30.8.16

 

 

Untitled-1.jpgFernando Guedes (1929-2016)

 

 

 

 

Ignoro se têm sido muito ou pouco estudadas eventuais afinidades do nosso modernismo com o dos Britânicos, para além da comum recusa do sentimentalismo (mas talvez não a procura radical da despersonalização e do distanciamento, que quase só encontramos em Pessoa; a estética imagista só terá verdadeira expressão portuguesa com Alberto de Lacerda, mas esta poderá ser uma opinião controversa), mas não resisto a chamar a vossa atenção para os conselhos que William Carlos Williams, um outro americano que foi figura de proa do Imagismo, dava à poeta inglesa Denise Levertov, em 1954, repercutindo ainda nesse momento, de forma bastante fiel, o ideário imagista de Pound e Eliot em 1914. Dizia ele: «Corte, e corte de novo, tudo o que escrever — ao mesmo tempo que por obra da sua arte não deixa vestígios dos cortes — e o resultado final ficará repleto do que tem para dizer».

 

O crítico britânico Harold Monro, num livro intitulado Some Contemporary Poets, publicado em 1920, conta a história de um jovem poeta americano recém-chegado dos Estados Unidos que procurou Eliot a fim de lhe mostrar os seus trabalhos. Este, ponderou longamente em silêncio um poema e, erguendo finalmente os olhos, terá dito: «Precisou de 97 palavras para o fazer; eu acho que poderia tê-lo feito em 56». Mas nada disto era novo e os próprios imagistas não se cansavam de o afirmar: «Estes princípios não são uma novidade; caíram em desuso. Eles são o essencial de toda a grande poesia».

 

É claro que estamos no plano estilístico da precisão. Mas creio que poderíamos articular isto, independentemente dos particulares relativos à diferença de contextos, com o que António Ferro — fundador e referência desta Casa — escrevia, em 1919, em Leviana (publicado em 1921):

 

«O excesso de pormenores embrulha a concepção, a intenção. Já que não podemos simplificar a vida, simplifiquemos a literatura. A literatura, como a vida, está atravancada. Há que descongestioná-la: um só quadro numa parede, dois ou três móveis em cada sala. Simplifiquemos! Simplifiquemos! A falta de espaço é cada vez maior. Há que fazer peças com poucas personagens, romances com poucas páginas, telas com poucas tintas. Seleccionar! Seleccionar! Escrever muito é fácil. Escrever pouco é heróico, muitas vezes. Poucos escritores têm essa coragem».

 

Como é sabido, The Waste Land, o poema de Eliot que Fernando Guedes considera o mais visionário do século xx, foi drasticamente reduzido na sua dimensão pela mão de Pound, que na dedicatória de Eliot é justamente designado como il miglior fabbro.

 

***

 

Há muito que Fernando Guedes se interessa por estes dois autores, Eliot e Pound. Poeta, ligado à Távola Redonda, nessas «folhas de poesia», cuja publicação se iniciou em Janeiro de 1950, apresentou e traduziu ambos (possivelmente pela primeira vez entre nós, como ele próprio notou na sessão de apresentação do livro). Eliot fora distinguido com o Nobel em 1948; Pound, internado num hospital psiquiátrico, recebera o Prémio Bollingen, em 1949. Posteriormente, no final da década, Fernando Guedes haveria de dirigir uma outra revista que logo no título – Tempo Presente – evocava Eliot (O tempo presente e o tempo passado/ São ambos presentes talvez no tempo futuro/E o tempo futuro contido no tempo passado) e que no segundo número apresentava traduções de Pound e saudava a sua libertação, ocorrida no ano anterior.

 

Deste modo, o que Fernando Guedes faz nestas quatro comunicações é arrumar de forma condensada o seu próprio percurso de leitor de Eliot e Pound ao longo de décadas e apresentar a sua visão sobre o lugar de cada um deles na poesia do século xx. Partindo de uma perspectiva, que foi antes de mais geracional, de reavaliação da modernidade face à tradição, de indagação estética (o tal percurso partilhado em fraterna amizade com Fernando Lanhas), mas também ideológica na marcação das suas distâncias, Fernando Guedes engloba no seu interesse por estes poetas a dinâmica concisa e complexa da estética imagista, a relação com as artes plásticas, e, muito particularmente, a sua ressonância mítica e religiosa.

 

 

Jorge Colaço

 

Excerto de um texto lido no Círculo Eça de Queirós no dia 4 de Setembro de 2014 a propósito do livro de Fernando Guedes T. S. Eliot e Ezra Pound – uma tentativa de aproximação às suas vidas e às suas obras, publicado nesse mesmo ano.

 

 

O artigo de Jorge Colaço  Na morte de Fernando Guedes (1929-2016)  aqui.

 

Algumas obras de Fernando Guedes disponíveis na Wook aqui

 

 

 

 

 

 

 

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6.8.16

 

 

P for Pamela Pinterest.jpg

 

 

 

 

palinódia
pa.li.nó.di.a
nome feminino
(do grego palinodía, canto diferente)

 

 

Como género literário da Grécia antiga era uma retractação, que servia ao autor para desdizer ou desmentir o que dissera num canto anterior. Nem sempre é fácil perceber se tais retractações eram sinceras, mas é um facto que a palinódia se tornou uma forma poética que teve a sua fortuna. Estesícoro, no século VII-VI a.C., terá sido o primeiro a usá-la. Leopardi, já no século XIX, retomou o género na «Palinodia al marchese Gino Capponi», que a certa altura diz assim: «Vendo isto/ e meditando profundamente sobre as largas/ folhas, de minhas graves, antigas/ ilusões e de mim próprio senti vergonha.»* (tradução de Albano Martins). Em português, tanto na variante brasileira como na europeia, o termo designou, pelo menos a partir do século XIX, a mudança de opinião, sobretudo política, sem rasto da retractação original. Isto é, sem vergonha.

 

 

*Così vedendo,/ e meditando sovra i largui fogli/ profondamente, del mio grave, antico/ errore, e di me stesso, ebbi vergogna.

 

 

 

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13.6.16

 

 

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 7 postais ilustrados por André Carrilho

 

 

 

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 lisbon poets & co. no Facebook aqui

 

Poètes de Lisbonne - Camões, Cesário Verde, Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Pessoa | Traduction Élodie Dupau.

 

 

Lisbon Poets - Camões, Cesário Verde, Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Pessoa | Portuguese originals and English translations, by Austen Hyde and Martin D'Evelin | Illustrations by André Carrilho | Foreword by Leonor Simas-Almeida | 1st edition: June 2015  Publisher: lisbon poets & co.

 

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13.9.15

 

Tomaz Kim 1961.jpg

  Tomaz Kim / Joaquim Monteiro-Grillo

 

 

Nascido há cem anos, em 1915, e desaparecido em 1967, foi poeta*, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, tradutor. Deu a conhecer ao público português muitos escritores da literatura inglesa e americana.

 

É justamente recordado este mês no Jornal de Letras num extenso artigo ilustrado com uma fotografia que aqui publiquei em 2009. Foi aliás a fotografia que me conduziu à descoberta do excelente texto de Fernando J. B. Martinho, de que reproduzo este pequeno excerto, a acompanhar uma tradução de Tomaz Kim que encontrei junto de recordações dele que os meus pais guardaram, neste caso uma simples folha de bom papel, bem impressa em frente e verso.

 

*  

 

Os dois volumes do que consideramos ser a segunda fase da sua obra situam-se num período em que a carreira académica do poeta iniciada em 1947 alcança justíssimo reconhecimento institucional, que a morte precoce, em 24 de Janeiro de 1967, pouco antes de atingir os 52 anos, veio, lamentavelmente, interromper. É este um período em que o poeta, fiel continuador do que há já de uma sólida tradição modernista em termos nacionais e internacionais, faz acompanhar a sua prática poética da tradução de poetas ingleses e americanos (com maior incidência na 2ª metade dos anos 40, no Diário Popular), e de textos de doutrina crítica, de Shelley e T.S. Eliot, e de ampla produção crítica e ensaística própria, que assina com o seu nome civil, Joaquim Monteiro-Grillo ou J. Monteiro-Grillo.

[Fernando J. B. Martinho in "Tomaz Kim Um poeta de tempos dramáticos" - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Número 1172 – 2-15 Setembro de 2015] 

 

 

 

Minster Lovell tradução Tomaz Kim.jpeg

Minster Lovell, de David Wright, tradução de Tomaz Kim

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL 

 

 

Now I a ghost ascend a broken stair

where no more the cold fingers of the rain

comb, or the winds caress my long brown hair;

I move among the populous passages

peopled with brown leaves and the sluggish weed,

and the wind's mutterings and memories

of sere wolds and the dark Atlantic seas.

 

 

Remembering now the dancing. O my lover

break down the cold embraces of the grave:

murder the time, recover

the lost words, the lost glances.

 

 

Remembering now the dancing. I remember

voice of the harp, the tender

not of the flute, the tremble

of the low-toned clavichord;

the whisper of the dresses

as the dancers turned and parted

as the music paused and started.

The dancers are departed.

 

 

 

Now I a virgin ghost, under the cold

and lunatic moon, forsaken. Whom these walls

already have forgotten. Whom they hold

in the dark rain of spring, in the cascade

of the clear pool that will not wet my feet.

 

 

 

O find me whom I fled

before the leaden pressure of the lid

weighs down the thin white arms and bended head.

Who only hears the voices on the stair

who cannot hear the dry grate of the lock.

 

 

 

I am bound in with darkness. In the iron

strong womb of time. The lover

clasped by a stronger, more enduring arm;

in a more proud embrace.

 

 

 

O find me. Find, recover.

Break down the cold embraces of the grave:

shatter these hasps, and scatter

eternal walls, and batter

with a white leap of light the night. Discover

the bright horizons.

 

 

 

I heard a footstep on an outer stair:

I heard a voice call once, and call my name.

I blinded in the tangle of my hair,

pressed in with darkness. Who will not recapture

the sunlight or the crocus, who will wander

in the moon's error and the winds, forgotten.

Virgin of the spring rains, among these walls.

 

 

 

Now I the ghost of a delighted bride

brought to a dark unrobing, and a bed

celibate, to surrender

a living virginity for a dead;

O this my pride to tender

to the malicious worm my slender head.

Brown hair and white limbs, who will not remember?

 

 

 

I not await him. I await no lover;

who overtakes the still feet of the years?

And I have mouldered in the dust too long,

too long my being in the. darkness fed.

Under the sallow moon I must await,

tenant of hollow winds and bitter rain,

the new birth of the crocus. Non deliver.

 

 

 

And none return. The constellations wheel

westward; and westward the reluctant moon.

None shall burst down the indurate barriers;

none open wide the doors: and none return.

Westward the moon. Inhabitant of the springs,

the short grass and the broken palaces,

I meditate the winds and the cold rain.

 

DAVID WRIGHT *

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL (tradução de TOMAZ KIM)

 

 

Ora, eu, um espírito, ascendo a escada carcomida

Onde não mais os álgidos dedos da chuva penteiam,

Ou o vento acaricia, a minha longa cabeleira fulva.

Caminho por entre populosas veredas

Povoadas de folhas secas e erva daninha inerme

E murmúrios do vento

E lembrança

De tantos plainos e sombrios mares atlânticos.

 

 

 

Lembro, agora, a dança... Ó, meu amado!

Desenlaça o gélido abraço da tumba:

Assassina o tempo,

Retoma as palavras perdidas, o perdido olhar...

 

 

 

Lembro, agora, a dança.,.

Lembro a voz da harpa,

O terno trinar da flauta,

O trémulo grave do clavicórdio,

O sussurro das vestes,

enquanto os bailarinos rodopiam e se separam,

Quando a música se detém e recomeça.

 

 

 

Foram-se os bailarinos.

 

 

 

Ora, eu , espírito de uma virgem,

Abandonada sob a lua fria e tonta,

A quem estes muros já esqueceram,

A quem eles retêm na chuva escura da Primavera,

Na cascata da límpida lagoa que não molhará meus pés...

 

 

 

Oh, encontra-me, a mim, de quem eu fugi,

Antes que o plúmbeo peso da tampa

Comprima os alvos braços esguios e a cabeça tombada,

Aquela que ouve apenas as vozes na escada

Aquela que não pode ouvir do ferrolho o áspero arranhar.

 

 

 

Envolta estou em treva

No fero útero férreo do tempo.

O amado,

Enlaçado por um braço mais firme e duradouro

Num mais soberbo abraço.

 

 

 

Oh, encontra-me,a mim. Busca, retoma.

Desenlaça o gélido abraço da tumba,

Despedaça estas ferragens

E dispersa os muros eternos

E desfaz a noite com um alvo arranco de luz.

Descobre os rútilos horizontes ...

 

 

 

Ouvi passos numa escada, lá fora,

Ouvi uma voz a chamar uma vez, a chamar pelo meu nome.

Eu fiquei cega no emaranhado do meu cabelo,

Confundida com a escuridão,

Eu, aquela

Que não virá acolher a luz do sol ou a flor do açafrão,

Aquela que vagueará, esquecida,

Nos enganos da lua e do vento,

Virgem das chuvas da primavera,

Entre estes muros...

 

 

 

Ora, eu, espírito de uma noiva deslumbrada,

Levada a um tenebroso desvelar

E a um leito solitário

Para render

Uma virgindade viva a uma virgindade morta...

Oh, este, o meu orgulho:

Ofertar ao verme malévolo a minha cabeça donairosa!

Cabeleira fulva e alvos membros, Quem os não lembrará?

 

 

 

Não espero por ele. Não espero nenhum amante;

Quem ultrapassará as quietas passadas dos anos?

E eu me desfiz em pó, no pó, há muito, já...

Há muito, já, meu ser das trevas se alimentou.

 

 

 

Hóspede do vento cavo e amarga chuva,

Sob a lívida lua, eu tenho de aguardar

O novo natal da flor de açafrão.

 

 

 

Ninguém o fará.

 

 

 

E ninguém regressará.

As constelações rodam para ocidente

E para ocidente, a lua relutante.

Ninguém derrubará as barreiras firmes,

Ninguém escancarará as portas

E ninguém regressará.

Para ocidente, a lua.

 

 

 

Habitante das fontes,

Da erva núbil e dos palácios em ruínas,

Eu pondero os ventos e a chuva fria!

 

 

 

 

*

 

 

Notas: 

 

Obra Poética de Tomaz Kim aqui

 

Cadernos de Poesia aqui

 

Fundada por Tomaz Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti, a revista “Cadernos de Poesia” teve publicação intermitente, em três séries e quinze números, nos anos 1940-42, 1951 e 1952-53, revelando alguns dos poetas portugueses mais marcantes da segunda metade do século XX: além dos fundadores, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade.

 

 

David Wright aqui 

 

 

 

Veja também neste blog os posts:

 

 

Exercícios Temporais

 

Tempo de Amor

 

Amigos (1950)

  

Cozinha do mundo português

 

 

 

 

 


27.9.14

 

 

Cristina Ténis 1965.jpg

 

 

Cristina Futscher Pereira

17 Abril 1948—27 Setembro 2005 

 

 

 

 

 

Caro Almeida Garrett

 

 

Perdoe-me tão directa interpelação, mas creia que não o incomodaria por pouca coisa. Conhece bem o drama de partir, e de partir cedo. De partir cedo demais. Sei, por isso, que entenderá o que tenho para dizer.

 

O seu nome e a sua obra são ainda venerados nesta sua terra, embora um pouco da mesma forma que os monumentos o costumam ser. Reverenciados, mas na verdade esquecidos, ignorados, e vandalizados. Nada de novo, como muito bem sabe.

 

Imagine que se descobriram os manuscritos inéditos do seu Romanceiro misturados com outros papéis que estavam em casa de Venâncio Deslandes, na época director da Imprensa Nacional. Podemos talvez imaginar as razões pelas quais o Senhor Deslandes poderá ter levado os manuscritos para casa, mas provavelmente nunca saberemos ao certo a razão de lá terem ficado até a Cristina Futscher Pereira os ter descoberto.

 

Mas o achado constituiu também um encontro.

 

A partir desse momento o destino de Cristina Futscher Pereira passou a estar ligado ao destino desses papéis, e Você, meu caro Garrett, passou a estar no centro do seu entusiasmo. Ela pressagiava que aqueles manuscritos eram um sinal da sua boa estrela, e até construiu este pequeno «templo», de onde agora lhe escrevo, para nele partilhar as boas novas com todos os interessados.

 

Mas (quase) ninguém estava verdadeiramente interessado. Bem, houve alguns lampejos de interesse pelos papéis, noblesse oblige, embora frouxos e breves. Não sei, talvez estejamos cansados de ser um País, de ter uma História tão pesada e de tão incerto saldo.

 

Além do mais, o romanceiro é uma coisa tão out, tão old fashioned you know what I mean? —, é coisa de um mundo que já não existe, e que por isso já não nos interessa. Claro, é bom que se preserve, alguém que se encarregue de guardar essas coisas. Pode ser que um dia façam falta, sei lá.

 

Apesar de tudo, o meu Amigo nem tem muito de que se queixar. Apesar do infortúnio pedagógico das Viagens, ainda faz parte do cânone, ninguém lhe impugna o episódio do Mindelo, ainda lhe dão palco nos teatros, o fraque verde, a gravata de cor e o chapéu branco ainda causam um simulacro de furor entre as senhoras. Da sua poesia sobraram as Folhas Caídas (cujo pathos aumenta se se souber da história com a viscondessa da Luz), e a sua eloquência ainda ecoa vagamente no Parlamento. Outros não se podem gabar de tanto.

 

Mas na verdade pouca gente o lê e, hélas!, cada vez menos gente fala a mesma língua em que Você escreveu páginas tão marcantes.

 

Adiante. Eu conheci a Cristina por sua causa. Digamos que foi o ilustre Autor que propiciou o nosso encontro. Assim que lhe ouvi os planos, logo a alertei para esperar muito pouco ou nada. Mas o meu cepticismo foi cedendo à sua energia e vontade de suscitar um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra, caro Garrett. E a isso eu não me poderia negar.

 

O resultado dessa colaboração está aqui nestas páginas escritas no éter (o meu caro Amigo perdoará não me atrever sequer a tentar explicar-lhe o que isto é…), mas está também nas muitas cartas que trocámos, através da quais o nosso relacionamento atingiu a patente de amizade.

 

Caro Almeida Garrett, a Cristina Futscher Pereira morreu.

 

Partiu cedo demais, como também aconteceu consigo. Com a morte dela, morre também este espaço que ela lhe dedicou, no qual eu tive a honra e o gosto de participar.

 

Ele aí – aí?, aqui? – fica, como testemunho de como lhe pulsou o coração ao longo do seu último ano de vida. A Cristina fez o que pôde, até já não poder fazer mais. Mas fica também o exemplo, e, quem sabe?, talvez ele frutifique, talvez possa ser retomado. Não é verdade que todos lhe devemos isso?

 

Cumprido este dever de que voluntariamente me incumbi, despeço-me com a estima e a admiração de sempre.

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Se os mortos e os tempos conviverem e se misturarem como acontece na Torre de Barbela de Ruben A., estou certo de que há-de vir a conhecer a Cristina. Peço-lhe que a trate como a uma boa e dedicada Amiga.

 

 

 

 

Notas:

 

Este texto fechou o blog O Divino em 2005. O blog garrettiano fora criado por Cristina em 2004 e foi retirado dos blogs do sapo cinco anos depois.

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Retentiva e Conteúdos em Português. 

 

 

Leia também os posts

 

Long Live Garrett

 

Garrett inédito

 

Garrett liberal, romântico, escritor, homem de espírito, pesquisador, homem de acção...

 

Garrett leitor de Vicente

 

Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909)

 

 

Inéditos do romanceiro garrettiano neste blog na tag Garrett 

 

 

 

 

 

 

Lettre à Garrett (2005)

 

 

Cher Almeida Garrett,

 

Pardonnez-moi de vous interpeller ainsi, si soudainement, mais, croyez bien que je n’oserais pas vous importuner pour un rien. Partir, et partir tôt, est un drame que vous connaissez bien. Partir trop tôt. Je sais, donc, que vous comprendrez ce que j’ai à vous dire.

 

Votre nom et votre œuvre sont encore vénérés dans ce pays qui est le vôtre, même si on leur voue, en somme, l’estime accordée habituellement aux monuments. Révérés, mais en vérité, oubliés, ignorés et vandalisés. Rien de nouveau, nous le savons bien.

 

Imaginez-vous que les manuscrits inédits de votre Romanceiro ont été découverts dans un tas de papiers qui se trouvait chez Venâncio Deslandes, jadis directeur de l’Imprensa Nacional. Il n’est pas difficile d’imaginer les raisons qui auront conduit Monsieur Deslandes à rapporter le manuscrit chez lui mais nous ne saurons probablement jamais le fin mot de l’histoire qui explique qu’ils y soient restés jusqu’à ce que Cristina Futscher Pereira ne les déniche.

 

Mais cette découverte fut aussi une rencontre.

 

Car, dès cet instant, le destin de Cristina Futscher Pereira s’est mêlé à celui de ces documents. Et vous, mon cher Garrett, sachez que vous avez nourri son enthousiasme. Elle pressentait que ces manuscrits étaient une manifestation de sa bonne étoile et alla même jusqu’à construire ce petit temple d’où je vous écris, pour y partager les bonnes nouvelles avec tous ceux qu’elles intéresseraient.

 

Mais, (presque) personne ne se montra intéressé. Enfin, il y eu quelques lueurs d’intérêt pour ces documents, noblesse oblige , bien qu’elles fussent mornes et brèves. Qui sait, peut-être sommes-nous fatigués d’être un Pays, d’avoir une Histoire si pesante, au bilan si incertain.

 

Et puis, un Romanceiro, n’est-ce pas quelque chose de complètement has been, si old fashioned – you know what I mean? – quelque chose qui appartient à un monde qui n’est plus et qui a donc cessé de nous intéresser ? Bien sûr, il convient de le protéger et quelqu’un doit se charger de conserver ces choses. Ça pourrait venir à manquer, un jour, qui sait ?

 

Et pourtant, cher ami, vous avez bien peu de raisons de vous plaindre. En dépit de l’infortune pédagogique de Voyages , vous faites encore partie du canon, personne ne vous réfute l’épisode de Mindelo, la scène des théâtres vous est encore ouverte, le frac vert, la cravate colorée et le chapeau blanc provoquent encore bien des émois chez la gente féminine. De votre poésie, il reste Folhas Caídas (dont le pathos augmente quand on connaît l’histoire de la vicomtesse de Luz) et votre éloquence résonne encore vaguement au parlement. Tout le monde n’a pas la chance de pouvoir en dire autant.

 

Mais en réalité, votre œuvre est bien peu lue et, hélas ! , rares sont ceux qui parlent encore cette langue dans laquelle vous avez écrit ces pages si remarquables.

 

Poursuivons. J’ai connu Cristina à cause de vous. Disons que c’est l’écrivain illustre qui est à l’origine de notre rencontre. A peine m’avait-elle fait part de ses projets que je lui disais de ne rien attendre, ou si peu. Mais mon scepticisme a cédé face à l’énergie qui l’animait et à son désir d’éveiller un intérêt renouvelé pour votre personne, cher Garrett, et pour votre œuvre. Comment aurais-je pu refuser ?

 

Le résultat de cette collaboration est là, dans ces pages écrites dans l’éther (vous me pardonnerez, cher ami, de ne pas me risquer à la moindre explication...) mais aussi, dans ce riche échange épistolaire d’où est née une amitié certaine.

 

Cher Almeida Garrett, Cristina Futscher Pereira n’est plus.

 

Elle est partie trop tôt, comme vous. Avec elle, disparaît également cet espace qu’elle vous avait consacré et auquel j’ai eu l’honneur et le plaisir de participer.

 

Et lui là, – là ? Ici ? – reste pour témoigner de ces battements de cœur que vous avez provoqués tout au long de sa dernière année de vie. Cristina a fait ce qu’elle a pu jusqu’à ne plus pouvoir. Mais son exemple est là et, qui sait, peut-être fera-t-il des émules, peut-être sera-t-il repris ? N’est-il pas vrai que nous lui sommes tous redevables ?

 

C’est le devoir accompli - dont je me suis moi-même investi - que je vous salue, toujours plein d’estime et d’admiration.

 

 

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Si les morts et les époques se rejoignent et se mêlent comme dans La Tour de Barbela de Ruben A., vous finirez par faire la connaissance de Cristina. Je vous demande de lui accorder le traitement que l’on réserve aux amis sincères et dévoués.

 

 

 

Traduction de Laurence Corréard

 

 

 

Lettre à Garrett fut le dernier texte publié dans O Divino , un blog créé par Cristina en 2004.

 

 

 

 


10.5.14

 

 

 Julian Barnes

 

 

First Nietzsche, then Nadar. God is dead, and no longer there to see us. So we must see us. And Nadar gave us the distance, the height, to do so. He gave us Gods distance, the Gods-eye view. And where it ended (for the moment) was with Earthrise and those photographs taken from lunar orbit, in which our planet looks more or less like any other planet (except to an astronomer): silent, revolving, beautiful, dead, irrelevant. Which may have been how God saw us, and why He absented himself. Of course I don't believe in the Absenting God, but such a story makes a nice pattern.

 

When we killed — or exiled — God, we also killed ourselves. Did we notice that sufficiently at the time? No God, no afterlife, no us. We were right to kill Him, of course, this long-standing imaginary friend of ours. And we weren't going to get an afterlife anyway. But we sawed off the branch we were sitting on. And the view from there, from that height — even if it was only the illusion of a view wasn't so bad.

 

We have lost God's height, and gained Nadar's; but we have also lost depth. Once, a long time ago, we could go down into the Underworld, where the dead still lived. Now, that metaphor is lost to us, and we can only go down literally: potholing, drilling for minerals, and so on. Instead of the Underworld, the Underground. Some of us will go down into the earth at the end of it all. Not very far, just six feet down; except that the scale of depth is lost as you stand there and throw flowers down on to a coffin lid, whose brass nameplate winks back at you. Then, it looks and feels a long way down, six feet.

 

 

Julian Barnes

in Levels of Life

Jonathan Cape 2013

© Julian Barnes

 

*

 

 

 

Primeiro Nietzsche, depois Nadar. Deus morreu e já não está lá a ver-nos. Por isso temos nós de nos ver. E Nadar deu-nos a distância, a altitude para o fazermos. Deu-nos a distância de Deus, a visão do olhar de Deus. E onde chegou (até agora) foi ao Nascer da Terra e àque­las fotografias tiradas da órbita lunar, nas quais o nosso planeta parece praticamente igual a outro planeta qual­quer (exceto para um astrónomo): silencioso, rotativo, lindo, morto, irrelevante. Que pode ter sido como Deus nos viu e a razão pela qual se ausentou. E claro que não acredito no Deus Ausente, mas uma história assim é um belo paradigma.

 

Quando matámos (ou exilámos) Deus, matámo-nos também. Demos realmente por isso, na altura? Nem Deus, nem vida depois da morte, nem nós. Fizemos bem em matá-lo, é claro, ao nosso amigo imaginário de longa data. Também não íamos ter vida nenhuma depois da morte. Mas serrámos o ramo onde estávamos sentados. E a vista de lá, daquela altura — ainda que fosse uma vis­ta ilusória — não era assim tão má.

 

Perdemos a altitude de Deus e ganhámos a de Na­dar; mas também perdemos profundidade. Outrora, há muito tempo, podíamos descer ao Submundo, onde os mortos continuavam a viver. Hoje, para nós, essa metá­fora perdeu-se e só podemos descer literalmente: espe­leologia, extração de minério e assim por diante. Em vez do Submundo, o Metropolitano. Alguns de nós des­cem à terra, quando tudo acaba. Não é muito, só um me­tro e tal; mas a escala de profundidade perde-se, quando estamos ali de pé a atirar flores lá para baixo, para a tampa de um caixão, e o nome na placa de latão nos res­ponde com um piscar de olho. Então parece-nos e senti­mos que é muito fundo, um metro e tal.

 

 

Julian Barnes

in Os Níveis da Vida

© 2013 Quetzal Editores/ Julian Barnes

 

tradução de Helena Cardoso

 

 

 

 

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2.12.13



The Case of Hungary: Carlos Sampaio Garrido and  Alberto Teixeira Branquinho



When the Germans occupied Hungary in March 1944 it was already clear that Germany would lose the war and no longer possible to ignore the fate of the Jews. So, when movements began to eliminate the Hungarian Jews, several countries acted to try and stop it. Led by the recently created War Refugee Board the Americans repeatedly warned the Hungarian government not to collaborate in persecutory policies against Jews or others, and took steps with neutral countries to protect the Hungarian Jews.

Between March and December the Hungarian government, deeply divided and headed alternately by two pro-German Prime Ministers and a reluctant one, with the Russians on their borders and under great pressure from the Nazis, wavered in the zeal with which it handled “its Jewish question”. Taking advantage of such wavering the diplomatic representatives of neutral countries were able to join efforts to help the Jews of Budapest and – with the aid of the Allied bombings – did much to protect them from the first wave of deportations in July. From the end of August, it being impossible to prevent the German determination to eliminate the Jews from Budapest, this effort was expressed by the issue of thousands of Swiss, Swedish, Portuguese, Spanish and Vatican documents of protection, in collaboration with the Jewish Committee “Vaa’da”, under Otto Komoly.


The Portuguese government appears to have had no difficulty in authorizing its Legation in Budapest to act together with the representatives of neutral countries in protecting Hungarian Jews, granting then diplomatic asylum, as well as provisional and/or collective passports. This was done on the understanding that granting nationality was out of the question, beneficiaries undertaking not to invoke their Portuguese passport to request Portuguese citizenship and accepting that the validity of the documents expired at the end of 1944.
By this time it was a question of being on the winning side. The neutral Catholic countries – Spain, the Holy See and Portugal– toyed with the idea of an alliance under which they would convince the Allies to sign a separate peace with Germany to avoid the destruction of Germany and stop communism. Immediately after the German occupation, in response to the Allies’ representation that the Sztojay government was a puppet government, Portugal downgraded its diplomatic mission to Budapest, recalling its Minister to Lisbon, and replacing him by a Charge d’Affaires “so as not to give the idea that it was breaking diplomatic ties but to mark the decreased independence of the Hungarian State”.


 


Minister Sampaio Garrido had been in Hungary since 1939 and no doubt had seen a lot, for the persecution of Jews was not introduced to the government of Regent Horthy by the Germans. In the midst of the climate of terror caused by the Gestapo’s arrival in Budapest, Sampaio Garrido had taken the initiative of sheltering a group of people who were probably friends of his in the Portuguese Legation. At the beginning of May, however, he had to inform Lisbon that the Legation had been attacked by the Gestapo and his guests taken to the Budapest Police from where he had had great difficulty in removing them. Although surprised, the government in Lisbon was not angered. Gently calling the attention of its Minister to the fact that he “should” have warned the MNE, it undertook to honor the protection granted by Garrido to his protégés.





Alberto Teixeira Branquinho took over his post as Charge d’Affaires in Budapest on 5 June and with it the responsibility of protecting “its” refugees. In August, when the situation again worsened, the new Charge d’Affaires, invoking the actions of the Swedish Minister in Budapest (Danilsson, a personal friend of Teixeira de Sampaio, Secretary General of the MNE), obtained permission from Lisbon to widen the nature and quantity of Portuguese protection, mainly by issuing Schutzpässe. These protection papers did in fact protect many Jews until Regent Horthy’s deposition by the national socialist Szalasi, Prime Minister and self-proclaimed vice-regent. At the end of October, Szalasi decided that he would only respect protection papers issued by countries that recognized his government as legitimate. At that point, the Portuguese government recalled its Charge d’Affaires.

After 29 October the Portuguese representation in Budapest was in the hands of the vice-consul, Jules Gulden, who continued to keep an eye on the Portuguese protégés. In his book American Jewry and the Holocaust, The American-Jewish Joint Distribution Committee, 1939-1945, Yehuda Bauer says “Jules Gulden not only offered hundred of visas to Portugal but also issued 1 200 protection papers”. In a letter he wrote to the MNE on 18 December about the situation he had left behind in Budapest, Jules Gulden, now a refugee in Geneva, did not mention the subject.

After the departure of its representatives, Lisbon continued representations in Berlin to protect the refugees left behind in the Portuguese Legation and to protect the bearers of Portuguese protection papers. There could be no disrespect for the prerogatives of sovereignty. Officially, Portuguese diplomatic action in Hungary helped save about 1 000 people.


 

Manuela Franco

 

in "Politics and Morals " [click on the title to read full text]





 

16 Jun. 1944

Confidential telegram nº 69 from the Portuguese Legation Budapest to the MNE informing of the worsening situation of the Jewish persecution, in particular in the countryside and of the inhuman way Jews are deported to Germany.



 

Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 

 

Documentary Exhibition


 

The Diplomatic Insitute

 site and blog

 © 2013 Governo da República Portuguesa



 


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10.10.13

Terceira Semana:

 

Esta semana a minha vida melhorou consideravelmente. Pantai Kalapa. Frase mágica, tipo abre-te sésamo! Entro num taxi, qualquer taxi, vocifero pantai kalapa e trazem-me direitinha ao hotel. Tornei-me uma mulher independente! Posso ir para qualquer lugar que, quais pedrinhas do polegarzinho, sei sempre voltar a casa. Claro que militantemente na defesa da língua portuguesa começo por dizer avenida de Portugal, passo em seguida a praia dos coqueiros mas na ausência absoluta de reacção, vergo-me ao peso da evidência e atiro-lhes com pantai kalapa. Há dias o taxista era um velho, disse hotel Esplanada. Reacção zero. Avenida de Portugal. Idem. Pantai Kalapa. “Ah...”. Passado mais um bocado. “Que horas são, por favor?” Mais um bocado. “E em Portugal que horas são?” Mais uma pausa. “Em Portugal está frio? Lá têm 4 estações?”. Riu-se como um perdido quando lhe disse que em Portugal estava um frio de rachar e ficou muito interessado em saber que as estações se chamam Primavera, Verão, Outono e Inverno.  Depois deve ter esgotado a sua memória do português porque não disse mais nada. Coitado e estava comovido. Eu também fiquei como é obvio. 

Os taxistas dão sempre pano para mangas em qualquer parte do mundo e Dili não é excepção. Um dia desta semana resolvi ir almoçar a um japonês no centro (o PNUD é um bocado fora, não é longe, mas andar na rua com sol a pino é impensável). Apanho um taxi cheio de penduricalhos de terços e santinhos. O motorista estava a ouvir música tipo igreja mas ao perceber que eu era portuguesa resolveu ser simpático e pôr uma cassette especial para mim. Quim Barreiros. Mais tarde vim a saber que a rádio da igreja transmitia abundantemente música pimba. O bispo foi alertado para o perigo de ter pessoas com uma grande boa-vontade em relação à língua portuguesa mas um total desconhecimento da dita e apressou-se a corrigir. Agora é mais música delicodoce ultrapirosa brasileira e portuga e canções de emigrantes género Linda de Susa.

 

 

 

 

Quanto à língua portuguesa, claro que não se pode dizer que aqui se fale muito, mas ainda assim fala-se muito mais do que esperava e sobretudo é verdade que fazem um enorme esforço para aprender. As empregadas do hotel, onde a língua de trabalho é o inglês, no princípio parecia que não falavam uma palavra lusa para além de bom dia e boa noite e obrigada, que de resto se diz também assim em tétum. Hoje, de repente ouço – boa noite senhora, como está? quer fazer já o seu pedido? já terminou, posso retirar? mais alguma coisa? Não sei o que se passou. Suponho que tivessem vergonha de falar tuga. Há um ano, os ministérios e o parlamento tinham dificuldades de entendimento medonhas porque uns falavam ou escreviam em indonésio, outros em inglês, outros em português outros em tétum. Hoje toda a legislação e documentos oficiais é escrita em português excepto a que sai do ministério das finanças que vem em inglês. Única excepção. 

 

Acontecimentos relevantes na semana? Dia dos Direitos Humanos no Estádio Nacional e passagem de testemunho da polícia ONU para a polícia de Dili. Nunca tinha visto um Presidente da República passar revista às tropas em t’shirt, mãos nos bolsos, sem saber o que fazer aos óculos escuros. Nem nunca vi nenhum PR em cerimónia oficial a subir as escadas aproveitando para ajeitar o tapete vermelho que estava perigosamente descomposto. 

 

E para acabar – o mercado. Um mercado no terceiro mundo tropical é sempre um fascínio de cores e cheiros e apetece logo ter uma casa para levar as frutas todas e experimentar ervas e legumes estranhíssimos e comer tomates com sabor e coisas dessas. Carne não, santo deus, as moscas!... abençoados supermercados com frigoríficos. Nem peixe, que o vendem na praia acabado de pescar.

 

 

 

 

E antes de ir para a cama, fiquem sabendo que aqui as osgas cantam e há uns lagartos vermelhos que falam. Não estou a brincar, pensei que eram passarinhos. Deve ser por estarmos perto de Darwin...

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Fotos de Isabel Feijó e Pedro Martins

 

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2.10.13

 

Segunda Semana:

 

Pois não, não é fácil. Eu sabia que não ia ser fácil e não é. Timor? Os timorenses? O clima? Não!!! Tudo isso é de caras. A terra é simpática, as pessoas acolhedoras, totalmente incompetentes mas sempre com um sorriso tímido. O pior são os taxistas. Será que existe uma recomendação internacional para que qualquer pessoa que não perceba uma palavra de língua nenhuma a não ser a própria (mais ainda numa terra onde praticamente só os estrangeiros apanham taxis...) e não conheça a cidade, tenha justamente que ser taxista? E custa sempre um dólar. Um norueguês a puxar pró arrogante lá do PNUD diz que os “locals” só pagam meio dólar e que portanto se recusa a pagar mais. Diz ele que não se pode pactuar com a terrível exploração do pobre estrangeiro (a ganhar 10 ou 20 vezes o que ganha um ministro, note-se...). Santa paciência!...  Os “locals” não só pagam 50 cêntimos como andam aos 8 e 9 num taxi. Não quererá ele impor o número máximo permitido num veículo automóvel de quatro portas aos timorenses? Os “internationals” às vezes têm destas coisas.

 

A semana de trabalho foi tão preenchida que de repente parece que passou um mês inteiro. Tive reuniões com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, do Interior, da Educação, o Procurador-Geral, o Chefe do Estado Maior, isto para só mencionar os postos mais elevados da hierarquia. Mas não se pense que já corri a Administração timorense porque para a semana há mais... Presidente do Parlamento, do Conselho Superior da Magistratura mais alguns ministros e secretários de estado...

 

 

 

 

E depois tive um fim de semana inteiro para mim. Ufff! Ontem fui ao mercado de artesanato – umas 10 bancas, todas rigorosamente com os mesmos panos (de resto lindíssimos) no meio dos quais lá consegui encontrar um chapéu de palha. Que alívio! Temo ter dado um bocadinho nas vistas. A única cobertura de moleirinha aparentemente admitida nestas bandas é o boné de baseball e só os rapazes usam. Algumas senhoras usam guarda-chuvas, ou melhor, sombrinhas. Mas não me dá jeito nenhum. Depressa esgotei o comércio disponível naquela rua. Resolvi então ir até à Areia Branca, a tal praia onde se encontram pedaços de coral azul. E era isso mesmo que me apetecia fazer. Passear à beira mar e apanhar conchinhas.

 

 

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Fotos de Pedro Martins

 

Uma entrevista com Isabel Feijó sobre o seu trabalho em Timor aqui

 

 

 

 


12.4.13

 

contracapa 

 

Esta antologia poética e um álbum de fotografias* recentemente lançados são interessantes testemunhos da cultura pop/rock em Portugal.

 

A geração que cresceu nos anos 60 em Portugal, na qual me incluo, deve a sua educação neste género musical à excelência da nossa rádio. Dessa época recordo em particular o programa "Em Órbita", que servia diáriamente um menu de luxo e no fim de cada ano apresentava aos ouvintes o seu top 10, excluindo Bob Dylan, colocado pelos responsáveis acima destas classificações.

 

Vinte anos mais tarde, no início dos anos 80, foi o fim do programa radiofónico "A Idade do Rock" que inspirou João Menezes Ferreira a lançar-se neste projecto de antologia bilingue, agora concretizado e a que nenhum apreciador do género pode ficar indiferente. No meu caso pessoal, revisitar o universo pop/rock anglo-saxónico é recordar parte importante da minha adolescência e juventude e imensos bons momentos da minha vida adulta***. Estou curiosa de redescobrir os textos, nas duas línguas.

 

*

  

 

São 563 letras do universo pop/rock entre 1955 e 1980 recolhidas e traduzidas para português ao longo de três décadas. [...] Para o autor, muita desta história vive-se na profunda intimi­dade com a beat generation e com uma linhagem em que os melhores poetas não só se ligam aos beatniks como prolongam ainda uma linha de heróis - "são sempre os mesmos: William Blake, Mallarmé, Rimbaud, Baudelaire, Walt Whitman, Garcia Lorca, Yeats" - vinda desde o século XVIII. É precisamente neste enfiamento que reside um dos mais ro­bustos argumentos de Estro in Wat­ts: o de que esta poesia não deve ser menorizada perante aqueloutra publicada em livro apenas porque "tem repetições, acompanha o rit­mo de elocução verbal e tem uma métrica que é a da respiração". "Es­tes grandes poetas seriam sempre grandes poetas de livros, mas esco­lheram a música porque acharam que era esse o veículo." [...] "Esta cultura foi, para mim, uma escola. Há uma geração pós-25 de Abril que se reclama mar­xista. O meu marxismo foi a música, foi o rock. Aprendi a ser adolescen­te não tanto lendo livros teóricos mas a viver isto." Agora, com este conjunto de 563 poesias de 170 au­tores, talvez muitos dos que priva­ram com estas canções no devido tempo possam prestar uma outra atenção aos textos.

 

Excertos do texto de  Gonçalo Frota in jornal Público aqui 

 

 

 

 

 

Notas:

 

* O livro de fotografias Roll Over adeus anos 70 de José Paulo Ferro, que apresentarei em post separado.

Edições Documenta com o apoio da Fundação EDP.

 

** A minha telefonia nos anos 60 aqui

 

*** Leia a este propósito o post "Michael Jackson" aqui

 

a pop francesa e o programa "Em Órbita" aqui 

 

um bom comentário sobre Estro in Watts aqui

 
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13.10.12

 

 
30 de Junho de 1955 - Distribuição de prémios do LFCL, no Teatro S. LuÍs em Lisboa
 
Cristina, com 7 anos, recebe os 2 prémios ganhos no Liceu Charles Lepierre - em Lisboa
Ano escolar 1954-55 (1ª Classe) mista francês-português
 
 
 

 

 

Nesse mês de Junho de 1955, Cristina já transitara para o Lycée du Sacré Coeur de Kalina, Léopoldville, hoje Kinshasa, na RDC. Frequentara o Liceu Francês de Lisboa apenas durante o primeiro trimestre do ano escolar, antes da partida para o Congo.

 

Sobre a minha chegada e o regresso de Cristina ao Lycée Français Charles Lepierre no início da década de sessenta, vindas de uma escola americana, falei no meu livro, e em posts neste blog (aqui e aqui). No entanto, dentro da mesma família cada um vive as coisas à sua maneira e segue o seu próprio destino. Para Cristina, França e a língua francesa seriam muito mais do que um percurso educativo. França tornou-se o país onde viveria metade da sua vida adulta — e muitos dos seus momentos mais felizes — o país onde as suas filhas nasceram, o seu porto de abrigo, como aconteceu a tantos portugueses, em particular os da sua geração. Mesmo depois da experiência marcante dos Estados Unidos, França tornou-se o seu país de eleição. E mais de trinta anos após ter concluído o liceu francês em Lisboa (na parte francesa - baccalauréat d'études secondaires) e partido para Toulouse, estudar economia graças a uma bolsa de estudo francesa, escreveu a Robert Bréchon*, responsável pela atribuição da bolsa em 1965, para lhe exprimir a sua gratidão. 

 

 

 

 

1987

Visita de Estado a Portugal do presidente francês François Mitterrand

Cristina toma notas para em seguida reproduzir o discurso em português** 

 

 

Os netos de Cristina, nascidos em Portugal, frequentam hoje em França uma escola do ensino público francês. Falam francês um com o outro — como Cristina e eu falávamos inglês nos Estados Unidos*** — o que me anima a pensar que nunca esquecerão a língua, porque adquirida muito cedo na vida, e ligada aos afectos, o que tem bom prognóstico.

 

 

 

 Notas:

* Robert Bréchon aqui

** veja álbuns de intérpretes de conferência aqui 

*** Mais aqui

 

 

História do Liceu aqui

 

 

 


17.6.12

 

 

 

Whose Sleeves? (Tagasode)

Japan, late 16th century


 

 

Joao Rodrigues was born about 1562 at Sernancelhe in northern Portugal and sailed to the East while still a boy of twelve or thirteen years of age. He entered the Jesuit Order in Japan and obtained such a proficiency in Japanese that he acted as Valignano’s interpreter at the audience granted by Hideyoshi in 1591. From that date onwards he made frequent visits to court, acting as spokesman for the Jesuit missionaries and interpreter for the delegations of Portuguese merchants. After Hideyoshi’s death in 1598, Tokugawa Ieyasu continued to favor him and even appointed him as his commercial agent in Nagasaki. Jealousy and resentment on the part of local officials resulted in his exile to Macao in 1610 after living in Japan for thirty-three years, during which time he met many of the leading political and artistic figures of the day. [...]

In addition to his business activities in Japan he found time to publish at Nagasaki in 1608 the Arte da Lingoa de Iapam, a truly monumental work, for it was the first systematic grammar of the Japanese language. Not only does he describe the spoken and written language in exhaustive and possibly excessive detail, but he includes for good measure fascinating accounts of Japanese poetry, letter writing, and history.[...] It is in his account of Japanese art that he displays his outstanding talent, and his description of the tea ceremony, flower arrangement, painting, lacquerwork and calligraphy is unrivaled in contemporary European reports. His appreciation of the Japanese artistic temperament is remarkable, and he accurately and sympathetically portrays the elusive feeling of sabi, the transcendental loneliness of the homo viator in this fleeting world of dew, and the sentiment of wabi, the spirit of disciplined and aesthetic frugality in art and life.
 [...] Writing about the spirit of the tea ceremony, Rodrigues observes:

 

Hence they have come to detest any kind of contrivance and elegance, any pretense, hypocrisy and outward embellishment, which they call keihaku in their language…
Instead, their ideal is to promise little but accomplish much; always to use moderation in everything; finally, to desire to err by default rather than by excess…The more precious the utensils are in themselves and the less they show it, the more suitable they are.


It would be difficult to improve on this summary description of the traditional Japanese canon of taste. Written today by a Westerner, the passage would indicate a commendable understanding and appreciation of an essentially alien culture; to have been written three and a half centuries ago reveals Joao Rodrigues as a unique interpreter not only of the language but also of the artistic genius of the Japanese people.

 

Michael Cooper

in The Southern Barbarians
, The First Europeans in Japan

[Japan Described: The reports of the Europeans]

M. Cooper, A. Ebisawa, F.G. Gutierrez, Diego Pacheco 


Edited by Michael Cooper

Kodansha Ltd, Japan and Palo Alto, Calif.U.S.A. in cooperation with Sophia University, Tokyo, 1971.

 

 

aqui

 

 

 

Notas:


Imagem: Whose Sleeves? (Tagasode) aqui

Texto citado aqui

Azuchi–Momoyama Period aqui 

 

 

Prémio Rodrigues, o Intérprete aqui

 

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20.3.12

 

 

 
 
 

 

 

 

 

Voici quel est l'unique privilège des poètes: jusqu'à leur mort ils peuvent être amoureux. Il est vrai que je ne leur en connais pas d'autre. La plupart des gens ont leurs périodes dans la vie en dehors desquelles il ne leur est pas permis de connaître de pas­sion. Les philosophes prétendirent à la même faveur, mais elle ne leur fut pas concédée par la reine Opinion, qui est souveraine absolue et juge suprême contre qui personne ne peut faire appel ni porter plainte.

 

Anacréon chanta ses amours alors qu'il avait des cheveux blancs, et personne ne s'en étonna. Aristote devait avoir la barbe grisonnante quand il eut sa dernière aventure car aujourd'hui encore on lui en fait grief.

 

Or, philosophe, je ne le suis certes pas, je l'ai déjà dit: quant à être poète, j'y ai quelques prétentions, et, à vrai dire, j'ai connu des accès assez aigus de cette maladie, et je pourrais bien m'en prévaloir pour me faire pardonner certaines fragilités du cœur... Pourtant il n'en est pas question, je ne veux pas présenter d'excuses comme si j'étais coupable, mais me défendre comme ayant la raison et le bon droit pour moi.

 

Je suis d'accord avec mon ami Yorick, le très sensé bouffon du roi de Danemark, celui qui ressuscita par la suite chez Sterne sous une si élégante plume; je suis tout à fait d'accord avec lui. — Toute ma vie — dit-il — j'ai été amoureux soit de cette prin­cesse soit d'une autre, et il en sera ainsi, je l'espère, jusqu'à ma mort, fermement persuadé que, si un jour je commets une action vile, mesquine, cela ne se fera qu'entre deux passions; dans ces intervalles je sens mon cœur se fermer, mes sentiments se refroi­dissent, je ne trouve pas deux sous à donner à un pauvre... C'est pourquoi j'évite de toutes mes forces d'être dans un état pareil; et dès que je m'enflamme à nouveau je redeviens la générosité et la bienveillance mêmes.

 

Yorick a raison, il avait bien plus de raison et de bon sens que son auguste maître, le roi du Danemark. Pour peu que se généralise le principe, il est à tout jamais et en toute chose indis­cutable, et ne saurait supporter la moindre exception. Le cœur humain est comme l'estomac humain, il ne saurait rester vide, il a toujours besoin d'aliments: sain et généreux, seules les affec­tions peuvent lui en procurer; la haine, l'envie et toute autre mauvaise passion sont des stimulants qui ne font qu'irriter et ne sustentent pas. Si la raison et la morale nous recommandent d'éviter les passions, si les chimères philosophiques, ou d'autres, nous les interdisent, quel aliment donnerez-vous au cœur, que devra-t-il faire? Se nourrir de sa propre substance, se consu­mer... La vie s'altère, la dissolution morale de l'existence s'accé­lère, la santé de l'âme est impossible.

 

Celui qui peut vivre ainsi vit pour faire le mal ou pour ne rien faire.

 

Or, celui qui n'aime pas, qui n'aime pas passionnément, son enfant s'il en a un, sa mère si elle est encore en vie, ou la femme qu'il préfère à toute autre, cet homme-là est celui que j'ai dit, et Dieu me préserve de le rencontrer.

 

Et surtout qu'il n'écrive pas: il doit être terriblement ennuyeux.

 

 

 

 

Almeida Garrett

in Voyages dans mon pays (Chapitre XI, p. 67-68)

Traduit du Portugais par Michelle Giudicelli

© La Boite à Documents/Éditions UNESCO 1997

 

 

 

 

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13.3.12

 

 

 

 
 

Yorick and the Grisette

Gilbert Stuart Newton (1797-1835) 

 

 

«Estou, com o meu Yorick, o ajuizadíssimo bobo de el-rei da Dinamarca, o que alguns anos depois ressuscitou em Sterne com tão elegante pena, estou sim. ‘Toda a minha vida’ – diz ele – ‘tenho andado apaixonado já por esta já por aquela princesa, e assim hei-de ir, espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca há-de ser senão no intervalo de uma paixão à outra: nesses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o sentimento, não acho dez réis que dar a um pobre... por isso fujo às carreiras de semelhante estado; e mal me sinto aceso de novo, sou todo generosidade e benevolência outra vez.’

 Yorick tem razão, tinha muito mais razão e juízo que seu augusto amo, el-rei de Dinamarca. Por pouco que se generalize o princípio, fica indisputável, inexcepcionável para sempre e para tudo. O coração humano é como o estômago humano, não pode estar vazio, precisa de alimento sempre: são e generoso só as afeições lho podem dar; o ódio, a inveja e toda a outra paixão má é estímulo que só irrita mas não sustenta. Se a razão e a moral nos mandam abster destas paixões, se as quimeras filosóficas, ou outras, nos vedarem aquelas, que alimento dareis ao coração, que há-de ele fazer? Gastar-se sobre si mesmo, consumir-se... Altera-se a vida, apressa-se a dissolução moral da existência, a saúde da alma é impossível.

 O que pode viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada. 

Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, e Deus nos livre dele.

 Sobretudo que não escreva: há-de ser um maçador terrível. (...)»



Garrett, Viagens na Minha Terra

 

Duas razões me levam a pôr em evidência o trecho original citado em tradução por Garrett.
 Em primeiro lugar, deixar aqui sublinhada a importância de Sterne na obra narrativa de Garrett. As Viagens de Garrett estabelecem relações, visíveis e invisíveis, quer com A Sentimental Journey quer com Tristram Shandy, da estrutura digressiva às referências ao Quixote. 
Em segundo lugar, para chamar a atenção para a tradução do nosso Autor, capaz de transpor escorreitamente o inglês de Sterne para o bom português garrettiano, de modo simultaneamente fiel e criador.

 

«...having been in love, with one princess or other, almost all my life, and I hope I shall go on till I die, being firmly persuaded, that if I ever do a mean action, it must be in some interval betwixt one passion and another: whilst this interregnum lasts, I always perceive my heart locked up -- I can scarce find in it to give Misery a six-pence; and therefore I always get out of it as fast as I can, and the moment I am rekindled, I am all generosity and good-will again;...»

Laurence Sterne, A Sentimental Journey through France and Italy by Mr. Yorick (1768)

 

 

Jorge Colaço

blog o divino (2005)

 

 

 

Jorge Colaço escreve aqui 

  

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7.3.12

 

 

 

 

Alfredo Keil (1850-1907)

Paisagem. Entardecer nos Vales, 1898

 

© IMC/DDF aqui

 

 

 

These interesting travels of mine shall be a masterpiece, erudite, sparkling with new ideas, something worthy of our century. I need to inform the reader of this, so that he may be forewarned and not think that they are just another batch of these fashionable scribblings entitled Travel Notes or something similar, which weary the printing presses of Europe without the slightest benefit for science or for the advancement of the species.

 

First of all my book is a symbol ... a myth, a Greek word, and a Germanic fashion, that is put into everything nowadays and used to explain everything that... can't be explained.

 

It is a myth because... because... Without further ado I shall lift the veil and state openly to my benevolent reader the profound idea that is concealed beneath this frivolous appearance of a brief trip seemingly taken in play, while all the time it is a serious, sober, thoughtful business like a new tome from the Leipzig fair, not one of your penny dreadfuls from the boulevards of Paris.

 

Some years ago there was a deep, abstruse philosopher from over the Rhine who wrote a work on the march of civilization, of the intellect - what we might call, to be better understood, Progress. He discovered that there are two principles in the world: spiritualism, which marches on heedless of the material, earthy side of this life, eyes fixed on its great, abstract theories, a stiff, spare, hard, inflexible belief which can be suitably embodied, symbolized by the famous myth of the Knight of La Mancha, Don Quixote; and materialism, which, taking not the slightest heed of these theories, in which it does not believe and whose impossible applications it declares to be Utopias each and every one, can be properly represented by the rotund and well-fed person of our old friend Sancho Panza.

 

But, as in witty Cervantes's story, these two completely opposed and contradictory principles nevertheless are always together, the one some way behind, the other going on ahead, often getting in each other's way, rarely helping one another, but always progressing.

 

And this is what is possible for human progress.

 

And here is the chronicle of the past, the history of the present, the programme for the future.

 

Our present-day world is a vast Barataria governed by King Sancho.

 

Don Quixote's turn will be next.

 

Common sense shall come with the millennium: the kingdom of the children of God! It is guaranteed in the divine promises... like the constitution promised by the King of Prussia; and he has not failed yet, because - because the contract has no fixed date: he promised, but he did not say for when.

 

Now this journey of mine up the Tagus symbolizes the march of our social progress: I hope the reader has understood this by now. I shall be careful to remind him from time to time, for I very much fear he will forget.

 

 

Almeida Garrett

in Travels in My Homeland (II) p.27-28

Translated from the Portuguese by John M. Parker

© Peter Owen Publishers/UNESCO collection of Representative Works

 

 

 

 

Santarém hoje  aqui e no facebook aqui

 


20.10.11

 

 

I like to hole up in hotel suites. I like to turn off the lights and crank the AC. I like temperature-controlled and contained environments. I like to sit in the dark and let my mind race. I was set to meet Bill Stoner the next morning. I ordered a room-service dinner and a big pot of coffee. I turned out the lights and let the redhead take me places.


I knew things about us. I sensed other things. Her death corrupted my imagination and gave me exploitable gifts. She taught me self-sufficiency by negative example. I possessed a self-preserving streak at the height of my self-destruction. My mother gave me the gift and the curse of obsession. It began as curiosity in lieu of childish grief. It flourished as a quest for dark knowledge and mutated into a horrible thirst for sexual and mental stimulation. Obsessive drives almost killed me. A rage to turn my obsessions into something good and useful saved me. I outlived the curse. The gift assumed its final form in language.

 

 

James Ellroy

in My Dark Places, An L.A. Crime Memoir  p.206

© 1996 James Ellroy

 

 

 

 

 

 

Leia este excerto em português no

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26.3.10

 

 

 

 

 

Sobre e contra tudo, o apaixonado afirma a sua paixão como valor. Combate-a em palavras de desespero, toma regularmente a decisão viril de se recompor, enuncia para si próprio, com rigor implacável, todas as razões que teria para não amar, mas uma voz interior «dura mais um pouco» e, como escreve Barthes, «opõe a tudo o que no amor não corre bem a afirmação do que nele vale (1)». O que vale são precisamente os períodos de fraqueza, os acessos de timidez, o sentimento de impotência, em suma, as próprias derrotas da vida amorosa, desprezíveis aos olhos da ideia marcial que o eu faz de si próprio, mas que assinalam a presença do outro. É preciso perder a iniciativa para ter a revelação do Outro. Perder a iniciativa, quer dizer, já não poder expulsar nem incluir, nem manter o ser amado à distância nem assimilá-lo ao que sabemos dele. Amar é encetar uma relação com um rosto que está fora e está dentro, que não se deixa esquecer nem se deixa encerrar. Não podemos fechar a porta à pessoa que amamos, também não podemos fechar a pessoa atrás dela.

Falha dupla pela qual o apaixonado dá graças à paixão como se, no pasmo e na hospitalidade, ele escapasse à estupidez duma existência soberana. A estupidez, isto é, o facto de nunca ser estúpido e de evitar sempre a queda, a prontidão em integrar todo e qualquer rosto novo no reportório de significados conhecidos e ideias feitas. Não é falha do espírito, é presença ininterrupta do espírito em si próprio, serenidade contra a qual nada nem ninguém leva a melhor. Os homens falam, a caravana passa : a estupidez reconhece-se pelo calmo caminhar de um ente que as palavras do exterior não demovem nem afectam. Ela não é o contrário da inteligência, mas essa forma de intelectualidade que põe todos os seres à sua altura e dissolve todos os começos numa intriga familiar.  Para a estupidez, nunca nada de humano é estranho : o que constitui, para além do ridículo, a sua força inabalável e a sua possível ferocidade.

 

 

Alain Finkielkraut

in La sagesse de l’amour (Visage et vrai visage) pp. 85-86

© Éditions Gallimard, 1984

 

Tradução de Helena Cardoso para este blog.

 

Imagem e mais traduções de Helena Cardoso aqui



 

1. Barthes, Fragments d’un discours amoureux, p. 29




8.2.10

 

 

 

 

 

ENONE

 

 

 

 

Senhora, que fazeis? E que mortal pesar

contra aquilo que sois vos vem hoje animar?


 

FEDRA

 

 

 

Se Vénus assim quer, da triste estirpe minha

sou última a morrer, mais mísera e mesquinha.


 

ENONE

 

 

Mas amais?

 

FEDRA

 

É do amor que tenho tais furores.

 

ENONE

 

 

E por quem?

 

FEDRA

 

 

Vais ouvir um cúmulo de horrores.

Amo... E tremo de frio a nome assim fatal.

Amo...

 

ENONE

 

 

Quem?

 

FEDRA

 

 

Da Amazona o filho, sabes qual,

o príncipe a quem sou, tanto há, de aversão cheia?

 

 

ENONE

 

Hipólito! Ó Céus!

 

FEDRA

 

És tu quem o nomeia.

 

 

ENONE

 

 

Gela-me o sangue, ó Céus!, nas veias já não passa.

Ó desespero! Ó crime! Ó deplorável raça!

Ó viagem de azar! Ó margens lamentosas,

preciso era chegar-te às costas perigosas?

 

 

FEDRA

 

 

Vem de mais longe o mal. Quando ao filho de Egeu

pouco havia me unira a lei do himeneu,

e tudo em paz feliz dir-se-ia me ficou,

meu soberbo inimigo Atenas me mostrou.

Vi-o, corei, perdi a cor e de repente:

e a turvação subiu em mim perdidamente;

meus olhos já sem ver, eu sem falar poder;

todo o corpo senti como transido a arder.

Vénus reconheci e seu fogo implacável,

ao sangue que ela odiar tormento inevitável.

Assíduos votos fiz, cuidei que os desviava:

Um templo a ela ergui e eu mesma o enfeitava;

com vítimas em volta eu mesma guarnecida,

nos seus flancos busquei minha razão perdida,

para amor sem ter cura uma incapaz poção!

E a minha mão no altar queimou incenso em vão:

Quando a Deusa implorando a boca eu já movia,

Hipólito adorava; e ele era quem eu via

mesmo ao pé desse altar onde eu turibulava

e sem ousar nomeá-lo a um Deus tudo ofertava.

E sempre o evitei. Triste miséria, ai!,

revê-lo o meu olhar nos traços de seu pai.

Contra mim mesma enfim me pude decidir:

E a mim me encorajei a sempre o perseguir.

Inimigo a banir da idolatria à custa,

o desgosto afectei de uma madrasta injusta;

seu exílio exigi e meus gritos eternos

o arrancaram do seio e dos braços paternos.

E eu respirava, Enone, e desde a sua ausência,

dias menos febris corriam na inocência.

Submetida a Teseu, mas escondendo os lutos,

do himeneu fatal eu cultivava os frutos.

Vãs precauções! Cruéis em mim destino e vida!

Por meu próprio marido a Trezénia trazida,

o inimigo revi que eu soubera afastar:

Ficam-me em carne viva as feridas a sangrar,

Não é mais um ardor que em minhas veias erra.

É Vénus, ela só, que a sua presa aferra.

Concebi por meu crime um bem justo terror;

odiei vida e chama e vi-as com horror.

Morrendo eu quis cuidar de ter glória futura,

quis o dia livrar de flama tão escura:

mas choro e insistência em ti ver não podendo,

tudo te confessei, e já não me arrependo,

desde que desta morte acates a chegada

e não me aflijas mais nem me censures nada,

e que em socorro vão deixes de convocar

um resto de calor prestes a se exalar.

 

 

 

 

 

 

 

 

Fedra de Jean Racine ( Acto I  - Cena III )

tradução de Vasco Graça Moura

 

© Vasco Graça Moura e Bertrand Editora, 2005

 

 

 

 

aqui

 

 

Fedra encenada por Patrice Chéreau em DVD  

aqui

 

 

 

 

 

 

 

 

 


27.1.10

 

 

Je crus d'abord que Paola apprécierait mes efforts pour la faire jouir, mais elle les prit pour un reproche de ma part, pensant que je lui en voulais de ne pas pouvoir arriver à la jouissance. Bien sûr, j'essayai de la persuader qu'il n'y avait pas que le plaisir physique, loin de là, et qu'il était trop facile, et idiot, de fairedel'orgasme un fétiche. Elle en convint. Mais ce que la société sanctionne comme un bien essentiel devient aussi un impératif moral (qu'il s'agisse du salut de l'âme ou du corps) et on ne peut s'y soustraire qu'au péril de sa conscience. Paola ne pouvait pas plus s'empêcher de se sentir coupable de sa frigidité qu'elle n'aurait pu, au Moyen Âge, se sentir vertueuse en faisant l'amour. En fait, je regrettais parfois que nous ne puissions retourner au douzième siècle, car alors elle aurait pu s'enorgueillir de sa froideur, marque de sa vertu, et elle n'aurait eu le sentiment de pécher que par les délices de la chair, tandis qu'à présent elle était vouée à se sentir coupable de ce qui était une pénible frustration. Et je ne pouvais pas m'empêcher de me sentir coupable moi aussi. Si elle avait été plus jeune, et ne s'était pas encore persuadée que son infortune n'était pas due à son amant, nous aurions peut-être fini par nous sauter à la gorge (même avec les frigides, il vaut mieux avoir affaire à une femme mûre), mais nous avions beau savoir que je n'étais pas en cause, j'avais tout de même une part subsidiaire dans sa souffrance. Et mes efforts pour la soulager aggravaient encore la situation. D'un autre côté, fermer les yeux sur cette fièvre et cette déception désespérante de son corps, c'eût été nier jusqu'à la sympathie élémentaire qui nous liait l'un à l'autre. Nous nous perdions dans un désert d'impossibilités.

Paola disait qu'en la désirant et en jouissant d'elle je lui donnais le sentiment d'être une vraie femme, et il arrivait qu'elle soit la bienheureuse mère de mon plaisir. Mais la maîtresse, elle, n'aurait pu supporter les attentes qui couvaient en elle sans jamais s'enflammer, si elle n'avait été dans un état de vigilance désespérée. Il y aurait bien peu de problèmes sexuels si on pouvait tous les attribuer à des inhibitions, et pourtant, au début, je crus tout naturellement que, si Paola refusait de se prêter à certaines fantaisies érotiques, c'était par pudeur. Mais sa résistance acharnée s'avéra due, non pas à la timidité, mais à la crainte. Une crainte qui fusait dans le bleu de ses yeux et planait sur son corps blanc et longiligne — la crainte de faux espoirs et d'échecs plus profonds.

Un regard langoureux suffisait à la mettre sur ses gardes. Elle avait horreur de se laisser entraîner, ou plutôt d'oublier qu'elle en était incapable. Par une douce soirée de mars, nous étions assis à la terrasse d'un café à regarder le flot de la splendeur humaine et, comme elle semblait gaie et détendue, je me mis à la regarder avec insistance, comme une étrangère que j'aurais voulu ramasser. Elle haussa les sourcils et détourna la tête. «Tu t'aimes trop, voilà ton problème.

—   Comment aimer quiconque si on ne s'aime pas soi-même ?

— Pourquoi devrais-je m'aimer? demanda-t-elle avec son objectivité désinvolte et déprimante. Pourquoi devrions-nous aimer quiconque ? »

Nous aurions peut-être pu venir à bout de son incapacité à jouir physiquement, mais les conséquences métaphysiques ouvraientun abîmeentre nous.

 

 

Stephen Vizinczey

in Éloge des femmes mûres pp.246-247-248

 

Traduit de l’anglais par Marie-Claude Peugeot

© Éditions Gallimard, 2006

 

 

 

 

 

Em português na editora Cotovia 


22.9.09

 

 

 

 

 

 

 

Uma obra inspiradora sobre a actualidade dos "clássicos", graças à paixão com que o autor tanto enuncia a "verdade" dos seus escritores favoritos (Stendhal, Tolstoï, Dostoïevski, Kleist) como denuncia a "mentira" dalguns dos seus ódios de estimação (de Goethe a Melville, passando por um certo ‘establishment’ das letras americanas). 

 
Breves excertos do ensaio "One of the very few ", dedicado a Stendhal :
 

C'est lorsque aucune position sociale n'est sûre et qu'aucune idée ne peut être tenue pour acquise que les vérités sur notre existence peuvent faire surface. Le danger est la muse de la fiction. C'est sous son emprise qu'ont oeuvré les écrivains qui (avec la force de leur génie) ont pénétré derrière la façade sociale, au-delà des conceptions biaisées de leur époque, et ont recréé nos destinées comme si on pouvait les contempler à travers le regard de Dieu. Stendhal était l'un de ces very few : il écrivait au temps présent éternel.

 
 

«Vivre c'est sentir, avoir des émotions puissantes », écrit-il, formule qui n'est pas ce truisme qu'elle paraît être. Il se soumet à toutes les sensations si elles sont assez intenses: même douloureusement ressentie, une défaite est une victoire. Ce qui importe est d'éprouver pleinement le miracle d'exister. (...) On pourra voir une clé nous permettant de comprendre tant son oeuvre que son caractère dans le fait qu'il conseille à juste titre à ses lecteurs de ne pas perdre leur temps à le lire s'ils n'ont pas passé au moins six mois dans les affres de l'amour.

 

 

Stendhal n'est pas fait pour les érudits, ni pour les intellectuels des lettres, en nombre heureusement limité : son oeuvre traite des émotions humaines, notre lot commun. Il ne se soucie de plaire ni aux femmes prétentieuses, ni aux hommes "positifs" trop occupés à gagner cent mille francs par an et à gérer une main d'oeuvre de deux mille employés pour perdre leur temps à des choses inutiles, ni à l'étudiant si enchanté d'avoir appris le grec moderne qu'il pense déjà à se mettre à l'arabe ; mais il n'exclut pas de ses happy few la sorte de gens qui font fortune à la Bourse ou à la loterie. Selon Stendhal, de tels jeux de hasard, qui suscitent de fortes émotions, sont tout à fait compatibles avec les sentiments inspirés par une grande peinture, une phrase de Mozart ou un éclat dans le regard d'une femme.

 

Stephen Vizinczey

traduzido do inglês por Philippe Babo

© Éditions Gallimard, 2006

 

 

 

Descobri Vizinczey em França, onde comprei num aeroporto a edição de bolso do seu romance Éloge des Femmes Mûres, editado em Portugal pela Cotovia.

Truth and Lies in Literature, antologia de críticas e ensaios, na maioria publicados em jornais ingleses e americanos, inclui ainda alguns textos notáveis sobre a experiência pessoal do autor.

Nascido na Hungria em 1933, Stephen Vizinczey, que combateu o Exército Vermelho nas ruas de Budapeste em 1956, exilou-se no Canadá. Em 1965 publicou neste país, em edição de autor, o romance In Praise of Older Women, escrito em inglês. Enviou-o a Anthony Burgess e Graham Greene, que o acolheram com entusiasmo. Em Inglaterra o livro tornar-se-ia um ‘best seller’, valendo-lhe uma carreira internacional. 
 
 
Mais sobre Truth and Lies in Literature aqui

Um excerto de Éloge des Femmes Mûres aqui 

 

 



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