Quarta-feira, 17 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Bar do Ritz, Lisboa

 

 

José Cutileiro

 

Mais um bey de Tunis !

 

 

Prometi ontem ao almoço no bar do Ritz à Vera que ela teria hoje até ao fim do dia, sem falta, na sua casa da rua dos Caetanos, esta folha de bloco-notas, para depois procurar ilustração condigna. Não contei com já não vir a Portugal há quase seis meses, o país ter entretanto mudado, as mudanças serem no geral para pior e uma delas residir exactamente na qualidade do bacalhau à Braz do Ritz, que piorou escandalosamente desde a última vez em que eu o tinha lá ido comer, excursão até ontem sempre feita, de há muitos anos para cá, com o sossego de espírito dado pela certeza antecipada de coisa boa ao fim da viagem. Papa dôce que acabou. Um dos segredos do bacalhau à Braz é a espessura dos bocados de bacalhau que nele se metem com os ovos e a batata finamente cortada. Para se fazer justiça ao nome do prato tem de se sentir o bacalhau mas se este se sente demais, se as fibras são demasiado espessas, estraga-se o equilíbrio dessa joia da nossa culinária, quebra-se o encanto – e foi isso que aconteceu ontem ao almoço no bar do Ritz.

 

O melhor bacalhau à Braz da minha vida foi o do cozinheiro chinês do clube da Covilhã, teria eu uns vinte e cinco anos e ele aí setenta, onde o António Alçada Baptista e a Zezinha me tinham levado a almoçar. O chinês fora trazido de Macau em pequeno por doutor da administração ultramarina e sua mulher, crescera na Covilhã e lá envelhecera, dando aos sócios do clube e aos convidados destes maravilhas culinárias para lá dos costumes da Beira Baixa - o segundo foi o de um homem discreto e simpático, com restaurante onde o mano João me levou um par de vezes em Évora, perto dos arcos baixos do aqueduto e da Rua das Amas do Cardeal, que morreu de repente há anos, tendo o restaurante fechado. A seguir a esses dois sinais de excelência, bem mais abaixo mas ainda bons, espalhados por Portugal, havia vários outros e, em Lisboa, valia-me o bar do Ritz, o qual, a certa altura, me pareceu mesmo estar a querer melhorar ainda.

 

A leitora poderá achar que a partir de receita falhada uma vez só, só se declararia a decadência do país num excesso de arrogância e de cegueira. Permito-me discordar. Aconteceu ao bar do Ritz, com a abundância recente de cada vez mais turistas endinheirados, o que aconteceu ao resto de Lisboa: uma perda de exigência quanto aos seus próprios padrões, sobre os quais a nova clientela não sabe pronunciar-se, deixando nós assim que esta nos deseduque, em vez de sermos nós a ensinar-lhe coisa nova. É pena.

 

E o bey de Tunis? Esse, leitora, vem de Eça de Queiroz que também escrevia para os jornais e um dia, sem lhe ocorrer assunto, resolveu, a despropósito, atacar o bey de Tunis (que ainda por cima acabara de morrer: « Que importa ? Em Tunis há sempre um bey ») – ou pelo menos Eça assim conta a Pinheiro Chagas em polémica a fazer troça dele. No meu tempo adorávamos todos Eça*.

 

*Tirando o meu chorado Carlos Leal que achava Eça um janota do Porto e preferia Camilo Castelo Branco.

 

 

 

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Quarta-feira, 10 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Zé Povinho e Maria Paciência

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Descoberta de Portugal

 

 

Do Presidente da República ao mais modesto estagiário da imprensa, bem como os  animadores de Facebook & Co, toda a gente parece agora ter descoberto que Portugal é como é – e espantar-se, indignada, como se nunca cá tivesse vivido.

 

País de brandos costumes, as pessoas estão a fixar-se mais na brandura do que nos costumes. O facto do Dr. Álvaro Cunhal se ter doutorado em direito quando estava preso, indo dormir à cadeia a seguir a cada dia de provas, lembra-nos que o regime do Dr. Salazar não era como os regimes de Estaline ou Ceausescu, mas não deve fazer-nos esquecer que era, em todo o caso, uma ditadura a qual – mesmo sem contar as atrocidades cometidas em África – estava bem longe de uma democracia parlamentar. Poderia dizer-se de Salazar o que o Papa Urbano VIII disse de Richelieu quando soube da morte dele: «Se há Deus, o Cardeal vai ter muitas contas a prestar. Se não há Deus, levou uma vida bonita.» Moderação deve ser a nossa característica mais vezes evocada e estimada, por portugueses e estrangeiros. Amiga brasileira que enviuvou de português mas continuou a viver aqui, um dia explicou essa decisão assim: «No Brasil, se eu for jantar com um homem tenho de dormir com ele e em Portugal não».

 

Esta moderação ajuda, por exemplo, a que não haja vendetas, mas não anula que cada um deva lealdade suprema à sua família concreta (pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã, avós, netos, primos, primas), com o centro em si próprio, e não a um conceito abstrato de estado ou de cidadania. A moral universalista (protestante?) do noroeste da Europa, que me manda ter para com um estranho (ou até para com o meu pior inimigo) obrigações que tenha para com os meus irmão, pai ou filho, soa entre nós como um disparate, quase como um pecado. É uma das razões pelas quais o capitalismo nunca funcionou bem aqui, carregado com lealdades a parentes (e amigos) que tecem teia de obrigações particulares, contrariando a lógica do negócio. Essa carga é também de favores prestados e recebidos. O estatuto de um homem – ou de uma mulher – mede-se muito por ela. Quando, em 1934, o Pai fez exame de obstetrícia, a primeira coisa que o catedrático Professor Moreira, por alcunha «o Moreirinha», lhe perguntou foi :  «O Senhor não tem vergonha de vir fazer exame sem uma recomendaçãozinha ?» As recomendações, as ‘cunhas’, faziam parte do seu capital: quanto mais pedidos satisfizesse, mais favores lhe ficassem a dever,  mais o seu crédito crescia. Aluno que não trouxesse recomendação era hora perdida.

 

A modernidade avança porém e algumas obrigações do capitalismo e da democracia vão a contra-pêlo da tradição. Um homem (ou mulher) honrado tem escolhas dolorosas a fazer, entre regras de convivência que se desvanecem e ditames da busca de eficácia estabelecidos por algoritmos que poucos entendem.

 

Entre compadres cuja ajuda falha e computadores que não dominam bem, portuguesas e portugueses sofrem – e cogitam, à portuguesa, que não há de ser nada.

  

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Quarta-feira, 3 de Abril de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Harold Nicolson e Vita Sackville West em 1932

 

 

 

José Cutileiro

 

  Pérfida Albion II

                          

The worst kind of diplomatists are missionaries, fanatics and lawyers

                                                             Harold Nicolson, Diplomacy, OUP, London, 1939

 

 

Quando a primeira edição do supra citado livro de Sir Harold Nicolson foi publicada não havia, depois do fiasco da Sociedade das Nações, organizações publicas internacionais como há agora e menos ainda qualquer coisa parecida com a União Europeia. Na realidade, foram precisos seis anos de guerra brutal como nenhuma outra antes e, a seguir a esta, a tenacidade e a visão de meia dúzia de europeus, (entre os quais um francês, Jean Monnet, exportador de cognac que não se formara em Normale Sup e aconselhara o Presidente Franklin Roosevelt), bem como boa vontade, apoio militar e ajuda financeira dos Estados Unidos da América para pôr de pé o projecto que levou à União, cuja trave mestra é invenção recente, a amizade franco-alemã, e está a atravessar o momento mais difícil da sua existência devido a incapacidade aparente do Reino Unido, de um lado, e dos seus vinte e sete parceiros, do outro, de encontrarem maneira aceitável para todos do Reino Unido sair dela a bem.

 

Essa incapacidade assumiu recentemente, do lado do Reino Unido, facetas mais de opera buffa do que de negociação internacional, exercitando as melhores cabeças do jornalismo e da academia na busca de uma saída que fosse aceitável para a Câmara dos Comuns em Londres. Entre a quantidade de descrições interpretativas do que aconteceu até agora e do beco – ou becos – a que se chegou, muitas tendem a culpar a maneira como a negociação fora conduzida desde o princípio por Theresa May, escolhida para Primeiro Ministro pelo partido conservador  depois do chefe anterior deste, David Cameron – responsável pelo referendo em que os britânicos deviam escolher entre permanecer na União Europeia ou sair dela - se demitir. Deixo tudo isso de lado mas não sem recordar que parte do problema reside no facto dos ingleses levarem o seu parlamento muito mais a sério do que os continentais (o que é sinal de saúde política e não sintoma de doença).

 

No Verão passado, historiador expatriado meu amigo, falando do Brexit, perguntou-me « Eles, lá em Bruxelas,  estão conscientes da tragédia que isto é tudo ? » Infelizmente, com raríssimas excepções, julgo que não estivessem nem estejam. Há imensa gente a saber tudo sobre todas as árvores e quase ninguém capaz de ver a floresta. Ora Brexit, se não for tratado com muito cuidado, precipitará mudança tectónica indesejável no equilíbrio do Ocidente. E quer o fado que, à falta de grande estadista que agarrasse este gato pela pele do pescoço, se junte muito do pessoal que Nicolson mais receava. Do lado do Continente, de várias cores políticas, abundam os federalistas – e não há mais missionário; do lado das Ilhas, metendo medo ao governo, vociferam os Brexiters de base – e não há mais fanático. Dum lado e doutro, o terreno está polvilhado de assessores jurídicos, isto é, de advogados.

 

Azar dos Távoras.

 

 

 

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Quarta-feira, 27 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Xultimatum

Outros tempos

José Cutileiro

 

Pérfida Albion

 

Para crítico perspicaz Theresa May e os seus sucessivos negociadores queriam que acordo comercial perfeito com a União Europeia, soberania nacional pura e nenhuma fronteira com a Irlanda fizessem parte do contrato de saída da União a assinar pelo Reino Unido e os 27 estados membros restantes. Quando, a pouco e pouco, foram percebendo que tal vontade não era realizável sem ajustes que ajeitassem as contradições, já May tomara medidas e fizera declarações desastrosas (exemplos: assim que escolhida para chefe do partido promover eleições que perdeu e, com elas, a maioria absoluta; declarar, repetidamente, que no dealera preferível a um bad dealsem ter percebido que esta negociação não era como as outras; marcar linhas vermelhas exactamente onde precisava de espaço para negociar) que a revelaram incompetente e incapaz de resistir aos Brexiters extremos que, desde Thatcher, atormentam quem mande no partido Tory.

 

Um fraco rei faz fraca a forte gente e a podridão da cabeça chegou ao corpo todo. Colaboradores directos foram-se demitindo e contradizendo, até mesmo na última semana, à qual se chega em estado da maior confusão graças a inépcia de governo de Londres (exemplo: o homem que provavelmente media melhor o que estava em jogo, o embaixador do Reino Unido junto da União à data do referendo, foi expeditamente levado à demissão). O desejo de May de aplacar os Brexiters nunca abrandou: mesmo agora quando um prazo longo de adiamento da data de Brexit faria todo o sentido, limitou-se a pedir 30 de Junho – Brexiters receavam que mais tempo animasse mais compatriotas seus a afinal ficarem na União.

 

A incapacidade política abissal de May não explica tudo. Por um lado, em Ocidente que perdeu o comando do mundo e onde o fosso entre poucos ricos cada vez mais ricos e muitos pobres cada vez mais pobres aumenta dia a dia e com ele o mau viver, os governados estão fartos dos governantes, protofascistas ganham votos e, no Reino Unido, campanha pela saída da União entusiástica e descaradamente aldrabona, levou a melhor de defesa honesta e tíbia do statu quo. (The best lack all conviction while the worst/Are full of passionate intensity).

 

Por outro lado, a percepção do mundo dos ingleses é especial. Não têm Constituição escrita. Lords, o mais célébre terreno de cricket do mundo, conta 5 portas: East Gate, South Gate, North Gate, Grace Gate e Gate Number 6. Universitários desorientam-se para cá da Mancha por ignorarem o comprimento de 1 quilómetro. Antiquário do sul de Inglaterra entrevistado pelo New York Times não sabia há dias que com no deal os móveis que compra em França para vender mais caros em Inglaterra passariam a pagar direitos. Em 1955, quando o mano João andava na Slade School of Fine Arts, pediu num Workers Cafe (os restaurantes mais baratos da altura) bacon and eggs. Resposta: You can have the bacon, you can have the eggs but you can’t have bacon and eggs because it’s Wednesday. Etc.

 

NB Se a leitora achar que o Conselho de Ministros de May é parecido com um Workers Cafe talvez tenha razão. Dez anos depois do fim da guerra, regras de racionamento de comida estavam ainda nas memórias (e algumas em vigor) recorda o meu amigo Fernando. Em país sem Constituição escrita memórias de precedentes fazem lei e às vezes não são bem lembradas.

 

 

 

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Quarta-feira, 20 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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Favoritas do Sóba, Angola

 

José Cutileiro

 

 

O passado e o presente

 

Desabafo de leitor amigo: «Foi quando se perdeu o respeito pelos mais velhos que começou a dégringolade… afirmo eu agora que sou velho». A leitora terá o seu exemplo preferido desta evidência; eu tenho o meu, não da minha própria experiência de vida mas de bisbilhotices registadas em estudos que alguns querem fazer passar por ciência, aos quais me dediquei quando era novo.

 

Em quase toda a África ao sul do Sara, antes da chegada dos colonos europeus, os velhos mandavam em tudo quanto lhes coubesse na hierarquia da tribo: ficavam com o melhor das colheitas, casavam com as pequenas mais bonitas, dirimiam pendências internas, comandavam os seus contra o mundo. Os brancos trouxeram  muitas mudanças, por exemplo, a autoridade da língua do colonizador (ainda hoje, em Madagáscar, pastores dão ordens às vacas em francês), sendo a mais importante, nisto de velhos e novos, o pagamento de trabalho a dinheiro. O trabalho era e foi por muitos anos, agrícola e mineiro, privilegiando homens novos e robustos, enquanto o dinheiro dos brancos se tornara na única moeda de troca corrente e fiável. De repente, homens novos de origem modesta podiam pagar dotes acima das posses dos velhos mais distintos da tribo. A ordem antiga resistiu simbolicamente, aqui e além (em recantos bucólicos, há reis com trono mas sem poder), mas o grosso das coisas passou a ser regido pela ordem nova donde partiram as élites dos novos países independentes. Os velhos deixaram de constituir uma espécie de Senado da sua terra; sobrevivem esquecidos à mercê da caridade dos novos. Muitos pensarão, como o meu amigo, que a dégringolade começou quando lhes perderam o respeito.

 

Entendo-os mas não simpatizo com a nostalgia. O pitoresco da ordem antiga tinha incómodos. Aquí há 75 anos o meu chorado amigo Carlos Manuel fora a tourada em Santarém com o Fernando e o António Mascarenhas e o Conde da Torre, pai deles. Carlos Manuel deu a certa altura opinião sobre a lide; o Conde, sentado ao lado dele, discordou e deu-lhe uma estalada. Carlos Manuel levantou-se e saiu, no silêncio embaraçado da bancada. Ao fim do dia, no bar do hotel (nesse tempo o mundo era maior e quem viesse aos touros a Santarém ficava a dormir lá) o Fernando e o António foram ter com o Carlos Manuel: «O Pai está incomodadíssimo com o que se passou esta tarde. Vai lá pedir-lhe desculpa».

 

Tudo isto se passava nesta terra de costumes brandos onde Álvaro Cunhal se doutorou na Faculdade de Direito de Lisboa, arguido por Marcello Caetano, indo dormir à prisão e lá ficando depois de doutor e onde o tenente-coronel Majolinha, na Flandres durante a Grande Guerra, sempre que fazia disparar morteiro contra os alemães, rezava para não matar ninguém. Havia muito pior na Cristandade. O Marquês de Custine conta que a sociedade russa do seu tempo estava dividida em 14 classes, podendo os de cada uma delas bater nos das classes inferiores. Isto bem antes do bolchevismo.

 

A dégringolade fez bem a muita gente.

 

 

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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

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Fernando Peyroteo

 

José Cutileiro

 

Todo o mundo é composto de mudança

 

Ou assim Camões disse, talvez por palavras parecidas: estou a citar de memória que é mais traiçoeira ainda do que a pior das mulheres vítimas de violência doméstica aos olhos dos que lhes batem e, às vezes, de quem julga estes nos raros casos que são denunciados à polícia. Os modernos – nós, agora – estão a pôr de pernas para o ar costumes seculares. Miguel de Unamuno que, velho e alquebrado, na universidade de Salamanca replicou ao grito de Muera la intelectualidad traidora! Viva la muerte! do general franquista Millan Astray levantando-se e proclamando Este es el templo de la inteligencia y yo soy su sumo sacerdote!, anos antes, válido e em tempo de paz, teria gracejado – contaram-me, não vi escrito, mas se não era verdade era verosímil – que um homem devia todos os dias dar uma sova à mulher porque mesmo que ele não soubesse porquê ela sabia. De resto, não há sistema simbólico tradicional no mundo de que se tenha notícia (e são muitíssimos) em que a mulher não esteja do lado do mal, enquanto o homem fica sempre com o bem. Como se diria agora, há fake news que vêm de muito longe - entre os cristãos, com abundância, até da Bíblia.

 

Passar a tratar as mulheres de igual para igual é mudança nova e tanto quanto se saiba única. (Em sociedades matrilineais, por engano ditas matriarcais, o filho não herda do pai mas do irmão da mãe; quem quer, pode e manda continua a ser o homem). Quem diz mulher diz judeu. Estão a aumentar muito os casos de antissemitismo na Europa, hoje criminalizáveis. Essa mudança legal vai contra a tradição cristã que, durante quase dois milénios, maltratou os judeus, desde os pogroms da Europa oriental, percursores da solução final nazi, passando pelas conversões forçadas, até chegar à exclusão de clubes e outras descriminações raciais brandas que ainda duram. A pesar do peso dessa tradição, e de racismo generalizado (incluindo hebreu) no Médio Oriente, tratamento igual a judeus e goyim parece ter chegado à Europa para ficar. Outra mudança nova.

 

A mudança de que falava Camões é a mudança das estações, quatro vezes por ano voltando tudo ao mesmo, salvo no homem que a partir de certa idade chama à mudança envelhecimento seja qual for a estação em que entre. Quando, da mudança cíclica, se chega à mudança cada vez para pior da senectude, abre-se ainda mais um capítulo que pode às vezes fazer outros levantarem o sobrolho. Casal amigo de Frau Tichbein, mãe de Emílio (o dos detectives), achava que no tempo deles «o céu era mais azul e a cabeça dos bois era maior».

 

Levantar o sobrolho aos outros e ao próprio. Dei por mim a achar que os políticos de hoje, comparados com os do meu tempo (a que verdadeira política chegou em 1974, antes havia presos que éramos nós e carcereiros que eram eles) pareciam toscos e rascas. Depois fui mais atrás: aos 10 anos achava que o Presidente da República devia ser Fernando Peyroteo, avançado-centro do Sporting e da selecção nacional. A gente vai mudando.

 

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Quarta-feira, 6 de Março de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

 

mata-hariMata Hari

 

José Cutileiro

 

E se soubessem quem é, o que saberiam ?

 

 

Assim pergunta Álvaro de Campos no começo da Tabacaria (Janelas do meu quarto,/Do meu quarto um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é) e eu pergunto o mesmo quando gente à minha roda se assusta com o que os gigantes do web sabem agora de nós todos. A minha reacção imediata é egocêntrica e narcisistica (‘Querem? Sirvam-se!’ dizia Almada de jornal que bisbilhotara na sua vida privada); a seguir é simplesmente sensata, como a do nosso heterónimo engenheiro.

 

O susto vem da novidade brutal dos meios usados que se modernizam a velocidade inédita de progresso técnico e tem o seu exemplo mais radical na Inteligência Artificial. Quando uma manicazinha esperta, como o Tio Zé Peidinho chamava ao meu gravador, ganha partida de xadrez ao campeão do mundo Casparov e, poucos anos depois, outra manicazinha, mais esperta ainda, ganha partida de go ao campeão oriental desse jogo, mais dificil ainda do que o xadrez, até eu me alarmo. Digo até eu porque sou reformado e portanto relativamente imune a medidas de eficiência propostas por manicazinhas parecidas que despedem pessoal a eito – uma das práticas que vão cavando o fosso entre poucos ricos, cada vez mais ricos, e muitos pobres cada vez mais pobres e levarão por fim, aposto dobrado contra singelo, a broncalina do camandro ou, se a leitora preferir, a Bernardette do caboz.

 

Claro que o mal não vem só do progresso técnico – vem também da iniciativa (ou falta dela) de cada um. Em Portugal onde há muitos anos conheci selfmade men bem feitos, porque tinham tido bons modelos e repeitavam saber antigo (à bilheteira de teatro de zarzuela em Madrid, diante de vendedeira  espampanante, um deles perguntou ao filho «Oh Gérard, como é que se diz ‘colo alabastrino’ em português ?) tais sucessos eram raros e a outra ponta da curva de Gauss às vezes cortava o coração. Perguntei um dia ao Senhor Moreira, de manhã à noite dentro do seu quiosque no largo do Príncipe Real, do lado da faculdade de ciências, que tinha tudo antes de haver lojas de conveniência e estendia um maço de Porto e uma carteira de fósforos ao Ruy Cinatti quando ele lhe dizia «Gluglu e flófló», há quanto tempo ali estava e ele respondeu-me «Há 50 anos, Senhor Doutor. Uma vida inglória».

 

De resto, desde o aparente recato de lugarejos perdidos até ao bulício cosmopolita das grandes cidades comerciais, a espionagem existe desde a origem da humanidade. E técnicas modernas podem às vezes deixar mais peixe sair da rede do que métodos tradicionais. Do ponto de vista de quem espie – e toda a gente, todas as partes que se confrontem em paz ou em guerra, espiam –o melhor será sábia mistura de ambos. Quando o Vasco Valente foi abrir a nossa embaixada em Lusaca, a Teresa, sua mulher, tinha amiga em Salisbury a quem telefonava muitas vezes. Uma noite não conseguia fazer a chamada e ao fim de quase uma hora apareceu na linha voz de homem, redonda e simpática: «Try tomorrow, Madam. Tape recorder out of order».

 

 

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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

 

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José Cutileiro

 

 

O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba ?

 

 

Assim me explicou pequeno proprietário alentejano o facto de não ir buscar livros à biblioteca itinerante da Gulbenkian que nesse dia visitava a vila, enquanto a filha fora lá direita como fazia sempre. Ele, e tantos outros alentejanos da sua idade e do seu tempo, era um céptico; ela, mais do que outras raparigas da JIC feminina da região que eu tenha conhecido nessa altura, era uma entusiasta. Estava-lhe na massa do sangue, de criança pequena à senhora de idade que agora é, fosse para onde fosse que o intelecto a puxasse. Na JIC era praticante exaltada e intolerante; depois, com a Pátria, metera-se a outras crenças e nos tempos animados da reforma agrária alentejana tornara-se comunista convicta. A última vez que estive com ela - muitos anos depois do PREC e há outros tantos já – era ecologista vibrante, escrupulosa e prosélita como sempre. Não sei se nalguma das suas três fases converteu alguém à fé que tinha na altura; sei, pelo contrário, que havia gente que fugia dela quando a via aproximar-se. Talvez o entusiasmo assustasse as pessoas ; in meso stat virtus diziam os romanos . É extraodinário o número de coisas que gregos e romanos diziam com que nós estamos de acordo – e eles nem pela primeira revolução industrial tinham passado. (Alguém que já tenha tido dores de dentes terá de admitir que aspirina é progresso, o resto…).

 

Ele ficou também como era. Tinha cara que me lembrava caras de fidalgos castelhanos pintados por El Greco no enterro do Conde de Orgaz, de uma tristeza da Europa do Sul que atinge o nadir em partes da Calábria. E, embora não chegando a estatura meã, tinha cara de homem alto. Continuou a arruinar-se lentamente até morrer; o filho há muito casara e deixara a vila, a filha ficou solteira na casa de família. A obstinação do pai estava longe de ser atípica: outro senhor da terra, em princípio com mais obrigações por ser bacharel formado em direito, sentado em esplanada de café vendo passar muito devagar maquinaria rebocada por tractor a caminho de uma curva do Guadiana onde se instalava fábrica de cartão (anos depois submersa graças à barragem de Alqueva)  disse, em parte para mim e em parte urbi et orbi, «Como se eu acreditasse que esta merda serve para fazer papel!».

 

Voltando ao progresso: talvez tenha havido. Há poucos anos, juíza na Malásia, incapaz de averiguar seguramente qual de dois gémeos univitelinos matara um homem, mandou os dois em paz. Exactamente o contrário do que fizera fidalgo francês católico que, no século XIII, derrotara os albigenses, pois uns eram heréticos cátaros e os que o não eram negavam-se a denunciar parentes e vizinhos. O fidalgo foi lapidar: «Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus.» A juíza da Malásia também o foi mas em sentido contrário, mais de acordo com os nossos gostos de agora: na dúvida preferiu poupar um inocente a sacrificá-lo mesmo que assim fazendo tenha poupado um culpado ao castigo devido.

 

 

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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

Hino pauta

 

 

 

José Cutileiro

 

As luzes estão apagar-se na Europa

 

 

Assim disse estadista inglês no começo da Primeira Guerra Mundial. Esse novo caminho para a escuridão está a ser trilhado agora, de maneira convencida não só na Polónia que parece vítima de maldição perene (Un polonais, un charmeur; deux polonais, une bagarre; trois polonais, la question polonaise, escreveu Voltaire que morreu antes da Revolução Francesa) e na Hungria, onde Victor Orban está metodicamente a enfraquecer democracia parlamentar por  governação autoritária e corrupta, com a cumplicidade do Partido Popular Europeu (que não o expulsa nem autoriza a Comissão Europeia a cortar-lhe finanças, continuando a pretender, contra toda a evidência, que o levará a mudar de rumo a bem) mas também em outros países da Europa de Leste onde se prestam agora homenagens a militares pro-nazis dos anos 30 e 40 do século passado - tratados de criminosos de guerra há  50 anos.

 

Na Europa dantes dita Ocidental a preocupação também é grande. Na Alemanha, talvez de todos os países europeus, aquele em que o apego à democracia parlamentar é maior (salvo na antiga Alemanha de Leste, envenenada à nascença pela mentira que a criara) o partido da Alternativa ganha terreno. Na Itália evoca-se abertamente saudade de Mussolini, e a coligação extrema direita/extrema esquerda que desgoverna agora o país entende-se em pouco mais do que no desprezo da democracia parlamentar e do estado de direito. Na Inglaterra, políticos desnorteados ou mal norteados transformam séculos de grande história to a trouble of fools (com vénia minha a Yeats). Em Espanha, pela primeira vez desde 1975, partido franquista ganha deputados em parlamento regional e lugar à mesa das pessoas de bem da política. Em França, há catorze fins de semanas, os gilets jaunes manifestam em ruas, estradas e rotundas, destroem propriedade, insultam o presidente da república e pedem democracia directa em vez de representativa (os lugares em que democracia directa foi tentada acabaram em ditadura mas ou não sabem isso ou é isso que querem). Paisagem retocada por antissemitismo renascente, que nestas coisas configura o tradicional canário da mina.

 

George Orwell escreveu algures que, de vez em quando, as pessoas queriam o mal, se batiam por ele. Madame de Stäel, no Paris revolucionário, sentira hiato entre políticos e povo, entre quem mandava e quem era mandado, como nunca sentira antes. Cesário Verde faz pensar: A dor humana busca amplos horizontes/E tem marés de fel como um sinistro mar. Mas ao lado de reflexões luminosas depressa surgem feitos medonhos, do terror de Robespierre às matanças de Pol Pot - e é para feitos assim que a Europa se está a pôr a jeito.

 

Portugal parece escapar à maré de fel. Em 1942, na inauguração do Estádio Nacional o governo salazarista fez espalhar de avionete milhares de panfletos rezando em grandes letras O QUE NÓS QUEREMOS É FUTEBOL. Se em inauguração próxima o governo democrático fizesse o mesmo o povo também haveria de gostar.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

O Bloco-Notas de José Cutileiro

foto Inês GonçalvesRapariga católica em Panjim © Inês Gonçalves

 

José Cutileiro

 

Só arrelias

 

 

Leio na primeira página do jornal: «Acusação de violação divide a Índia». A Índia é enorme (a maior democracia do mundo, nunca esquecer) e lá não direi que as violações sejam mais que as mães, mas são quase. Esta haveria de ter que ver, para chegar à capa de um diário internacional e fiquei curioso. Até porque gosto da Índia, sinto-me lá bem, falo sem esforço como Peter Sellers em The Party (ou Luis Amorim de Sousa quando lhe dá para isso) e a imitação não é troça, é homenagem, pedido de inclusão, vontade da companhia. Entendo-os bem, desde os jovens contabilistas a jantarem no hotel em Mogadiscio com olhinho triste de punheta e juros compostos  (nos tempos pacíficos do ditador Siad Barre, antes da canalha islamista se meter a purificar o país) até à brasa a quem perguntei numa festa em Londres «Are you from Sweden?», me respondeu «Is that an opening gambit?» e acabámos os dois na minha cama em Oxford. E a memória de fertilidade sem fim, vista do avião de Bombaim com o seu aeroporto de Santa Cruz  até Nova Deli, em grandes manchas vermelhas e verdes de paisagem. Países houve onde me senti de fora assim que lá entrei. Na Índia, em viagens separadas por 60 anos, uma espécie de líquido amniótico virtual protegeu-me dos males do mundo.

 

Curioso, fui ver. Em letras menores que as do título mas maiores que as do texto que introduziam e na legenda de fotografia de eclesiástico saído de um carro e ladeado por dois polícias, aprendi que freira dizia que bispo abusara dela (treze vezes) e que a hierarquia católica urgira que ela se calasse. Senti-me ainda mais em casa. Filho e neto de alentejanos republicanos anticlericais (o Pai vivera crise mística aos 17 anos, casara pela igreja, mas quando eu nasci passara-lhe e não fui baptizado) os malefícios, verificados ou supostos, da Santa Madre Igreja eram pitéu da conversa quotidiana (como no Sul de Espanha: Un cura es un señor a quien todos llaman padre menos los hijos que le llamam tio), lembro-me de folheto ainda do tempo da monarquia que esclarecia na primeira página «A palavra padre é aqui empregue no seu sentido o mais pejorativo» - e depois havia padres anafados e contentes que discretamete tinham amigas.

 

Que até na India a Igreja Católica se veja metida em sarilhos de sexo preocupa-me. Nos Estados Unidos – e alhures – parecem nunca mais acabar os casos de pederastia, prática hoje condenada embora nem sempre tenha sido assim. Espartanos, atenienses, romanos, militares e civis, revigoravam-se com ela. E, de Marrocos ao Afeganistão, ainda hoje faz parte dos costumes.

 

Desprestígio da Igreja de Roma preocupa-me por ela ser parte importante do cristianismo que trouxe à história valorização única do homem. Tu es immortel et irremplaçable diz o capelão ao condenado à morte num filme de Cayatte. Imortal julgo que não mas insubstituível sim – o que em tempo de inteligência artificial, mira constante do lucro e imperador Xi na China poderá escapar demais a quem tenha agarrado o poder.

 

publicado por VF às 16:30
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