10.4.16

 

 

A. Calpi Taças_n.jpg

 Galeria espaço AZ, Lisboa

 

 

 

 

Patente até 24 de Abril em Lisboa, a exposição "Colectiva" apresenta um vasto conjunto de obras confeccionadas por A. calpi desde o ano 2000 a partir de objectos abandonados, restos de colecção e materiais descartados.

 

A colecção de colagens, esculturas e assemblages, suportada por elementos de cenografia e decoração, inclui desde pequenos objectos até imponentes e delicados  "troféus" e "monumentos", erguidos dia a dia por A. calpi ao sabor do que se lhe ofereceu ao longo dum percurso criativo singular, marcado por incursões em géneros muito diversos e tendo por pano de fundo o amor pelo teatro e a alta cultura.

 

A quantidade e a diversidade de peças expostas, a sua laboriosa complexidade, e a forma como se encontram distribuídas pelos diferentes espaços da galeria conferem a esta primeira mostra a densidade de uma retrospectiva: meditação bem humorada e melancólica sobre a passagem do tempo e a vida dos objectos, cartografia dos estados de alma do artista, labirinto poético não isento de inquietação.

 

 

 

 

 

"Colectiva" de A. calpi

Curadoria: Eva Oddo [texto da exposição aqui]

 

Na Galeria espaço AZ aqui

Travessa Fábrica dos Pentes, 10

Lisboa

Exposição patente até 24 de Abril, Quinta a Domingo das 16H00 às 20H00

 

Acção dramática “Morre Pr’aí” / “Drop Dead” / “Die Hard” de 11 a 24 de Abril

 

Para adultos. Quintas, sábados, domingos e segundas às 19H30.

Nestes dias a galeria fecha às 19h30 e não será possível aceder depois desta hora.

Número limitado de lugares, sujeito a reserva por e-mail [colectivac@gmail.com].

 

 

 

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29.6.15

 

 

 

La vida es un sueño y los sueños sueños son. Calderón cut a play's title out of that old Spanish proverb. Life is a Dream. The rest translates: 'Dreams are dreams.'

 

On the fifth of March 1933, the banks of the nation closed. Led more by a nose for drama than by the concern proper to a son, I hustled uptown to see how the 'old man' was weathering the crisis; my curiosity was not altogether sympathetic.

 

His business was located at 295 Fifth Avenue, the Textile Building, a hive of importers, wholesalers like himself, dark-complexioned men, immigrants all, most of them Armenians but some Anatolian Greeks, as well as a few Persians, Syrians and Egyptians. These men had come overseas from the East, propelled by a dream: that here their throats would not be cut. Working in the dust of carpets, living alone in dark back rooms, depriving themselves of pleasures, they'd put the dollars together, year after year, obeying the voice in the air of America; to accumulate money; that was safety, that was happiness. They married late, unromantically, going back to their native lands, as my father had, to find a proper woman out of their own tradition, ten, fifteen, twenty years younger, then made children as quickly as possible in half-paid-for homes while dutifully continuing to feed their accounts in banks whose doors, that morning, had remained locked.

 

Generally these men entered my father's store only when they had a customer whose needs they weren't able to meet from their own stock. They'd escort this buyer to Father's place and there pick up, in place of a profit, a commission. These encounters were rare since they were a last resort. My father's competitors paid each other no casual visits. But when I walked in that morning, there they were, a dozen or more, sitting cross-legged on piles of three-by-five Sarouk or Hamadan 'mats', clumped together in static postures, like hens roosting. Motionless, inanimate, they seemed to be waiting – but for what? Occasionally a few mournful words would be mumbled, a puzzled complaint. No response was expected, none offered.

 

Skirting the motionless figures, I circled back to the small desk where I was supposed to tend the accounts-due books. With business as bad as it had been, there'd been little to do that summer. I'd typed a few letters: 'Your immediate check would be sincerely appreciated' or 'We will regretfully be forced to place your account in the hands of our lawyers.' But most of the time I'd tilted up the large stock of our book and hidden The Brothers Karamazov behind it. This had been noticed, of course, and reinforced the general opinion that I was a young man without a future.

 

On this morning I sat idle, like the others, studying the assembly of merchants, men whose skins had once been a rich olive and were now pale from worry and the cold light that concrete walls shed. They're like shipwrecked sailors, I thought, thrown up on a desert and waiting for someone to rescue them.

 

Actually my father's business had gone 'kaput' - his word — three years before, in 1929, when the market collapsed. He'd put the yield of a life's labour into a stock issued by the National City Bank. Bought at just over 300, climbing as millions cheered past 600, it then rumpled with all the others down the mountain of high finance, like the boulders of an avalanche, to 23. At that time, he'd thought of his disaster as something for which he was in some way responsible; he must have done something wrong, made some awful mistake. Had he been outsmarted? Had he been cheated?

 

But now, in 1933, on the day the banks closed, surrounded as he was by men who shared the catastrophe — no one smarter, no one luckier, he knew them all to be as ordinary as he was - Father must have begun to accept that what had happened was more serious than any mistake he could have made. The men around him were all bleeding from the same invisible lesions. In a few years many of them would be out of business. They all shared a dread of what was coming.

 

 

Elia Kazan

in  A Life   p.102-103

© Elia Kazan 1988

 

 

Elia Kazan.jpg

 

 

On board the Keiser Wilhelm which brought us to America (1913)



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23.12.14

 

Natal consoada Panorama.jpg

 

 Aparador da Consoada

Composição do natural, de Francisco Lage*

 

 

Rabanadas da consoada  (Douro)

 

 

Pão de forma                          1

Ovos                                         6  a  8

Manteiga                                50  gramas

Açúcar                                    1  quilo

Canela                                    q.b.

 

 

Põe-se o açúcar a ferver com água suficiente e deixa-se tomar ponto de espadana.

 

Corta-se o pão às fatias finas, não se utilizando as dos topos. Batem-se os ovos e neles se mergulham as fatias até ficarem bem repassadas. Fritam-se logo a seguir na calda, a que se juntou a manteiga, até que os ovos que as emvolvem fiquem bem cozidos. Com uma escumadeira vão-se retirando as fatias e colocando numa travessa funda. Polvilham-se de canela e regam-se com o resto da calda em que se fritaram.

 

 

 

 *

 

 

Sonhos fofos

 

 

Ovos                                        6

Farinha                                  1  chávena

Manteiga                              60  gramas

Açúcar                                   90  gramas

Canela                                   q.b.

Sal                                          q.b.

Fermento em pó                1  colher de chá

Calda de açúcar                  q.b.

 

 

Põem-se a ferver o leite, a manteiga, o açúcar, a canela e o sal; levantando fervura vaza-se-lhe para dentro, de repente, a farinha e mexe-se até que fique enxuta e cozida.

 

Deixa-se então esfriar um pouco e juntam-se o fermento e os ovos, um a um, ligando-os muito bem com a massa. Amassa-se com a mão até ficar uma massa leve. Fritam-se colheradas desta massa em bastante óleo ou azeite fervente. As colheres devem ser de sobremesa e pequenas pois os sonhos crescem bastante enquanto se fritam.

 

Cobrem-se depois os sonhos com calda de açúcar não muito espessa e aromatizada com baunilha e servem-se frios.

 

 

 

M.A.M. [pseud. colectivo de Maria Adelina Monteiro Grillo e Margarida Futscher Pereira]

in Cozinha do mundo português [p. 661 e p.664] 

Porto: Livr. Tavares Martins, 1962

 

* Imagem: Foto Mário Novais

Revista Panorama, Número 4, III Série, Dezembro de 1956

in Caderno "O Natal Português" de Francisco Lage

 

 

 

 

FELIZ  NATAL 

 

 

 


8.3.14

 

 Thérèse Delpech

 

 

Chaque époque a l'épidémie qu'elle mérite. Au temps de Freud, ce sont les maladies de l'âme qui font une entrée spectaculaire. Elles avaient certes une histoire aussi longue que celle de l'humanité, mais au moment où la psychanalyse voit le jour des bouleversements historiques inédits multi­plient les risques de déséquilibre psychique. Dès l'Antiquité, Thucydide et Euripide, évoquant respectivement la guerre du Péloponnèse et la guerre de Troie (1), décrivent les ravages qu'exer­cent sur la psyché les grandes transformations de l'histoire. Au XIXe siècle cependant, la tourmente a quelque chose d'incommensurable avec tout ce qui l'a précédée, car il s'agit d'une perte irrépa­rable du passé, décrite par Chateaubriand dans les Mémoires d'outre-tombe. Un abîme sépare désormais l'ancien monde et le nouveau. L'esprit, tourmenté par cet abîme, s'engage dans des aven­tures intérieures dont témoignent les portraits romantiques, avec leur regard sombre tourné vers le dedans. Ce qu'ils y voient, Freud pense l'avoir découvert près d'un siècle plus tard, au terme d'une odyssée personnelle aussi longue et péril­leuse que celle d'Ulysse, où il se retrouve non à Ithaque, l'île de l'heureux retour chez soi, mais à Thèbes, lieu de meurtre, de suicide et de culpabi­lité, où règne l'« inquiétante étrangeté » décrite par le romantisme allemand. Que s'est-il donc produit ?

 

Le rapport que l'époque entretient avec le passé fournit précisément une réponse. Au XIXe siècle, celui-ci subit de tels coups de boutoirs - poli­tiques, familiaux, religieux - qu'il explose littéra­lement, faisant voler en éclats tous les repères de la tradition. Balzac dira que l'on se trouve désormais au milieu des débris d'une grande tempête. Rien n'avait préparé le psychisme à de tels bouleversements, car la conjonction de la tabula rasa de la Révolution, de la remise en cause de l'autorité du pater familias, et de l'apparition d'un monde laïcisé n'avait pas de précédent. Les névroses que traite Freud sont souvent l'expres­sion du vertige qui en résulte : l'intériorité est comme perdue dans un labyrinthe (2). L'inventeur de la psychanalyse n'aurait donc pas imposé à l'humanité sa névrose personnelle, comme le prétendent ses détracteurs. Il n'aurait pas davantage fourni une explication universelle du psychisme humain avec le thème du parricide, comme le voudraient ses fidèles. En créant une nouvelle science de l'âme il aurait simplement exprimé la tragédie intime de son temps.

 

Thérèse Delpech

in L'Homme Sans Passé, Freud et la Tragédie Historique

(Prologue - La Grande Rupture)

© Éditions Grasset & Fasquelle, 2011

 

 

 

1. Raymond Aron a souligné les analogies entre les bouleversements introduits par les grandes guerres euro­péennes et ceux de la guerre du Péloponnèse.

 

2. Voir le thème du labyrinthe chez Chamisso, où le diable joue le rôle du guide.

 

 

 

 

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15.9.13

 

Nas praias solitárias da ilha de Timor as frondes e as palmas sacodem já uns vagos restos de neblinas. Vale de Lahane acima vão fugindo esgarçadas pelos fustes mais altos; alcandoram-se, por fim, ameaçadoras, nas ramagens sombrias da verde floresta de eucaliptos. As linhas de cumiada cobrem-se de uma vegetação estranha. As árvo­res são as mesmas, os eucaliptos de tronco rugoso e escuro, mas em vez de folhas pegam-se aos ramos e raminhos os farrapos de musgo, cor do nevoeiro. Estranha paisagem, repito, como a de um país do Norte, onde a voz se escoa em surdina e o olhar descobre formas deambulantes e translúcidas, por entre a profusão de fetos arborescentes, polipódios, «ninhos de ave» e outras plantas que recordam os primei­ros tempos da Terra. Verdadeiramente, uma paisagem de sonho onde a solidão cami­nha a nosso lado e se insinua connosco nas profundidades inenarráveis do mistério. Quando, porém, o sol devassa aquela penumbra esverdeada e evapora de todo os nevoeiros, é ainda a solidão que nos espera, mas uma solidão alheia aos secretos apelos da vida. A natureza remoça, temporariamente, mas sem a omnipresença das seivas criadoras. E o mistério perdeu-se.

Era o tempo de abrir a alma aos quatro ventos, subir para as alturas e aspirar o ar fino e frio; de me sentir o senhor da Terra, «Rainai» de Timor, absorto... Das grandes alturas a vista imensa abarca montes e montes, serranias cruzadas, dois a três mil metros rolando, como as vagas de um mar fortemente encapelado. A ilha sente ainda a proximidade do anel de fogo que nas Flores e em Lomblem ascende em majestosos vulcões; do Tata-Mai-Lau posso abranger em dias claros de Setembro o maior comprimento, e de ambos os lados o mar sem fim, limitado ao Norte pelos maciços das restantes ilhas do grande arquipélago: Alor, Ataúro, Liran, Wetter, Kissar...

Mas ensimesmado pelo sortilégio vegetal da minha ilha havia de descer aos vales umbrosos onde me esperam tantas surpresas e deslumbramentos. Para que lado me dirigir? A costa norte é já sobejamente conhecida desde Maubara a Lautem. Com pequenas variantes, acidentes de rocha, sobretudo, a charneca doirada onde os eucaliptos de tronco estrangulado e alvadio, como de róseo marfim, os coqueiros da beira-mar, os «akadiros» e as palapas, — figuras extáticas do classicismo dos trópicos —, se misturam às acácias de para-sol, às casuarinas das margens dos ribeiros e ainda às manchas viridentes, contrastadas, dos bosques marítimos. Viria, passados tempos, a descobrir-lhe as surpreendentes belezas, quando, saciado dos vergéis e selvas misteriosas da costa sul, viesse repousar na sombra acariciante dos parques de tamarindo e jujubeiras? E ao ouvir o cristalino acento de um regato perdido na solidão ardente, saberia então olhar os elementos de que era feita a paisagem desprezada? E aprenderia a amar as grandes linhas sóbrias de uma praia solitária, de uma escarpa descida verticalmente no mar, de uma encosta onde a erosão abria profundas feridas, ...as colinas ondulantes e, sobretudo, a pureza luminosa que se filtrava na tarde calma pela folhagem clara da floresta aberta do Eucaliptus alba?



 

 

Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

"Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo"

Números 36 e 37, ano de 1948

 

Foto: Ruy Cinatti (1947)

 

 


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1.9.13

... São quatro e meia da tarde. A chuva deve durar mais hora e meia. Não há nada a fazer. Sinto-me feliz, contente... Supor que me encontro tão longe de tudo!... Longe das complicações humanas, da vaidade dos cargos, da estupidez consagrada em frases de estereotipo... Para me sentir feliz, basta-me esta choupana desconjuntada e a companhia silenciosa dos indígenas. Encontro-me em perfeita comunicação com o ambiente, numa exaltação sossegada e plena. Encostado ao batente da porta, vou entretecendo ideias vagabundas, sempre à beira do sonho ou da sensação. A Natureza pensa e o homem segue os instintos de uma reminiscência obscura. Os indígenas conseguiram acender uma fogueira. Não posso dominar a comoção que me obriga a envolver os companheiros num olhar de profunda simpatia. Ei-los, acocorados, silenciosos, prontos a obedecer ao mais pequeno sinal. Não dizem nada, mas pensam decerto no «malaio» que os manda ao alto cimo das árvores para colher folhas e flores. Um deles pôs-se de joelhos e, de olhos dilatados, vai soprando a fogueira hesitante. Outro, dobra nos dedos adestrados a folha de begónia, dá-lhe a forma de um copo e estende o braço para a goteira aberta no telhado de capim. Como lhes estou agradecido!... Inteligentes, profundamente psicólogos, incapazes de esquecer, de uma dedicação sem limites. Pensar que estes desgraçados timorenses sofriam resignadamente a incompreensão de quase todos, tinham passado por uma guerra sem quartel... — E agora?!... Exceptuados os missionários, quem se importa com a alma do indígena?! Onde clamam as vozes de Afonso de Castro, de Celestino da Silva, de Armando Pinto Correia... de tantos outros, nobres e humildes que à terra de Timor deram a inteligência e o coração português? Existia uma certeza: mais cedo ou mais tarde a Verdade havia de vencer nas almas; a pureza, a justiça e outros poderes mais transcendentes ainda, seriam coroados pela realidade magnífica de um Timor novo. E a força dos jovens não temia os obstáculos, nem a lógica cerrada dos raciocínios interessados. Quem não sabia defender-se e muito menos atacar, só podia ter uma linha de conduta: seguir em frente, fiel a si próprio e às gerações inúmeras... «talent de bien faire»... «désir»...


 

Ruy Cinatti em Timor

 

A chuva diminui; o céu clareia um pouco. Desanuviam-se os pensamentos e baixa-se à realidade rítmica da vida. Os companheiros estão prontos. Vamos partir dentro de alguns instantes. Fragmentos de poesia afloram no meu espírito: «Ilha perdida de mistérios densa...» Vamos partir. Como sucedeu a Alberto Osório de Castro: «pelas cinco horas da tarde, sob um miúdo aguaceiro que se desfaz no radioso entardecer de nácar — róseo, flavo, verde de água, lilás».

 

E a conversa prossegue... o diálogo silencioso, por vezes iluminado, como em noites secas de Setembro, de fantásticas visões: o céu e o horizonte do mar fulgurando por detraz da fímbria em fogo das nuvens, som que o rolar do trovão seja mais que um surdo murmúrio distante. Diálogo traduzido em movimentos incompreensíveis, como os de um enamorado ainda hesitante, suspenso, não fosse com uma certeza mais fácil quebrar o encanto que a presença amada não teme. O descobrimento da árvore revelada nos sonhos, o Podocarpus imbricata, nos cimos da Mate-Bian, a montanha da alma dos mortos, depois de dois dias de procura estéril, em que o desejo foi mais forte que a vontade. A esperança segura, inabalável, de lá voltar um dia, para que na sombra esverdeada dos fetos arborescentes e junto da fonte glácida onde as colocásias molham os limbos lustrosos, possa reencontrar-me e jurar os votos de uma vocação definida: a de uma existência serena e silenciosa como a da floresta de paus-rosas, em Citrana, onde caminháramos durante horas seguidas. Onde, também, sem dar por isso, me tinha entregado à mais activa das missões: a de um homem para quem o florir da Natureza simboliza o resultado heroico de uma meditação e o trabalho fecundo ao fluir longo de um período de maravilhoso silêncio.

 

E posso ainda julgar descer à rua, para colher nos dedos transfigurados o véu de luar azul? Ou sequer as finas hastes de certas orquídeas de cachos estrelados, quando o cavalo teimoso me levava por sob a penumbra cinérea das casuarinas ? ... A neve perfumada dos cafésais em flor de Fatú-Bessi, a Sintra de Timor, de ravinas sombreadas pela «madre del cacao»... Quantas e quantas recordações se não levantam! É tocar ao de leve nas águas da memória, para que, sobrepostas e logo separadas em ondulações suavíssimas, ressurjam as imagens e a doce comoção que a saudade imensa reergue das brumas da ilha perdida.


Ruy Cinatti

in Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

Números 36 e 37 , 1948



Notas:


Imagem em Timor-Leste History Anthropology  aqui

Espólio de Ruy Cinatti na Biblioteca Universitária João Paulo II, Universidade Católica Portuguesa

 

 

Leia também O Timor de Ruy Cinatti  de Peter Stilwell | PDF in Revista Camões nº14/ 2001 aqui






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25.8.13


Eu vi um corvo coxo numa taberna de Santos e uma caravela em relevo no mármore de um chafariz e disseram-me que era Lisboa. Acreditei. As ruas escusas cheiram a gato e a manjerico; as artérias, a coiro da Rússia e a sangue azul, um poucochinho corado. Oh! que horizontes, do Castelo! e que betesgas, da Graça! Já lá vai Palmela com seus adarves no azul do Sul, e a Arrábida redonda e perdida no céu. Voici Sr. Neves retroseiro (on parle français a refugiados) e o inefável Poço do Borratém ainda com um olho encarnado ao luzir da noite alfacinha. Lisboa está florida de bandeiras, frutificada de nêsperas, semeada de cláxones de táxi. Ó ver a lista!, eh!, tás tu...e lá lhe foram sete paus àquele, a quinze 'stões a bandeirada!...Se me vejo em Alcântara enterneço-me.


Os marinheiros comem tremoço saloio; as meninas da Promotora assomam de permanente às sacadas. Uma abada de glicínias — e é um palacete à Junqueira; um martelo-pilão — e é a massa compacta e gris do Porto de Lisboa. Chamo Cesário Verde, mas só vejo um retrato de adolescente numa sala fechada; ainda oiço a tesoura de podar guiando a videira diagalves. Mas já não há Liverpool na caligrafia dos escritórios do Cais do Sodré, nem encontro no Martinho da Arcada a luneta cristalizada de Álvaro de Campos, engenheiro. Da Ribeira Nova foram-se as naus e os galeões. Agora só Leontina lá bate sua tairoca de varina e manda-me dizer pela amiguinha feia se lhe eu compro um oleado para o fundo da sua canastra. Os pintores do meu país pintam o peixe e a flor no paninho adorado de Leontina, e a ferradura e a cabeça de cavalo no peitoral da égua do Aterro.


Se abro o batente ao bar da Rua Nova do Carvalho é tal qual a Cannebière: merci Marseille, quai des Belges... Além disso bebemos ginger-beer como qualquer inglês; capilé-copo-com-água. E ginjinha... No coração de Lisboa há um frémito dourado e um centilitro de sangue moiro, de má fama. Estes olhos pretos da Mouraria quem são? Que ardor é este que trago no peito e que levo pela Calçada dos Cavaleiros acima como um amolador leva a carreta e os panos do guarda-sol? De bombazina é que era! e uma mecha de cabelo furando pelo buraco da boina! Oh manhãs douradas de azeitona a tanto o selamin, com centelhas de prata tiradas pelo sol das clarabóias!

 

Só me falta morar às Escolas Gerais e passar os serões do meu último inverno numa farmácia ao pé. Quem quer avenidas e bairros bonitos — pois também tem ! Há desde o azul ao diplomático, e do pátio às casas económicas é tudo roupinha lavada e cheirinho a café, graças a Deus! Mas eu quisera ardor mavioso e solidó! Uma violeta é pouco se o jornal da tarde trás a bola... Ao Domingo iríamos ambos ao Campo Grande andar de bicicleta e, pelo Arco de Cego, com flechas de Cupido, juraríamos eterna comunhão. Tenho um tio que mora na Parada dos Prazeres, um amigo na Praça da Alegria. Que mais queres? Com o fado da Triste-Feia era uma tarde bem passada... Mas já não querem dar valor e apreço às coisas sérias! Um homem não pode estar sempre a fingir que é só aquilo que come e o chapéu que tira às pessoas, pois também há o desejo, o dia de domingo, a estufa fria, o viaduto da auto-estrada — e a alma que quer e nada encontra... Lisboa é boa. Tem torres, garages, ardinas; tem tudo o que é preciso para se chegar no paquete e se partir de avião. Nossa Senhora do Monte vê a neblina no Tejo e o fumo no Cata-que-Farás. Às 8 da manhã o destroyer entrou a barra. Cheira a goivos! Cheira a goivos no Alto de S. João!

 


Vitorino Nemésio

Panorama, Revista Portugesa de Arte e Turismo

Número 32 e 33, Ano V, 1947

Edição do Secretariado nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo


 

 

 

Vitorino Nemésio

Retrato de António Dacosta




27.7.13


Le ciel ne voyage pas, mais les pensées parcourent des distances incroyables. Riches en vaticinatons, elles se servent des visions ailées qui ne se posent que de rares fois.

Il arrive qu'elles stagnent dans les cerveaux humains. Quand elles s'élaborent dans la matière grise, l'enceinte où elles gravitent se dessèche et les empêche de se projeter dans le rêve. Alors les pensées ne libèrent pas leurs facultés créatrices; elles restent inanimées et privées de magie. En revanche, le vol que produit le rêve ne sait pas ce que veut dire la mort.

 

Silvia Baron Supervielle

in Lettres à des photographies (Lettre 74)

© Éditions Gallimard, 2013




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30.6.13

 

 

 

Portugal, 1950

Fotos: Fernando Lezamenta Simões (1920-2011)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

auto-retrato, 1950

 

No verão passado digitalizei boa parte de três álbuns de fotografias de Fernando Lezameta Simões, gentilmente cedidos por sua filha Rita Simões Saldanha, a quem mais uma vez agradeço. Veja outras fotos de Fernando Lezameta Simões neste blog nas tags "automóveis", "barcos", "verão", e "tauromaquia".

 

Fernando Henrique - Tanas, para os amigos - nasceu na Freguesia de São Mamede em Lisboa a 8 de Março de 1920 e lá viveu até casar em 9 de Fevereiro de 1944 com Maria Helena Morais da Costa Araújo, que conhecera na infância, em São João do Estoril. Tiveram quatro filhos.

 

Rita, sobre o Pai:

 

Aos 17 anos deixou de estudar para ir trabalhar com o Pai, Carlos Freitas Simões, na empresa familiar de comercialização de produtos próprios, como arame e pregos, e importados, como espingardas e canas de pesca, estabelecida na Rua do Comércio 38.

 

Fez a tropa em Tavira e era muito popular e divertido. Casou com a noiva que conheceu em bébé no Beco (S. João do Estoril). Foi um Pai extremoso, e fez muitas vezes o lugar da Mãe, sobretudo afectivamente.

 

Viveu sempre apaixonado pela mulher que com a sua doença de nervos o fez sofrer muito e morreu como um passarinho.

 

 

 Um neto de Fernando L. Simões:

 

Foi ele que trouxe o ski para a familia ; hoje em dia vivo profissionalmente do ski, logo cada vez que dou uma aula....penso nele.

 

Foi ele que me ensinou o conceito de familia, pois todas as sextas- feiras ao longo de 30 anos reuníamos a familia em sua casa ao jantar para óptimos serões, conversas e jantares.

 

Era um óptimo contador de histórias.....e eu vou contar uma delas:

O Meu avô, quando o meu Tio Dudu foi operado aos olhos, para além de distribuir balões por todas as crianças do hospital....deu um ramo de flores em forma de agradecimento à enfermeira chefe ; um ano depois quando o meu avô voltou para consulta de rotina a enfermeira chefe disse....como está Sr Simões ; o meu avô ficou surpreso por ela ainda se lembrar do nome dele.......ela disse-lhe......nunca me hei-de esquecer do seu nome....no dia em que me deu as flores estava a caminho do metro....estava a chover e deixei cair as flores no chão.....um homem me ajudou......hoje é o meu marido !!!!

 

 

 

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6.3.13

 

 

 

Desk Murder 

Oil on canvas, 76.2 x 122 cm, c.1970–1984

 

 

R.B. Kitaj  (1932-2007)

 

em Londres até 16 de Junho de 2013  aqui

 

Leia aqui

 

 

 

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18.1.13

 

 

  J.-B. Pontalis

 

 

 

« Le fond de l'amour c'est de penser à quel­qu'un hors de sa présence, puis hors de propos, puis malgré la présence », écrit Hector Bianciotti rendant compte de la correspondance entre Rilke et Magda von Hattingberg.

Peut-être est-ce là le fond de l'amour. C'est sûrement le cas du transfert amoureux. La pré­sence de l'analyste est la condition nécessaire pour qu'un transfert puisse naître; mais trop de pré­sence, une présence trop affirmée, en chair et en os, et trop constante, entrave le déploiement du transfert, lui assigne une direction et une seule.

Absent présent, présent absent définit la place, la non-place de l'analyste: cette non-place sans cesse réinventée qui favorise la « correspondance » amoureuse, l'échange de lettres adressées à l'homme inconnu, à la femme lointaine.


 

Quand Freud écrit que l'amour de transfert ne peut pas être différencié d'un « véritable » amour, il reconnaît du même coup que tout amour est amour de transfert, non parce qu'il ne ferait qu'en répéter un autre, infantile, mais parce qu'il crée son objet, qu'il l'invente dans le double sens du mot invention : fiction et trouvaille.

 

 

 

J.-B. Pontalis

in En marge des jours

© Éditions Gallimard, 2002



Mais aqui





9.1.13

 

 

 

 Danilo Kis



FIDÈLE À RABELAIS

ET AUX SURRÉALISTES

QUI FOUILLAIENT LES RÊVES




Je feuillette le livre de Danilo Kis, son vieux livre de réflexions, et j'ai l'impression de me retrouver dans un bistro près du Trocadéro, assis en face de lui qui me parle de sa voix forte et rude comme s'il m'engueulait. De tous les grands écrivains de sa génération, français ou étrangers, qui dans les années quatre-vingt habitaient Paris, il était le plus invisible. La déesse appelée Actualité n'avait aucune raison de braquer ses lumières sur lui. «Je ne suis pas un dissident», écrit-il. Il n'était même pas un émigré. Il voyageait librement entre Belgrade et Paris. Il n'était qu'un «écrivain bâtard venu du monde englouti de l'Europe centrale». Quoique englouti, ce monde avait été, pendant la vie de Danilo (mort en 1989), la condensation du drame européen. La Yougoslavie: une longue guerre sanglante (et victorieuse) contre les nazis; l'Holocauste qui assassinait surtout les Juifs de l'Eu­rope centrale (parmi eux, son père); la révolu­tion communiste, immédiatement suivie par la rupture dramatique (elle aussi victorieuse) avec Staline et le stalinisme. Si marqué qu'il ait été par ce drame historique, il n'a jamais sacrifié ses romans à la politique. Ainsi a-t-il pu saisir le plus déchirant: les destins oubliés dès leur nais­sance; les tragédies privées de cordes vocales. Il était d'accord avec les idées d'Orwell, mais com­ment aurait-il pu aimer 1984, le roman où ce pourfendeur du totalitarisme a réduit la vie humaine à sa seule dimension politique exactement comme le faisaient tous les Mao du monde? Contre cet aplatissement de l'exis­tence, il appelait au secours Rabelais, ses drôle­ries, les surréalistes qui «fouillaient l'inconscient, les rêves». Je feuillette son vieux livre et j'en­tends sa voix forte et rude: «Malheureusement, ce ton majeur de la littérature française qui a commencé avec Villon a disparu.» Dès qu'il l'eut compris, il a été encore plus fidèle à Rabelais, aux surréalistes qui «fouillaient les rêves» et à la Yougoslavie qui, les yeux bandés, avançait déjà, elle aussi, vers la disparition.


Milan Kundera

in Une rencontre* p.160-161

© Milan Kundera 2009 - Éditions Gallimard 2009                                                

 

 

 

* ... rencontre de mes reflexions et de mes souvenirs; de mes vieux thèmes (existentiels et esthétiques) et mes vieux amours (Rabelais, Janacek, Fellini, Malaparte...)...






Mais sobre este  livro aqui

 

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6.12.12

 

 

 

António Joaquim Tavares Ferro (1895-1956) 

 

 

A RTP2 exibe no próximo domingo um documentário sobre António Ferro, da autoria de Paulo Seabra, projecto que tive o gosto de acompanhar desde o princípio. O Paulo sabe que eu estimo António Ferro e o trabalho das equipas de que se rodeou no SPN e no SNI, e que gostava de ver mais valorizado o seu legado [1].

 

Sou suspeita, já que António Ferro era “muito lá de casa” [2ou melhor dizendo muito lá de casa de meus avós maternos, com quem vivi vários anos. E sem nunca o ter conhecido pessoalmente, nem a sua mulher, Fernanda de Castro [3], tenho a sensação de os conhecer desde sempre de casa de meus avós, que os recordavam com grande amizade e admiração. Com gratidão também: em poucas palavras, estes meus avós tinham sido ricos e perdido tudo em 1929; meu avô Guilherme Pereira de Carvalho [4], quase a chegar aos 40 anos e com três filhos pequenos, empregara-se pela primeira vez na vida a vender automóveis. Três anos depois foi convidado por António Ferro a integrar o SPN como seu secretário pessoal. Era o trabalho ideal para o seu feitio, a garantia de um salário ao fim do mês e, last but not least, a promessa de uma existência infinitamente mais “rica” do que tudo aquilo com que os meus avós pudessem ter sonhado desde o seu revés de fortuna.

 

Lembro-me de minha avó descrever uma viagem de navio à Argentina, por ocasião de um congresso de escritores, depois de se ter convencido de que "nunca mais faria uma viagem", e da satisfação com que recordava o convívio com intelectuais e artistas estrangeiros que passaram por Portugal nesses anos. Guardava dessa época uma vasta colecção de autógrafos em pequenos álbuns encadernados, especialmente concebidos para o efeito.

 

Ultimamente, novas descobertas proporcionadas pela exaustiva recolha documental e iconográfica realizada por Paulo Seabra para o documentário aprofundaram o meu interesse por António Ferro. Resta-nos agora esperar por uma biografia moderna digna deste homem carismático, que imagino, no auge da «política do espírito», a reinventar o Império assim à maneira dum produtor do cinema clássico de Hollywood.

 

 

 

ESTÉTICA PROPAGANDA UTOPIA no Portugal de António Ferro

 

RTP2 | DOMINGOS  9 e 16 de DEZEMBRO de 2012 | 21h

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas: 

IMAGEM: Fototeca Palácio Foz (actualmente, na Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo) s/data, encontrada aqui e que lembra esta aqui

 

1. A loja A Vida Portuguesa, a vitória de um movimento cívico pela reabertura do Museu de Arte Popular, em 2010, e diversos blogs contribuíram de forma importante para o reconhecimento da produção do SNI. Mais neste blog aqui e na tag "arte popular"

 

2. Uma expressão favorita de João Bénard da Costa e título de um dos seus livros. Leia mais aqui.

 

3. Fernanda de Castro aqui  e numa fotografia de Cecil Beaton  aqui

 

4. Guilherme Pereira de Carvalho aqui e os meus dois avós nos anos 20 aqui

 

5. Fundação António Quadros aqui e aqui

 

6. A poesia dos simples: arte popular e nação no Estado Novo, de Vera Marques Alves aqui 

 

 

 

 

 


14.2.12

 

 

C'est à Londres, en 1822, que fut écrite, d'un seul jet et à la suite, la plus longue partie de ce qui sera plus tard les Mémoires d'outre-tombe. Le voyage en Amérique, le retour en France, le mariage, le passage à Paris, l'émigration, la guerre dans l'armée des princes, le séjour en Angleterre et les sept années terribles de 1793 à 1800, avec l'intermède lumineux et tragique de Charlotte à Bungay, furent rédigés sous les ors du somptueux hôtel de Portland Place qui faisait un contraste romanesque et enchanteur avec les récits des temps obscurs.


Peut-être est-il temps de dire ici, avec les mots les plus simples, que les Mémoires d'outre-tombe constituent un des cinq ou six monuments majeurs de la littérature française. Si notre langue est ce qu'elle est, les Mémoires d'outre-tombe y sont pour quelque chose.  Ils  se  situent quelque part,  en beaucoup plus amusant, entre l'Iliade et l'Odyssée, la Divine Comédie, Don Quichotte de la Manche, le Paradis perdu, les Souffrances du jeune Werther et Guerre et Paix de Tolstoï. Dans la prodigieuse lignée qui va de la Chanson de Roland, des quatre grands chroniqueurs, de Rabelais et Montaigne jusqu'à Hugo, Balzac et Proust, en passant par Saint-Simon et Jean-Jacques Rousseau, Chateaubriand tient sa place d'abord parce qu'il a écrit les Mémoires d'outre-tombe. Rien de ce qui est raconté dans ces pages sur ses amours infidèles n'aurait le moindre intérêt si tous ces visages de femmes n'étaient, à la fois, dissimulés et révélés par les Mémoires d'outre-tombe.


On aurait tort de s'imaginer que la vie des grands hommes offre quelque modèle que ce soit à ceux qui les admirent. Il ne suffit pas de boire comme Verlaine, de faire la révolution comme Malraux, d'être homosexuel comme Proust,  ou couvert de femmes, monarchiste et chrétien comme René de Chateaubriand pour avoir du génie. Il faut d'abord avoir du génie; ensuite, on se débrouille comme on peut avec une vie quotidienne dont rien ne demeure négligeable à partir du moment où tout y est soutenu par le talent et la passion. Alors, le moindre détail se révèle incomparable; le moindre secret, irrésistible. C'est quand il y a quelque chose au-dessus de la vie que la vie devient belle.

 

 

Jean D'Ormesson

in Mon Dernier Rêve Sera pour Vous.

Une biographie sentimentale de Chateaubriand

© 1982, Éditions Jean Claude-Lattès

 

 

 

 

 

 

 

 

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1.10.11

 

 

My mother would have liked to go to art school, but on Bankbottom nobody had heard of such a thing. She applied for a clerical job by competitive exam, but it went to a girl called Muriel; poor Muriel, she got all the questions wrong, my mother said, but you see her uncles had pull. Thwarted, unhappy, she stayed in the mill and earned, she said, a wage as good as a man's. The work was hard and took a painful toll on immature muscle and bone. It would be many years before the effects showed; then, with energy to spare, she danced and sang through her evenings, in amateur shows and pantomimes. Cinderella was her favourite part. Her favourite scene: the Transformation. She asked herself, could she really be the child of her parents? Or some changeling princess, dropped into Bankbottom by accident?

For the whole of my childhood I worried about the glass slipper. It is such a treacherous object to wear: splintering, and cutting the curved, tender sole of the dancing foot. The writer Emily Prager once said that she had rewritten, as a child, the second half of the story; Cinderella gets to the ball and breaks her leg. My own feelings were similar; the whole situation was too precarious, you were too dependent on irresponsible agents like pumpkins and mice, and always there was midnight, approaching, tick-tock, the minutes shaving away, the minutes before you were reduced to ashes and rags. I was relieved, as an adult, when I learned that the slipper was not of verre, but of vair, which is to say, ermine. The prince and his agents were ranging the kingdom with a tiny female organ in hand — his ideal bride, represented by her pudendum. Never mind her face: he had not raised his eyes so far. All he knew was that the fit was tight.

 

Hilary Mantel

in Giving up the ghost, a memoir  p.50-51

© Hilary Mantel 2003 

 

 

 

 

 

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6.8.11


Encore aujourd'hui, toute une vie plus tard, il suffit d'un instant de rêverie éveillée, n'importe où, n'importe quand, ou d'un instant de distraction délibérée afin de m'évader d'une conversation oiseuse, d'un récit mal fagoté, d'un spectacle médiocre, pour que brusquement, sans rapport apparent avec les préoccupations ou les désirs circonstanciels, se déploie dans ma mémoire un envol d'éclatante blancheur d'images au ralenti. Ailes de mouette, à l'aube, derrière les baies vitrées d'une chambre d'hôtel, en Bretagne ? Focs des voiliers sous la lumière d'étain de la baie de Formentor ? Brouillards laiteux, effilochés par les vents tournoyant dans le détroit d'Eggemogging ?


Il m'arrive de ne pas identifier ces images. Je reste alors au seuil de leur lisibilité, remué par une émotion indéfinissable : quelque chose de fort et de vrai demeure caché, m'échappe et se dérobe. Quelque chose se défait, sitôt surgi, comme un désir inassouvi. Mais il arrive aussi qu'elles se précisent, qu'elles cessent d'être floues, de me flouer.


Je reconnais le long couloir de l'appartement de la rue Alfonso-XI, à Madrid, résonnant du bruit de nos courses, des portes ouvertes à la volée. Je reconnais dans la pénombre d'un soir de la fin de l'été les meubles précieux recouverts de housses blanches. Et c'est alors que réapparaissent, liés au souvenir enfantin, étrangement gouvernés par lui, tous les autres : un envol de pigeons, place de la Cybèle ; les mouettes de Bretagne ; les voiles de Formentor ; les brouillards de Little Deer Isle. Et le souvenir d'Odile, voltigeant à travers un salon parisien, arrachant joyeusement les linceuls éclatants des fauteuils et des canapés, les transformant en oriflammes du plaisir annoncé, tout en chantant à tue-tête l'air du toréador de Bizet.


Au « Petit Schubert », boulevard du Montparnasse, quelques jours après mon arrivée à Paris, j'avais eu Odile M. dans mes bras. Je me suis demandé si quelqu'un n'allait pas subitement surgir pour me l'enlever. À Eisenach, dans le vieil hôtel où les Américains avaient installé un centre de rapatriement, l'officier français des commandos m'avait enlevé Martine. Mais au « Petit Schubert » le temps a passé, il ne se passait rien. Rien d'autre que la lumière allumée dans les yeux d'Odile, la présence accrue de son corps. Elle était toujours dans mes bras. Elle ne semblait appartenir à personne. Personne ne semblait avoir sur cette jeune femme droit de préemption ou de cuissage. Elle allait être à moi.


Les jours ont passé, les semaines: elle était à moi. Mais sans doute faut-il renverser ce rapport d'appartenance. C'est moi qui lui appartenais, plutôt, puisqu'elle était la vie et que je voulais appartenir à la vie, pleinement. Elle a réinventé pour moi, avec moi, les gestes de la vie. Elle a réinventé mon corps, un usage de mon corps, du moins, qui n'était plus strictement celui d'une économie de survivance, qui était celui du don, du gaspillage amoureux.


Pourtant, malgré elle, malgré moi, malgré l'exubérance de cet été du retour, la mémoire de la mort, son ombre sournoise, me rattrapait parfois. Au milieu de la nuit, de préférence.

 

Jorge Semprún

in  L’Écriture ou la Vie    p.200-201

© Éditions Gallimard 1994

 

Para Isabel Feijó (4 Janeiro 1959 - 5 de Agosto 2011) 

 



23.12.10

 

 

 

 

Gerard David c. 1490

 

 

 

Évangile selon saint Matthieu

Mt 1,18-25

 

Marie, mère de Jésus, ayant été fiancée à Joseph avant qu'ils eussent habité ensemble, elle se trouva enceinte par la vertu de l'Esprit Saint. Joseph, son mari, étant juste et ne voulant pas la dénoncer publiquement, forma le dessein de la répudier secrètement. Comme il y pensait, voici qu'un ange du Seigneur lui apparut en songe, disant: «Joseph, fils de David, ne crains pas de prendre chez toi Marie, ton épouse, car ce qui est conçu en elle est l'œuvre de l'Esprit Saint. Elle enfantera un fils, et tu lui donneras le nom de Jésus car il sauvera son peuple de ses péchés.»

Or tout ceci advint pour accomplir cet oracle prophétique du Seigneur : «Voici que la Vierge concevra et enfantera un fils, auquel on donnera le nom d'Emmanuel, nom qui se traduit : " Dieu avec nous ". » Une fois réveillé, Joseph fit comme l'Ange du Seigneur lui avait prescrit; il prit chez lui son épouse et, sans qu 'il l'eût connue, elle enfanta un fils auquel il donna le nom de Jésus.

 

 

 

[...] G.S. : Que serait une famille, aujourd'hui, dans laquelle la mère serait vierge, où une vierge serait mère?

 

F.D. : Mais c'est ce que nous rencontrons chaque jour. Tout fils voudrait que sa mère fût vierge. C'est un fantasme qui vient de la nuit des temps, lorsque le fils était dans l'utérus. Là, il n'a aucun rival. Il ne connaît l'existence de l'homme de sa mère que lorsqu'il est doué d'audition, de vision et de discrimination des formes de ceux qui entourent sa mère. Donc, pendant un très long temps de sa vie, le garçon, par ses désirs hétérosexuels imaginaires qui sont anticipateurs de sa vie d'adulte, peut croire qu'il comble le désir de sa mère. Adolescent, il voudrait continuer sa vie sur les données archaïques de son désir.

 

G.S. : Mais la virginité dont parlent les évangiles c'est quand même autre chose que des fantasmes mal liquidés!

 

F.D. : Oh oui... Être vierge c'est être disponible. Pour la femme vierge, pour l'homme vierge, la parole devient plus importante que la chair. Ici, la parole de Dieu est plus importante que la chair.

C'est pour cela, me semble-t-il, que l'Église veut que Marie soit vierge avant et après l'accouchement, comme si elle avait accouché d'une parole, — comme si c'était une parole, la Parole de Dieu, le Verbe, qui était sortie d'elle, et non une masse charnelle qui aurait jailli, dans l'espace, à travers son corps charnel de génitrice.

 

G.S. : En chaque être humain, qu'il soit homme ou qu'il soit femme, il y a un homme et une femme, il y a donc Joseph et Marie, il y a l'aimant qui donne et l'aimant qui reçoit.

 

F.D. : Nous avons tous une disposition à la maternité qui peut être vierge et rester vierge, de même qu'une disposition à la paternité. Qu'est-ce à dire, sinon que nous pouvons porter les fruits d'une parole reçue d'un autre?

Notre pensée peut être fécondée par une idée venue d'ailleurs, sans savoir qui nous l'a donnée. Or, ce qui est psychologiquement vrai ne pourrait-il pas l'être spirituellement?

C'est cela que représente Marie : elle est une image, une métaphore de la parfaite disponibilité. C'est cela que représente Joseph : sa virginité, sa chasteté comme époux et père médiatisent la même vérité : être disponible. Chacun d'eux, elle éveillée, lui endormi, accueille la Parole de Dieu.


[...] G.S. : Terminons. On dirait que, pour vous, toutes les questions concernant la virginité de Marie, le statut marital de Joseph, etc., toutes ces questions sont finalement sans grande valeur.

 

F.D. : En effet, pour moi, ce sont de fausses questions, parce que tout ce qui est de la vie spirituelle est un scandale pour la chair. Tout ce qui est de l'ordre de la logique de la chair n'a pas de sens à partir du moment où nous sommes questionnés par la vie spirituelle, quand nous sommes désirants de vie spirituelle. [...]

La prière est au-delà de tous nos phonèmes, au-delà de tous les sons. Elle est dans un mutisme que ne connaissent pas les êtres humains entre eux. Un mutisme claironnant de désir dont tout homme, toute femme, à un moment de sa vie, sent la force qui l’appelle à vivre une vie spirituelle. Ce désir peut le rendre intrépide.

 

 

Francoise DoltoGérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (La "Sainte Famille" , Tome I)

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



21.12.10

 

 

 


Gerard David c. 1506

 

 

Évangile selon saint Luc

 

Lc 1, 26-38

 

En ce temps-là l'ange Gabriel fut envoyé par Dieu dans une ville de Galilée appelée Nazareth vers une vierge qui était fiancée à un homme nommé Joseph, de la maison de David, et le nom de cette vierge était Marie.

L'ange étant entré dans le lieu où elle se trouvait, lui dit : «Je vous salue. Marie, pleine de grâces; le Seigneur est avec vous; vous êtes bénie entre toutes les femmes. »

En entendant ces mots, elle fut troublée et se demandait quelle pouvait être cette salutation. L'Ange lui dit : « Ne craignez pas. Marie, car vous avez trouvé grâce auprès de Dieu : voici que vous concevrez dans votre sein et que vous mettrez au monde un fils; et il recevra le nom de Jésus. Il sera grand et sera appelé Fils du Très-Haut, et le Seigneur Dieu lui donnera le trône de David, son père; et il régnera éternellement sur la maison de Jacob et son règne n'aura pas de fin. »

Marie dit à l'Ange : « Comment cela se fera-t-il car je ne connais pas d'homme? » L'Ange lui répondit : «L'Esprit Saint surviendra en vous et la venue du Très- Haut vous couvrira de son ombre. C'est pourquoi l'Être saint qui naîtra de vous sera appelé Fils de Dieu. Et voici qu'Elisabeth, votre cousine, a conçu elle-même un fils dans sa vieillesse, et celle qu'on appelait la stérile est à son sixième mois car rien n'est impossible à Dieu. »

Alors Marie dit : « Voici la servante du Seigneur, qu'il me soit fait selon votre parole. »

 


 

 

G.S. : Joseph est un homme sans femme. Marie est une femme sans homme. Jésus est un enfant sans père. Peut-on alors parler de vraie famille?

 

F.D. : Oui, on peut parler de vraie famille, au point de vue de la responsabilité devant la loi.

La famille animale n'existe pas devant la loi. La famille est un terme humain qui entraîne devant la loi la responsabilité réciproque des parents pour l'éducation d'un enfant. [...] Mais votre question vient de ce que, dans cette partie des évangiles, il y a du mythe.

 

G.S. : Mais alors, qu'est-ce qu'un mythe pour vous?

 

F.D. : C'est une projection des imaginaires préverbaux, du ressenti du vivre dans son corps. Quand je dis mythique, je dis au-delà de l'imaginaire particulier de chacun; c'est une rencontre de tous les imaginaires sur une même représentation. [...]

Pour la « Sainte Famille », comme disent les catholiques, il ne fait aucun doute que les évangiles qui racontent l'enfance de Jésus s'expriment par des images mythiques, mais ils véhiculent aussi un mystère, une vérité.

Il y a du mythe dans ces passages d'évangiles. C'est certain. Mais, pour moi, croyante et psychanalyste, il n'y a pas que cela.

Que savons-nous avec nos connaissances biologiques, scientifiques, de l'amour et de son mystère? Que savons-nous de la joie? De même, que savons-nous de la parole? N'est-elle pas fécondatrice? N'est-elle pas parfois porteuse de mort? [...] Et si la parole reçue par Marie était l'instrument de la greffe de Dieu sur ce rameau de David? [...]

 

G.S. : L'Ange annonce à Marie : « La puissance du Très-Haut te couvrira d'ombre. » Où est Joseph?

 

F.D. : Mais l'ombre de Dieu, tout homme ne l'est-il pas pour une femme qui aime son homme?

La puissance et l'ombre de Dieu qui couvrent Marie peuvent être la charnalité d'un homme qu'elle reconnaît comme époux.

 

G.S. : Pourtant, il semble que Joseph ne se reconnaît pas l'époux de Marie ou du moins comme le géniteur de Jésus. En effet, il veut répudier Marie quand il apprend qu'elle est enceinte. Et Marie dit par ailleurs : « Je ne connais pas d'homme. »

 

F.D. : II faut chercher à découvrir ce que veulent dire ces textes.

Cette révélation de la conception de Jésus est faite à Marie dans sa veille et à Joseph dans son sommeil, dans un rêve. C'est dire que les puissances phalliques, créatrices féminines du désir de Marie sont éveillées, disposes, tandis que les puissances passives du désir de Joseph sont au maximum.

Autrement dit, Marie désire. Elle sait, par l'intervention de l'Ange (là c'est une manière de parler mythique), qu'elle deviendra enceinte. Mais, comment? Elle n'en sait rien. Mais, comme chaque femme, elle espère, elle désire être enceinte d'un être exceptionnel.

Quant à Joseph, il sait par l'initiation reçue dans son sommeil, que pour mettre au monde un fils de Dieu, il fallait que l'homme se croit y être pour très peu.

Nous sommes loin, voyez-vous, de toutes les histoires de parturition et de coït. Ici est décrit un mode de relation au phallus symbolique, c'est-à-dire au manque fondamental de chaque être. Ces évangiles décrivent que l'autre, dans un couple, ne comble jamais son conjoint, que toujours il y a une déchirure, un manque, une impossible rencontre, et non pas une relation de possession, de phallocratie, de dépendance.

En Joseph, rien n'est possessif de sa femme. De même que rien, en Marie, n'est a priori possessif de son enfant. Fiancés, ils font confiance à la vie, et voilà que le destin de leur couple en surgit. Ils l'acceptent.


 

Francoise DoltoGérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (Tome I)

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



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16.12.10


 

 

 

Meninos timorenses com as roupas típicas da Aldeia do Maloi (postal)

Laleia, Timor-Leste, 2009


 

Projecto "Aldeia do Maloi", a construção de uma carpintaria em Timor, ao longo de 2010, aqui

 

 

 


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4.11.10

 

 

 

 

 

Grifo (1987)

 

 

 

A estrutura solta, a abertura e sensualidade da cor numa matriz de espaço e luz, por meio das quais Willing atrai o observador, são estratégias dos pintores barrocos do séc. XVII que, desse modo, criaram imagens coerentes de temas religiosos, históricos ou mitológicos. Nas pinturas da última fase, Willing adoptou estratégias semelhantes para servir a realização pictórica de imagens simbólicas e fragmentárias, enraizadas no inconsciente. Dado que elas são executadas num estilo directo, desprovido de ambiguidade, o observador não é distraído pela especulação sobre o seu significado, mas fica livre para se concentrar no que lá está. "Acho que são cenários [scenarios]", disse Willing em 1985, "em que algo aconteceu ou vai acontecer, mas não está a acontecer nessa altura".

 

 

Hellmut Wohl

in Victor Willing - uma retrospectiva, aqui

© Fundação Paula Rego

 

 

Leia também aqui

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1.11.10

 

 

 

 

A Ilha dos Mortos (1880)

Arnold Böcklin

 

 

Il n'est pas prouvé, mais peu m'importe, qu'Arnold Böcklin se soit inspiré de l'île San Michele pour peindre sa fameuse île des morts dont il a donné, tant elle eut rapidement de succès, cinq versions (entre 1880 et 1886). Freud en avait une reproduction dans son bureau, Clemenceau aussi, ai-je lu quelque part, et Lénine dans sa chambre à Zurich. Il semble bien qu’Hitler ait acheté une de ces versions, ce qui m'ennuie fort, tant ce tableau depuis longtemps me fascine. Ses longs cyprès, ses deux volumineux blocs de pierre où résident peut-être les gardiens des morts prisonniers et cette barque qui s'approche lentement du débarcadère pour y livrer son chargement ; un personnage vu de dos, sans visage, revêtu d'un suaire blanc. Le batelier, lui, s'apprête déjà à effectuer la traversée dans l'autre sens.


Qu’avaient-ils en commun, ceux que je viens de citer, pour subir ainsi la force d'attraction du tableau de Böcklin ? Qu' y voyaient-ils ? La figuration de leur propre mort ? de celle des autres ? Quel vœu était le leur ? Expédier à tout jamais dans l'île des morts ceux qu'ils haïssaient ou y débarquer eux- mêmes pour enfin y connaître la paix des cimetières ? Je crois plutôt qu'ils cherchaient ainsi à se séparer de la mort sans pourtant méconnaître son inéluctable survenue.


L'île San Michele - quelques centaines de mètres suffisent - est séparée par la lagune de la cité des vivants. L'île est là, à portée de regard, mais de l'autre côté de ce quai où je marche au soleil, à bonne distance de l'ombre des cyprès et des redoutables falaises de pierre.


J'ignore si Böcklin, adulé de son vivant, puis déprécié avant d'être redécouvert il y a quelque temps, est ce qu'on appelle un grand peintre. Mais je lui suis reconnaissant d'avoir su donner à la mort informe la forme d'un tableau et de nous permettre de croire que ce n'est pas la vie mais la mort qui est un songe.

 

 

J.-B. Pontalis

in Le Dormeur éveillé

© Mercure de France 2004



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9.10.10

 

 

 

 

 

 

em breve num cinema perto de si

 

 

This is the west, sir. When the legend becomes fact, print the legend.

 

Fiel à máxima citada por John Ford num diálogo de The Man Who Shot Liberty Valance,  Joann Sfar oferece-nos em Gainsbourg (Vie Heroïque) um punhado de momentos lendários da vida do prodigioso poeta-compositor da música popular francesa Serge Gainsbourg: um percurso 'chiaroscuro' iluminado neste "conto" pelas fabulosas interpretações de Eric Elmosnino, no papel de Gainsbourg, e Laetitia Casta e Lucy Gordon, nos papéis de Brigitte Bardot e Jane Birkin, entre outros.

Porquê um final feliz?

J. Sfar: “Porque não considero que Gainsbourg tenha estragado a sua vida. Se houve maldição, foi provocada, escolhida. O tipo fez tudo o que queria e deixou muitas coisas boas. Ter-me ia sido muito difícil não deixar uma mensagem optimista. É a minha maneira de ser.” *

Gainsbourg (Vie Heroïque) é exibido em Lisboa no dia 16 de Outubro às 19h30 na sala 1 do Cinema São Jorge.

Dossier do Ypsilon aqui

 

 

 


 

Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot

desenho de Joann Sfar**

 

 

* Joann Sfar em entrevista a Jean-Pierre Fuéri na revista "Casemate" (hors série ciné), Janeiro de 2010

**na mesma revista

 

mais sobre Joann Sfar aqui

 

Leia a crítica "Serge and the soul of modern France" aqui

 

 

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10.9.10

 

 

 

 

 

 

Sphinx (1982)

250 x 200

Victor Willing (1928-1988)

 

 

 

 

Foi com emoção que percorri ontem, em Cascais, a retrospectiva deste artista excepcional. Há muito tempo que esperava pela oportunidade de conhecer melhor a sua obra, desde que vi pela primeira vez quadros seus, na colectiva "Eighty - Les Peintres d'Europe", em Bruxelas (1987).

 

Infelizmente não pude comprar ontem o catálogo, devido a uma avaria momentânea no sistema de pagamento da loja do museu. Reproduzo assim o belo texto do catálogo da exposição de Bruxelas, com a promessa de regressar ao tema para citar palavras de Hellmut Wohl, comissário desta retrospectiva, a quem me sinto profundamente grata.

 

 

 

 

 

Victor Willing retint l'attention du milieu artistique dans les années 50. Il fut la star d'une génération particulièrement douée d'étudiants de la Slade School of Art et à sa sortie fut honoré par une exposition à la Hanover Gallery — la première galerie de Francis Bacon — et, à cette époque, le lieu le plus prestigieux de Londres pour les aspirants avant-gardistes. Ses tableaux étaient passionnément variés et innovateurs dans l'objet, comprenant une scène prémonitoire de violence urbaine et un auto-portrait remarqué pour sa perspective allongée et son air obsédant de solitude. Puis, il s'est marié, et disparut avec sa femme portugaise (Paula Rego) au Portugal et n'a plus fait d'expositions publiques jusqu'en 1978.

 

Sa réémergence fut encore plus marquante que ses premiers débuts. Ici, sans surprise, on vit des tableaux d'une maturité totale ; mais ils étaient passablement uniques par l'objet visionnaire de leurs sujets. D'un seul coup, le milieu artistique londonien se trouva à avoir à vivre avec un peintre d'importance historique — et pas sous l'aspect d'un vieux maître redécouvert mais d'un contemporain actif. Ses premiers tableaux étaient visionnaires en ce sens qu'ils étaient la transposition littérale des hallucinations vécues par l'artiste : un bateau ensablé dans une chambre; une plume habillant un tabouret, en fait, un sens existentialiste du «Time as a shallow stage» (Le temps, une étape superficielle), titre de sa première exposition dans un musée en 1978.

 

Willing, le premier anglais à publier un article sur Pollock, prouva inévitablement être le meilleur à écrire sur son propre travail. Reconnaissant l'importance du maniérisme avec ses «fuites désespérées de l'inertie à travers l'érotisme» et ses «perspectives folles» de de Chirico, à ses propres formulations comme artiste, il écrivit : «La faux de Saturne divise et achève. Dans la tourmente de sa progression, nous cherchons les preuves d'événements passés éparpillés dans la ruine actuelle. Comment préserver cela ?».

 

Cette sauvegarde est l'histoire de son art théâtral et puissamment métaphorique. On ne voit pas de représentation réelle de personnes dans ses travaux mais comme une scène après le lever du rideau, ils sont chargés d'imminence humaine. C'est cet usage de l'espace en tant qu'agent théâtral qui le rattache le plus à l'Existentialisme.

 

Plus récemment, il est revenu au figuratif et particulièrement au portrait, pas le moindre, l'auto-portrait — pas la représentation de traits faciaux mais d'états mentaux.

 

Ici, il a consciemment enchaîné là où Picasso s'était arrêté, devenant ainsi un des rares artistes, peut-être le seul pour l'instant, à briser l'impasse post-Picasso.

 

 

John McEwen

in Eighty - Les Peintres d'Europe

ISSN 0294-1880

 



11.3.10

 

 

 

 

 

num cinema perto de si

 

 

O paradoxo suportado por Alice está patente desde a primeira página das aventuras no país das maravilhas. O universo vitoriano é introduzido como um universo pastoral idealizado, feito de leituras e de jogos. Mas a menina aborrece-se: «Sentada no tronco ao lado de sua irmã, Alice começava a estar cansada de não ter nada para fazer .» O calor adormece-lhe o espírito. A plenitude ambiente não esgota o desejo que procura o seu objecto: «Ela estava, portanto, interrogando-se (...) se o prazer de entrançar uma grinalda de margaridas valia o esforço de se levantar para ir colher as margaridas .» Alice hesita entre não fazer nada, pôr termo a todos os desejos e deixar-se dormir (o que verificaremos que é o que fará), e procurar sair do tédio e satisfazer o desejo que a anima. Alice adormece. No fim, o leitor deve convir que tudo aquilo era um sonho mas, no mesmo movimento, Alice é brutalmente projectada num universo estranho. As suas aventuras largam amarras assim que a sua curiosidade é desperta pelo aparecimento do Coelho Branco. A técnica do maravilhoso faz-nos deslizar imperceptivelmente duma realidade de ficção para um mundo puramente imaginário. A primeira página do conto surge já comandada por uma dupla tensão. O desejo de abolir o desejo e a sua impossibilidade. Lewis Carroll antecipa, afinal, a descoberta freudiana segundo a qual o sonho é a realização dum desejo inconsciente. O país das maravilhas apresentar-se-á, desde logo, como sendo o inverso desse mundo vitoriano idealizado: um universo onde o desejo que governa os protagonistas vem levantar obstáculos à racionalidade, ao ponto de deitar por terra os seus fundamentos. O universo imaginário está mais próximo do nosso do que a realidade de ficção que nos é apresentada no início e no fim das aventuras de Alice. Com efeito, o sonho dá em pesadelo. Alice não é um conto de fadas tradicional que se acaba com a realização do desejo. As suas viagens ao país das maravilhas ou ao outro lado do espelho dão melhor conta da impossível satisfação do desejo, fundada, segundo a descoberta freudiana, pela perda original dum objecto de fruição, irrecuperável e interdito, que Lacan designa como o objecto a, objecto causa do desejo. Uma das primeiras descobertas de Alice depois da sua queda na toca do coelho é um boião vazio de compota de laranja: ela anuncia o desdobramento dum tal saber no texto, igualmente movido pelo desejo paradoxal de abolição do desejo. É por isso que As Aventuras de Alice no País das MaravilhasDo Outro Lado do Espelho terminam num retorno ao mesmo. Alice volta a ser a criança que era, não cresceu, não se tornou a mulher que a irmã imagina que ela venha a ser, e lamenta então a sua infância. Ela deixa de ser rainha no fim do seu périplo através do espelho, justamente na altura em que acabava de atingir esse estatuto, e a própria Rainha Vermelha volta a ser gatinha.

 

 

 

Sophie Marret

in  Alice

Tradução  de Maria Antonieta de Carvalho

© Éditions Autrement, Paris, 1998 / Editora Pergaminho, Cascais, 2000

 

 

 

 

 

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12.1.10

 

 

 

L'Amour l'après-midi de Eric Rohmer (França, 1972)

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29.12.09

 

L'image usée du temps qui s'écoule, du temps fleuve, du temps dont la source a pour nom l'oubli, j'ai beau essayer d'y échapper, en convoquant fébrilement des dates, en cherchant des repères dans l'Histoire, elle me reprend, cette vieille image dont je ne sais trop si elle console ou désespère. Faut-il dire : le temps passe ou le temps ne passe pas ? Il me semble que les deux propositions se confondent. Seul l'instant, petite île, rocher, bouquet d'arbres, banc de sable, peut, à défaut d'interrompre le flux, nous donner l'illusion qu'il le détourne. L'instant, cette précieuse blessure d'un temps autrement voué à l'indifférence. Mais l'instant fait la surprise, parfois le bonheur, il ne fait pas la mémoire. La douleur et son cri, le plaisir et ses larmes ne laissent aucune trace. Ce qui entraîne hors de soi n'y rentrera jamais plus tard mais se consomme aussitôt. Il faut à l'instant un lieu pour qu'il ne s'efface pas tout à fait.

 

J'hésite toujours à approcher de nouveau les lieux que j'ai aimés. Il arrive qu'attiré par eux je m'en approche mais, au moment d'y revenir, au moment de les toucher, je prends peur, comme un criminel. De quel forfait serais-je donc coupable ? Ou bien ce seraient eux les criminels, eux les traîtres pour avoir, oui, trahi l'image que j'en ai et qui doit une fois pour toutes me révéler leur vérité éternelle. L'âme d'un lieu se donne immédiatement ou jamais.


Nos mémoires sont encombrées. On aimerait qu'y demeure seulement l'éphémère, un éphémère qu'elle aurait le pouvoir de rendre inaltérable. Car en elle — variante du principe, qui décidément me hante, énoncé jadis par ce professeur de physique sans pitié — rien ne se perd et tout se crée. Enfin une exception à la loi de l'entropie! C'est toujours dehors que tout se dégrade. A-t-on rêvé amoureusement d'une femme la nuit, mieux vaut ne pas la rencontrer le jour qui suit, non qu'on l'ait vue en rêve nécessairement plus belle, plus jeune ou plus aimante qu'elle n'est mais parce que ce qu'elle nous a livré là, en pleine lumière nocturne, qu'elle nous ait fui ou enlacé, c'est le secret de ce qui nous attire en elle, son secret sans doute plus que le nôtre, et comme son essence.


Le tendre arrière-pays de Nice, la Toscane aux lignes incurvées, aux couleurs d'ocre, la Crète minérale et brûlante, ces lieux que j'ai découverts autrefois — c'était quand déjà ? — dans ce mouvement aussi léger qu'intense qu'on appelle émotion, qu'on appellera plus tard bonheur quand la mémoire aura transfiguré le moment fugitif, je crois bien que je n'y retournerai jamais, par crainte de les perdre et de devoir, si je m’y rendais aujourd’hui, en porter le deuil. Parfois c’est le lointain qui me garantit la présence.

 

J.-B. Pontalis

in L’amour des commencements pp. 167-168-169

© Éditions Gallimard, 1986

 

 

 

 

 


9.12.09

 

 

 

 

 

 

Sem Título, 2009.  Gouache sobre papel

de Vasco Futscher

 

 

 

 

 

Quand une histoire est impossible, ils pensent que ce n’est pas la peine de la vivre.

 

En revanche dans les livres et les films, s’il n’y a pas cette impossibilité, ils trouvent aussitôt que l’histoire est ratée.

 

 

*

 

 

Une phrase un peu pompeuse, mais de temps en temps j’aime bien: « il y a dans mes rêves un homme qui s’appelle J’Existe. »

 

 

*

 

 

Il va mourir, et l’aumônier lui demande quel prénom il veut emporter avec lui. L’idée le séduit. Ça le réveille un peu. Il cherche. Hélas, il a beau draguer le passé, aucun prénom ne s’allume. Il revoit des visages, et rien d’autre. Tatouani avec ses yeux bridés: c’est éteint, ça ne miroite pas. Isabelle, la terrible infidèle: éteint. La douleur: éteinte. Les flamboiements des retrouvailles ; éteints. Lucie : éteinte. Poussière. Michèle: suréteinte. Gaby la folle: éteinte, détrempée par les larmes qu’il a versées pour elle et qui ont perdu leur sens aujourd’hui. Eh oui, tout est déjà mort, même si ces femmes sont sûrement florissantes de santé quelque part, même s’il est là devant la mort puisqu’un aumônier, tout de même, c’est la preuve. Et pourtant, il n’y a que lui de vivant. Alors, comme il faut dire un prénom, que c’est le jeu, il dit: « Paloma. » Il a toujours rêvé de rencontrer une femme qui s’appelle Paloma. Et celle-ci, elle est bien là. Il la voit.  Ah, on peut compter sur quelque chose. Tout ne part pas dans l’oubli.

 

 

*

 

Elle me parle du grand courage qu’il faut pour mettre au pied du mur quelqu’un qu’on aime et qui va vous dire non. Et ô combien ce courage est nécessaire si on veut avoir une chance d’entendre un oui.

 

 

* 

 

 

Et moi, pendant qu’absolument tout le monde me croyait seule dans mon chagrin au milieu de ce cimetière, je réalisais la part d’amour que les morts vous laissent.

 

 

*

 

 

Je pense, à un moment donné de ce livre, c’est-à-dire ici vers la fin, que je suis peut-être de ceux qui vivront l’amour sans personne.

 

 

*

 

 

Et puis, octobre, quelqu’un me rencontre.

 

Et je le laisse faire.

 

Alors tu vois.

 

 

Sophie Fontanel

in L’ amour dans la vie des gens

© Éditions Stock, 2003

 

 Mais sobre o livro e a autora

aqui

 

 

Recolha de aforismos e vinhetas, entre o desencanto e a candura, ou o diário de um desgosto sentimental transformado em inquérito sobre o amor.

 

 

Pintura: Vasco Futscher / trabalhos recentes aqui

 

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27.9.09

 

 

 

 

 

"Untitled", 2008. Gouache and collage on book page, 24,5 x 18,5 cm

 Jorge Nesbitt

 

 

 

 

Truth, knowledge, beauty, all the ideals of mankind, are external objects, passed on from generation to generation like a flaming torch. The headmaster said each generation must hold them up high and protect them with their very lives lest that torch go out. 


That torch. That was the symbol of the whole school. It was part of the school emblem. It should be passed on from one generation to another to light the way for mankind by those who understood its meaning and were strong enough and pure enough to hold to its ideals. What would happen if that torch went out was never stated, but Phaedrus had guessed it would be like the end of the world. All of man's progress out of the darkness would be ended. No one doubted that the headmaster's only purpose in being there was to pass that torch to us. Were we worthy enough to receive it? It was a question everyone was expected to take seriously. And Phaedrus did.


In some diluted and converted sense, he thought, that's what he was still doing. That's what this Metaphysics of Quality was, a ridiculous torch no Victorian would accept that he wanted to use to light a way through the darkness for mankind.


What a cornball image. Just awful. Yet there it was, burnt into him from childhood.


Twenty and thirty years later he still dreamt of following the path that led between brown-leaved oaks up the hill to the Blake School buildings. But the buildings were all locked and deserted and he couldn't get in. He tried every door but none was open. He looked in through the library window, cupping his hand so that the reflection would not prevent him from seeing inside. There he could see a grandfather clock with a pendulum swinging back and forth, but there was nobody in the room. The only movement was the pendulum. Then the dream ended.

 
 
Robert M. Pirsig

in Lila: An Inquiry into Morals (p.285)

© Robert M. Pirsig, 1991,2006
 
 
 
 
 
 
Pintura: Jorge Nesbitt  aqui

 

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22.8.09

 

 

 

 

 

Nazaré, Portugal, 1956

Fotografia de Édouard Boubat

 

 

 

You know, in photography we use some marvelous words, like "aperture." One is the camera's diaphragm, which is a mechanical thing, but there is also our own "aperture", our own opening up to reality. Take the photo of the man on the seashore. It was my first trip to Portugal, I believe it was in 1956. In those days traveling seemed extraordinary, there were very few tourists, we had been on the road for two or three days, we arrived at a hotel by the seaside, Sophie was a little tired, and I said, "I am going to the beach," I had only my little old Leica, and that man was there, click. I had only arrived half an hour before, but there he was, with his child, as if he had been waiting for me, and so I took my first photo of Portugal, a photo that will endure. I had come a long way, I had dreamt of Portugal, so in a sense I too was waiting for him, there was expectation on both sides. In some way, a photo is like a stolen kiss. In fact a kiss is always stolen, even if the woman is consenting. With a photograph it's the same: always stolen, and still slightly consenting.

Edouard Boubat
em entrevista a Frank Horvat, que pode ler na íntegra aqui
 


15.8.09

 

 

Querida Vera,

 

serve o presente para te dizer o quanto aprecio o trabalho de investigação e de (re)criação a que te entregaste. Sem querer cair na vulgata psicanalítica, o resultado deste teu "investimento" pessoal e afectivo é um exemplo feliz de "sublimação" ou não fosse a vida uma alquimia onde calcinamos as frustrações e o sofrimento no fito de chegarmos ao ouro do "conhecimento"  de nós próprios e dos demais.

(J.A.S.)

 

 

O comentário foi deixado aqui pelo meu amigo Jorge, antes mesmo de ter folheado o meu livro ou lido a sua epígrafe, que retirei de Uma Infelicidade Maravilhosa, ensaio dedicado aos processos de cicatrização das feridas do passado.

 

Revisitar o passado para o (re)criar, como tão bem diz o Jorge, corresponde quase sempre à necessidade de conferir um sentido ao sofrimento. No lançamento de Retrovisor, não abriu o meu irmão o seu discurso de apresentação interrogando-se sobre as razões que levam a escrever um livro deste tipo? Para logo citar famosa frase (de Tolstoi, em Anna Karenina): "As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira".

 

 

Que diz Cyrulnik?

 

Tal como a felicidade, a infelicidade nunca é pura. Mas, assim que construímos a sua história, conferimos um sentido aos nossos sofrimentos e compreendemos, muito tempo depois, como pudemos transformar um infortúnio em algo de maravilhoso, pois qualquer homem agredido é obrigado a metamorfosear-se.

 

A leitura de Uma Infelicidade Maravilhosa foi esclarecedora porque sendo embora impensável comparar os meus infortúnios com as provações suportadas pelos homens e mulheres de que este livro nos fala — permitiu-me compreender melhor certos aspectos da minha história pessoal. Confortaram-me, ainda, a confiança e o optimismo que o autor transmite, ao debrucar-se não tanto sobre os danos provocados pelo trauma mas antes sobre os processos de reparação:

 

O que é interessante para o nosso tema é o facto de todos os que conseguiram ultrapassar as suas dificuldades terem elaborado, muito cedo, uma “teoria da vida”, que associava o sonho e a intelectualização. Quase todas as crianças resilientes tiveram de responder a duas questões. A primeira, «porque tenho de sofrer tanto?», levou-as a um processo de intelectualização. A outra, «apesar disso, como farei para ser feliz?», incitou-as a sonhar.

 

 

 

 

Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira

Editora Âmbar

© Éditions Odile Jacob, 1999

 

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