11.5.16

 

 

Charles_Maurice_de_Talleyrand-Périgord_by_Franço

Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord,

bispo de Autun, príncipe de Benevente, 1754-1828

(François Gérard, 1808)

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

La douceur de vivre*

 

 

 

 

Amigo recolhido há muitos anos para lá da barbacã do Alzheimer deixou-nos de vez há dias. Era homem de outro tempo – como às vezes chamamos ao passado - e gostaria de ter nascido em tempo mais passado ainda. Quando fora novo e ia e vinha de Bruxelas a Lisboa de automóvel dava sempre volta larga para não passar por Paris. Porque em Paris, com a Revolução Francesa de 1789, começara a tragédia do mundo moderno.

 

Lera com certeza as Reflexões sobre a Revolução em França de Edmund Burke, publicadas logo em 1790, mas mesmo que o não tivesse feito percebia tão dolorosamente quanto o parlamentar irlandês da Câmara dos Comuns o rombo brutal às tradições que começara a ser aberto; a preferência funesta dada a princípios abstractos sobre costumes. E, se fora admirável em Burke a previsão perspicaz, o meu amigo sofrera, nos decénios da sua vida lúcida, o desenrolar sem remissão desse futuro impiedoso. Está agora na moda dizer mal da Revolução Francesa mas ele não era homem de modas: pensava o que pensava desde os seus anos (brilhantes) de universidade. Ceux qui n’ont pas vécu avant la Révolution n’ont pas connu la douceur de vivre.

 

Do que pouca gente se dava conta e muitos se davam conta achando bem. Sobretudo na Europa continental, farta de monarquias absolutas, e nos Estados Unidos da América, bêbados de independência triunfante, com escravos e índios a amortecerem a pancada. O grande poeta inglês William Wordsworth cantou a felicidade de ser vivo e ainda por cima novo nos momentos gloriosos da Revolução do outro lado do canal mas, nas suas ilhas, tal visão foi sempre minoritária. A prudência e o bom senso britânicos prevaleceram, na convicção de que todo o cuidado seria pouco. O Dr. Samuel Johnson – lexicógrafo, considerado homem tão espirituoso que em dicionários de citações inglesas só Shakespeare, Oscar Wilde e Bernard Shaw o batem em número de entradas – quando a Duquesa de Devonshire, acolhendo-o para sarau literário na sua casa de Londres, lhe disse, entusiasmada, ir ter entre os convidados dessa noite dois revolucionários de Paris, respondeu: “Watch the silver, Madam!” (“Atenção à baixela!”).

 

Coube-nos estar a assistir ao fim desse enorme sobressalto mas nem de longe foi a primeira vez que a história alarmou espíritos atentos. Há poucos anos alguém enumerou o que considerava as piores catástrofes do percurso ocidental, começando já se vê no Próximo Oriente. Por ordem cronológica: monoteísmo; cristianismo primitivo; reforma; Marx e, acrescentaria eu se Thérèse Delpech ainda fosse viva para o defender melhor do que eu o teria atacado, Freud. Desde que o Homo sapiens deu por si, a Dor humana busca os amplos horizontes e tem marés de fel como um sinistro mar.

 

“Não há-de ser nada!” diria o Senhor Engenheiro e, embora o destino não tenha sido o seu forte, está sol em Bruxelas e suspendo a descrença. O mais de tudo isto é Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca.

 

 

 

*Com vénia a Talleyrand, Cesário e Pessoa.

 

       

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8.3.14

 

 Thérèse Delpech

 

 

Chaque époque a l'épidémie qu'elle mérite. Au temps de Freud, ce sont les maladies de l'âme qui font une entrée spectaculaire. Elles avaient certes une histoire aussi longue que celle de l'humanité, mais au moment où la psychanalyse voit le jour des bouleversements historiques inédits multi­plient les risques de déséquilibre psychique. Dès l'Antiquité, Thucydide et Euripide, évoquant respectivement la guerre du Péloponnèse et la guerre de Troie (1), décrivent les ravages qu'exer­cent sur la psyché les grandes transformations de l'histoire. Au XIXe siècle cependant, la tourmente a quelque chose d'incommensurable avec tout ce qui l'a précédée, car il s'agit d'une perte irrépa­rable du passé, décrite par Chateaubriand dans les Mémoires d'outre-tombe. Un abîme sépare désormais l'ancien monde et le nouveau. L'esprit, tourmenté par cet abîme, s'engage dans des aven­tures intérieures dont témoignent les portraits romantiques, avec leur regard sombre tourné vers le dedans. Ce qu'ils y voient, Freud pense l'avoir découvert près d'un siècle plus tard, au terme d'une odyssée personnelle aussi longue et péril­leuse que celle d'Ulysse, où il se retrouve non à Ithaque, l'île de l'heureux retour chez soi, mais à Thèbes, lieu de meurtre, de suicide et de culpabi­lité, où règne l'« inquiétante étrangeté » décrite par le romantisme allemand. Que s'est-il donc produit ?

 

Le rapport que l'époque entretient avec le passé fournit précisément une réponse. Au XIXe siècle, celui-ci subit de tels coups de boutoirs - poli­tiques, familiaux, religieux - qu'il explose littéra­lement, faisant voler en éclats tous les repères de la tradition. Balzac dira que l'on se trouve désormais au milieu des débris d'une grande tempête. Rien n'avait préparé le psychisme à de tels bouleversements, car la conjonction de la tabula rasa de la Révolution, de la remise en cause de l'autorité du pater familias, et de l'apparition d'un monde laïcisé n'avait pas de précédent. Les névroses que traite Freud sont souvent l'expres­sion du vertige qui en résulte : l'intériorité est comme perdue dans un labyrinthe (2). L'inventeur de la psychanalyse n'aurait donc pas imposé à l'humanité sa névrose personnelle, comme le prétendent ses détracteurs. Il n'aurait pas davantage fourni une explication universelle du psychisme humain avec le thème du parricide, comme le voudraient ses fidèles. En créant une nouvelle science de l'âme il aurait simplement exprimé la tragédie intime de son temps.

 

Thérèse Delpech

in L'Homme Sans Passé, Freud et la Tragédie Historique

(Prologue - La Grande Rupture)

© Éditions Grasset & Fasquelle, 2011

 

 

 

1. Raymond Aron a souligné les analogies entre les bouleversements introduits par les grandes guerres euro­péennes et ceux de la guerre du Péloponnèse.

 

2. Voir le thème du labyrinthe chez Chamisso, où le diable joue le rôle du guide.

 

 

 

 

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25.12.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Velhice, soberba, bases e cúpulas

 

 

Amigos da mãe de Emílio achavam que no tempo deles: “O céu era mais azul e as cabeças dos bois eram maiores”.

 

Estava-se na Alemanha de 1929, 4 anos depois Hitler era esmagadoramente eleito Chanceler. A seguir os livros de Erich Kästner foram banidos (salvo Emílio e os Detectives, célebre em todo o mundo e, mesmo aos olhos zelosos de censores alemães, inocente). Li-o e reli-o em pequeno e achava risíveis os amigos de Frau Tichbein. Hoje, tendo passado há muito a idade deles, a memória serve-me de aviso.

 

Quando penso na decadência de Portugal, evidente aos meus olhos, lembro-me de ensaio magistral de Thérèse Delpech, Deus lhe tenha a alma em descanso – eu não sou crente mas ela era – analisando, desde a antiguidade clássica, a propensão europeia para achar que tudo vai de mal a pior, intercalada por explosões de energia viradas para o futuro; lembro-me de Fernando Pessoa a carpir-se — “Nem rei nem lei / Nem paz nem guerra / Define com perfil e ser / Este fulgor baço da terra / Que é Portugal a entristecer / Brilho sem luz e sem arder / Como o que o fogo-fátuo encerra” — mas a carpir-se na Mensagem; lembro-me da passagem de Eça em A Ilustre Casa de Ramires — “Já porém com a Pátria degenera a nobre raça” —  contradita pela qualidade da crónica de família que Eça faz Gonçalo escrever e pela prosa superior da própria Ilustre Casa. Além disso, calharam-nos entretanto tantos triunfos felizes que seguramente os pessimistas nem sempre tiveram razão. Mas se a tivermos agora? Se o ramalhete de políticos no governo e na oposição for a pior colheita desde a Convenção de Évora-Monte (1834), incluindo Integralistas Lusitanos e Capitães de Abril? E se não for? Seria prudente socorrermo-nos de correcção política e acrescentarmos a cada catilinária “Salvo Alzheimer incipiente do autor”? Ou – vez sem exemplo – terão os velhos razão?

 

A soberba fia mais fino pois o pecador raramente dá por ela —  e em política as bases são sempre piores do que as cúpulas. Na batalha retórica travada entre o Norte e o Sul da Europa, invectivas exageradas abundam: o patriotismo, como se sabe, é o último refúgio do bandalho. Dar sentido a essa pendência é tarefa filosófica e eu filósofo não sou. Mas, do tempo de antropólogo, ficou-me o jeito de apanhar o que as pessoas dizem e, quando se trate de soberba, ocorre-me almoço com o Luís Sttau Monteiro, há 50 anos, numa tasca de Algés. Bacalhau à Braz e favas com chouriço mouro. O bacalhau estava óptimo; a seguir vieram as favas, manhosas logo à vista. O Luís provou uma garfada e disse: “Ná, não é isto”. Olhou para mim e acrescentou: “Mas a verdade é que nós também não somos”.

 

Na Alemanha, milhões que também não são e nunca hão de dar por isso, encontram porta voz em Angela Merkel. Se, em 1940, Churchill e De Gaulle houvessem seguido assim o sentimento fundo da maioria de ingleses e franceses, Hitler teria ganho a guerra. A história não se repete mas, como dizia Mark Twain, às vezes rima.

 

Bom Natal.

 

 

 

 

 

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