta-feira. Talvez desde as matanças mandadas fazer pelo Duque d’Alba não tenha havido tanto incómodo.

 

Mas nisto de calor, a palma d’ouro vai para Federico Garcia Lorca. Em Granada, dizia ele, no verão o calor é tanto que não se passa nada. «Dos y dos nunca llegan a ser quatro. Quedan siempre y solamente dos y dos».

 

 

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Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Samora Machel

Samora Machel     -  foto aqui

 

 

José Cutileiro

 

Correcção política

 

1982. Recepção do Presidente da República ao corpo diplomático em Maputo. À entrada, Samora Machel saúda os embaixadores e outros chefes de missão que o vão cumprimentando. Chega a minha vez:

«Senhor Presidente… »                                                                                                         

«Olá, patrão» e, olhando pedagogicamente para a cara atónita do embaixador da Alemanha Federal, logo atrás de mim na bicha – nessa altura havia duas Alemanhas, a Federal com capital em Bona, membro da OTAN, expiando convicta a pena dos seus crimes de guerra e a Democrática, com capital em Berlim, membro do Pacto de Varsóvia, convencida de que a conversão ao comunismo a limpara dos ditos crimes (e, de caminho, dirigindo e executando toda a intelligence da República Popular de Moçambique, incluindo as escutas a nossas casas) - social-democrata dedicado à cooperação com o Terceiro Mundo, acrescentou: «Ele era o meu patrão…»

 

E Samora Machel era assim. Disse-me um dia, a propósito dos cooperantes que agora vinham da URSS, dos países de Leste, da Escandinávia, dos Estados Unidos: «Vocês tratavam-nos como pretos. Estes gajos tratam-nos como macacos». E, doutra vez, que Agostinho Neto, então presidente de Angola, não era um preto – era um branco pintado de preto, porque não sabia rir-se. Eu conhecera, anos antes e muito ao de leve, o Dr. Agostinho Neto à saída do Hospital de Santa Marta em Lisboa, onde ele trabalhava salvo erro com o Dr. Carlos George: de paletó e colete, camisa branca e gravata às listas, parecia de facto doutor tão sizudo quanto os outros. O Natas, de sua graça António Vaz Pereira, meu predecessor em Maputo, falou-me de outro momento memorável que lhe fora contado por Chissano, então ministro dos negócios estrangeiros, que a ele assistira. Samora, fardado de camuflado, como nessa altura fazia sempre em tais ocasiões, ia receber as cartas credenciais do embaixador do Lesoto. Quando ao fundo da sala a cortina foi corrida e o embaixador, gordo e baixo, de casaca preta coberta de condecorações, apareceu e começou a caminhar na direcção de Machel, este, sem qualquer expressão no rosto, sem mexer a cabeça nem olhar para ele, disse a Chissano, perfilado a seu lado: «Ai o preto…»

 

Lembrei-me hoje de Machel porque, ouvido nessa altura, já era muitas vezes uma lufada de ar fresco, e recordado agora, o é ainda mais nestes tempos de correcção política – tão excessiva que até leva a absurdos contrários como quando Antonio Tabucchi, em Princeton, perguntou a minha opinião sobre assinar papel que lhe fora passado por Susan Sontag a pedir desculpa aos pretos americanos pela escravatura que trouxera de África os seus antepassados e eu lhe respondi que talvez fizessem melhor em pedir desculpa aos pretos da África ocidental por os seus antepassados não terem sido trazidos também.

 

NB Nada a ver com a Dra Fátima Bonifácio que, embora culta e informada, esquece pelo menos o Preste João e Desmond Tutu.

 

 

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Quarta-feira, 10 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

pastéisPastéis de Belém, Lisboa. foto: alamy

 

José Cutileiro

 

Antes do grande sobressalto

 

 

O Deutsche Bank vai despedir 20.000 pessoas, sobretudo em Wall Street e Londres. O responsável pela política de investimentos, mal orientada e mal executada, causa principal dos desaires recentes, deixa também o banco, mas com 11 milhões de dólares de gratificação - li eu aqui em Bruxelas na primeira página do último FT Weekend. Se a gente juntar esta informação ao facto de na crise começada em 2008, parte importante do dinheiro emprestado à Grécia pelo FMI serviu prioritáriamente para pagar a bancos alemães, cúmplices da extravagância meridional, e também ao facto de nenhum responsável de banco ou outra instituição financeira privada europeus ter ido parar à cadeia por causa da dita crise, (um ou outro matou-se: ainda há homens de honra mas já não há moral pública) não espantará que alguns de nós suspeitem que as coisas vão ter de mudar. E como ‘patrician reformers’ dedicados a mudá-las a bem e de cima para baixo, parecem ter desaparecido (enquanto a filosofia dos actors principais do poder actual pode ser encapsulada no lema assustador atribuido a outra estrela do Deutsche, morto em desastre de avião em 2.000 : «Se não tens $100  milhões de dólares aos 40 anos és um falhado»), outros, menos bem educados e crentes convictos no valor curativo das revoluções, tentarão fazer a mudança a mal e a contrapelo. Não digo debaixo para cima porque o bom povo, antes de se meter ao barulho e marcado pela Comuna de Paris de 1871, pelos bolcheviques russos de 1917, e por desmandos ainda piores na Ásia e nas Américas esperará para ver qual dos lados o tratará menos mal antes de tomar partido. Acredite a leitora que vem aí uma broncalina do camandro ou uma Bernardette do caboz e que seja qual delas for a escolha não será sua.

 

«É muito grave deixar a Europa» diz o riquíssimo Jacinto ao seu amigo José Fernandes quando o comboio saído de Paris que os levava a Lisboa ia a passar os Pireneus. Hoje já há pouca gente que pense assim: Espanha e Portugal são refúgios quase bucólicos e os franceses em particular são gulosos deste recanto onde a terra se acaba e o mar começa que tão generosamente os acolhe no seu seio como de croissants ou baguettes ao pequeno almoço mas sem nunca esquecerem que a França é o centro do mundo. Apesar de avanços da extrema direita (em Portugal não a há, em parte porque o 25 de Abril deitou abaixo 48 anos dela e em parte porque, ao conquistar a sua primeira maioria absoluta Cavaco Silva foi mata-borrão que absorveu toda a direita, da mais centrista à mais extrema) grande maioria deles é a favor da União Europeia mas não à nossa maneira. Portugal quer estar na União para ficar mais europeu; a França que estar na União para que esta fique mais francesa. Vivi em França de 1977 a 1980 e achei que os franceses eram portugueses bem sucedidos e, portanto, mais arrogantes e menos simpáticos do que nós. Só vão ao sítio se tratados mal, o que será incompatível com regras básicas de turismo. A ver vamos.

 

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Quarta-feira, 3 de Julho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

nuno bragançaNuno Bragança (foto aqui )

 

 

José Cutileiro

 

Coisas de cá e lá fora

 

Não vi o Expresso de há duas semanas mas li o Vasco Pulido Valente segunda-feira no Público e encontrei lá o Nuno Bragança. Ao contrário do Vasco eu gostava do Nuno e do que ele escrevia; acho que a primeira linha de A Noite e o Riso– « Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me desembaracei na arte de estender os braços.» – ficará pequenina pérola da nossa literatura. E achei bons esse seu primeiro romance e o terceiro, Square Tolstoi; o do meio tinha tanto em directo, chamava-se Directa,da vida do Nuno (e da Leonor) que decidi a certa altura parar de o ler e não sei avaliá-lo.

 

As graças dele divertiam-me, embora conceda que eram de humor especial, o qual nem sempre agradava aos ouvintes ou sequer era por estes entendido como humor. Recebi um dia em Oxford postal dele da antiga Jugoslávia – técnico salvo erro do ministério das corporações o Nuno fazia muitas viagens de trabalho – datado de Liubliana, que rezava assim: «Vi ontem à noite numa taberna de Liubliana um bêbado igual ao Vasco Pulido Valente que fazia o elogio de Estaline. E fiquei a saber quem é o Vasco: um bêbado numa taverna de Liubliana fazendo o elogio de Estaline».

 

Uma quinzena em Londres falámos várias vezes. Ele viera pelo ministério para estágio onde não ia, e as suas ajudas de custo davam só para quarto de hotel incómodo e exíguo. Eu viera de Oxford ler na British Library e ficava num dos quartos simpáticos que a Gulbenkian punha à disposição de bolseiros na província que tivessem de vir a Londres. Quando eu saía de manhã o Nuno entrava para escrever o que viria a ser A Noite e o Riso na mesa do meu quarto. Jantamos várias vezes juntos e na véspera de ele voltar a Lisboa perguntei-lhe o que achara de Londres. (Era a sua primeira visita a Inglaterra mas havia toque especial: ele tivera uma nanny em pequeno e falava inglês como um nativo). Respondeu-me assim: « Sei que levaria muito tempo a adaptar-me a viver aqui. Mas sei também que em Portugal não me vou adaptar nunca». Viveu mais de vinte anos depois dessa conversa mas acabou por se matar numa casa de saúde para maluquinhos, perto de Lisboa.

 

Lá fora. Escrevo terça-feira na Marinha de Cascais e à hora de aqui deixar estas linhas não há ainda resultado de reunião do Conselho Europeu começada ontem para escolher os mandachuvas da União para os próximos 5 anos: o dito Conselho, a Comissão Europeia, o pseudo ministério dos Negócios Estrangeiros europeu e o nosso Banco Central. Há dias que as discussões prosseguem (entre 27 países) e o que se vai sabendo das conversas não é edificante mas não é isso que me agasta: Bismark dizia que nunca se deve visitar uma fábrica de salsichas. O que zanga é, por um lado, ver Merkel ser agora maltratada por anões políticos e, por outro, ver Timmermans, defensor activo dos valores europeus ser posto de parte para satisfazer exactamente os chefes nacionais – húngaro, polaco - que mais desrespeitam esses valores. Casos destes enchem a gente de fé.

 

 

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Quarta-feira, 26 de Junho de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

míssil hipersónico USAmíssil hipersónico norte-americano

 

José Cutileiro

Guerras

 

Leio no jornal que americanos, russos e chineses trabalham em mísseis hipersónicos capazes de viajar a mais de 15 vezes a velocidade do som, de atingir num quarto de hora alvos russos ou chineses se forem americanos (ou americanos se forem russos ou chineses), levando cargas explosivas e podendo perfurar as paredes mais resistentes de abrigos atómicos subterrâneos ou as couraças de porta-aviões americanos. Leio também que, ao contrário do que acontecera a partir de certa altura durante a guerra fria, não há conversas entre os protagonistas para criar regras de protecção mútua que ajudassem a lidar com acidentes ou mal-entendidos. Nesse como em qualquer género de  armamento, os americanos de Trump não estão interessados em nada que cheire a prevenção e os outros tampouco insistem.

 

«Messieurs les anglais tirez les premiers» disse o tenente Conde de Auteroche na manhã de 11 de Maio de 1745, durante a guerra da sucessão da Áustria quando franceses e ingleses, com aliados vários, (ao todo 47.000 homens de um lado e 51.000 do outro) apoiavam pretendentes diferentes, assim dando começo à batalha de Fontenoy, no que eram então os Países Baixos austríacos e é hoje a Valónia, na Bélgica.  Nessa altura e até à Revolução Francesa (e, a seguir, à explosão dos nacionalismos) as guerras eram o grande desporto da fidalguia. Auteroche convidou os ingleses a atirarem primeiro como quem, num jogo de ténis entre amadores, convide a bolar primeiro quem o defronte do outro lado da rede. Escrevendo poucas décadas depois, o Príncipe de Ligne diz que o seu maior desgosto fora a morte do filho, decapitado por tiro de canhão do exército revolucionário francês. Conta da relação estreitada por terem combatido juntos, de como chegara a pensar que seria bom serem feridos ao mesmo tempo. Já no começo do fim desse mundo, Napoleão Bonaparte lembrou que a coragem (física) é a única virtude que não se pode imitar. As ruas das cidades europeias estão cheias de nomes de batalhas ganhas - e de quem as ganhou – para não as deixar sair da memória colectiva.

 

A guerra é tão antiga quanto a humanidade (recente, e não sei se duradoura, é a paz); houve, na Europa e alhures, além da fidalga e da nuclear, outras maneiras de a fazer, e haverá mais no futuro sob formas que talvez nem imaginemos. Vivemos, seja como for, em tempo muito especial: toda a gente fala da brecha aberta entre as elites e o resto. Salvo em páginas de Madame de Staël que deu por divórcio assim em Paris, no começo da Revolução Francesa, não há memória de coisa parecida na história que conhecemos. Talvez a razão seja a mesma: explosões gigantescas de liberdade, a exigirem outros costumes. (Em 1917 na Rússia não chegou a haver liberdade: Os lagartos mudam de pele/Para salvar o coração./Nós mudamos de coração/Para salvar a pele escreveu poeta local coevo, prontamente executado).

 

Dito isto: 1 Não há nada mais parecido com a França de Versailles do que a França do Eliseu. 2 E os mísseis hipersónicos?

 

 

publicado por VF às 09:00
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