24.8.16

 

 

 

transatlantic phone call 1927.jpg

Telefonema transatlântico (1927)  

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Escrita em dia

 

 

 

“Senhoras analfabetas a porem a escrita em dia” disse para mim mesmo, numa de Alexandre O’Neill, quando as vi as duas ao fundo da Comida de Santo, raparigas do meu tempo, exercitando as mandíbulas mais na conversa do que no feijão preto. Passou-se isto antes do Facebook e da restante variedade das chamadas redes sociais – antes do skype, embora já houvesse telefones (modernice que o Marechal Foch, comandante das forças francesas na Primeira Guerra Mundial, detestava, delegando sempre que possível num ajudante de campo e desejando vivamente o seu desaparecimento em tempo de paz) telefones que permitiam e permitem, valha-nos isso, namorar horas a fio, com fios ou sem fios através do éter, emitindo ou recebendo sopros delicados nas orelhas quando tenha de se julgar em vez de se poder experimentar.

 

Esta estranheza com o que é novo e algum medo dele existiu sempre mas é muito pior do que alguma vez foi (isto é, passou a haver muito mais gente assustada com o progresso do que encantada com o progresso, pelo menos no Velho Mundo) porque, por um lado, o ritmo das mudanças técnicas nunca acelerou tanto quanto agora e, por outro lado, também graças a esse ritmo, tudo se sabe in real time (como há quem goste de dizer nestes nossos dias em vez de dizer ‘no mesmo momento’ ou ‘na mesma altura’). Dantes não era assim: a batalha de Waterloo que fixou por quase um século o destino da Europa, derrotando Napoleão e reforçando o poder da Inglaterra e dos alemães, foi travada um pouco ao sul de Bruxelas entre o nascer e o pôr-do-sol do dia 18 de Junho de 1815 mas o resultado dela, levado por estafeta que ia mudando de cavalos – com o Canal da Mancha de permeio - só foi conhecido em Londres quatro dias depois. Washington Irving, romancista americano do século XIX escreveu um conto que ficou célebre, apareceu em antologias, foi ensinado em cursos de literatura, traduzido em dezenas de línguas e se chamava O homem que dormiu vinte anos. O herói, para lhe chamar assim, dormira efectivamente duas décadas e, depois de acordar na mesma cama, encontrara ao levantar-se, no dia-a-dia restabelecido, muitas coisas novas que nunca conhecera antes e muito o perturbavam. Tenho-me lembrado dele mas pensando que, pelo andar da carruagem, daqui a quinze ou vinte anos, outro ficcionista americano dotado poderá publicar novo best-seller sob o nome “O homem que dormiu vinte minutos”.

 

Muito do que se passa agora nas tecnologias de ponta é inédito: entra na categoria das novidades absolutas mas mudanças vertiginosas de outra natureza já várias vezes assustaram gente. Por exemplo, inflações galopantes, de que a alemã dos anos 20 por ajudar à subida de Hitler ao poder ficou célebre, deram quotidianos bizarros. Amiga exilada no Brasil em 1975, no supermercado punha-se à frente do empregado que ia aumentado os preços de uma ponta à outra da loja e teve uma criada que comprava cuecas pagando em dez prestações porque assim lhe saíam muito mais baratas. 

 

 

 

 

 

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30.1.16

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O Retrovisor vai ter uma nova rubrica semanal, da autoria de Jorge Colaço, que tenho o prazer de apresentar aos Leitores, não porque se trate de um novo convidado, já que vários textos seus figuram neste espaço, mas para saudar a sua renovada presença aqui e dar-lhe as boas vindas.

  

Amigo de Garrett

 

Jorge Colaço começou por ser o desconhecido que, em finais de 2004, depois de ler notícias da descoberta, numa casa particular em Lisboa, duma importante colecção de inéditos do romanceiro garrettiano, tomou a iniciativa de escrever a minha irmã Cristina para a felicitar pelo achado e, perante o seu entusiasmo com a riqueza do material encontrado, adverti-la gentilmente a não esperar muito. Começou aí uma correspondência que deu lugar à amizade que eu herdei. Jorge Colaço acabaria por participar em todos os esforços de divulgação dos manuscritos e por ter nessa divulgação um papel fundamental. Modéstia à parte, a forma como este espólio foi tratado merecia ser um caso de estudo em Portugal. 

 

Retrovisor

 

No meio do esforço algo solitário que representou para mim nos anos mais recentes alimentar este blog, a chegada do Bloco-Notas foi um autêntico balão de oxigénio. Quando há dois anos José Cutileiro me propôs alojar aqui a sua crónica semanal, perguntei a mim mesma se teria sido o chamamento de gente como Cinatti, O'Neill, Nemésio ou Garrett. No caso de Jorge Colaço é simples, na minha família sempre lhe chamámos o Amigo de Garrett.

 

 

Stay tuned, o Dicionário Pessoal  de Jorge Colaço começa dia 6 de Fevereiro. Sai ao sábado.

 

 

 

 

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15.11.15

 

 

 

Tromp-l'oeil_Still-Life_1664_Hoogstraeten.jpg

 Samuel van Hoogstraten (1664)

 

 

Queridos Leitores,

 

o blog faz hoje sete anos, os últimos dois com a presença semanal do Bloco-Notas de José Cutileiro. São já mais de cem crónicas com o respectivo boneco, como ele diz. São textos que me orgulho de publicar e estou-lhe muitíssimo grata por isso. Grata ainda pela ajuda que tem dado a manter vivo este espaço e por me deixar exercer funções de iconógrafa – mot savant que ouvi há uns anos numa conferência no Instituto Francês e a que logo me identifiquei. 

 

Este ano o Retrovisor recebeu outras contribuições valiosas: as fotografias de João D’Korth, cerca de 300 imagens dos anos 30 e 40, que Henrique D’Korth Brandão pôs à minha disposição e ajudou a digitalizar, e a série My Years in Angola (1950-1970) graças à colaboração de Elizabeth Davies. Agradeço ainda a Jorge Colaço, amigo e colaborador deste blog desde o princípio. 

 

Ao longo destes anos tenho acompanhado com interesse a expansão dos conteúdos em português na rede, muito graças à blogosfera, e detectado lacunas também. Ainda há personalidades do século XX em Portugal com pouca ou nenhuma presença na net. A fotografia vernacular começa a despertar mais interesse – neste momento estão patentes em Lisboa fotografias dos álbuns da Raínha D. Amélia e dos Retornados das ex-colónias – mas quanta coisa não se terá já perdido ou continua a desbotar no fundo duma gaveta? 

 

Há pouco tempo, para ilustrar um artigo sobre o poeta Tomaz Kim, o Jornal de Letras usou uma fotografia deste blog (muito bonita apesar de um pouco estragada). No verão passado o jornal Observador usou imagens que tenho coleccionado das praias de antigamente, algumas das quais eu própria descobri na rede. As fotografias de João D’Korth da Exposição do Mundo Português contêm surpresas apesar de tratar-se de um evento tão amplamente registado. Espero continuar a mostrar aqui curiosidades do mesmo género, que no entanto não vêm ter comigo ao ritmo a que eu desejaria.

 

Aos leitores que visitam pela primeira vez, ou que do Retrovisor conhecem pouco mais que o Bloco-Notas de José Cutileiro, convido à leitura de anteriores posts de aniversário.

 

Muito obrigada pela visita!

 

 

*

 

 

Álbum de Família (2008)

 

Queridos Leitores, (2011)

 

Cabinet de Curiosités (2011)

 

Na blogosfera desde 2008 (2012)

 

Cabinet de curiosités 2 (2013)

 

Tags (2013)

 

 


27.9.15

 

 

 

 

Cristina-2002.jpg

 

 

 Cristina de Carvalho Futscher Pereira

17 de Abril 1948 - 27 de Setembro 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ramo de Oiro

 

 

 

Estando eu à minha porta

Com três horas de serão

Vi passar Nossa Senhora

Com um ramo de oiro na mão.

 

 

Eu pedi-lhe uma folhinha

Ela disse-me que não;

Pedi, tornei-lhe a pedir,

Ela deu-me o seu cordão,

 

 

Que me dava sete voltas

À roda do coração.

Sete voltas não são nada

Ó Virgem da Conceição

 

 

Prendei vós esta alma toda

Prendei-ma com vossa mão

Que a metade inda é do mundo

Metade, que a outra não.

 

 

 

Plantai-me esse ramo de oiro

No meio do coração

Ficarei no vosso altar

Como vaso de eleição.

 

 

 

 

Romance popular incluído nos manuscritos garrettianos descobertos pela Cristina em 2004. O poema foi lido no seu funeral e editado numa pagela oferecida aos amigos.

 

 

 

Veja também os posts:

 

 

Efeméride

 

 

LFCL (desde 1952)

 

 

Carta a Garrett

 

 

Fado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 00:02  comentar

5.1.14

 

 

 

Sport Lisboa e Benfica 1966/1967

 

 

Postal reproduzido no livro Retrovisor, um Álbum de Família. Texto e outra foto neste blog aqui.

 

A crónica de Ferreira Fernandes Nunca passei por ele sem dizer "obrigado" aqui

 

O ensaio de Nuno Domingos As lutas pela memória de Eusébio aqui

 

Alexandre O'Neill sobre Eusébio aqui

 

Perfil de Eusébio aqui

 

 

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23.12.13

 

 

Fatias de família (Alto Alentejo)

 

 

Pão                                 500 gramas

Açúcar                           500 gramas

Ovos                              4

Pau de canela              q.b.

Canela em pó              q.b.

Vinho                            1/2 decilitro

 

 

 

Corta-se o pão em fatias e aloura-se um pouco no forno. Dispõem-se numa travessa funda e regam-se com o vinho açucarado a ferver e temperado com o pau de canela.

 

Quando estiverem molezinhas retiram-se as fatias do molho e escorrem-se. Põe-se ao lume, numa caçarola, o resto do açúcar e um pouco de água até ganhar ponto. Depois vão-se mergulhando as fatias nos ovos batidos, uma a uma, e fritando na calda do açúcar. Estando todas cozinhadas, regam-se com o resto da calda e polvilham-se com canela.

 

 

 

M.A.M. [pseud. colectivo de Maria Adelina Monteiro Grillo e Margarida Futscher Pereira]

in Cozinha do mundo português. Porto: Livr. Tavares Martins, 1962, p. 633

 

 

 

 

 

 

 

 

As 1001 receitas deste livro foram coligidas e experimentadas ao longo de muitos anos por Maria Adelina e Joaquim Monteiro Grillo — o poeta Tomaz Kim — e meus pais, Margarida e Vasco Futscher Pereira. A edição, em 1962, deveu-se a Maria Adelina — Nita Monteiro Grillo — cuja dedicação ao projecto o levou a bom porto.

 

 

É recordado como o melhor livro de Cozinha Portuguesa no blog Prosimetron aqui e aqui.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 18:16  comentar

14.12.13

 

 

 

 

 

Com a chegada do Bloco-Notas de José Cutileiro ao Retrovisor, e a pensar nos seus leitores, dediquei umas horas a arrumar a casa, ou seja a criar novas categorias ou etiquetas, as chamadas tags. A primeira crónica — O baú do Kremlin — inaugurou as categorias Alemanha, Rússia e Capitalismo.

 

Acrescentei ColonialismoComunismoCristianismoNazismoTerrorismo 

e Estados Unidos, temas que têm sido abordados neste blog e que faz agora todo o sentido terem tag própria.  

 

Tenho sido económica nas tags porque comecei com categorias o mais latas possível, que permitem agregar material muito diverso e se vão destacando na chamada nuvem de tags (na coluna da direita) à medida que cresce o seu conteúdoMuitos dos escritores citados neste blog estão assim simplesmente agrupados na tag Autores

 

Boa parte do material dos espólios familiares está em ÁlbumÁlbuns, Casas, Recordações.

 

Próximas "gavetas" a arrumar melhor serão Photographia, Fotografia e Snapshot. Na primeira estão guardados os textos de Autor sobre fotografia e as imagens até aos anos 20 do século XX.

 

Para encontrar um nome nos arquivos aconselho pesquisar neste blog, no topo da coluna direita.

 

 

Boa navegação!

 

 

A crónica O baú do Kremlin aqui

 

O Bloco-Notas de José Cutileiro sai à quarta-feira.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:44  comentar

9.12.13

 

 

Ultimamente tenho abrandado o ritmo de posts, às vezes por falta de tempo para dedicar ao blog e outras vezes por falta de material e de inspiração. Gostaria de ter chegado aos 500 nestes cinco anos mas o meu espólio familiar tem naturalmente limites e, de momento, não tenho novas colecções em mãos. As minhas leituras também se têm prestado menos, nos últimos tempos, à composição de vinhetas politico-literarias.

 

Serendipity:

 

Estava eu nesta dificuldade quando José Cutileiro me telefona a propor — muito cerimoniosamente, o que ainda me faz sorrir — alojar a sua crónica “Bloco-Notas” no Retrovisor. Nesta blogosfera recheada de espaços tão apetecíveis, anuncia-me que, of all places, gostava de estrear-se neste cantinho. Terá sido o chamamento de gente como Cinatti, O’Neill, Nemésio ou Garrett?

 

Preciso de explicar que José Cutileiro é o meu Perfect Reader, o leitor ideal, o leitor a que aspira todo aquele que escreve, o leitor exigente que leu o que escrevemos de fio a pavio, percebeu tudo e gostou do que viu. Neste caso, não só gostou como se deu ao trabalho de redigir e publicar na revista do MNE uma resenha elogiosa de Retrovisor, um Álbum de Família, ultrapassando largamente tudo o que eu poderia esperar em termos de reconhecimento de um trabalho tão circunscrito. Nem sequer nos conhecíamos pessoalmente em 2009, foi o meu irmão que lhe deu o livro.

 

Desta feita, o meu leitor ideal dá-me a enorme alegria de vir arejar este "cabinet de curiosités", que andava muito precisado, e abrir-lhe as portas a novos leitores, a quem dou desde já as boas vindas. 

 

 

Stay tuned, o Bloco-Notas de José Cutileiro começa a 11 de Dezembro. Sai à quarta-feira.

 


6.12.13

 

 

 

Anonyme; Cabinet de curiosités; (fin XVIIe siècle)

Huile sur toile; Florence; Opificio delle Pietre Dure. aqui

 

 

Tenho celebrado um ou outro aniversário do blog com um breve balanço e queria tê-lo feito neste quinto aniversário, mas atrasei-me. Quero antes de mais agradecer os comentários deixados no post de 15 de Novembro. As palavras de incentivo de tão ilustres colegas da blogosfera animam-me particularmente. Assinalei a data com um cartoon que divide a blogosfera entre “histórias sobre ninharias que alguém cozinhou, tricotou ou coseu”, “auto-promoção” e “teorias da conspiração”. Está bem visto, em versão mais soft seria o facebook, os blogs pessoais e os blogs políticos.

 

Em poucas palavras, para quem me visita pela primeira vez, este blog divide-se entre histórias do meu álbum de família (fotos, recordações e curiosidades do espólio familiar), histórias dos álbuns dos outros (fotografias e curiosidades dos espólios de outras famílias) e, last but not least, textos bastante variados de Autores, sobretudo excertos de obras de história, jornalismo, ensaio e alguma literatura. 

 

Os textos que eu própria escrevo (em minoria) tratam normalmente de espólios familiares, álbuns e recordações, enquanto as citações de Autor e os textos doutras pessoas surgem geralmente a propósito da actualidade e/ou do calendário. Quanto às imagens tenho procurado apresentar um máximo de material inédito, inicialmente com base no meu arquivo familiar e, progressivamente, a partir de colecções particulares que parentes e amigos têm posto generosamente à minha disposição.

 

O blog recebe actualmente em média 50 visitas por dia e poucos comentários (cerca de 300 até hoje em 480 posts). O propósito continua a ser o mesmo: partilhar a minha exploração da fotografia vernacular e reflexões de Autores favoritos, além de contribuir, mesmo que modestamente, para o universo dos conteúdos em português, com imagens, perfis e textos algo esquecidos*.

 

Queridos Leitores e visitantes em geral, continuarei a esforçar-me por merecer a vossa visita. 

 

 

 

 

* Notas:

 

Cabinet de curiosités 1 in English 

 

Neste contexto veja o blog Restos de Colecção aqui e o projecto Conteúdos em Português aqui  

 

Neste blog, um texto sobre a Fotografia Vernacular aqui , um perfil  aqui e um texto de Autor ilustrado com uma foto aqui

 

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15.11.13

 

 

 

 

desenho de Roz Chast (The New Yorker)



Muito obrigada a todos os que me têm acompanhado!





20.7.13

 

 

 

Vidal e Hugo Navarro de Andrade Belmarço (c. 1900)

 

 

outra foto dos irmãos aqui

 

interessante apontamento sobre Vidal Belmarço no blog Promontório da Memória aqui

 

Casa Belmarço aqui

link do postPor VF, às 11:17  comentar

16.7.13

 

 

 

Maria Luísa Navarro de Andrade Belmarço com as filhas Carmita e Stella

Faro c. 1905

 

 

 

 

 

 


14.7.13

 

Manuel de Jesus Belmarço c. 1890 

 

 

 

O jornal Público noticiou há dias que a Casa Belmarço em Faro, adquirida em tempos pela Câmara da cidade para ali instalar o Tribunal da Relação, foi posta à venda pelo Estado. A casa foi mandada construir por meu bisavô sob projecto do arquitecto Norte Júnior e inaugurada em 1912.

 

Manuel de Jesus Belmarço (1857-1918)  fez fortuna no Brasil como negociante de cereais e café. Casou com Maria Luísa Navarro de Andrade e tiveram quatro filhos, três dos quais nasceram no Brasil. Viveu com a família em S. Paulo e após regressar a Portugal, em 1899, construiu uma casa em Lisboa, na Avenida da Liberdade, e esta em Faro, a cidade onde nascera. O filho mais velho, Vidal Alberto Belmarço (1891-1961) e a mulher, Amélia Salter de Sousa Belmarço (1886-1964) viveram nesta casa até ao fim da vida.

 

 

 

 

                                     

 

 a notícia recente aqui

in English read here

 

a Casa Belmarço na Wikipedia aqui

Arquitecto Manuel Josquim Norte Júnior aqui 

 

 

 

 

 

 Trapiche Belmarço e sua ponte de madeira, na cidade de Santos aqui

© Museu do Porto de Santos - Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp)

 

 

Fotos antigas do Porto de Santos na Fundação Arquivo e Memória de Santos  aqui

 

 

 

 

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6.12.12

 

 

 

António Joaquim Tavares Ferro (1895-1956) 

 

 

A RTP2 exibe no próximo domingo um documentário sobre António Ferro, da autoria de Paulo Seabra, projecto que tive o gosto de acompanhar desde o princípio. O Paulo sabe que eu estimo António Ferro e o trabalho das equipas de que se rodeou no SPN e no SNI, e que gostava de ver mais valorizado o seu legado [1].

 

Sou suspeita, já que António Ferro era “muito lá de casa” [2ou melhor dizendo muito lá de casa de meus avós maternos, com quem vivi vários anos. E sem nunca o ter conhecido pessoalmente, nem a sua mulher, Fernanda de Castro [3], tenho a sensação de os conhecer desde sempre de casa de meus avós, que os recordavam com grande amizade e admiração. Com gratidão também: em poucas palavras, estes meus avós tinham sido ricos e perdido tudo em 1929; meu avô Guilherme Pereira de Carvalho [4], quase a chegar aos 40 anos e com três filhos pequenos, empregara-se pela primeira vez na vida a vender automóveis. Três anos depois foi convidado por António Ferro a integrar o SPN como seu secretário pessoal. Era o trabalho ideal para o seu feitio, a garantia de um salário ao fim do mês e, last but not least, a promessa de uma existência infinitamente mais “rica” do que tudo aquilo com que os meus avós pudessem ter sonhado desde o seu revés de fortuna.

 

Lembro-me de minha avó descrever uma viagem de navio à Argentina, por ocasião de um congresso de escritores, depois de se ter convencido de que "nunca mais faria uma viagem", e da satisfação com que recordava o convívio com intelectuais e artistas estrangeiros que passaram por Portugal nesses anos. Guardava dessa época uma vasta colecção de autógrafos em pequenos álbuns encadernados, especialmente concebidos para o efeito.

 

Ultimamente, novas descobertas proporcionadas pela exaustiva recolha documental e iconográfica realizada por Paulo Seabra para o documentário aprofundaram o meu interesse por António Ferro. Resta-nos agora esperar por uma biografia moderna digna deste homem carismático, que imagino, no auge da «política do espírito», a reinventar o Império assim à maneira dum produtor do cinema clássico de Hollywood.

 

 

 

ESTÉTICA PROPAGANDA UTOPIA no Portugal de António Ferro

 

RTP2 | DOMINGOS  9 e 16 de DEZEMBRO de 2012 | 21h

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas: 

IMAGEM: Fototeca Palácio Foz (actualmente, na Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo) s/data, encontrada aqui e que lembra esta aqui

 

1. A loja A Vida Portuguesa, a vitória de um movimento cívico pela reabertura do Museu de Arte Popular, em 2010, e diversos blogs contribuíram de forma importante para o reconhecimento da produção do SNI. Mais neste blog aqui e na tag "arte popular"

 

2. Uma expressão favorita de João Bénard da Costa e título de um dos seus livros. Leia mais aqui.

 

3. Fernanda de Castro aqui  e numa fotografia de Cecil Beaton  aqui

 

4. Guilherme Pereira de Carvalho aqui e os meus dois avós nos anos 20 aqui

 

5. Fundação António Quadros aqui e aqui

 

6. A poesia dos simples: arte popular e nação no Estado Novo, de Vera Marques Alves aqui 

 

 

 

 

 


15.11.12

 

 

 

Foto: © Martin Parr / Magnum Photos

Fashion shoot (1999)

 

 



O blog faz hoje 4 anos. Aproveito este aniversário para agradecer especialmente aos leitores e amigos que ao longo destes quatro anos puseram à minha disposição fotografias e textos, deixaram comentários no blog, divulgaram nos seus próprios blogs o meu, e também aos que simplesmente espreitam com regularidade o Retrovisor. O número de visitas tem vindo sempre a subir, o que me anima a prosseguir viagem na vossa companhia.

 

 

Mais sobre este blog aqui e aqui



 


17.10.12

 

A tradicional Journée Portes Ouvertes do Liceu Francês inclui este ano uma exposição literária, e um encontro com antigos alunos que escreveram livros. Alguns desses antigos-alunos-escritores estarão no próximo Sábado à tarde no liceu para uma troca informal com os visitantes da exposição.  


Filipe Jarro, o organizador* deste encontro, tranquilizou-me desde logo na sua gentil carta-convite: "A minha escolha é abrangente (1 ano no liceu ou 15, 1 livro ou 15, 15 prémios ou nenhum, famoso/a ou não...) e todos contam". 


Pela minha parte, sinto-me feliz de participar com "Retrovisor" nas comemorações do 60º aniversário do LFCL e feliz também pela oportunidade de revisitar o liceu em clima de festa. As festas do LFCL são de boa memória e o LFCL tem muito para festejar. 




Notas:


Vão estar presentes Jean-Yves Mercury - Maria Antónia Palla - Carlos Domingos -Jaime Teixeira Mendes - Leonor Xavier - José Manuel de Morais Anes - Maria Helena Torrado - Filomena Marona Beja - Esther Mucznik - Raúl Mesquita - Lúcia Mucznik - Irene Flunser Pimentel - Isabel Alçada - Vera Futscher Pereira - Pedro Paixão - Clara Pinto Correia - Filipe Jarro - Sofia Marrecas Ferreira - Paulo Miguel Gérault Marrecas Ferreira -Teresa Lopes Vieira


 

Os livros expostos estarão à venda graças à participação da Nouvelle Librairie Francaise e os que se encontram esgotados estarão expostos em vitrines emprestadas pela Fundação Gulbenkian.



*Hoje poder-se-ia dizer "Curator", que opina o leitor?

 


 


13.10.12

 

 
30 de Junho de 1955 - Distribuição de prémios do LFCL, no Teatro S. LuÍs em Lisboa
 
Cristina, com 7 anos, recebe os 2 prémios ganhos no Liceu Charles Lepierre - em Lisboa
Ano escolar 1954-55 (1ª Classe) mista francês-português
 
 
 

 

 

Nesse mês de Junho de 1955, Cristina já transitara para o Lycée du Sacré Coeur de Kalina, Léopoldville, hoje Kinshasa, na RDC. Frequentara o Liceu Francês de Lisboa apenas durante o primeiro trimestre do ano escolar, antes da partida para o Congo.

 

Sobre a minha chegada e o regresso de Cristina ao Lycée Français Charles Lepierre no início da década de sessenta, vindas de uma escola americana, falei no meu livro, e em posts neste blog (aqui e aqui). No entanto, dentro da mesma família cada um vive as coisas à sua maneira e segue o seu próprio destino. Para Cristina, França e a língua francesa seriam muito mais do que um percurso educativo. França tornou-se o país onde viveria metade da sua vida adulta — e muitos dos seus momentos mais felizes — o país onde as suas filhas nasceram, o seu porto de abrigo, como aconteceu a tantos portugueses, em particular os da sua geração. Mesmo depois da experiência marcante dos Estados Unidos, França tornou-se o seu país de eleição. E mais de trinta anos após ter concluído o liceu francês em Lisboa (na parte francesa - baccalauréat d'études secondaires) e partido para Toulouse, estudar economia graças a uma bolsa de estudo francesa, escreveu a Robert Bréchon*, responsável pela atribuição da bolsa em 1965, para lhe exprimir a sua gratidão. 

 

 

 

 

1987

Visita de Estado a Portugal do presidente francês François Mitterrand

Cristina toma notas para em seguida reproduzir o discurso em português** 

 

 

Os netos de Cristina, nascidos em Portugal, frequentam hoje em França uma escola do ensino público francês. Falam francês um com o outro — como Cristina e eu falávamos inglês nos Estados Unidos*** — o que me anima a pensar que nunca esquecerão a língua, porque adquirida muito cedo na vida, e ligada aos afectos, o que tem bom prognóstico.

 

 

 

 Notas:

* Robert Bréchon aqui

** veja álbuns de intérpretes de conferência aqui 

*** Mais aqui

 

 

História do Liceu aqui

 

 

 


21.2.12

 

 

 


Gonçalo Luiz Maravilhas Caldeira Coelho
 Foto/Bilhete-Postal : Furtado & Reis, Lisboa 1928

 

 

 

 

 

Fotografia publicada no livro "Retrovisor, Um Álbum de Família" aqui 

 



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15.11.11

 

 

 

Anonymous (17th Century)

 

 

 

  

Dear Readers,

 

Today we celebrate the blog's third anniversary. Having reached an average of 30 daily hits, I keep an eye on the stats to get a sense of what my visitors are looking for. Most visitors from Portugal seem to be looking for people, places and curiosities from the past, some of which are half forgotten but still deserving of an extra fifteen minutes. After all, there’s not such a great deal of Portuguese material on the web.

 

Many visitors, and perhaps the majority of those who come from abroad, reach Retrovisor via a google search. Some reach it via a few other blogs, which I take this opportunity to thank. I’m also proud to announce that Retrovisor was recently nominated for a “Versatile Blogger Award" (details here). My sponsor describes it as “a blog which has morphed from an antique photo blog into a collection of literary quotes from different sources”. As for me, I see it as a “cabinet de curiosités”. I strive to keep it versatile within the remit of its main themes, which are visible in the tag cloud on your right.

 

Thank you for your visit!

 

 

 

Image:  Cabinet de curiosités  here

 

 


21.5.11

 

 

 

 

Copacabana, Rio de Janeiro, Anos 70 

 

 

A resenha de Clóvis Brigagão (aqui) fez-me recordar o Brasil, precisamente no ano de 1976, quando lá fui a primeira vez. A beleza do Rio de Janeiro e ouvir falar português naquele país do novo mundo causaram-me grande impressão, assim como me emocionou contemplar, dali, Portugal e a Europa.

O meu álbum de família, como muitos daqui, passa pelo Brasil; Santos e S. Salvador, onde alguns dos meus bisavós prosperaram nos negócios, a Bahia, onde nasceu meu avô materno, o Rio de Janeiro da infância de minha avó paterna:  país irmão, "terra de exílio", "porto seguro", às vezes as duas coisas, e outras mais, em tantos momentos da nossa história.


 

link do postPor VF, às 14:49  comentar

6.5.11

 

É um dos escritores que cito no meu livro, a propósito da criação do Círculo Eça de Queiroz. As suas memórias são incontornáveis para quem se interesse pela história dos nossos costumes no século XX. Esta sua bela carta a Marcello Caetano, que faz parte do IV volume de Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo, editado postumamente, tem obviamente um significado especial para mim. 

 

 

 

Salvador, Bahia, 15 de Outubro 1976

 

 

Meu querido Marcello

 

Tem sido minha sina escrever-lhe, principalmente nos últimos anos, os da sua Presidência, em parte talvez por propensão minha a expor as ideias mais facilmente por escrito do que de viva voz, em parte também pela dificuldade do diálogo. O que até há dois anos nunca supus foi que teria de lhe escrever para o exílio, como de Lisboa algumas vezes já fiz e como hoje volto a fazer desta doce terra da Bahia, que nos recorda dolorosamente a nossa grandeza passada e perdida. Não por qualquer sentimento nostálgico de já não sermos hoje, como há dois séculos, senhores da Bahia. Mas pela tristeza de meditarmos na civilização tão idêntica que estávamos a erguer nas terras de África e que criminosamente destruímos.

 

Tem hoje esta carta dois propósitos. O primeiro dizer-lhe quanto me comoveu voltar a vê-lo depois deste intervalo longo e tão fundo. Longo de trinta meses. Tão fundo que nele tombou sem remédio tudo que nas nossas vidas ficou para trás.

 

O segundo propósito é o de o esclarecer sobre a posição que Você se atribuiu e que ditou a sua atitude de não comparência à minha posse na Academia Brasileira de Letras e à minha conferência no Gabinete Português de Leitura. Manteve-se Você ausente duma e doutra cerimónia por considerar que, aceitando eu as atenções ou homenagens do Embaixador e dos cônsules de Portugal, pactuava com o regime que domina Portugal e era (tenho ideia que foram até aí as suas palavras) de qualquer maneira representante dele. As minhas palavras de repúdio de tal interpretação devem ser completadas, para que o equivoco não se mantenha a ensombrar uma amizade que qualquer diferença de critérios não deve prejudicar.

 

Vim ao Brasil a título inteiramente particular, sem qualquer auxílio ou intervenção do Estado Português, como escritor independente que sempre fui e continuo a ser. Essa independência não me trouxe quaisquer prémios no regime anterior e manteve-me inteiramente isolado enquanto passava a procissão dos aderentes no triste Carnaval, no trágico cortejo fúnebre da vida portuguesa dos dois últimos anos.

 

Mas se no Brasil o Embaixador e os cônsules de Portugal quiserem homenagear em mim o escritor independente que sou, entendi que seria grosseiro da minha parte repelir esses gestos de estima, vindos alguns da parte de amigos meus do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Fui vinte e cinco anos funcionário desse Ministério e nunca me considerei representante do regime — o qual, aliás, servi com independência que não excluiu a maior lealdade — mas representante do meu país, como na actual conjuntura considerei aqueles funcionários não representantes exclusivos dum determinado regime, o actual, cujas culpas não lhes cabem, mas representantes de Portugal.

 

Olhando para trás, para estes dois anos e meio decorridos, para o que sofri - e nesse rol contam-se alguns insultos —, para o que perdi, a fortuna honradamente amealhada ao longo de meio século de trabalho, a posição na TZR, que com tanta dedicação servi ao longo de trinta anos — e disso tudo nada me ficou, nem uma pensão de reforma —, olhando para trás sinto que tenho alguma autoridade para calar no Estrangeiro as minhas queixas, para não rasgar mais as feridas que despedaçaram a nossa pátria e dentro de nós tudo que nela amávamos, e manter com isenção e serenidade, neste Brasil que nos observa, uma certa esperança, débil que seja, em que Portugal, ferido quasi de morte, ainda encontrará condições de sobrevivência. E servindo como escritor o espírito português, eu sirvo Portugal.

           

De resto, considerando, sem qualquer equívoco, traidores à Pátria os militares que tinham por missão defendê-la e de 25 de Abril de 74 a final do ano passado procederam com desígnio implacável à sua destruição, não posso envolver nesse apodo os civis que no exercício hoje duma actividade política legítima procuram, melhor uns do que outros, servir o país no plano da governação. Portugal tem de ter quem o sirva, mesmo a braços com esta situação angustiosa que Você próprio não soube ou não pôde evitar-lhe.

 

Traidor, não posso considerar de forma alguma o seu cunhado, o Prof. Henrique de Barros, membro destacado do actual governo. E quando, antes de partir para os Estados Unidos, o meu filho João Filipe exerceu durante uns meses, já este ano, as funções de adjunto do secretário de Estado da Emigração, Sérvulo Correia, ele serviu o nosso país e não o bando de traidores que o apunhalaram.

Portugal precisa de todos os seus bons filhos. Infelizmente ainda se movimentam muitas ovelhas ranhosas no rebanho. Mas isso levar-nos-ia muito longe e transcende o objectivo desta carta, esclarecimento devido à sua amizade, que tanto prezo.

 

Lembre-nos a sua Irmã, com muita estima, e com as lembranças da Graça e minhas, abraça-o o velho, grato e dedicado amigo

 

 

Joaquim

 

 

 

Joaquim Paço d'Arcos

in  Correspondência e textos dispersos 1942-1979  aqui  

 

Selecção, organização e notas de João Filipe Paço d’Arcos e Maria do Carmo Paço d’Arcos

© Publicações Dom Quixote, 2008

© 2008, Joaquim Paço d’Arcos

 

 

Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo aqui

 

 

 

 


  

 

Jornal "Voz de Portugal"

 

 

 

JOAQUIM BELFORD CORRÊA DA SILVA (PAÇO D'ARCOS) nasceu em Lisboa, a 14 de Junho de 1908. Na sua infância e juventude acompanhou seu pai, oficial da Marinha, em diversos governos no Ultramar: em 1912, em Angola; em 1919, com 11 anos, atravessando os EUA para Macau, onde reside cerca de três anos, passando temporadas em Hong-Kong e visitando o Sul da China; anos mais tarde, secretário do Governo da Companhia de Moçambique, na Beira (1925-1927). Com 20 anos foi para São Paulo, no Brasil, como antiquário, exercendo também o jornalismo. Em França, em 1931, escreve o seu primeiro romance, Herói Derradeiro. Em Lisboa, foi empregado bancário, trabalhou na Companhia Nacional de Navegação e, em 1936, vai dirigir os serviços de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mantém-se nesse posto até 1960 e, ao longo desse quarto de século, entrecortado por inúmeras viagens aos mais variados pontos do globo, e por dramáticos acontecimentos mundiais, foi erguendo a sua abundante e vigorosa obra literária, com 50 títulos publicados, como romancista - donde se destacam os seis volumes de Crónica da Vida Lisboeta -, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, poeta. Os seus livros de memórias ficaram interrompidos no final do terceiro volume por ter falecido a 10 de Junho de 1979, em Lisboa. Este livro corresponde, afinal, a um IV volume de Memórias da Minha Vida e do meu Tempo, editado postumamente. 

 

 

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30.4.11

 

 


Gaby Photo, Léopoldville, 1954*


  

 

Comemoro hoje o segundo aniversário da publicação de "Retrovisor, um Álbum de Família" com a resenha de Clóvis Brigagão, amigo de longa data, que acompanhou de perto o meu projecto e, pelo caminho, me deu bons conselhos. O texto não chegou a sair no jornal mas aqui não podia faltar, passe a imodéstia. 
 

 

 

RETROVISOR – Um Álbum de Família

Vera  Futscher  Pereira

Lisboa,  Rui Costa Pinto Edições, 2009

 

 

 

Nessa encantadora e elegante obra de arte literária, Vera Futscher Pereira revela-nos o âmago de um álbum familiar. Ali estão as origens remotas da família e de seus negócios, alguns deles exercidos em Salvador da Bahia e no Rio de Janeiro, de um Brasil ainda bucólico. Ali estão também os caminhos pacientemente construídos no presente e, finalmente, a oferta generosa do futuro à nova prole.  Mais além do legado fotobiográfico, o que apreciamos é a tecedura criativa, muito bem elaborada, através de uma trama 'a descoberto' ... Retrovisor é totalmente aberto às aventuras e desventuras que o leitor, intruso?, quer saborear a cada página.  

À sua arte se junta, sem descontinuidade, o delicado e sensível ofício, tenaz e reluzente, que adquire sentido como ato de amor declarado a tecer, fio a fio, palavra a palavra, o retrato privado da família Futscher Pereira: a lusofonia cosmopolita. Essa ilustrada fotografia familiar ganha sabor e notável dimensão ao incorporar na narrativa o rico contexto histórico com variados comentários do desenrolar sociológico, político, cultural e, porque não, psicológico desses dois tempos, o privado e o público. É pura prosa poética, sob a bela e brilhante composição gráfica, que a autora presenteia ao público, sem pieguice ou maneirismos.

Ao lado da estória da vida dos avós, dos parentes próximos, principalmente dos pais, Vasco e Margarida, de si mesma e dos dois irmãos Cristina e Bernardo, a navegar pelo mundo afora, a autora abre suas páginas aos acontecimentos do dia-a-dia – através de textos tanto seus como de vários comentaristas. Cabe aqui um parêntese sobre o significado dos textos. Primeiro os da própria escritora, alinhavados com graça e sensibilidade, como « ... a tentativa de reagrupar pessoas e lugares dispersos pelas rupturas da vida - e pela própria passagem do tempo ». Narra, de forma concisamente confortável, como andavam as coisas da família, da política portuguesa e do mundo, dos movimentos culturais, artísticos e literários, criados pela geração nascida nos anos 20 do século passado, mas que ainda ressoa aqui e agora, a desvendar as várias circunstâncias que percorrem as páginas, sem perder o fio da meada, num português refinado e claro. Anoto outras contribuições textuais: notas, telegramas, cartas e registros diplomáticos do embaixador Vasco Futscher Pereira, sempre impecáveis, em múltiplos sentidos e em especial notas, artigos e recortes de jornais sobre seu tempo como Embaixador em Brasília (75-77). Os poemas extraídos dos dois livros de Margarida Futscher Pereira: Lugar Comum e Bens Adquiridos, portuguesmente poéticos, como este: « temos que trilhar/piso difícil/para aprender/a saudade sem mácula» (p. 165). O artigo de Bernardo Futscher Pereira publicado em O Jornal (21/05/1982) “Reagan e Brejnev Trocam Galhardetes”, análise política intocável sobre a pressão da opinião pública nos estertores da Guerra Fria. Além de vários outros textos sempre muito bem contextualizados, destaco os diretos, firmes e literariamente muito bem escritos, de Maria Filomena Mónica de seu livro A Evolução dos Costumes em Portugal, 1961-1991.       

Como forma de ilustração da estória familiar, que une geração e vida cultural – onde o mundo entra e participa dessa saga - a autora concebe, com gracioso apuro, uma obra que frui livre, a extrair toda a riqueza e vantagens literárias e estéticas de seu Retrovisor. Além de ser obra de leitura muito cativante e prazerosa, ela é recomendada para os estudos de sociologia e antropologia familiar, para cursos de artes gráficas, letras e jornalismo e até mesmo para os que gostam, estudam e pesquisam épocas e interações das relações humanas. Do abrir ao fechar as páginas de Retrovisor, o espelho recompõe todas as figurações, os textos, as imagens e, principalmente, as pessoas que de forma comovente, humana e precisa, Vera Futscher Pereira consagra em suas essencialidades.

 

 

Clóvis Brigagão

cientista político e escritor, brasileiro, viveu em Lisboa entre 1975-1979.

 


*Foto de capa de "Retrovisor" (Cristina, 1954)
 


22.2.11

 

 

 

 

Tal como Amália Rodrigues, Eusébio e a nossa selecção nacional no Mundial de Futebol de Inglaterra não podiam deixar de figurar no meu álbum de família.

 

Nada nem ninguém pode exagerar o lugar que ocuparam no imaginário português e o que fizeram na sua época pelo nome de Portugal em todo o mundo. Isto compreende-se mais facilmente quando ainda hoje, meio século depois, é ao futebol que os portugueses vão buscar as suas maiores alegrias e motivos de orgulho.

 

 

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18.2.11

 

 

 

"Diário Popular", Janeiro de 1968

 

 

Vera Lagoa (pseudónimo de Maria Armanda Falcão) tornou-se uma personagem marcante na década de sessenta. Cronista social de incrível irreverência, assumiu, pela mordacidade, pela elegância da sua escrita, da sua postura, um papel inovador entre nós — crispando por igual os moralistas da direita e da esquerda.

 

Observadora astuta da alta burguesia, farpeia personalidades até aí intocáveis. As setas com que mimoseia, por exemplo, Natália Thomaz, filha do Presidente da República, nas compras, nos chás, nas estreias, nas recepções fazem-se, jornalisticamente, antológicas.

 

O pseudónimo Vera Lagoa surgiu durante um almoço com Luís de Sttau Monteiro: Vera proveio do desejo de ser verdadeira, Lagoa do vinho branco que bebiam à refeição.[…]

 

Membro do staff da candidatura à Presidência da República de Humberto Delgado, em 1958, Vera Lagoa não conseguiu que o general seguisse, no seu apoteótico regresso do Porto, o itinerário anunciado entre Santa Apolónia e o Rossio. «Ele deixou-se influenciar pelos que o rodeavam, sobretudo pela mulher. Estavam com medo que a polícia provocasse incidentes graves, dada a multidão presente. A caravana, que seria triunfal, não se fez. Foi pena. Desperdiçou-se uma ocasião única... essa cedência marcou o princípio da derrota do general.»[…]

 

Mulher de paixões (não de ideologias), extrema-se, após o 25 de Abril e a separação de Tengarrinha, à direita. Encabeça as primeiras reacções públicas contra os comunistas — que passa a combater como outrora combatera os fascistas.

 

Saída do Diário Popular, funda O Diabo (recuperando um título de prestígio), que o Conselho da Revolução manda, porém, suspender. Inconformada, enfrenta os poderes e lança O Sol, também semanário. Uma bomba explode nas suas instalações, destruindo-as. Chamados a pronunciar-se, os tribunais restituem-lhe O Diabo.

 

«A Maria Armanda era uma pessoa com muito mais valor do que a Vera Lagoa. Tinha mais energias, mais coisas porque lutar. A Vera Lagoa afasta muita gente que a Maria Armanda gostaria de ver junto de si. Antigamente vivia rodeada de certas pessoas que estimava muito», dirá, falando na terceira pessoa, da sua dupla e contraditória identidade.

 

 

Fernando Dacosta

in  Nascido no Estado Novo

Editorial Notícias, 2001 / reeedição Casa das Letras, 2008  aqui

© Fernando Dacosta

 

 

Vera Lagoa.jpg

 Crónicas de Vera Lagoa

 

 

No capítulo do meu livro* sobre o período passado em Madrid usei as crónicas sociais que a jornalista Vera Lagoa escrevia nessa época para o "Diário Popular". Escolhi-as por causa dos títulos e porque gosto de recortes de jornal. Num deles vemos Amália Rodrigues e o Príncipe Don Juan Carlos. Amália não podia faltar no meu álbum de família, por todos os motivos, e até aparece mais do que uma vez. Mas independentemente do caso de Amália, creio que um livro como o meu, que também pretende mostrar uma época, ganha sempre em incluir personalidades públicas, e já agora, se possível, tão simpáticas como estas.

 

 

As "Bisbilhotices" de Vera Lagoa causavam sensação pela sua novidade, o que poderá fazer sorrir nos dias de hoje. O certo é que reflectiam uma mudança de atmosfera, ainda que subtil, na sociedade portuguesa dos anos 60.  Subtil, porque "a ostentação chegara a Portugal. Mas não a liberdade, nem o fim da guerra colonial".*

 

* v. "Retrovisor, um Álbum de Família" texto de Maria Filomena Mónica  p.117

 

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14.2.11

 

 

 

 

 

 

 

 

neste terceiro ano de actividade bloguística talvez valha a pena fazer um balanço. Começo por explicar aos visitantes recém-chegados que me lancei nisto para anunciar um livro que tinha acabado de escrever e ia publicar daí a uns meses, em edição de autor (saiu em Maio de 2009). Não podendo contar com grande visibilidade nem distribuição, a oportunidade de usar uma montra gratuita e interactiva era bastante tentadora. Também desejava mobilar o "vazio", quase inevitavel após a finalização de um projecto que me ocupava há muito tempo.

 

 

Um blog, além de servir para mostrar imagens e curiosidades que tinham ficado na gaveta, permitia seguir com os mesmos temas - recordações, álbuns de família, fotografias, curiosidades - e explorá-los mais livremente, sem as mesmas preocupações de coerência, cronologia, fio narrativo, ou o que fosse. Com a ajuda de autores favoritos, fui assim construindo este 'arquivo', procurando casar o álbum de família com as minhas leituras e os assuntos que me interessam.

 

Valeu a pena: julgo que este Retrovisor contribuiu para criar interesse no outro, cuja edição impressa (500 exemplares) se encontra quase esgotada. Volta e meia sinto a satisfação de 'acrescentar um conteúdo'  que ficará guardado na net. Tive a alegria inesperada de reencontrar amigos que perdera de vista e fiz novos contactos na blogosfera.

 

 

Ultimamente este blog recebia 20 a 30 visitas por dia, o que, não sabendo se é muito se é pouco, me contentava. Há dias o Retrovisor mereceu um destaque dos "blogs do sapo", que fez disparar o número de visitas, uma agradável surpresa, veremos se muda alguma coisa. A média de comentários é que é baixa, menos de um por post. Gostava de receber mais feedback, em particular dos visitantes regulares, que sei que há alguns, pelo menos em Portugal, França, Bélgica, Brasil e Estados Unidos. Aos leitores que se têm manifestado, por comentário ou e-mail, nunca agradeço o suficiente.

 

 

Muito obrigada a todos pela visita!

 

 

Imagem: cartão de Dia dos Namorados, E.U.A., anos 50

 

mais sobre este blog e o livro na tag "retrovisor"

 


7.2.11

 

 

 

 

Praça Duque de Saldanha, Lisboa, anos 60

 

 

 

Deixar Lisboa em 1967 foi uma lufada de ar fresco. Ia fazer catorze anos.

 

O tempo que aqui vivera, marcado por um 'luto' e circunstâncias familiares agravantes, tinha sido difícil. Acabara por me habituar à vida em Portugal, à casa dos meus avós, às ausências dos meus pais, ao liceu francês, mas não me tinha conformado, o que associo a uma série de doenças que me afligiram ao longo desse período, e por fim a um acidente – por distracção, à saída da escola – no qual podia ter morrido.

Na escola,  precisamente, nem tudo corria bem. Findo o ciclo franco-português e passado o exame da quarta-classe, obrigatório para os alunos portugueses, seguira para a sixième (primeiro ano da “secção francesa” do liceu) e entrara novamente em derrapagem. Dispersa e indisciplinada, ao contrário dos meus irmãos que eram bons alunos, as comparações inevitaveis pesavam-me.

Eu gostava do liceu francês mas não conhecia a França. As roupas de pronto-a-vestir que admirava todas as semanas na “Elle”, e outros acessórios muito cobiçados, que as francesas do liceu apresentavam no início do ano lectivo, ao regressar de férias, estavam fora do meu alcance. As minhas amigas eram uma americana e uma portuguesa, tão estrangeiras ali como eu. A minha irmã tinha deixado Portugal em 1965.

No meu meio social, de classe média (funcionários públicos) ocasionalmente em contacto com a classe média-alta (parentes e amigos ricos), também nem tudo corria bem. Apesar da amizade que tinha por alguns primos e filhos de amigas da minha mãe, e da amizade que eles tinham por mim, o convívio, por intermédio deles, com os adolescentes privilegiados do Estoril e de Cascais era geralmente mais sufocante do que outra coisa.

 

Parti para Madrid sem saudades e com alguma expectativa.

 

 

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17.10.10

 

 

 

 

 

Revista Jours de France, 1963

 

 

A revista “Jours de France” transporta-me no tempo para a casa dos meus avós maternos em Lisboa, onde vivi grande parte dos anos sessenta.

A ofuscante beleza insolente de BB nesta capa da JdF ilustra perfeitamente a mudança, ou melhor dizendo o salto, da década de 50 para a de 60, no mundo ocidental, e mesmo em Portugal, apesar de ser "fácil exagerar as semelhanças", como sublinha Maria Filomena Mónica num texto que citei no meu livro.

 

1963 foi o ano do filme “Le Mépris”, de Jean-Luc Godard, porventura aquele que melhor captou toda a magia de Brigitte Bardot, menina fina e bem educada da alta burguesia francesa cujo talento e extraordinária beleza a transformariam na maior 'sex symbol' dos anos 60.

 

 

 

 

 

 

7.10.10

 

A história das regras que governam a aquisição ou perda de nacionalidade é uma história complexa, que tem posto duramente à prova o regime da soberania popular instituído pela Revolução Francesa. Ao trazer luz a estes casos que vivem entre a lei e a política ou, se quisermos, entre o Direito e o Poder, documenta-se um caminho estreito, por vezes sombrio. E o actual debate sobre o lugar dos “ilegais”, “sem papéis” no “Estado de direito” e na “sociedade dos direitos”, volta a mostrar como em tempos de crise é difícil equilibrar o triângulo extremamente dinâmico que se forma entre o poder institucionalizado, a população e o território. Que maus ventos impeliam já a República?

 

Manuela Franco

in “Os desnacionalizados da I República”

Jornal Público–P2 25 Setembro 2010

 



*

 

 

 

 

 

Lisboa, 24 de Junho de 1916

 

Tenho a honra de devolver a V.Exa, por ordem de S.Exa O Ministro, as duas cartas de denúncia contra Hermano Minder e Leopoldo Futscher que acompanhavam o officio de V.Exa, nº 857, confidencial, de 22 de Junho.


 

 

 

*

 

 

 

 

 

 

[...] Eugénio Futscher e filhos, Americo Futscher e Alberto Futscher, que alegam ser portugueses, descendentes de cidadão suisso, tendo-se apresentado a certidão de nascimento do primeiro,que é natural de Lisboa, e a certidão de óbito do pae. Filho legítimo de Rafael Futscher, natural do Cantão de San Gallen, Suissa, e falecido nesta cidade em 15 de Janeiro de 1903. Estas duas certidões, extraídas dos livros de registo da igreja evangélica Alemã de Lisboa foram passadas em Abril e Maio últimos pelo Consul Geral De Espanha, como encarregado dos interesses alemães em Portugal, o que avoluma a suspeita de que se trata de inimigos.

 

 

*

 

 

Leopoldo Futscher e Eugénio Futscher eram tios maternos de meu avô paterno, Rudolfo Futscher Pereira (1885-1956).  O Professor João Alfredo Lobo Antunes, que foi quem me facultou os dados essenciais sobre a família Futscher em Portugal, para o livro "Retrovisor, um Álbum de Família", conhecia o episódio e mostrou-me cópias de um ou outro documento relacionado.


As cópias dos ofícios que hoje apresento foram-me fornecidas por Manuela Franco que a elas teve acesso no quadro da investigação que realizou no Arquivo Histórico-Diplomático.


mais sobre "os desnacionalizados da I República" no post anterior e o artigo na íntegra aqui.

 

 

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16.9.10

 

 

 

 

com o meu tio Frederico, em Lisboa, 1962.

 

 

 

 

Chegámos a Lisboa no verão de 1961. A princípio, a novidade e a redescoberta de uma família calorosa atenuaram o desgosto da perda, abrupta e definitiva, da nossa vida anterior; mas para mim e para Cristina, Lisboa revelou-se aos poucos uma cidade triste e provinciana, cheia de mendigos e de homens ordinários.

Chegado o Outono, a entrada no Liceu Francês agravou a nossa desorientação, perante um ensino mais exigente em português e francês, línguas que não dominávamos convenientemente.

Em casa, um apartamento na rua Rodrigo da Fonseca onde acabaríamos por estar pouco mais de um ano, a minha mãe começou a não sair do quarto. Lembro-me de ficar parada a olhar para aquela porta fechada.

Em Setembro de 1962, o meu pai partiu para o Paquistão. Cristina, Bernardo e eu fomos com minha mãe e a Zulmira viver para casa dos nossos avós maternos. A adaptação foi penosa para todos. Os meus avós impunham uma cerimónia a que não estávamos habituados. Tinham aceite corajosamente aquela ‘invasão’ mas sentiam-se desamparados perante o desespero da filha, um desespero que desafiava a compreensão.

 

 

 

Vera Futscher Pereira

in Retrovisor, um Álbum de Família

© RCP edições, 2009

 

 

O regresso a Portugal inaugurou um tratamento de choque ao longo do qual eu perderia, aos poucos, quase todas as minhas referências habituais. É o único período relatado na primeira pessoa em “Retrovisor, um Álbum de Família”. Foi uma tentativa de reduzir por um momento a distância, dirigindo-me ao leitor num tom mais confessional, na minha própria voz. Não sei se produz efeito, e tenho algumas dúvidas, já que apenas uma pessoa me comentou o facto, e foi para me perguntar porquê.

 



31.8.10

 

 

No meu livro usei uma fotografia de Elizabeth Taylor, de quem gosto muito, para fechar o capítulo americano em “elipse”. Com a fotografia do casal desavindo de Cat on a hot tin roof, ao lado de um texto sobre Portugal que começa com a frase “Eram dias felizes...”  pretendi introduzir, de forma subtil, uma mudança de atmosfera.

 

Naquela época, as loiras queriam parecer-se com Marylin Monroe e as morenas com Elizabeth Taylor. A minha mãe queria, e nota-se nas fotografias dela dessa época. Tinha uns olhos lindos, como Taylor, e era do mesmo signo astrológico: Peixes.

 

Nesta altura Elizabeth Taylor atravessava um dos momentos mais emblemáticos da sua carreira e um dos mais dramáticos da sua vida atribulada: 1958 foi o ano de Cat, pelo qual seria nomeada para o Óscar de melhor actriz, e o ano em que perdeu Mike Todd, em Março, num desastre de avião.

 

 

 

 

 

 

A elipse é o processo narrativo que se caracteriza pela supressão de elementos da acção para realçar outros e tem no cinema, meio que se rege pela economia e necessidade de síntese, um campo de aplicação privilegiado. A montagem, dividindo o tempo e o espaço narrativos em diversas partes (planos), veio facilitar essa operação e quanto mais elíptico for um filme, mais longe estará de uma estética literária ou teatral. O cinema está repleto de exemplos memoráveis de elipses. O que há de tão apetecível e sedutor nelas é a sua implicação do espectador: as elipses são lacunas, espaços vazios, pequenas ilhotas de liberdade semiótica que solicitam uma pluralidade de leituras. O realizador já não afirma, apenas sugere; não mostra a totalidade das coisas, mas apenas a sua parte mais significativa; e, finalmente, cria espaços de indeterminação, ambiguidade e criatividade que o seu público poderá explorar.

 

post de Flávio no blog A Bomba aqui

 

 

Se é a primeira vez que visita este blog leia mais sobre o álbum de família aqui

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