27.9.14

 

 

Cristina Ténis 1965.jpg

 

 

Cristina Futscher Pereira

17 Abril 1948—27 Setembro 2005 

 

 

 

 

 

Caro Almeida Garrett

 

 

Perdoe-me tão directa interpelação, mas creia que não o incomodaria por pouca coisa. Conhece bem o drama de partir, e de partir cedo. De partir cedo demais. Sei, por isso, que entenderá o que tenho para dizer.

 

O seu nome e a sua obra são ainda venerados nesta sua terra, embora um pouco da mesma forma que os monumentos o costumam ser. Reverenciados, mas na verdade esquecidos, ignorados, e vandalizados. Nada de novo, como muito bem sabe.

 

Imagine que se descobriram os manuscritos inéditos do seu Romanceiro misturados com outros papéis que estavam em casa de Venâncio Deslandes, na época director da Imprensa Nacional. Podemos talvez imaginar as razões pelas quais o Senhor Deslandes poderá ter levado os manuscritos para casa, mas provavelmente nunca saberemos ao certo a razão de lá terem ficado até a Cristina Futscher Pereira os ter descoberto.

 

Mas o achado constituiu também um encontro.

 

A partir desse momento o destino de Cristina Futscher Pereira passou a estar ligado ao destino desses papéis, e Você, meu caro Garrett, passou a estar no centro do seu entusiasmo. Ela pressagiava que aqueles manuscritos eram um sinal da sua boa estrela, e até construiu este pequeno «templo», de onde agora lhe escrevo, para nele partilhar as boas novas com todos os interessados.

 

Mas (quase) ninguém estava verdadeiramente interessado. Bem, houve alguns lampejos de interesse pelos papéis, noblesse oblige, embora frouxos e breves. Não sei, talvez estejamos cansados de ser um País, de ter uma História tão pesada e de tão incerto saldo.

 

Além do mais, o romanceiro é uma coisa tão out, tão old fashioned you know what I mean? —, é coisa de um mundo que já não existe, e que por isso já não nos interessa. Claro, é bom que se preserve, alguém que se encarregue de guardar essas coisas. Pode ser que um dia façam falta, sei lá.

 

Apesar de tudo, o meu Amigo nem tem muito de que se queixar. Apesar do infortúnio pedagógico das Viagens, ainda faz parte do cânone, ninguém lhe impugna o episódio do Mindelo, ainda lhe dão palco nos teatros, o fraque verde, a gravata de cor e o chapéu branco ainda causam um simulacro de furor entre as senhoras. Da sua poesia sobraram as Folhas Caídas (cujo pathos aumenta se se souber da história com a viscondessa da Luz), e a sua eloquência ainda ecoa vagamente no Parlamento. Outros não se podem gabar de tanto.

 

Mas na verdade pouca gente o lê e, hélas!, cada vez menos gente fala a mesma língua em que Você escreveu páginas tão marcantes.

 

Adiante. Eu conheci a Cristina por sua causa. Digamos que foi o ilustre Autor que propiciou o nosso encontro. Assim que lhe ouvi os planos, logo a alertei para esperar muito pouco ou nada. Mas o meu cepticismo foi cedendo à sua energia e vontade de suscitar um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra, caro Garrett. E a isso eu não me poderia negar.

 

O resultado dessa colaboração está aqui nestas páginas escritas no éter (o meu caro Amigo perdoará não me atrever sequer a tentar explicar-lhe o que isto é…), mas está também nas muitas cartas que trocámos, através da quais o nosso relacionamento atingiu a patente de amizade.

 

Caro Almeida Garrett, a Cristina Futscher Pereira morreu.

 

Partiu cedo demais, como também aconteceu consigo. Com a morte dela, morre também este espaço que ela lhe dedicou, no qual eu tive a honra e o gosto de participar.

 

Ele aí – aí?, aqui? – fica, como testemunho de como lhe pulsou o coração ao longo do seu último ano de vida. A Cristina fez o que pôde, até já não poder fazer mais. Mas fica também o exemplo, e, quem sabe?, talvez ele frutifique, talvez possa ser retomado. Não é verdade que todos lhe devemos isso?

 

Cumprido este dever de que voluntariamente me incumbi, despeço-me com a estima e a admiração de sempre.

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Se os mortos e os tempos conviverem e se misturarem como acontece na Torre de Barbela de Ruben A., estou certo de que há-de vir a conhecer a Cristina. Peço-lhe que a trate como a uma boa e dedicada Amiga.

 

 

 

 

Notas:

 

Este texto fechou o blog O Divino em 2005. O blog garrettiano fora criado por Cristina em 2004 e foi retirado dos blogs do sapo cinco anos depois.

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Retentiva e Conteúdos em Português. 

 

 

Leia também os posts

 

Long Live Garrett

 

Garrett inédito

 

Garrett liberal, romântico, escritor, homem de espírito, pesquisador, homem de acção...

 

Garrett leitor de Vicente

 

Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909)

 

 

Inéditos do romanceiro garrettiano neste blog na tag Garrett 

 

 

 

 

 

 

Lettre à Garrett (2005)

 

 

Cher Almeida Garrett,

 

Pardonnez-moi de vous interpeller ainsi, si soudainement, mais, croyez bien que je n’oserais pas vous importuner pour un rien. Partir, et partir tôt, est un drame que vous connaissez bien. Partir trop tôt. Je sais, donc, que vous comprendrez ce que j’ai à vous dire.

 

Votre nom et votre œuvre sont encore vénérés dans ce pays qui est le vôtre, même si on leur voue, en somme, l’estime accordée habituellement aux monuments. Révérés, mais en vérité, oubliés, ignorés et vandalisés. Rien de nouveau, nous le savons bien.

 

Imaginez-vous que les manuscrits inédits de votre Romanceiro ont été découverts dans un tas de papiers qui se trouvait chez Venâncio Deslandes, jadis directeur de l’Imprensa Nacional. Il n’est pas difficile d’imaginer les raisons qui auront conduit Monsieur Deslandes à rapporter le manuscrit chez lui mais nous ne saurons probablement jamais le fin mot de l’histoire qui explique qu’ils y soient restés jusqu’à ce que Cristina Futscher Pereira ne les déniche.

 

Mais cette découverte fut aussi une rencontre.

 

Car, dès cet instant, le destin de Cristina Futscher Pereira s’est mêlé à celui de ces documents. Et vous, mon cher Garrett, sachez que vous avez nourri son enthousiasme. Elle pressentait que ces manuscrits étaient une manifestation de sa bonne étoile et alla même jusqu’à construire ce petit temple d’où je vous écris, pour y partager les bonnes nouvelles avec tous ceux qu’elles intéresseraient.

 

Mais, (presque) personne ne se montra intéressé. Enfin, il y eu quelques lueurs d’intérêt pour ces documents, noblesse oblige , bien qu’elles fussent mornes et brèves. Qui sait, peut-être sommes-nous fatigués d’être un Pays, d’avoir une Histoire si pesante, au bilan si incertain.

 

Et puis, un Romanceiro, n’est-ce pas quelque chose de complètement has been, si old fashioned – you know what I mean? – quelque chose qui appartient à un monde qui n’est plus et qui a donc cessé de nous intéresser ? Bien sûr, il convient de le protéger et quelqu’un doit se charger de conserver ces choses. Ça pourrait venir à manquer, un jour, qui sait ?

 

Et pourtant, cher ami, vous avez bien peu de raisons de vous plaindre. En dépit de l’infortune pédagogique de Voyages , vous faites encore partie du canon, personne ne vous réfute l’épisode de Mindelo, la scène des théâtres vous est encore ouverte, le frac vert, la cravate colorée et le chapeau blanc provoquent encore bien des émois chez la gente féminine. De votre poésie, il reste Folhas Caídas (dont le pathos augmente quand on connaît l’histoire de la vicomtesse de Luz) et votre éloquence résonne encore vaguement au parlement. Tout le monde n’a pas la chance de pouvoir en dire autant.

 

Mais en réalité, votre œuvre est bien peu lue et, hélas ! , rares sont ceux qui parlent encore cette langue dans laquelle vous avez écrit ces pages si remarquables.

 

Poursuivons. J’ai connu Cristina à cause de vous. Disons que c’est l’écrivain illustre qui est à l’origine de notre rencontre. A peine m’avait-elle fait part de ses projets que je lui disais de ne rien attendre, ou si peu. Mais mon scepticisme a cédé face à l’énergie qui l’animait et à son désir d’éveiller un intérêt renouvelé pour votre personne, cher Garrett, et pour votre œuvre. Comment aurais-je pu refuser ?

 

Le résultat de cette collaboration est là, dans ces pages écrites dans l’éther (vous me pardonnerez, cher ami, de ne pas me risquer à la moindre explication...) mais aussi, dans ce riche échange épistolaire d’où est née une amitié certaine.

 

Cher Almeida Garrett, Cristina Futscher Pereira n’est plus.

 

Elle est partie trop tôt, comme vous. Avec elle, disparaît également cet espace qu’elle vous avait consacré et auquel j’ai eu l’honneur et le plaisir de participer.

 

Et lui là, – là ? Ici ? – reste pour témoigner de ces battements de cœur que vous avez provoqués tout au long de sa dernière année de vie. Cristina a fait ce qu’elle a pu jusqu’à ne plus pouvoir. Mais son exemple est là et, qui sait, peut-être fera-t-il des émules, peut-être sera-t-il repris ? N’est-il pas vrai que nous lui sommes tous redevables ?

 

C’est le devoir accompli - dont je me suis moi-même investi - que je vous salue, toujours plein d’estime et d’admiration.

 

 

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Si les morts et les époques se rejoignent et se mêlent comme dans La Tour de Barbela de Ruben A., vous finirez par faire la connaissance de Cristina. Je vous demande de lui accorder le traitement que l’on réserve aux amis sincères et dévoués.

 

 

 

Traduction de Laurence Corréard

 

 

 

Lettre à Garrett fut le dernier texte publié dans O Divino , un blog créé par Cristina en 2004.

 

 

 

 


15.9.12

 

 

O acaso atirava-me para uma das regiões que iria exercer influência profunda na minha vida, tanto de homem, como de escritor. Dava-se no meu espírito o segundo fenómeno de osmose. O primeiro fora a vivência desmedida do Campo Alegre, o absorver diário da natureza física através do lado sentimental da vida; ao Porto eu ficaria ligado para sempre, como seria o caso de Londres anos mais tarde, teiaranhado pelo amor, pela transferência permanente de um eu que se desdobra e oferece a outra pessoa. Agora aparecia-me o Alto Minho, eldorado onde ancorava todo o bojo que não soçobrara na débacle sentimental. A terra, o mar, o rio, a montanha, as aldeias, o povo, a arte, um todo que me agarrou no imediato, no transe da paixão, debaixo ainda do estado de choque. Abria-se um mundo novo, cosmo-físico para onde eu podia olhar, onde podia mergulhar, penetrando na Natureza sem pedir licença. Às vezes, nos imprevistos da vida, nas esquinas da sorte, nós esbarramos com um habitat que está desde a criação do mundo à nossa espera. Ali, intacto, permanente, rico, silencioso. Eu sentia uma grandeza frente a meus olhos, imensidão que estava a par da grandeza do amor, não a substituía, menos ainda distracção para pacóvio, ou paliativo de doença; sim, mundo de pormenores alcantilados, de versos ditos ao fim de tarde, de banhos cheios de algas, mergulhos na amostra de eternidade que se apalpa com os dedos. Tão forte este binómio Amor-Natureza, impacto de sismo, eu certo de que mais cedo ou mais tarde havia de ter consequências. E, na inconsciência do consciente, às vezes reparava no segundo de tempo em que teria de, um dia, comunicar a outros o choque brutal que estava recebendo. Eu seria o médio que coa, filtra, decanta, o que paira sem rumo na Natureza, fosse o reino do Amor, quer o próprio caudal do telúrico. Fruta verde em mim, nada estava amadurecido, o período de gestação seria longo, rebentaria na cabeça com a necessidade urgente de recriar esse estado emocional.

 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura , Autobiografia III  pp. 81-82

© Assírio & Alvim e Herdeiros de Ruben A.  (1994)



  

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13.3.09

 

O Agostinho da Silva foi homem mais culto, mais lido, com uma sólida base de grego e latim, que da conversa fazia um permanente diálogo. O obscuro e o nebuloso – tão bem explicado pelos meus professores de liceu – encontrava nele um filtro de transparência, cuja contribuição para a clareza se tornava um verdadeiro dom, sobretudo num país de gente complicada. Ensinava-nos a não perder tempo, a completar iniciativas que se discutiam. Ouvia as nossas asneiras como quem lê o Discurso do Método em voz alta. Sentia o meio donde vínhamos, um meio onde todos estão contentíssimos com a sua ignorância, como tão bem dizia a Sophia, uma sociedade em que é preciso trabalhar pouco para ganhar dinheiro e se encontra uma falta de respeito pelo trabalho intelectual dos outros. (...) O Agostinho lia-me um diálogo de Platão como quem está ali em baixo, na taberna da esquina que dá para a Academia das Ciências, entra e ouve uma conversa. Lia, olhava para nós, e vendo que percebíamos continuava para a frente. Depois dialogava. Com o escopro e o martelo ia abrindo brechas na minha cabeça, modelando, não à sua maneira  – e esta a sua enorme mensagem – , mas sim ia abrindo lenhos cá por dentro, ranhuras que só os meus olhos pudessem ver (...) Trazia livros, não nos obrigava a comprar nada. A Filosofia, a História, a Literatura, a Arte tinham um denominador comum – o Homem. Era o exemplo como homem que ele queria apresentar quando nos vinha dar aulas.

 

 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura, Autobiografia II

Parceria A.M. Pereira, 1966

 

Leia outro excerto da mesma obra aqui

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5.3.09

 


Carreço, c. 1950

 


 

Ruy Cinatti foi um dos amigos mais queridos de minha mãe, e queria dedicar-lhe um post, a seguir aos Monteiro Grilo, e ilustrá-lo com esta fotografia. No entanto, ao procurar documentos sobre Cinatti numa pasta, encontrei a carta que a seguir transcrevo, e me faz regressar a Ruben A.. A fotografia pertence à fotobiografia "O Mundo de Ruben A." (Assírio e Alvim).

 

Coimbra a dos poetas 5-N-42

 

Caro Vasco,

É com um prazer enorme que te escrevo estas linhas pois além de me fazerem lembrar de ti, um bom e franco amigo me leva a recordar a tua simpática comparência ao nosso castiço jantar. Foste de facto um bom amigo – “a real friend”.

Feita esta introdução académica e pompadouresca mas sincera no seu realismo e surrealismo, vamos contar-te o que este menino vindo de Lisboa viu e ouviu. Excedeu em tudo não poderei dizer, mas em quási tudo a minha expectativa, esta Musa do Mondego. Tirando duas ou mais cenas cómicas duma graça infinita que me aconteceram à chegada e no dia seguinte, tudo se tem passado num ambiente clássico e de bom gosto. Uma das cenas de que fui protagonista é esplêndida e por isso te conto. Ei-la: como sabes não conhecia nada de Coimbra, cheguei de noite com a etiqueta ao pescoço, que dizia Rua de Sta Teresa 33. Cheguei a casa. Comi e dormi como todo o mortal, (lá alguns mortais, coitados negam a utilidade dum bom bife e dum carrascão) Deixá-los viver.

Aqui começa propriamente a cena. Segunda-feira de manhã, oito e meia depois de perguntar à criada mais ou menos o caminho para a Faculdade, ou melhor a Universidade, saio de casa e dirijo-me a passos largos pelo tal caminho. Chego a um sítio lindo ao pé dos Arcos e do Jardim Botânico e indeciso fiquei com respeito ao rumo a tomar. Olhei as plantas mas não me senti botânico, vi um eléctrico que dizia Calhabé e pensei que iria para a cidade dos rapazes pois o nome é próprio para ser adorado pelos “enfants terribles”. Nisto aparecem três tipos em capa e batina e outro com uma pasta, fiquei radiante, já não poderia fazer figura fraca perguntando o caminho para a Universidade. Foi a Universidade que fez a cidade! (Não lhes perguntei nada) Segui-os a passo rápido, andei, andei já um pouco desconfiado quando de repente os “bichos” (nome dado aqui aos alunos do liceu) param e entram para um jardim, então eu leio na casa, escrito em grandes letras: Colégio Luiz de Camões, Externato e internato — Ambos os sexos!!!!!

Eis caríssimo Vasco o que foi o meu primeiro contacto com isto tudo. Ri,ri e tornei a rir. A minha chegada a Coimbra como vês foi brilhante e cómica. Conto-te algumas coisas que se passam  na Liberalium Artium Facultas e que tu companheiro de louros nessas coisas deves apreciar. Tenho professores esplêndidos. Damião Peres a H. Dos Descobrimentos que ultrapassou tudo o que pensava a seu respeito.

Maximino Correia a Psicologia Geral, com muito sistema nervoso e localizações mas falando de Bergson, Freud e escolas modernas. Não me posso ainda pronunciar a seu respeito. H-F-Moderna (teóricas) Joaquim de Carvalho que fez duas aulas de introdução ao estudo da F. Moderna e a alguns aspectos da Renascença, falando e dominando o assunto com uma claridade imensa. (Práticas) Magalhães Vilhena, ainda não tive aulas com ele mas já lhe falei, andou-me a apresentar a todos os tipos dos institutos estrangeiros. Foi simpático.

H. Moderna tenho um Dr. Brandão, ainda só houve apresentação ??? Arqueologia tive hoje a primeira aula é o Orlando Ribeiro, já sabes a classe dele.

H.F. Portugal (2º semestre) Joaquim de Carvalho. Numismática (2º semestre) Damião Peres.

Eis um resumo completo da minha actividade escolar em que tenho uns colegas que só se interessam por futebol e animatógrafo. A mentalidade e o interesse cultural aqui é baixíssimo. Espero sem ser vaidade que isto seja óptimo para mim. Tirando os tipos do Novo Cancioneiro que são excelentes de resto a Academia aqui não tem interesse nenhum.

Os teus exames? A Margarida e sua morada? Tu naturalmente com muito amor. Enfim tenho de acabar a carta pois graças a Deus tenho mais amigos a quem escrever. Espero em Deus que passes e venças sempre pois este é o meu maior desejo. Aguardo carta tua com grande ansiedade recebe muitos abraços e dá cumprimentos a tua família.

 

Teu sempre amigo e futuro padrinho,

 

 

Ruben

 

Carta de Ruben para Vasco

 

 

Poemas de Ruy Cinatti aqui

 

Mais neste blog sobre Ruben A. e Cinatti aqui e sobre os estudos do meu pai em Coimbra aqui


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14.1.09

 

 

Nos corredores da Faculdade surgia o neo-realismo, receita de um estado novo ao contrário. Eu lia. Comprava esse movimento de sinceros e insinceros, sangue na estrada, miséria no lar, justiça que se impunha. O Alentejo dava porcos e neo-realismo, e passados mais de vinte anos continuava ainda a dar mais porcos e neo-realismo, tal o atraso de subdesenvolvimento em que nos encontramos. A cobertura quase total, os críticos mais apaixonados, tudo que não estivesse na defesa do povo, era condenado. Eu estaria para sempre condenado — um apátrida das letras. Mal sabia que daí a meses o acaso, mais uma vez na vida, me faria mudar de rumo. Iria encontrar em cheio, no domínio do poder literário, a força antídota e semelhante à situação política — aguardava-me em Coimbra a maçonaria poderosa e crescente do neo-realismo. O público estava já habituado ao ersatz, os editores caldeiravam a ração sem razão, não sabiam, dava-lhes dinheiro, como o algodão de Angola, o café e os diamantes. Havia que emborcar, e estar calado, saíndo fora da linha resultava levar na cabeça. E do Alentejo continuava a desembarcar mais prosa e mais suinagem. Tudo era verdade, quem não estivesse dentro da ordem nova, um excomungado. Havia que pertencer a uma ordem maçónica. Estar junto, amancebar o nosso espírito. Talvez a exigência da época, pensava eu. Qual época qual carapuça, sim a exigência mesquinha do português de querer tudo arregimentado. Essa a triste conclusão. O intelectual português passou séculos de perseguição e de miséria, não pode ter grandeza, a grandeza é produto da liberdade. No útero da sua natureza andrógina ele ainda ouve os sons da Inquisição, o silêncio da procissão dos autos-de-fé. Como haviam de aceitar um artista? Um artista só se aceita quando há liberdade de expressão. Foi assim que receberam Eça de Queirós, que sentiram Raul Brandão. Se eles ainda respirassem, seriam pasto para se queimarem vivos, tanto por parte dos neo-realistas como dos estado-novistas, ambos totalitários, ambos negadores de uma verdade de expressão que se sobrepunha à sua receita. Como podia eu ter consciência de culpa de um crime que não praticava?

A resposta foi dada pelo Cinatti ao publicar a revista Aventura. Ele não fazia cerimónia para dizer a verdade, menos ainda o Jorge de Sena, o Carlos Queirós, a Sophia, o José Blanc de Portugal, o Casais e tantos outros que colaboravam — "uma cidadela fundamentada na Amizade".

 


 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura (vol.II)

 

 

 

Dedicatória aos meus pais

do segundo volume da autobiografia de Ruben A.

1966

 

 

Mais sobre o autor aqui , a sua autobiografia aqui e a sua fotobiografia aqui

 

 



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