18.12.16

 

 

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Em tempos, quando o Menino Jesus, ou tu, faziam anos, a família e os amigos da casa ofereciam-te objectos desconcertantes e inúteis, chamados brinquedos. Tu, está claro, ficavas muito contente com os presentes, por virem embrulhados em papéis vistosos, por constituírem uma novidade, aliás provisória (lamentável defeito da novidade!) mas principalmente por ser costume ficarmos contentes quando alguém nos oferece qualquer coisa. Na verdade, ou seja, no dia seguinte (a verdade só é completa no dia seguinte), verificavas que os tais brinquedos não correspondiam às tuas secretas ambições. Ah! O dia seguinte do brinquedo! Como é rápida a decadência do brinquedo, uma vez arrancado ao arranjo da montra da loja, onde brilhou, rodeado por outros brinquedos, valorizado por luzes hipócritas! Os brinquedos deviam ficar eternamente na suas caixas bonitas, ou penduradas nos tectos dos estabelecimentos para serem apontados pelos dedos indicadores dos meninos. É raro um brinquedo corresponder à imaginação da criança que o recebe. Deves lembrar-te de que, por volta dos teus seis anos, não achavas graça nenhuma a um boneco, por mais bonito que ele fosse. Eu, pelo menos, não achava. O que eu queria era um martelo verdadeiro para pregar pregos verdadeiros onde me apetecesse. A lei natural dos contrastes convida as crianças a desejarem ser adultas. Por exemplo: um cavalo vivo, com arreios de “cow-boy”, é artigo muito querido de todos os meninos. Pistolas autênticas, das que dão tiros homicidas, bicicletas de duas rodas, serrotes, etc., são objectos apreciadíssimos pela infância, que também aceita, resignadamente, as respectivas imitações, de lata, de três rodas, e sem dentes.

 

 

 

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Tenho um amigo um bocado parecido comigo nestes assuntos de educação infantil. Tem dois filhos a quem tudo permite e a quem gostaria de realizar todos os sonhos. Há tempo, um dos pequenos pediu-lhe um serrote com dentes afiados, e o pai fez-lhe a vontade. O serrote marcou época em casa do meu amigo. Vários móveis de estimação foram serrados pelo garoto que, trocadilho aparte, tem «bicho carpinteiro». O pai do serrador desgostou-se com a proeza do filho e julgo que lhe tirou o serrote. Mas teve desgosto quando lhe tirou o serrote. Disse-me, confidencialmente, que nunca mais o seu querido filho teria um brinquedo que lhe desse satisfação comparável à daquele serrote verdadeiro. «Resta saber — concluiu — se é melhor evitar a perda de móveis insubstituíveis ou a perda duma partícula da alegria de viver do meu filho». Mas, repito, não ê possível apertar em tão poucas linhas a extensa filosofia do brinquedo.

 

 

 

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[...] As crianças portuguesas já trazem de longe, quando nascem, uma indisciplina, uma desordem que não lhes consente manusear dinamite sem perigo de explosões. Logo, não as podemos presentear, aos dez anos, como acontece aos meninos alemães, com espingardas de tiro rápido, nem com cavalos de carne e osso, como é uso conceder às crianças inglesas. Sejamos prudentes com os nossos filhos, deliciosamente meridionais, imaginativos e bravos! Fabriquemos, para eles, alguns brinquedos mansos e já consagrados, mas tanto quanto possível aportuguesados.

 

 Olavo d’Eça Leal

in Revista Panorama, número 12, ano 2º, 1942

 

 

 

 

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Olavo d’Eça Leal (1908-1976) pertenceu à geração de intelectuais e artistas portugueses que colaboraram na revista Contemporânea e no Salão dos Independentes. Escritor e célebre radialista da Emissora Nacional, a sua obra inclui o teatro, a poesia, as artes plásticas, a ficção e a literatura infantil. Escreveu e produziu dezenas de peças para a rádio e televisão, foi jornalista, ilustrador, e coleccionador ecléctico.

 

Em 1939 publica um livro para crianças, Iratan e Iracema, os Meninos mais Malcriados do Mundo, com ilustrações de Paulo Ferreira, que recebe o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho. Esta história ao jeito de folhetim radiofónico infantil foi lida pelo autor aos microfones da Emissora Nacional no programa "Meia Hora de Recreio" em trinta e oito fragmentos. Em 1943 é editada a sua História de Portugal para os Meninos Preguiçosos (1943) ilustrada por Manuel Lapa.

 

Desenhos, pinturas, livros e objectos de Olavo d’Eça Leal reunidos ao longo dos últimos quarenta anos pelo seu filho Tomaz encontram-se expostos na Casa da Pinheira [The House of the She-Pine Tree] - Casa-Museu e Guest House situada numa antiga quinta do século XIX próximo da aldeia do Sabugo.

 

 

 

 

 

Agradecimentos: Tomaz d’Eça Leal, Casa da Pinheira , Hemeroteca DigitalAlmanak Silva, Restos de Colecção, JuvenilbaseWikipedia

    

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20.8.14

 

 

 

 Tony Silva em "O Tal Canal" de Herman José, RTP 1983/1984 

 

 

 

 

 

O rame-rame

 

 

 “Que lentement passent les heures/Comme passe un enterrement./Tu pleureras l’heure où tu pleures/Qui passera si vitement/Comme passent toutes les heures” rimou Apollinaire na cadeia, acusado injustamente de cumplicidade no roubo da Gioconda do Louvre em 1911. (O Secretário de Estado das Belas Artes quisera matar-se. Roubo parecido na Europa de hoje levaria governante equivalente a dizer logo que a culpa não fora dele mas em 1911 havia honra — talvez até houvesse demais: três anos depois, os Imperadores da Alemanha, da Áustria e da Rússia, o Monarca constitucional do Reino Unido e o Presidente da República Francesa mandaram os europeus irem matar-se uns aos outros. E eles foram, a rir e a cantar). No devagar depressa dos tempos, chamou Marcello Mathias, com vénia a João Guimarães Rosa, aos diários que foi publicando.

 

Agosto vai escorregando pela ravina que leva a Setembro. Consta-me que de Carnide se vê um país cada vez mais triste: quem ande fora tem medo de cá voltar. Que da Quinta da Marinha se descobre que o mal chegar a alguns não faz bem a ninguém. Que entre os pobres de pedir as coisas vão melhor: já não os há como no tempo de Raúl Brandão e na versão moderna, com salários, subsídios e pensões abaixo da fasquia dos cortes e a vida levantada como um barco pela maré tecnológica — ecografias, mezinhas, baixas — mesmo se meninas e meninos forem para a escola em jejum esfomeado, nunca estiveram tão bem. Já quase todos têm posses para comer manteiga de vaca. Tirando o percalço de África e os descaros libertários e libertinos de Internet & Cia o Dr. Salazar, se voltasse agora, não estranharia muito o país.

 

Como no resto da Europa, falta grandeza. Dos nossos dois maiores políticos, Francisco Sá Carneiro morreu cedo demais e Mário Soares — a quem os portugueses devem mais do que a qualquer outra pessoa, incluindo o general Eanes, terem sobrevivido ao 25 de Abril em democracia — desbarata crédito em retórica disparatada de há dez anos para cá. Como no resto da Europa, quem manda tem a visão do saguão e o instinto da escada de serviço. Existirá alguém com cabeça e temperamento que nos arranquem deste rame-rame?

 

Há muitos anos, o dramaturgo Augusto Sobral inventou a “Adivinha” seguinte: “De meia tigela veio/E ficou meia tigela./Ficou a tigela em meio/Porque era meia tigela.” Podia ter sido inventada antes. Em 1963 pequeno proprietário, grande na sua aldeia alentejana, disse-me: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. E em 1834 a Câmara do seu concelho, miguelista como quase todas as câmaras durante a guerra civil, escreveu à Rainha D. Maria II afirmando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fiéis”.

 

Fará mesmo falta animar a malta? Valerá a pena?

 

                                                                                                                                                                                                               

 

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13.8.14

 

 

 

 Paula Rego - A dança

 

 

 

 

 

Quem sabe, sabe.

 

 

Entre as duas guerras (a de 1914-1918 e a de 1939-1945, lembro às leitoras mais novas), a propósito da explosão de exibicionismos que borbulhavam nas années folles, André Gide (francês e Prémio Nobel da literatura em 1947, lembro às leitoras menos dadas a leituras) dizia ver à sua volta mais artistas do que obras de arte. Nessa altura não havia nem internet nem twitter nem facebook nem blogs e, com o que hoje se chamam plataformas a coisa mais parecida seria o cinema, que Meliès e os manos Lumière tinham solto em Paris e vingara na Europa e nos Estados Unidos como a prole de um casal de coelhos na Austrália — mas hedonismo, egotismo e narcisismo são antigos e para lhes dar asas cada uma sempre usou o que tivesse à volta (ensimesmada: quando perguntaram às águas do lago se Narciso era mesmo belo, estas responderam que não sabiam porque quando ele vinha olhar-se nelas, elas aproveitavam para se olharem a si próprias nos olhos dele — ou, pelo menos, foi o que Oscar Wilde contou, não sei se antes se depois de ter conhecido Gide em Paris, onde viria a morrer. O mundo é pequeno).

 

De artistas e de obras de arte pouco ou nada sei mas há mais de dez anos virei comentador e, de silêncios aconchegados, longe da balbúrdia pátria, vou mandando bocas. Agora, chegado no começo do mês de Bruxelas, lendo os jornais e olhando para o que Conchita Cintrón chamava la pantalla chiquitita, suspeito que neste maravilhoso país que tão generosamente acolhia Freddy Kotter no seu seio a algazarra dos comentadores cobre de uma espécie de smog as coisas a comentar. Não é que estas faltem — desde o esforço vão do governo para transformar os portugueses em alemães (por via fiscal, ainda por cima) com Herr Gaspar, primeiro, e Frau Albuquerque, depois, a encaminharem-nos com um vasculho, como dantes os vendedores de perus pelas ruas de Lisboa, até à sanha súbita contra várias gerações da família Espírito Santo, reminiscente do azar dos Távoras — mas, bombardeadas pela cacofonia pátria, essas coisas e outras de menor porte deformam-se como as nossas caras na galeria de espelhos de uma feira de diversões.

 

Disse à Vera, dona do blog, que estava a pensar deixar de escrever o Bloco-Notas mas ela disse-me que eu não podia fazê-lo e que o mundo agora era assim, que todos podiam deitar palavra e que havia leitoras para tudo quanto se escrevesse. É, com efeito, um pouco tarde para protestar contra o ensino obrigatório, contra enciclopédias que anunciam à cabeça não garantirem que a informação que nos dão seja verdadeira e contra o ulular desafinado dos comentários de nós todos. Mas eu sou um pequeno-burguês de Évora e às vezes sinto-me como patrício meu, sentado sobre tábuas pousadas em tripés na primeira fila de um circo de província. A gaiola dos leões desconjuntou-se, o público saltou para fugir, e o meu patrício com as partes pudendas entaladas entre duas tábuas, sem se poder levantar, gritou: “Sentem-se, caralho, que os leanitos nã fazem mal”!  

 


6.8.14

 

 

 

 

 Corridinho algarvio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cá em cima está o tiro-liro-liro…

 

 

Dantes, era tudo mais simples. Em Janeiro de 1975, vindo de Londres, dei por mim no Rocio ao fim de um dia de encontros, com hora e meia antes do encontro seguinte e fui comer um bife ao Nicola.

 

“Que cervejas tem?”

“Tenho todas.”

 

Havia cinco cervejas no mercado lisboeta e o resto ia à proporção — mesmo depois de entremeados os Capitães de Abril que em 1974, na peugada dos seus camaradas de 1926 e 1910, tinham virado de pernas para o ar a política na Pátria. Chão que deu uvas. Os golpes de estado agora são mudanças ordeiras e burocráticas, supervisadas por Bruxelas e Berlim, e o povo come e cala — já mandava Salazar… — porque se não calar, não come.

 

Em Janeiro de 1993, quando Clinton se tornou presidente dos Estados Unidos, havia 50 páginas na Internet. Hoje há milhões; amanhã haverá milhões de milhões. Google, redes sociais, twitter, tabletes, Skype, telefones: a bisbilhotice cacofónica não pára. Em raros sítios espertos e felizes o cliente tem sempre razão, os eleitores defendem-se bem dos eleitos, a justiça consegue ser independente, todos os sexos e todas as fés coexistem e o tempo dos humanos, curto no tempo do Universo, corre com mais bem-estar do que mal-estar.

 

Em sítios menos felizes “a dor humana busca amplos horizontes/ E tem marés de fel como um sinistro mar” (disse o Poeta). E, como o apetite por desgraças alheias é insaciável, em pouco mais de 100 anos passou-se de cantigas de cegos na rua que, nos casos céleres corriam o que corre um cavalo a galope (em 1815, a notícia da vitória de Wellington em Waterloo só chegou a Londres quatro dias depois da batalha) para partilha imediata de imagens e sons, com repórteres dando-nos a conhecer à hora de jantar o pior da maldade humana. Com canais e agências em concorrência desenfreada. Com homens, mulheres e crianças cheios de água na boca à espera dos desastres do dia. Tudo isto, mais o inventado em jogos e fantasias que embotam e ensandecem almas.

 

Entretanto, nós por cá todos bem. O 25 de Abril dera-nos sensação de centro do mundo que não experimentávamos desde o tempo de D. Manuel “O Venturoso”, quando havia em Lisboa cinco perfumadoras de luvas por cada mestre-escola. Essa falsa centralidade esvaiu-se, voltamos ao rame-rame triste, chegou a miséria da troika, mas vimo-nos livres desta e o governo começa a impressionar. De entrada — contra mundo — lembrava os liberais de D. Pedro IV, cercados no Porto por país miguelista. Agora poder e povo começam a entender-se, sendo abatidos pelo meio interesses de corporações, de seitas, de famílias. Será desta?

 

Para mudar a História, não chega. Era preciso fazer cantar nas escolas:

 

em cima está o tiro-liro-liro,                                                                  

em baixo está o tiro-liro-ló”

 

a ver se acabavam de uma vez séculos de vocação de mó de baixo em Monarquias, República, Estado Novo e Democracia.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

 

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25.4.14

 

 

 

Foto: Eduardo Gageiro

 

 

 

 

 

 

Aurora Clara de Abril

 

 

Assim chamaram à menina recém-nascida encontrada na roda dos expostos da Vila de Monsaraz por homens saídos para o trabalho em madrugada luminosa desse mês, em ano do terceiro quartel do século XIX — não me lembro qual. Nem o ano nem o dia, mencionado na acta duma sessão da Câmara. Há uma probabilidade em trinta de ser 25 e como quando li a acta não reparei (faltava ainda essa achega à nossa leitura do passado), pode ser que tenha sido mesmo.

 

Tal coincidência daria alegria à elevada percentagem de portugueses que acha o 25 de Abril a data mais importante da nossa história e que, como quase toda a gente, é supersticiosa. Eu não sei remontar tanto e na celebração do dia fico-me por três vinhetas, com as suas luzes próprias. Cada uma vale o que vale.

 

Por ordem cronológica.

 

Em 1975, poucos dias antes das eleições para a Assembleia Constituinte, amigo meu, minhoto, estava de passagem na casa de Ponte da Barca quando três criadas velhas da mãe — tão velhas que ainda eram naturalmente analfabetas e, por isso, mais sagazes e reflectidas do que muito doutor moderno — lhe vieram falar. Queriam perguntar ao Menino: “Como é que se vota na lei antiga?”.

 

Na Primavera de 1978, eu era primeiro representante permanente português no Conselho da Europa em Estrasburgo – lá chegado no ano anterior porque antes de viver em democracia Portugal não podia ser admitido (durante o regime dos Coronéis, a Grécia tivera de sair) — Victor Cunha Rego era nosso embaixador em Madrid, falávamos ao telefone e eu disse-lhe que tinha aprendido do pai que Portugal era um país maravilhoso, habitado por uma maioria de gente boa e generosa, do qual uma minoria de gente má e mal formada tomara conta, chefiada pelo pior deles todos, o ditador Salazar. “Pois é” respondeu o Victor. “Eu também fui educado por um pai assim. E é grave, aos 50 anos, um homem descobrir que o pai era parvo”. Com o 25 de Abril, Victor e eu tínhamos passado de vítimas a cúmplices; da oposição ilegal à máquina do novo poder. E quem tivesse a mão na massa começava a descobrir que Salazar não era só causa dos nossos males; era também, e sobretudo, sua consequência.

 

Em 2008, Sofia Pinto Coelho convidou-me para programa de televisão dela que, de cada vez, tinha o mesmo fio condutor. A Sofia pegava numa pessoa e confrontava-a com passagem do seu passado. A mim coube-me ser levado a vila alentejana onde há quase 40 anos trabalhara como antropólogo e a que chamara Vila Velha em livro que publiquei. Fui filmado a falar com pessoas amigas que não via há muito tempo, entre elas a Ema, analfabeta e ainda muito bonita. A Sofia pediu-me para eu lhe perguntar se a vida agora era melhor ou pior do que quando eu lá estivera. A Ema olhou-me espantada e respondeu: “Não passamos fome!”

 

As velhas de Ponte da Barca, o Victor e a Ema já morreram. Não me cabe adjudicar mas, quando começa a haver outra vez gente com fome em Portugal, talvez a resposta da Ema capture o mais importante do 25 de Abril.

 

 

 


18.10.13

 

Quarta Semana:

 

Esta semana chegou finalmente a oportunidade de assistir a um discurso do presidente. Full treatment.

Presidente feliz com lágrimas, de acordo com o Público. De 2a a 5a decorrreu na “Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação” a primeira audiência pública sobre a guerra civil de 75 em que andaram todos a matar-se uns aos outros. Para quem não leu o Adelino Gomes, já várias vezes tinha sido marcada e outras tantas adiada. É um assunto do mais sensível já que muitos responsáveis políticos de hoje (tanto governo como oposição) foram responsáveis por grandes matanças na época. Desta vez fez-se mesmo. Era aguardado com enorme expectativa e durante as sessões Dili andou colada aos rádios para ouvir os depoimentos; os motoristas aqui do PNUD não saíam dos carros o dia inteiro, sintonizados na Rádio Timor-Leste, e quando saíam era para se juntarem em volta dum transistor. 

 

Note-se bem que isto na altura era Portugal. As nossas maravilhosas RTP, RDP e Lusa têm correspondentes em Dili. Adivinha quantos jornalistas portugueses estavam nas audiências? Quantos passaram por lá, nem que seja 5 minutos? Resposta – Um. Quem? Adelino Gomes que veio de propósito de Lisboa (no voo mais barato que encontrou e pagando do bolso dele as despesas em Dili...). Timor não é notícia. Como não estão a matar ninguém, não interessa para nada. Foram mortos uns milhares em 75 e nunca se falou disso? As feridas são fundas e a gente também teve responsabilidade. Mas o que é que isso interessa agora? Os jornalistas portugueses em Dili foram para a praia.

 

 

 

 

Aconselho vivamente a leitura dos artigos do Adelino Gomes, não posso acrescentar nada. Resta-me a minha própria comoção ao ver toda a gente a chorar com o discurso do Xanana (a começar pelo próprio, voz quebrada, olhos e nariz vermelhos, assoando-se, limpando a cara com o lenço, no meio das suas longas pausas habituais, desta vez mais longas ainda). Nem as moscas (abundantes) se ouviam.

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Foto de Pedro Martins

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui 

 

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29.1.13

 

 

 

 27 May 1977 -French writers Bernard-Henri Lévy and André Glucksmann

converse on the set of the television show Apostrophes

Photo: © Sophie Bassouls/Sygma/Corbis



J'ai, pour commencer, été qualifié de philosophe à mon corps défendant. J'avais certes parcouru la suc­cession d'examens et de concours qui vous sacrent professeur de ladite discipline. Je n'estimais pas que les palmes du « philosophe » pussent pour autant être déposées sur mon front. Je croyais que les détenteurs de ce titre prestigieux se comptaient sur les doigts de la main : Platon, Aristote, Descartes, Kant, Hegel. Peut-être Heidegger l'avait-il mérité du temps de sa jeunesse mais il compromit son titre en appelant étu­diants et collègues à suivre le Führer. Pis encore, cha­cun ayant droit à l'erreur, il avait, après la capitulation du Reich, tenté, trente longues années, comme un gros chat, d'enterrer ses déjections dans le sable de sa théorie. Du moins me semble-t-il après lecture attentive. Passons.


Si, jeune homme, je plaçais la barre de la « grande philosophie »  très haut, trop  haut  pour moi, mes contemporains au contraire la situaient très bas, plus bas que terre, car la prétention à la «sagesse» était passée de mode. Ils se voulaient alors savants et objec­tifs; ils s'affichaient sociologues, structuralistes, lin­guistes, économistes, dépositaires de savoirs plutôt qu'animés du désir de savoir. Le marxisme-léninisme, version École normale supérieure, régnait. Le vent tourna, dans les années 75-80, quand beaucoup de mes semblables se mirent à signer «psychanalyste et philo­sophe», «mathématicien et philosophe», biologiste et... historien et... écrivain et philosophe. La 2 CV Citroën se vit sacrer dans les gazettes «voiture philo­sophique». Que s'était-il passé? En déboulonnant les idoles du marxisme hégémonique dans l'intelligentsia parisienne, peut-être ai-je contribué à ce renverse­ment. Lorsque de bonnes plumes rejoignirent mes blasphèmes, Bernard-Henri Lévy et les médias bapti­sèrent un peu abruptement cette cohorte provisoire et volatile  «nouvelle  philosophie».  Si la science du matérialisme historique pliait sous les coups, force était de conclure que la volée de bois vert administrée, au nom de la philosophie, sur les adeptes de la dicta­ture du prolétariat n'était pas aussi  frivole  qu'on aimait à le dire.


Je ne laissai pas d'être surpris du retentissement de mon essai intitulé La Cuisinière et le Mangeur d'hommes sous-titré insolemment : «Essai sur le marxisme, l'Etat et les camps de concentration». Le voisinage des termes sonna comme un coup de carabine dans un ciel serein. Mon éditeur avait laissé dormir le manus­crit dans son tiroir pendant plus de six mois, anticipant la diffusion médiocre d'un texte qui heurtait ses convictions de gauche. Sorti le 15 juillet 1975, sans intervention télé, un seul passage radio sur Europe dans la folie des départs en vacances, mais soutenu par un bouche-à-oreille flatteur et imprévu, porté par quelques articles spontanés et enthousiastes de gens que je ne connaissais pas ou mal (1) , il tourna très vite au best-seller.


Des dizaines de milliers d'exemplaires s'arrachèrent dans les librairies et s'échangeaient sur les plages. C'était drôle, curieux, inattendu. J'avais écrit dans l'isolement le plus extrême, sans souci du public, juste pour exprimer la rage et le désir que je partageais avec quelques amis de «ne pas mourir idiot». Le brûlot véhiculait une révolte à fleur de peau contre le plus grand mensonge du siècle : le communisme. Il était rédigé par quelqu'un qui y avait goûté dans son enfance et que le Tout-Paris estimait «de gauche». Je jouissais d'une «bonne réputation». ... 



André Glucksmann

in Une rage d'enfant

[Chapitre 8. A quoi sert la philosophie ? * pp. 172-174]

Hachette Littératures

© Plon, 2006

 

1. Remerciements à Maurice Clavel, Jean Daniel et Bernard-Henry Lévy.

 

* Où il est suggéré que se connaître soi-même, c'est connaître Typhon en nous. D'où l'utilité des infos de 20 heures et l'examen des liaisons dangereuses: Freud et Junon, Alcibiade et Socrate, le prince Potemkine et le neveu de Rameau, Poutine et moi.

 


aqui

 

 

 

 

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9.12.12

 

 

 

 



Ferro, António Joaquim Tavares (Lisboa, 17-8-1895 - Lisboa, 11-11-1956). A sua personali­dade de escritor, jornalista e político evoca, habitu­almente, na recorrência memorial uma dupla cir­cunstância: editor de Orpheu, a convite de Mário de Sá-Carneiro, com apenas 19 anos; fundador--director do Secretariado da Propaganda Nacional (após 1944, denominado de Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo), por convite de António de Oliveira Salazar, a fim de promover a «política do espírito» do «Estado Novo». Sendo certas essas duas evidências, elas não esgo­tam contudo as manifestações de uma complexa vivência, que articulou de forma hábil a acção cul­tural com a acção política, entrelaçadas por uma muito particular dimensão estética, e que se pode, em visão estrutural, periodizar deste modo: 1914-17 (irrupção poética e cívica), 1918-32 (resistência à cultura e à política republicana demoliberal), 1933-49 (vertigem da propaganda salazarista) e 1950-56 (solidão do diplomata). [...]

 

Ernesto Castro Leal

in "António Ferro" Dicionário de História de Portugal- VIII

Coordenadores: António Barreto e Maria Filomena Mónica

© Livraria Figueirinhas

Imagem: A.F. c. 1940




 

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6.12.12

 

 

 

António Joaquim Tavares Ferro (1895-1956) 

 

 

A RTP2 exibe no próximo domingo um documentário sobre António Ferro, da autoria de Paulo Seabra, projecto que tive o gosto de acompanhar desde o princípio. O Paulo sabe que eu estimo António Ferro e o trabalho das equipas de que se rodeou no SPN e no SNI, e que gostava de ver mais valorizado o seu legado [1].

 

Sou suspeita, já que António Ferro era “muito lá de casa” [2ou melhor dizendo muito lá de casa de meus avós maternos, com quem vivi vários anos. E sem nunca o ter conhecido pessoalmente, nem a sua mulher, Fernanda de Castro [3], tenho a sensação de os conhecer desde sempre de casa de meus avós, que os recordavam com grande amizade e admiração. Com gratidão também: em poucas palavras, estes meus avós tinham sido ricos e perdido tudo em 1929; meu avô Guilherme Pereira de Carvalho [4], quase a chegar aos 40 anos e com três filhos pequenos, empregara-se pela primeira vez na vida a vender automóveis. Três anos depois foi convidado por António Ferro a integrar o SPN como seu secretário pessoal. Era o trabalho ideal para o seu feitio, a garantia de um salário ao fim do mês e, last but not least, a promessa de uma existência infinitamente mais “rica” do que tudo aquilo com que os meus avós pudessem ter sonhado desde o seu revés de fortuna.

 

Lembro-me de minha avó descrever uma viagem de navio à Argentina, por ocasião de um congresso de escritores, depois de se ter convencido de que "nunca mais faria uma viagem", e da satisfação com que recordava o convívio com intelectuais e artistas estrangeiros que passaram por Portugal nesses anos. Guardava dessa época uma vasta colecção de autógrafos em pequenos álbuns encadernados, especialmente concebidos para o efeito.

 

Ultimamente, novas descobertas proporcionadas pela exaustiva recolha documental e iconográfica realizada por Paulo Seabra para o documentário aprofundaram o meu interesse por António Ferro. Resta-nos agora esperar por uma biografia moderna digna deste homem carismático, que imagino, no auge da «política do espírito», a reinventar o Império assim à maneira dum produtor do cinema clássico de Hollywood.

 

 

 

ESTÉTICA PROPAGANDA UTOPIA no Portugal de António Ferro

 

RTP2 | DOMINGOS  9 e 16 de DEZEMBRO de 2012 | 21h

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas: 

IMAGEM: Fototeca Palácio Foz (actualmente, na Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo) s/data, encontrada aqui e que lembra esta aqui

 

1. A loja A Vida Portuguesa, a vitória de um movimento cívico pela reabertura do Museu de Arte Popular, em 2010, e diversos blogs contribuíram de forma importante para o reconhecimento da produção do SNI. Mais neste blog aqui e na tag "arte popular"

 

2. Uma expressão favorita de João Bénard da Costa e título de um dos seus livros. Leia mais aqui.

 

3. Fernanda de Castro aqui  e numa fotografia de Cecil Beaton  aqui

 

4. Guilherme Pereira de Carvalho aqui e os meus dois avós nos anos 20 aqui

 

5. Fundação António Quadros aqui e aqui

 

6. A poesia dos simples: arte popular e nação no Estado Novo, de Vera Marques Alves aqui 

 

 

 

 

 


21.7.12

 

 

 
Frédéric Mitterrand
foto: A. Chardeau © Radio France


 

 

16 mai 2012 : dans son bureau quasiment vide de la rue de Valois, le ministre de la culture et de la communication, Frédéric Mitterrand, regarde, à la télévision, la passation de pouvoir entre Nicolas Sarkozy et François Hollande et emballe ses derniers cartons. C’est son dernier jour au ministère.

 

 

Émission "Les Pieds sur Terre" par Sonia Kronlund sur France Culture ici 


 

 


 

 

Nota: Esperemos vê-lo regressar em breve à tv, à rádio, à escrita.

 

Mais sobre Frédéric Mitterrand neste blog aqui 

 

 

 

 

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21.7.11

 

 

 

 

 

Centro Espacial Kennedy, Cabo Canaveral (esta manhã)

foto: Joe Skipper/Reuters

 

Mais aqui

 

Veja também aqui

 

 

 

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22.2.11

 

 

 

 

Tal como Amália Rodrigues, Eusébio e a nossa selecção nacional no Mundial de Futebol de Inglaterra não podiam deixar de figurar no meu álbum de família.

 

Nada nem ninguém pode exagerar o lugar que ocuparam no imaginário português e o que fizeram na sua época pelo nome de Portugal em todo o mundo. Isto compreende-se mais facilmente quando ainda hoje, meio século depois, é ao futebol que os portugueses vão buscar as suas maiores alegrias e motivos de orgulho.

 

 

Se é a primeira que visita leia também aqui

 

 


12.2.11

 

 

 

 

 

 

Por incrível que (me) pareça, não consigo lembrar-me se tínhamos televisão em casa enquanto vivemos em Madrid, de 1967 a 1969. Do que me lembro é de ouvir este programa na rádio, todos os dias, religiosamente, na companhia do meu irmão, que era pequeno mas já adorava música. Ao sábado íamos juntos à loja de discos da calle Serrano comprar um "single" com a semanada.

 

A fabulosa música popular nesses anos obliterou a TV .

 

 

"Los 40 Principales" aqui

 

 

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3.2.11

 

 

 

 

este número da revista aqui

 

 

O meu pai faria anos hoje. Havia de achar graça e ficar todo satisfeito com esta escolha de capa da "Relações Internacionais". Vem ela a propósito da recente eleição de Portugal para o cargo de membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, por um mandato de 2 anos.

 

Esta fotografia foi tirada em Maio de 1979, mês em que coube a Portugal assumir pela primeira vez a presidência do CS, era ele nosso embaixador na ONU.

Recentemente apareceu na televisão, por duas vezes, na série de programas de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial transmitidos pela RTP. Em Dezembro último foi recordado pelo Embaixador Paulouro das Neves no final de uma entrevista ao “Diário de Notícias”:

 

 

A missão de um diplomata é diferente hoje?


Creio que não. [...] A essência não mudou. Quando eu estava em Brasília, no tempo do PREC, aprendi com o embaixador Futscher Pereira que um diplomata tem o dever de dizer a verdade sem ofender as autoridades do país onde está, e dizer a verdade ao Governo do seu país correndo o risco de o ofender. Isto mantém-se hoje.

 

 

 

 

A entrevista do Embaixador Paulouro das Neves na íntegra aqui

 

Mais sobre a série de reportagens de Joaquim Furtado aqui

 

IPRI aqui

 

 



11.1.11

 

 

 

O cineasta António-Pedro Vasconcelos, que tinha 35 anos há 35 anos, recorda os tempos em que era difícil ser jovem num País vigiado e em que nem se podia beijar a namorada em público, mas onde também era impossível ser um velho intelectual activo e respeitado num regime que perseguia inteligência e liberdade.

 

Não é fácil explicar a um jovem de hoje - que julgará que o querem gozar quando se conta que a primeira televisão do realizador foi comprada a prestações para ver um jogo internacional do Benfica ou que chegou a pôr no "prego" (essa instituição antiga, onde se deixavam objectos, fosse a máquina de escrever ou o par de sapatos, como garantia do dinheiro emprestado) a aliança de casamento e o esquentador da casa de banho - o que era ter 21 anos no Portugal das décadas de 50 e de 60.

 

Só a partir de 1966/67 é que começa a surgir um maior consumo (televisão, semáforos, novos cafés) e, naturalmente, o boom da publicidade, que deu emprego a muita gente, dos escritores (O'Neill, Sttau Monteiro, Alves Redol, Ary dos Santos) aos cineastas (Fernando Lopes, José Fonseca e Costa e António-Pedro Vasconcelos, que filmou uma centena de anúncios).

 

O pior era, contudo, esse "ambiente de Feira Cabisbaixa, como tão bem definiu [no livro de poemas] o Alexandre O'Neill". Expulso de um café por beijar a namorada ou a conversar olhando sempre para a mesa do lado e tentando perceber se havia algum informador da PIDE a ouvir o que se dizia, com uma censura que só deixava projectar “Os Quatrocentos Golpes” depois de fazer 14 cortes no filme de Truffaut, ao sair dessa Lisboa provinciana, fechada e vigiada para Paris da liberdade e da vivacidade o choque era enorme.

 

Um jovem português de hoje, além de não sentir a vergonha ("era quase humilhante, a não ser que se tivesse, como cartão de visita, o estatuto de exilado, desertor, resistente") de ser identificado com o País da ditadura e da guerra colonial - o que era inevitável até 1966, "quando tudo mudou por causa do Eusébio no Mundial de Inglaterra" -, também não sente o mesmo contraste entre Portugal e o resto da Europa.

 

"Assediado para entrar no PCP, como toda a gente da minha geração (até porque os comunistas dominavam o Cineclube Universitário e a revista Imagem), apesar de ter ideais revolucionários, não aderi (nem nenhum dos meus amigos da época) porque li, quando era muito novo, um livro sobre os Processos de Moscovo e fiquei a saber o que era o estalinismo."

 

No fundo, a forma do seu grupo de amigos se manifestar era, por exemplo, distribuírem-se por uma sala onde era projectado um filme português daquela época e começar a patear - como fizeram no Éden, a 6 de Maio de 1960, na estreia de “O Cantor e a Bailarina”, de Armando de Miranda, acabando todos na esquadra.

 

"Um lado tenebroso do regime é que os intelectuais ou se exilavam, como o Jorge de Sena, ou então desistiam, morriam por dentro".

 

Um dos primeiros contemplados com os subsídios da Gulbenkian, em 1971 rodou Perdido por Cem, em torno de Artur, um rapaz da província (interpretado por José Cunha) que aproveita uma boleia de Rui (papel confiado a José Nuno Martins) para se escapar para Lisboa. Numa das cenas, filmada em directo na Pastelaria Suíça, no Rossio, o protagonista "lia Musil e olhava para as pessoas que por ali estavam, quase só homens, todos de chapéu, vestidos de negro, cinzento ou azul escuro, com um aspecto taciturno, como se fosse a Feira Cabisbaixa do O'Neill".

 

 

Fernando Madaíl

in "Diário de Notícias", 25 de Abril de 2009, na íntegra aqui

 

 

 

 

 

 

 

 

Cartaz do filme Perdido por Cem

de António Pedro Vasconcelos (Portugal 1972).

 

 

 

um post recente sobre António Pedro Vasconcelos e a sua obra aqui

 

 

 


24.7.10

 

 

Golden Books



1951: Doctor Dan, The Bandage Man is released with Johnson & Johnson® Band-Aids glued to the right side of the title page. This marked one of the first ventures into book and product joint packaging. First printing is 1.75 million--the largest first printing of any Little Golden Book to date.

 

1952: Little Golden Books' 10th anniversary. To this date, almost 183 million Little Golden Books have been sold, with The Night Before Christmas alone selling over 4 million copies.

 

1953: To date, almost 300 million Little Golden Books have been sold!

 

1954: Little Golden Books are now available throughout most of the world, except the Soviet Union, where at the time they were considered too capitalistic.

 

May 1, 1954: Release of Little Lulu and Her Magic Tricks, with a 2.25 million first printing. The book has a small package of Kleenex® tissues attached to its front cover and directions for how to make toys from the tissues. An extensive advertising and promotional campaign for this title leads to the book's appearance on the "Arthur Godfrey Show" the month it is released.

 

Mid-1950s: Top-selling Little Golden Books center around children's TV shows and westerns (The Roy Rogers Show, Howdy Doody, The Lone Ranger, Captain Kangaroo, etc.).

 

Early 1960s: A large number of new Little Golden Books focus on popular Saturday morning TV shows such as Huckleberry Hound, The Bullwinkle Show, Yogi Bear, The Flintstones, and Bozo the Clown.

 

 


6.5.10

 

 

 

 

carta de Vitorino Nemésio a Margarida

 

 

 

 

Casaréus do Tòvim,

(Coimbra), 2 Set° 1942.

 

 

A sua carta deu-me muita alegria.  Acabo de lê-la.  Estou na aldeia há dois dias, rodeado de latadas morangueiras, com o vale do Mondego diante de mim, oliveiras derroda e às vezes a paz correspondente... (O meu Jorge partiu pela terceira vez um braço).  Mas basta de paisagem.  O que quero é fazer-lhe chegar rapidamente a minha gratidão por aquilo que me diz.  Vou guardar aquela polegada de cartão como uma das coisas mais honrosas da minha vida.

 

às vezes, lembrando-me do que tenho cá dentro para dizer, e que poderia sair em poema, romance ou "vida", e vendo a minha baça esterilidade de escritor, apetece-me soltar o "rai’s parto" dos carreiros que por aqui passam com os bois. Não é só o ofício de professor que me tira o tempo : são as mil e uma formas de dispersão para reforçar o orçamento.  Mas depois acontecem-me coisas como esta carta da Margarida, e penso de mim para mim que talvez valha a pena trocar uma hipótese de obra literária pela consolação de sentir que alguma coisa passou do meu entusiasmo a alguém.  "Talvez" !  Que mesquinho !  Mas "com certeza" !...

 

E até me vejo um velhinho de setenta anos, no esquife do limite de idade, coberto de flores e de cãs (essas minhas difíceis cãs de quarentão sem uma branca), e com uma borla, que ainda não comprei, toda orvalhada de lágrimas...  Haverá música para o "Antigamente a escola era risonha e franca" ?

 

Perdoe, Margarida ; não há direito de brincar assim numa carta como esta.

 

Repito que as suas palavras me comovem.  Estimo-as por virem de quem vême pela delicadeza com que escolheu as condições de isenção para mas mandar.

 

Desejo-lhe boas férias, — verdadeiras, alegres, sem sabedorias.

 

Minha Mulher retribui os seus cumprimentos.  Lembranças a seu Pai. E creia

 

na maior estima

 

Do seu muito amigo

 

 

Vitorino Nemésio

 

 

 

 


Em 1942, Margarida* acabara de se licenciar, com distinção, em Filologia Germânica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde Vitorino Nemésio fôra seu professor. Nesta altura, Vitorino Nemésio ainda não tinha publicado o romance Mau Tempo no Canal (1944).

 

Vitorino Nemésio é um dos nossos maiores poetas e escritores do século XX. No fim da sua vida, conquistou o público português com a crónica semanal  "Se Bem Me Lembro", programa transmitido pela RTP de 1969 a 1975 em horário nobre.

 

 

 

 

Vitorino Nemésio e alunos na Faculdade de Letras,

c. 1942**

 

 

 

*Uma fotografia de Margarida aqui

 

**Detalhe de fotografia reproduzida no livro Retrovisor, Um Álbum de Família.

À direita de Vitorino Nemésio está Maria da Graça Paço d'Arcos. À frente,no canto inferior direito, Maria Violante Vieira.

 

Mais sobre V.N. aqui

 



 

 


17.12.09

 

 

 

à sexta-feira na RTP 2

 

 

 

While the show, like its subject, has many surface pleasures — period design, period bad behavior (if you like high modernism, narrow lapels, bullet bras, smoking, heavy drinking at lunch, good hotel sex, and bad office sex, this is the series for you) — at its core Mad Men is a moving and sometimes profound meditation on the deceptive allure of surface, and on the deeper mysteries of identity. The dialogue is almost invariably witty, but the silences, of which there are many, speak loudest: Mad Men is a series in which an episode’s most memorable scene can be a single shot of a woman at the end of her day, rubbing the sore shoulder where a bra strap has been digging in.

 


 

Leia o artigo da "Vanity Fair" aqui e um texto sobre o genérico de Mad Men aqui

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9.11.09

 

 

 

Para o melhor e o pior, Vasco Luís e Margarida Futscher Pereira não assistiram à queda do muro de Berlim em 1989 nem ao 11 de Setembro de 2001. Foram outros os acontecimentos e as catástrofes que presenciaram, mas o tempo em que viveram preparou o nosso.

 

 

Isto escrevi eu no texto de apresentação de Retrovisor um Álbum de Famíliajá que o desgosto de os meus pais não terem assistido ao fim da Guerra Fria só teve paralelo no alívio de não terem visto os atentados de Nova Iorque e Washington. 

 

 

Sobre a queda do Muro de Berlim sugiro a leitura do artigo "Seven Minutes that Shook the World" do jornalista Daniel Johnson aqui

 

 

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24.10.09

 

 

 

 

 

 

Segundo o Rabi Steinsalts, "vivemos hoje num mundo ocidental que está esvaziado do cristianismo e do judeo-cristianismo. E este vazio está agora a ser preenchido por outra coisa, e essa outra coisa é o paganismo". Steinsalts afirma que "a cultura em que vivemos hoje é uma cultura pagã que não é muito diferente da que prevalecia no mundo há cerca de 2500 anos". [...]


Steinsaltz apressa-se a explicar que isto não significa que já não existam cristãos no Ocidente. Simplesmente, a visão cristã do mundo perdeu influência. E, no lugar do Deus judaico-cristão, existem agora os deuses pagãos da antiguidade pré-cristã - ainda que possam ter novos nomes, novas imagens e novos templos.

O primeiro desses deuses é Baal, o deus do poder, também por vezes designado por Mammon, o deus do dinheiro. Os seus templos estão nos centros financeiros das grandes cidades e os seus padres são hoje designados por executivos e gestores.

O segundo deus pagão contemporâneo corresponde à antiga deusa da fertilidade e do sexo: Astarte, ou Ishtar, ou Ashtoreth. Os templos desta deusa - que já não é propriamente da fertilidade, mas simplesmente do sexo - encontram-se um pouco por toda a parte na sociedade ocidental.

Finalmente, temos uma musa promovida a deusa: Calliope, deusa da fama, simbolizada hoje na expressão "celebridade". Ser uma celebridade significa "ser um ninguém muito conhecido", isto é, alguém que toda a gente conhece mas ninguém sabe exactamente o que faz ou por que merece ser célebre. Os templos desta deusa estão em todas as casas e chamam-se televisão.

João Carlos Espada
in Palestra anual Isaiah Berlin: Está a cultura ocidental a tornar-se pagã?
Jornal i, edição de 17 de Outubro de 2009

 

Um artigo do Rabi Adin Steinsalts "The Paganisation of Western Culture"  aqui

Imagem: aqui

 

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13.9.09

 

 

 

 

 

 

 O cinema olhou sempre menos para o mundo do que olhou para o mundo a olhar para ele. E quando apareceu a televisão, esta rapidamente substituiu o mundo e deixou de olhar para ele. Quando se vê televisão, nunca se vê que a televisão nos está a ver. Mas quando Ingrid Bergman esconde uma chave na mão, essa chave está a olhar para nós. E isso acontecia numa altura em que não queríamos ver o mundo no estado em que os campos o tinham deixado.


O cinema desapareceu nesse momento. Desapareceu porque prenunciou os campos. Chaplin, que era um caso único, conhecido como nunca ninguém foi conhecido, Chaplin, em quem toda a gente acreditava, pois bem, quando fez  The Great Dictator ninguém acreditou nele. Podiam ter acreditado ao menos um pouco. E quando Lubitsch ousou dizer "So they call me Concentration Camp Ehrhardt", as pessoas disseram: "De que está ele a falar? Está doido!". Mesmo sendo ele judeu, um imigrante, plenamente consagrado na comédia. De repente, as pessoas deixaram de rir. Alguma coisa aconteceu.


Retrospectivamente, foi nessa altura que disse a mim próprio que enquanto realizador, enquanto fazedor de filmes, estou em território ocupado. Estou na Resistência. Faço-o mais ou menos bem. Sou provavelmente como René Hardy ou Trepper, como naqueles romances de que gosto tanto onde se trabalha para todos os lados, já sem realmente saber para qual. Estamos em território ocupado. Na minha opinião, quando Lelouch tem sucesso, é um Otto Abetz para um Resistente em França. E Tavernier é um "vichyista", na minha opinião. Foi deste ponto de vista que escrevi a Malraux - e Deus sabe como admirava Malraux, e ainda admiro - sobre La Religieuse. Escrevi: "Escrevo-lhe de um lugar distante - a França Livre".


Mas como, apesar de tudo, esta não é uma ocupação real, somos um pouco marginais e estamos um pouco falidos. É por isso que de vez em quando temos que dizer: vamos tentar outra vez. Questionamo-nos sempre no fim, bem, na alvorada do crepúsculo das nossas vidas. É então que nos perguntamos a que história(s) pertencemos...

 

 

 

 

 

 

 

 

O cinema começou mudo, e foi muito bem sucedido. O som, como a cor, foi sempre uma opção. Tinham os seus próprios processos, mesmo que não fossem tecnicamente perfeitos — ainda hoje não são... Mas não queriam o som. Mitry e Sadoul descreveram como Edison demonstrou o seu cinema falado, mas tudo estava já em marcha no Grand Café. Primeiro houve doze discípulos, depois trinta, quarenta, e finalmente quatrocentos milhões. Só mais tarde quisemos o cinema sonoro, o que, para mais, se explica muito bem por circunstâncias sociais. O sonoro veio num momento histórico, quando Roosevelt falou mais alto, a democracia falou mais alto, e disseram: New Deal. E depois de alguns "crashes" da bolsa, o fascismo falou mais alto, e Hitler disse aquilo que disse. O "dizer", mas um dizer "errado", passou a dominar. Não foi Freud quem tomou o poder na Alemanha, foi Hitler (e no entanto eram vizinhos, e viviam a poucas ruas de distância).


Apesar da Inquisição espanhola, apesar das guerras napoleónicas, apesar de tudo, tinham acontecido algumas conquistas humanísticas nada insignificantes. Para as preservar - apesar do horror absoluto dos campos de concentração - o que aconteceu foi que, definitivamente, "ver" e "dizer se tornaram uma só coisa", e portanto os outros objectivos tiveram que ser redefinidos. E só o cinema o podia fazer. [...]


Não é uma questão de ser testemunha. É porque era o único instrumento - nem o microscópio, nem o telescópio, só o cinema. Achei sempre alguma coisa de tocante na obra de um realizador de que só gosto moderadamente, George Stevens. Em A Place in the Sun, há um sentimento profundo de felicidade que muito raramente se encontra noutros filmes, inclusive filmes muito melhores. Um sentimento de felicidade simples, profano, um momento com Elizabeth Taylor. E quando descobri que Stevens tinha filmado os campos, e que nessa ocasião a Kodak lhe tinha dado os seus primeiros rolos de película 16mm colorida, percebi como é que ele pôde fazer esse grande plano de Elizabeth Taylor irradiando uma espécie de felicidade assombrada...

Jean-Luc Godard em entrevista a Serge Daney (“Libération”, 26 de Dezembro de 1988)
Tradução: Luís Miguel Oliveira
in Godard 1985 1999
Edição Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, 1999

 

 

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20.7.09

 

 

 

Pictured above in 1969, Apollo 11 astronaut Buzz Aldrin

stands besides a recently deployedlunar seismometer,

looking back toward the lunar landing module.

 

 

 

 

Impresso que descobri no espólio dos meus pais

 

 

Leia a crónica "Forty Years" aqui


4.6.09


Para o livro Retrovisor, um Álbum de Família, paguei em 2008 os direitos de reprodução de cinco fotografias: três do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, e duas da Getty Images. No A.F.M. interessei-me por cinco imagens mas acabei por só "comprar" três depois de saber que cada uma custaria 140 euros. Quando fui levantar o CD com as imagens que encomendara, manifestei à funcionária que me atendeu alguma perplexidade pelo facto de o preço ser o mesmo para qualquer fotografia da colecção. Foi-me respondido que a tabela de preços não havia sido fixada pelo próprio arquivo mas pelos “serviços centrais” da CML. Foi-me ainda comunicado, por e-mail, que “mencionar a proveniência das imagens é obrigatório e deverá ser Arquivo Municipal de Lisboa/Arquivo Fotográfico, e têm de entregar 3 exemplares da obra publicada.”

 

 

 


 

Lisboa nos anos 60 / Fotografia de Armando Serôdio

Arquivo Municipal de Lisboa/Arquivo Fotográfico

 



Considero este preço muito elevado, tendo em conta, por um lado, a deficiente qualidade das imagens - esta, que reproduzo acima no estado em que me foi entregue, apresentava a mancha que distinguimos no canto inferior direito, e todas três tiveram de ser tratadas em termos de contraste -  e, por outro lado, o facto de se destinarem ao interior de um livro de média dimensão e pequena tiragem.

 

 

 

Com a Getty Images foi tudo tratado online. Preenchi um questionário sobre o destino a dar às imagens e foi possível, e mesmo agradável, dialogar com os interlocutores. Esta fotografia dos anos 40, comparável às do A.F.M., em estado impecável, custou-me 50 euros, sem eu ter de sair de casa, o que me pareceu um preço perfeitamente razoável.


 


 

 

Roma nos anos 40 / Fotografia de Ralph Crane

Getty Images



 

Sei que não estamos na América, e aprecio o esforço recentemente feito pelo Arquivo Fotográfico Municipal para colocar em linha a sua colecção, mas esta experiência foi desencorajadora em termos de futuros projectos.

 

 

*

 

 

Os episódios da série Destins d’étoiles evocados em posts anteriores foram exibidos uma ou duas vezes pela televisão francesa na década de 80 e talvez nunca mais sejam vistos, a menos que alguma cinemateca se interesse um dia por exibi-los. A comercialização desses documentários, uma edição em vídeo ou, hoje, em DVD, é inviável devido ao quebra-cabeças dos direitos de autor, o que até se compreende diante da extensa lista de arquivos públicos e colecções privadas que desfilava em cada genérico final. O programa dedicado a Vivien Leigh, por exemplo, não incluía a mais pequena sequência do mítico E Tudo o Vento Levou, mas antes excertos dos testes realizados pela actriz para o papel, uma das muitas “trouvailles” que faziam o encanto dos programas e, acima de tudo, forma astuciosa de contornar o preço astronómico que teria custado citar um minuto que fosse do filme.

 

 

 

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19.5.09

 

 

 

 

 

À Lady Astor, première femme députée aux Communes qui lui avait dit, outrée par son arrogance: «Si j’étais votre femme, je mettrais du poison dans votre café!», il répondit:

 

« Et moi si j’étais votre mari, je le boirais!»

À une dame du monde, trahie par la nature, qui lui avait reproché son ivresse lors d'un dîner, il répondit: « Oui, mais moi, demain je serai sobre alors que vous serez encore

laide!»

À propos de Clement Attlee, leader travailliste qui l'avait battu aux élections en 1945, il répéta longtemps cette notation impitoyable: « Un taxi vide s'arrête devant le 10 Downing Street. M. Attlee en descend...»

Les mots cruels compliquent et retardent les carrières, et Winston Churchill en prononça tellement, en se faisant autant d'inimitiés, terrorisées et courroucées, qu'il connut plus d'un passage à vide, et notamment durant les années 30 où tout le monde le croyait un homme fini. Mais son intelligence, son énergie, sa valeur morale d'exception ainsi que sa manière de considérer sa vie, la Grande-Bretagne et son histoire comme les éléments d'un roman dont il serait le héros et l’écrivain, furent finalement récompensées par des circonstances à sa mesure: la défense intrépide et solitaire de la liberté face à une Europe submergée par la barbarie nazie. Homme d'un autre siècle et source d'enseignement pour le futur, aristocrate incapable de comprendre ce que voulaient les citoyens ordinaires et anarchiste visionnaire habile à les nourrir de rêve, despote domestique et démocrate sincère, esprit ouvert aux idées et caractère irrationnel, il fut historien, poète, peintre, ami des animaux, gaffeur, insupportable, attendrissant; en somme, comme le disait un de ses rivaux : cinquante pour cent génie et cinquante pour cent infantile. Aujourd'hui, comme pour de Gaulle, son faux jumeau, son vrai adversaire et son meilleur partenaire, on a tendance à forcer sur le pourcentage du génie et à s'émouvoir sur ce qu’il reste de l'infantile.

Car Churchill manque infiniment dans l'aujourd'hui des technocrates et de la politique frileuse et télévisée, comme tous ceux qui surent être à la fois des héros et des hommes en un temps qui fut bien près de s'abandonner aux criminels et aux tyrans.

 

 

 

 

George VI: "Eh bien, Monsieur Churchill,

c’est un grand jour pour vous, la fin de la guerre en Europe.

Permettez-moi de vous féliciter."

Winston: "Et moi de même, Votre Majesté. Ce fut une longue route."

 

 

 

 

 

Frédéric Mitterrand

introdução de  Winston Churchill, in Destins d'étoiles - volume IV

© P.O.L.,Fixot,1991

 

imagem: Winston Churchill e sua mulher, Clementine, numa fotografia que descobri aqui

 

 


16.5.09

 

 

 

 

 

« vous avez le droit de tout me dire, sauf que Franco n'est pas mort!» La voix de l'homme est sourde et monocorde, le regard voilé d' une sorte de lassitude triste et il se tient, comme toujours, emprunté et indéchiffrable dans la pénombre d'un de ces palais pompeux et surannés d’où le dictateur a gouverné l'Espagne pendant quarante ans d'une main d'acier.

Les dignitaires du régime comprennent alors que tous les scénarios patiemment élaborés par le régime, ses adversaires ou l'étranger, sont subitement sans valeur.

L’homme sans relief et sans éclat, qu'ils ont surveillé pas à pas depuis son enfance, les congédie dans un murmure sans appel, avec le vieux monde et ses macabres souvenirs.

À l'extérieur, tout le monde a eu un projet différent pour l'Espagne, dont le seul point commun est que l'homme disparaisse au plus vite. Mais personne n'a imaginé qu'il a

compris tous leurs calculs et tous leurs préparatifs et qu’il en a conçu d'autres, relayés par des amis très sûrs, bien placés, d'une fidélité à toute épreuve.

Il a appris le secret et le silence, s'est entraîné à tromper la violence, est devenu libre dans la prison dorée dont on vient de lui remettre les clés sans penser un seul instant qu'il va s'en servir pour ouvrir toutes les portes.

Aujourd’hui, quinze années se sont écoulées, et Juan Carlos, roi d'Espagne, est un des dirigeants les plus respectés du monde.

Il avait tout pour échouer et son succès est éclatant.

Par quel mécanisme l'héritier d'une dynastie exsangue, le fils adoptif d’un tyran, l'otage d'un pouvoir sanglant et policier, est-il parvenu a remplacer une à une ces cartes

dangereuses par le jeu tout neuf dont il a conçu les règles, avant de les faire accepter au seul partenaire qui fut à sa mesure: l'Espagne?

" Toi, jeunesse plus jeune, si de plus haute cime

la volonté te vient, tu courras l’aventure

dans l’éveil transparent aux divines lumières claires

comme diamant, et comme diamant pures "

Antonio Machado (1875-1939)

 

 

 

 

Frédéric Mitterrand

introdução de  Juan Carlos, in Destins d'étoiles - volume III

© P.O.L.,Fixot,1991

 

imagem: Juan Carlos, in Destins d'étoiles (vol.III)

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13.5.09

 

 

 

 

Quand les idéologies, les dogmes, les explications globales et définitives du monde sont mises à contribution pour nous réformer et nous apprendre à vivre dans le but de faire notre bonheur — pas pour tout de suite sans doute, mais enfin pour les générations suivantes, toujours pour les générations suivantes — et que l'on se débat avec beaucoup

d'incertitude, de remords et de confusion afin de faire entendre malgré tout sa voix, il est sage de revenir auprès d'Albert Camus pour se sentir un peu plus fort.

Quand l'absurdité de notre destin, l'approche imprévisible et inéluctable de la mort comme seule certitude, l' intolérance, l'injustice et la violence comme réalité quotidienne paralysent le désir d'agir, de créer et de transmettre, il est bon de revenir auprès d'Albert Camus pour éprouver ce qu'est l'envie de vivre.

Quand le soleil d'un soir de mer et l'indifférence d'une grande ville, le plaisir d'une amitié et le côtoiement de la misère, l'élan vers un sourire et un corps, et la tendre et vague satisfaction du désir emplissent l'existence avec des bouts de rêve et des nuages d'inquiétude, il est apaisant de revenir auprès d’Albert Camus pour mieux savoir aimer.

Le beau gosse en imperméable n'est pas venu traîner sa dégaine à la Bogart depuis Alger, la Libération et le Nobel pour qu'on l'endorme sur les pages du Lagarde et Michard, et il n'est pas mort en pleine jeunesse pour qu'on le range hâtivement quelque part entre Rimbaud et James Dean au rayon des destins foudroyés.

Albert Camus nous parle de nous, d'ici et de maintenant; c'est assez simple, en somme, il suffit de lui ouvrir son cœur et son esprit pour vouloir que la seule nouveauté qui vaille toujours est celle d'être fraternel.

 

" Vous savez ce qu’est le

charme: une manière de

s'entendre répondre oui sans

avoir posé aucune question

claire."

 

 

 

 

 

Frédéric Mitterrand

introdução de  Albert Camus, in Destins d'étoiles - volume II

© P.O.L.,Fixot,1991

 

imagem: Albert Camus retratado por Cecil Beaton


10.5.09

 

 

 

 

 

 

«je redoute, chère amie, de vous sentir inexorablement attirée par le versant tragique de l'existence, celui ou l'on perd ses forces à se demander pourquoi vivre tandis qu'il serait tellement plus simple de se laisser glisser dans le néant.» Lorsqu’elle entendit, à la fin des années quarante, pour la première fois cette réplique d' Anna Karenine, dont elle fut l'une des plus belles incarnations dans un film de Julien Duvivier, Vivien Leigh avait trente-quatre ans.

Auréolée de la gloire de Scarlett 0'Hara qui en avait fait la plus prestigieuse héroïne de toute l'histoire du cinéma, elle régnait sur Hollywood avec une grandeur lointaine dont la capitale du septième art n'avait jamais fait l'expérience jusqu'alors. Parvenue à force de travail et d'ambition au-devant des feux de la rampe, elle était également au centre de cette institution prestigieuse entre toutes, le théâtre britannique. Enfin, son mariage avec Laurence Olivier, harmonieux et durable, plaçait le couple qu'elle avait su construire au coeur de la société internationale de l'intelligence et du raffinement, l'inscrivant dans l'imagination et la mémoire des foules comme un symbole de perfection digne des plus anciennes et des plus belles histoires de l'amour partagé.

Pourtant, les mots adressés à Anna Karenine résumaient aussi le combat intérieur qui ravageait déjà son existence intime et qu 'elle s'acharnait à dissimuler et à affronter avec toutes les ressources de son intelligence, de son charme et de son élégance morale; en vain, puisque cela faisait longtemps que Vivien Leigh avait en fait commencé sa descente vers la folie et la mort, perdant peu à peu tout ce qu'elle avait su conquérir sur elle-même, sans jamais cesser d'opposer sa fierté aux rumeurs inquiètes et grandissantes du monde extérieur et se réservant l'ultime sursaut de disparaître comme s'il s'agissait d'un exil en pleine gloire et non d'une chute dans un abîme sans fond.

Aujourd'hui son empreinte demeure intacte et nul n'a jamais remplacé Vivien Leigh, sous les sunlights, sur la scène, dans le souvenir de ceux qui l'ont aimée et de ceux qui la découvrent encore. Car au-delà de l’éclatante réussite de tout ce qu'elle accomplît et de ce qu'elle su donner, demeure la complexe et douloureuse énigme qui emporta sa vie; celle-là même devant laquelle elle fut la dernière à s'incliner, après avoir si ardemment tenté de la maîtriser et de la comprendre, avec l'impossible espoir de pouvoir lui échapper.

 

 

 

Warren Beatty: “Qu’avez-vous à cacher à cette journaliste?

Vous la connaissez, c'est une amie?

Vivien Leigh: “Elle me posera un tas de questions.

Ce que je fais, qui je vois, pourquoi je vais à la dérive.

 Warren Beatty: “Je vais aussi à la dérive.

 Le monde, les étoiles, tout dérive. Est-il si triste de dériver ?

Vivien Leigh: “Oui, si l'on ne sait où aller.

 

Printemps romain de Mrs Stone

Tennessee Williams, Jose Quintero 1962

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frédéric Mitterrand

introdução de  Vivien Leigh, in Destins d'étoiles - volume I

© P.O.L.,Fixot,1991

 

imagem: Vivien Leigh em Anna Karenina, de Julien Duvivier 

 


8.5.09

 

 

 

Nos vies seraient bien tristes et l'histoire de notre temps, encore plus redoutable et confuse, si les vedettes de cinéma, les rois et les reines, les artistes célèbres ou certains héros de la presse populaire ne se faisaient pas les messagers de nos émotions, de nos élans et de nos désarrois. Leurs existences à l'apparence brillante consolent notre quotidien obscur; leurs destins, heureux ou tragiques, nous vengent de n'être que les acteurs abandonnés et solitaires d'un théâtre trop vaste dont les intrigues nous dépassent. Et si les politiques et les historiens les négligent ou s’en méfient, nous savons bien qu’ils donnent ses couleurs à notre époque et nous rejoignent dans les rêves dont elle s’accommode si mal. Mais ce sont aussi d’étranges messagers, à peine conscients de ce qu’ils transmettent et dont nous ne savons finalement pas grand-chose; cette imprécision les protège; elle fonde leur séduction et leur légende, et s'avère finalement plus forte que tous les détails pourtant bien réels qui aiguisent notre curiosité en nous donnant l’illusion de les connaître.

Ces textes, écrits à l’occasion d'une série d’émissions de télévision, se sont servis de leurs images; ils en ont transcrit, le plus honnêtement possible, des faits et des attitudes, des situations et un éclairage qui ne sont pas ceux auxquels on est accoutumé; mais ils y ont aussi toujours retrouvé le romanesque et l’incitation aux songes, car c’est là que réside l’impalpable exactitude qu'aucun récit ne peut fléchir et enfermer. Ce sont ainsi plutôt des contes ou des chansons en prose, où tout est vrai, et s’il en existe, surtout les mensonges.

 

Frédéric Mitterrand

 

introdução de Destins d’étoiles

© P.O.L., Fixot, 1991

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7.5.09

 

 

 

 

Edição P.O.L. , Fixot, 1991

 

 

 

A fonte de inspiração de Retrovisor, um Álbum de Família foi uma série documental da autoria de Frédéric Mitterrand, exibida pela televisão francesa durante a década de 80, colecção fascinante de retratos do século XX, de políticos, soberanos, estrêlas de cinema e escritores, entre outros.

O formato é o seguinte: após uma introdução muito breve do narrador, o filme começa, e vamos assistir a uma longa sequência de imagens, acompanhada da leitura de um texto em ‘voz off’. Durante um pouco mais de uma hora, veremos desfilar uma quantidade incrível de verdadeiros tesouros documentais, desenterrados dos numerosos arquivos públicos, e privados, nos quais se encontram preservados.

Nos anos 90, conheci aqui em Lisboa um rapaz que fora assistente de realização de Frédéric Mitterrand, no programa que este dedicou a Luchino Visconti. Fiquei então a conhecer o seu método de trabalho. Neste caso, a equipa havia-lhe preparado uma sequência de imagem com a duração de aproximadamente cinco horas. O texto fora escrito sobre esta sequência, entretanto reduzida a uma versão de pouco mais de uma hora.

Salvaguardadas as devidas proporções, foi isto que fiz com o meu espólio familiar. Considerava muito interessante o meu material, mas devo dizer que só depois de examinar os documentos da vida profissional de meu pai admiti que o livro pudesse atrair mais do que a mera centena de parentes e amigos a quem inicialmente o destinara.

 

Os textos das séries Étoiles et toiles (1981-86) e Destins (1987-88), exibidas pelo canal de televisão "Antenne 2", foram reunidos no início dos anos 90 em quatro volumes ilustrados, intitulados Destins d'étoiles. A eles voltarei em próximos posts.

 

Mais sobre Frédéric Mitterrand aqui

Destins d'étoiles aqui


23.3.09

 

 

Os bragançanos viviam, nesse tempo, suspensos da rotina burocrática desde o governador civil ao amanuense, quando a televisão chegou à cidade. Ela já se mostrara em documentários no Cine-Camões, mas a valer, foi na altura em que os principais cafés da cidade colocaram aparelhos em local estratégico de forma a os espaços se transformarem em salas de espectáculos ruidosas, acaloradas pelo bafo mais ou menos de boa extracção estomacal e os comentários propícios à quebra de solidão do mais sisudo.
As festas comemorativas dos cinquenta anos da RTP, no referente a Bragança têm de ser adiadas, mas valia a pena tentar-se perceber o impacto que na altura ela provocou, para além da luta por um lugar em dia de transmissão de um jogo europeu em pleno auge benfiquista, dos comentários do refinado e lembrado Verbo, ou da irritação do Sr. Roque devido a os estudantes e outros farsolas estarem uma noite inteira alapados em frente à pantalha e só consumirem um café ou um galão. É verdade, na altura pediam-se muitos galões, o dinheiro estava no bolso dos que o possuíam, por isso no Moderno a maioria dos clientes gastava muito pouco, razão suficiente para o pai do Roquito exibir um carão de poucos amigos. Aí por 1961, aparecem as camisas TV. Um reboliço, só sendo vendidas nos comércios mais finos – Tozé, Queiroz, Poças, Casa das Malhas, Lopes&Pires e Castro –, Bragança ao tempo em matéria de moda não passava destas casas, refira-se o facto de todas venderem uma multitude de tecidos e adjuvantes, sem esquecer urnas, coroas de flores, máquinas de costura e óleos caso do estabelecimento dos sócios Sr. Lopes e Sr. Pires, o primeiro sempre na garagem, o segundo vegetariano. As tais camisas eram assumidamente bonitas, lisas em tons clássicos mais a cor cinzenta, às riscas, agora estilo jogador de futebol, e aos quadradinhos com botões metálicos. A primeira aparição dessas camisas nos corpos dos rapazes, pertenceu, como sempre, aos filhos-família, não eram assim tantos, muito invejados por comprarem sem pejo ou receio de falta de notas, pois limitavam-se a escolher e dizerem:”Sr. Tozé, Sr. Queiroz, Sr. Poças ponham na conta.” Um regalo para eles, uma forte e enviesada irritação para nós, pois tinhamos de nos contentar com camisas estilo Limpope, Limpó-pé, gracejávamos ao vê-las em coluna na montra do Sr. Monteiro, ou baratuxas “mercadas” pelas mães no Sr. Pousa, no Tem-Tudo, daí também venderem mercearias, sabões e piaçabas, ou ainda feitas pela vizinha costureira. As camisas, vinham em caixas pretas, de um design fabuloso, mas tinham um contra – o preço alto, de tão soberbo, só mesmo os empregados dos bancos – Banco de Portugal e BNU, os da Caixa ganhavam menos, os magistrados e pouco mais, talvez meia-dúzia de professores e comerciantes de outros ramos rodeavam os pescoços com colarinhos sem esticadores por fora e em nylon TV. O estilo propagou-se, em poucos meses começaram a aparecer imitações – AV, RN, FI, CA – escrevo siglas ao acaso, pois nessa matéria a “cousa” era à vontade do freguês. Ainda que assim hoje não seja, valia a pena correr o risco de empatar todas as parcas economias numa camisa TV, pensávamos nós os desprovidos de fundos a condizer, por isso paguei 180$00 por uma camisa aos quadrados azuis. Num domingo soalheiro levei-a a olhares na Praça da Sé, por altura da missa das onze e meia. Volteei-me a modo dos cavalos em praça de touros, os circunstantes do meu grupo olharam de revés, rosnaram defeitos devido ao tom do azul e do tamanho dos botões de metal. Não me importei, também tinha uma camisa TV. Era o que interessava. Após a primeira aparição, passados uns dias, uma queimadela de cigarro provocou-lhe um buraco impossível de resgatar. Ficou maculada, fiquei desgostoso e recordei a quantia gasta. Pesares os meus, risos altos dos amigos!


 

Armando Fernandes

 

 

P.S. A firma das camisas TV acabou a seguir ao “25 de Abril” devido a conflitos laborais. Inovadora, impedia os vendedores de fazerem descontos. Em Bragança todos incumpriram, excepto o Sr. Tiago.

 

© Armando Fernandes

NORDESTE, semanário regional de informação
Edição de 20-03-2007

 

 

Leia outras crónicas de Armando Fernandes aqui

 

 

Camisas TV

Embalagens para a marca TV, design de Manuel Rodrigues, 1961

 

 


Imagem:

Design Português 1960/1979 . Victor M. Almeida - 4

© 2015 Verso da História e autores

Colecção exclusiva do jornal Público

 

 

 

 

 

 

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