13.9.17

 

Schubert

 Franz Schubert, aguarela de Wilhelm August Rieder, 1825.

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O quinteto em dó maior, D 956, de Schubert

 

 

 

O mano Jorge, que morreu com dez anos e tinha menos nove do que eu, era o único dos três filhos com jeito para música. O piano que fora da Mãe veio de Évora para nossa casa em Lisboa e a Professora Mariana que dera lições ao Babalhú, à Luzinha e à Nucha, filhos de João Cid dos Santos e de sua mulher Nazaré Vilhena, amigos lá de casa – o Pai era padrinho da Nucha – começou a dar lições ao Jorge quando ele tinha seis anos.

 

O Pai cantara em novo cantigas alentejanas (lembro-me da confusão que me fizera ouvi-lo nos Olhos da Marianita em casa do avô quando eu sabia estar ele em Lisboa: era um disco gravado quando era estudante e posto na telefonia naquela manhã pelo Radio Clube Português ou a Emissora Nacional) mas quer o João quer eu pouco ou nada herdámos dessa inclinação; o João, nada mesmo: se fosse inglês poderia dizer como Winston Churchill que só conhecia duas músicas – uma era o God Save the King e a outra não era; eu saíra um bocadinho menos duro de orelha, distinguindo alguns compositores de outros e sentindo preferências fortes por alguns deles.

 

Nunca saberemos o que o Jorge teria dado. Na geração seguinte, a inclinação reapareceu. O meu filho toca há muitos anos em dois grupos pop holandeses que têm conhecido algum sucesso em Groningen e outras cidades do Norte dos Países Baixos. E o meu sobrinho Tiago, que agora vive em Berlim, é compositor, inter alia, de uma ópera, de música orquestral e de música de câmara, tendo também sido professor de composição. Para entender melhor estes saltos de gerações é útil saber que não são à toa. Existe toda uma ciência destas coisas a partir das experiências de um monge agostinho de Brno, hoje na República Checa, chamado Mendel que, passou oito anos a cruzar ervilhas de cheiro e descobriu as leis segundo as quais, em cada espécie, os caracteres hereditários passam de geração em geração, fazendo comunicação científica em que explicou tudo isso, incluindo a existência de pares do que hoje chamamos genes, em 1865. Ficou esquecido meio século, depois inspirou investigações que ainda hoje continuam: é um gigante da biologia, ombreando com Darwin. Ver-se-á o que darão o meu neto e os netos (e o bisneto) do mano João.

 

Tudo isto porque na telefonia do carro ouvi hoje mais uma vez o quinteto em dó maior de Schubert D 956 quase todo, tocado não sei por quem. De há um século para cá ouve-se música que nos chega assim, por acaso ou de propósito, em discos e em maneiras mais modernas ainda de a reproduzir sem ter de haver músicos a tocá-la diante de nós ou nessa altura. Ouvi-o pela primeira vez em casa do Ruy Cinatti e, na minha ignorância musical, tocou-me muito e veio-me à cabeça linha de Eliot “ an infinitely gentle, infinitely suffering thing”. Volta sempre que o oiço (a última vez o ano passado, ao vivo). Quando estou em sala, dá-me para achar que não devia haver discos. Depois caio em mim: sem discos, teria ouvido muito pouca música, quase toda má.

 

 

 

 

 

 

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23.8.17

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Sacanas e bananas

 

 

 

Passam-se anos sem eu ver o Duro. Desde novos, privámos em passagens animadas da vida e ele conhece-me melhor a mim do que eu o conheço a ele - ou pelo menos é isso que eu sinto. (Outro com quem acontecia o mesmo era o meu chorado Zé Cardoso Pires e eu achava que tal se devia ao Zé ser romancista e eu não; com o Duro essa explicação não colhe). Encalhámos um no outro há dias e lembrei-me – lembro-me sempre que nos encontramos - de encalhe anterior, também no verão, à porta do Balaia, depois do 25 de Abril mas antes do Balaia ter virado Club Med.

 

“Voltaste?”. Fazia-o ainda pela finança internacional, em Londres ou numa das costas dos Estados Unidos.

 

“Não! Só quando as condições estiverem cumpridas”.                                                                                  

“Quais condições?”                                                                                                                                                  

“Salazar no poder; Marcelo Caetano na oposição; Freitas do Amaral na clandestinidade!” (Freitas do Amaral, nessa altura, considerava-se e era considerado de direita).

 

A mi me gustan las cosas asi: los hombres hombres; el trigo trigo!” afirma camponesa andaluza numa peça de teatro de Lorca. Camponesa que havia de ser, como o Duro, pessoa de um só princípio, de um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer. Como seria também o médico cujo nome me escapa, membro do Partido Comunista Português no tempo da clandestinidade, preso duas ou três vezes, esbofeteado pela Pide, que encontrei em casa da Mimi e do Fernando Bandeira de Lima, amigos dos meus Pais (ele também maltratado na António Maria Cardoso) e que, ao falar eu de inspector da Pide inteligente me interrompeu, indignado, porque a inteligência era um dom das almas superiores e, por isso, nenhum Pide podia ser inteligente.

 

Ainda haverá gente assim. O Duro é fino como um coral; o amigo dos Bandeira de Lima era burro; o que nos chegou da camponesa de Lorca não dá para saber – mas tudo seres morais e isso escasseia agora no pessoal político. Não só por cá (já lá vamos); falha no cimo mesmo do que chamávamos “O Mundo Livre”: Trump, palhaço pouco esperto, ignorante e malfazejo terá de ser corrido depressa; no Reino Unido não se vê hoje ninguém; em Berlim, automóveis poluentes e superavit escandaloso são demais para que a mediocridade da Senhora disfarce a Alemanha. Talvez Macron, se fizer os franceses perderem egoísmo e peneiras.

 

E nós? No tempo de Salazar o escritor José Rodrigues Migueis dizia que Portugal era um país de bananas governado por sacanas. Democracia e Europa trouxeram-nos harmonia: hoje somos, governados e governantes, bananas assacanados - ou sacanas abananados se a leitora preferir.

                                                                            

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26.7.17

 

 

hortensias 2

 

 

José Cutileiro

 

 

Hortênsias dos Açores – à falta de um Bey em Tunis

 

 

 

Todas as terças feiras, há mais do que três anos, eu começo a manhã com uma aposta contra mim próprio: quero ter o bloco-notas pronto ao fim do dia para o mandar à Vera a tempo de ela poder encontrar boneco que o ilustre e poder despachar os dois juntos para o éter – éter onde depois a leitora os irá buscar, já capturados pela máquina moderna, de bolso ou de mesa, que a leitora, segundo a hora e o lugar, prefira pôr ao seu serviço. Entre bens e males de mundo, bens e males da Pátria e bens e males de mim próprio, em teoria a escolha à minha frente é vasta mas – lembrando Hyppolite, qui regardait le ciel par le trou de la serrure e, quando lhe explicaram que podia olhar para o céu de outra maneira, respondeu vous appelez ça l’azur, ce grand ciel bleu? Mon azur à moi est plus compliqué!, ou pelo menos assim me lembro do poeta belga Géo Norge – mas, dizia, o momento de começar, como o de Husain Bolt a sair dos tacos, às vezes precisa de concentração que o ar desse dia não me dá. Estava eu hoje por bandas assim quando abri e-mail da Vera a perguntar-me se eu queria que ela aprovasse um comentário. No Assunto vinha: comentário de “desconhecido” no blog.

 

Não era um desconhecido; era uma conhecida que começava: José continuas a não te lembrar de mim na nossa infância… Vou dizer à Vera para aprovar o comentário de maneira que eu não precise de o transcrever aqui na íntegra. Em resumo, a minha amiga na infância lembra-se de coisas de que eu não me lembro e eu lembro-me de coisas de que ela não se lembra. Julguei, mal, que ela tinha vindo uma tarde de visita com a mãe à quinta onde nós vivíamos na Ilha Terceira. (Nessa altura era costume senhoras, cujas vidas eram em casa, fazerem visitas umas às outras). Afinal tinham lá passado as duas cinco semanas, vindas do Faial. Dou a mão à palmatória (depois de décadas de pedagogia branda, as novas gerações usarão ainda esta figura de retórica?). E a minha amiga julga, acho que também mal, que eu a retratava em figurinhas que amassava em terra e depressa se desfaziam ou se quebravam. Por mim, julgo que haverá de ter sido o mano João. É certo que em menino – tive a sorte de ser um dos filhos dos homens que foram meninos – também pus a mão na massa. Cópia do Desterrado de Soares dos Reis em plasticina com meio palmo de altura foi fotografada por Mário Novais e elogiada por Diogo de Macedo, crítico de arte abalizado, já estávamos de volta ao Continente. Mas, quanto a feitos de escultura, fiquei-me por aí, donde infiro que a minha amiga deve ter trocado os manos na memória dela – tanto mais que conta no comentário que eu (isto é, o João) já crescido esculpi algumas Teresinhas e até lhe dei (o João deu) uma delas.

 

Não sei do retrato dela com hortênsias que havia em casa da mãe e pedi à Vera que encontrasse fotografia de muitas hortênsias açorianas para ilustração desta página de bloco. Entretanto perdi a aposta comigo próprio: já é quarta-feira.

 

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10.8.16

 

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 Inauguração do Estádio Nacional, 1944

Fotos: João D'Korth

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Vergonha na cara

 

 

 

 

Nuno Bragança tinha tido uma nanny de maneira que quando foi a Londres pela primeira vez, já com mais de trinta anos, os nativos com quem falava não percebiam que ele era estrangeiro. Passou lá um mês; a jantarmos na véspera de se ir embora perguntei-lhe o que achara. “Levaria muito tempo a habituar-me a viver aqui mas a Portugal sei que nunca hei de me habituar.”

 

Com efeito assim foi e o problema não era só do Nuno; o sentimento também assalta muitos que não acabam matando-se. Para Alexandre O’Neill era uma moinha permanente: “Portugal, questão que tenho comigo mesmo”. No meu caso, o incómodo deve vir do Pai que tive. Nos meus primeiros anos de liceu, era director do Centro de Saúde de Lisboa; todas as manhãs um automóvel o vinha buscar, que o trazia à noite (e muitos dias também para almoço que nessa altura comia-se mais em casa do que hoje). A Escola Valsassina, onde o João e eu andávamos, era a caminho do Centro mas nunca pusemos o rabo naquele carro porque um carro de serviço não servia para levar meninos ao liceu. O civismo ia mais longe. A CUF convidou o Pai para dirigir a parte de saúde pública dos seus serviços médicos. Era um lugar novo e aliciante mas havia uma condição: que ele prescindisse de intervenções políticas (não tinham passado da assinatura de alguns abaixo assinados contra o regime; nem sequer era comunista). Quando ele recusou, o médico que lhe transmitira o convite tentou demovê-lo, perguntando-lhe se ele não se lembrava de que tinha filhos. “É exactamente por me lembrar de que tenho filhos” respondeu o Pai.

 

Só comecei a dar-me conta daquilo a que alguns gostam de chamar o “país real” e outros o “Portugal profundo” já na universidade, alguns anos depois do Pai ter morrido. Mandara fazer um sobretudo e o alfaiate teve de mudar a data de uma prova para ir ao Minho testemunhar num julgamento. Contou-me depois: “O Senhor Doutor está a ver, o Juiz queria que eu dissesse a verdade mas eu…”.

 

Outros anos passaram. Virei antropólogo, veio o 25 de Abril, o PREC, a descolonização mas um ano depois disso tudo já se tinha percebido que o país mais parecido com Portugal antes do 25 de Abril era Portugal depois do 25 de Abril. Um dia disse ao Vitor Cunha Rego que meu pai me ensinara serem os portugueses um povo maravilhoso, oprimido por uma cáfila na qual o bandido-mor era Salazar. “Pois é” respondeu o Vitor “eu também tive um pai assim. E é grave um homem aos cinquenta anos descobrir que o pai era parvo”.

 

A identidade entre o país da Exposição do Mundo Português e o país da CPLP parece hoje quase completa. Pelo menos do ponto de vista moral. Em 1944, quando foi inaugurado o Estádio Nacional, avionette lançou sobre o público milhares de panfletos dizendo “O que nós queremos é futebol!” e explicando porquê.

 

Havia censura prévia e a imprensa – jornais e rádio – não podia contar de viagens duvidosas de secretários de estado. Agora pode e conta mas ganhamos as mesmas. Já ninguém terá vergonha na cara?

 

 

 

 

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25.2.16

 

 

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Recolher, preservar e divulgar as memórias de gente comum, reconhecendo que esses testemunhos de vida contribuem para o conhecimento da história e da identidade nacionais, é a missão do Arquivo dos Diários, associação cultural criada há dois anos, que lançou o concurso “Conta-nos e Conta Connosco”, destinado a enriquecer o seu acervo.

 

Agora que dispõe de uma equipa e de um espaço na Biblioteca de São Lázaro, graças a uma parceria com a Junta de Freguesia de Arroios, a associação está em condições de começar a reunir cartas e diários através dos quais os portugueses poderão contar a sua história. Diários, cartas, fotografias e filmes caseiros ou simples evocações feitas pelas pessoas são uma parte importante na construção da memória de cada um. Mas esses documentos servem também para ajudar a construir a narrativa de uma comunidade. A ideia é catalogar por temas tudo o que for recebido e, no futuro, disponibilizar o acervo num meio digital. 

 

Existem já em vários países europeus arquivos dedicados a recolher a memória popular, designadamente o Archivio Diarístico Nazionale, em Itália, que serviu de referência a Clara Barbacini e Roberto Falanga, fundadores deste projecto.

 

 

 

 

 

ALMANAQUE_arquivo_diarios_05.png

© Soraia Martins 

 

 

 

O principal obstáculo, admitem, é chegar às pessoas e mostrar-lhes que as suas memórias e objectos pessoais podem ajudar a desenvolver outros projectos interessantes, do cinema ao teatro, da ficção à investigação, ou simplesmente servir para consulta de quem tem curiosidade por histórias de outros tempos.

 

“Espero que os portugueses desmintam o pudor como traço da sua cultura”, diz Roberto. “Sei que vai ser complicado, mas desafiante. E acho que só o facto de alguém se questionar se deve ou não entregar [os diários e cartas da sua família] já é bom. Estimula o pensamento. Nesse tempo de reflexão o tema esteve ali, a ser considerado.”

 

Também sabem que poderá haver resistências à entrega de materiais e à publicação. “Sabemos que estamos a tocar assuntos muito delicados”, asseguram. Recordam o caso de uma mulher, vítima de violência doméstica, que ganhou em Itália um concurso semelhante ao agora lançado em Portugal e só anos mais tarde recebeu o prémio, depois de o marido morrer. Há também questões legais que podem colocar-se, por exemplo, no caso de pessoas que encontram ou compram materiais que não se importam de doar mas que dizem respeito a terceiros.

 

Tal como em Itália, está prevista a publicação anual de pelo menos um diário: quem entrega os seus materiais pode escolher participar num concurso aberto até 1 de Março próximo. Depois, um painel de dois júris – um popular e um técnico – escolherá um vencedor. Será publicado pela Penguin – Companhia das Letras.

 

As entregas podem ser feitas na Biblioteca de São Lázaro todos os sábados das 11h às 13h ou enviadas por correio e a associação tem um site com toda a informação em www.arquivodosdiarios.pt. Tem também uma página de Facebook aqui.

 

Arquivo dos Diários

Biblioteca de São Lázaro

Rua do Saco, 1  Lisboa 1169-107 (Freguesia de Arroios)  

 

 

Agradecimentos:

 

artigo de Vanessa Rato no jornal Público, artigo de Samuel Alemão em “O Corvo” e textos reunidos no site Arquivo dos Diários.

 

Fotos gentilmente cedidas por Arquivo dos Diários e Soraia Martins

 

 

 


15.11.15

 

 

 

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 Samuel van Hoogstraten (1664)

 

 

Queridos Leitores,

 

o blog faz hoje sete anos, os últimos dois com a presença semanal do Bloco-Notas de José Cutileiro. São já mais de cem crónicas com o respectivo boneco, como ele diz. São textos que me orgulho de publicar e estou-lhe muitíssimo grata por isso. Grata ainda pela ajuda que tem dado a manter vivo este espaço e por me deixar exercer funções de iconógrafa – mot savant que ouvi há uns anos numa conferência no Instituto Francês e a que logo me identifiquei. 

 

Este ano o Retrovisor recebeu outras contribuições valiosas: as fotografias de João D’Korth, cerca de 300 imagens dos anos 30 e 40, que Henrique D’Korth Brandão pôs à minha disposição e ajudou a digitalizar, e a série My Years in Angola (1950-1970) graças à colaboração de Elizabeth Davies. Agradeço ainda a Jorge Colaço, amigo e colaborador deste blog desde o princípio. 

 

Ao longo destes anos tenho acompanhado com interesse a expansão dos conteúdos em português na rede, muito graças à blogosfera, e detectado lacunas também. Ainda há personalidades do século XX em Portugal com pouca ou nenhuma presença na net. A fotografia vernacular começa a despertar mais interesse – neste momento estão patentes em Lisboa fotografias dos álbuns da Raínha D. Amélia e dos Retornados das ex-colónias – mas quanta coisa não se terá já perdido ou continua a desbotar no fundo duma gaveta? 

 

Há pouco tempo, para ilustrar um artigo sobre o poeta Tomaz Kim, o Jornal de Letras usou uma fotografia deste blog (muito bonita apesar de um pouco estragada). No verão passado o jornal Observador usou imagens que tenho coleccionado das praias de antigamente, algumas das quais eu própria descobri na rede. As fotografias de João D’Korth da Exposição do Mundo Português contêm surpresas apesar de tratar-se de um evento tão amplamente registado. Espero continuar a mostrar aqui curiosidades do mesmo género, que no entanto não vêm ter comigo ao ritmo a que eu desejaria.

 

Aos leitores que visitam pela primeira vez, ou que do Retrovisor conhecem pouco mais que o Bloco-Notas de José Cutileiro, convido à leitura de anteriores posts de aniversário.

 

Muito obrigada pela visita!

 

 

*

 

 

Álbum de Família (2008)

 

Queridos Leitores, (2011)

 

Cabinet de Curiosités (2011)

 

Na blogosfera desde 2008 (2012)

 

Cabinet de curiosités 2 (2013)

 

Tags (2013)

 

 


24.4.15

 

Henrique D’Korth Brandão,  que alguns leitores conhecem do Facebook onde publica regularmente fotografias – as suas e as do seu álbum de família ­– pôs gentilmente à disposição deste blog os álbuns de fotografias de seu tio João D'Korth, que lhe foram recentemente oferecidos. Em futuros posts apresentaremos as fotografias de João D'Korth, começando pelo álbum da Exposição do Mundo Português (1940), a coincidir com as efemérides dos 75 anos do evento e dos 120 anos do nascimento de António Ferro.

 

Pedi a Henrique uma apresentação de João D'Korth:

 

 

 

 

 

João D’Korth (1893-1974)

 

 

 

 

 

João D’Korth (1893-1974) 

 

Meu tio-avô João "Grande" (como me ensinaram a chamar-lhe para o distinguir do tio João "Pequeno", irmão de minha mãe), nasceu em Lisboa ao meio-dia de terça-feira 2 de Maio de 1893 na Rua Larga de São Roque, número 66, 2º andar e foi baptizado aos 25 dias do mesmo mês, na igreja do Santíssimo Sacramento com o nome de João Chrystiano Castagna D'Korth.

 

Sei que o "Tio Faísca" trabalhou décadas na C.R.G.E. [Companhias Reunidas de Gás e Electricidade] quando ainda sediada na rua Vítor Cordon, que esteve em França na Grande Guerra, e aí se interessou por pombos-correios. Também gostava de pesca. No jardim da sua Princesa, havia pombas de leque e carpas brocadas em profusão; rosas de Santa Teresinha e brincos-de-princesa.

 

 

 

D'Korth João fardado 1917 07

 

 

João D'Korth em 1917

 

 

 

Segundo a minha mãe e a minha tia, o tio João tratou a Néné "como uma Princesa". Era a Princesa dele e uso agora a aliança que ele usou, revelando quando aberta o nome dela e a data do casamento: Maria das Dôres, 9-2-1931.

 

Foi a Néné que encadernou livros e albuns de fotografias, preservando a maior parte do espólio de imagens a que tive acesso — a guardadora de imagens que me permitem evocar e aceder a esse mapa da cidade-de-cada-um, feito das ruas-do-onde-morava.

 

 

 

 

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Nené - Maria das Dores D'Korth no seu estúdio de encadernação

em Lisboa na Travessa da Fábrica das Sedas, 23

 

 

 

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 Álbum de fotografias de João D'Korth encadernado e com papel estampado por Néné 

 

 

Foi engenheiro e engenhocas. Os relógios, que coleccionou, pontuaram a vida da casa, do rés-do-chão ao primeiro andar; acertados por ele, disparavam a cada quarto-de-hora em intervalos de segundos para se poder ouvir distintamente o toque de cada um. Eram relógios de caixa-alta, de carrilhão, de mesa, de três movimentos, de parede e, em profusão no estúdio de encadernação da tia Dores, os de cuco.

 

 

A música foi outra das suas paixões: seu pai, meu bisavô João Gregório D'Korth, médico-homeopata, foi um dos fundadores da Academia de Amadores de Música. Tocava violino e os três filhos estudaram todos um instrumento. Piano, violino e violoncelo, em casa, em Paris e em Berlim.

 

 

 

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Da esq. para a dta Maria Henriqueta (1892), João Cristiano (1893) e Arminda Mariana (1894)

Lisboa, fotografia Vidal e Fonseca, c. 1900

 

 

 

As aparelhagens de som foram em várias casas de parentes montadas por ele com requintes de amplificação e pré-amplificação. Gostava de automóveis e de viagens; primeiro, das complicadas, daquelas guiadas horas a fio e com guindastes pelo meio para içar a máquina da estrada para o ferry e do barco para outras margens.

 

 

 

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 Viagem a Marrocos, anos 40

 

 

 

Com o passar dos anos, foram os cruzeiros e a linha "C", "Grande come il mare", com todo o seu rol de nomes de Augusto a Flavia, passando pelo meu: Enrico.

 

 

Só há pouco descobri que aos pombos, peixes, automóveis, abelhas, relógios, navios, e aviões, podia juntar ainda como paixão sua a fotografia. Faceta oculta que me é revelada meio-século volvido: quando julgava não existirem mais fotografias de família para digitalizar, aparecem quatro álbuns que me dão a ver um mundo que se estende para além do país dos afectos.

 

 

 

 

 

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Estádio Nacional, 1944

Toni e Néné, os irmãos António José Brandão e Maria das Dôres Brandão D'Korth

 

 

 

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Exposição do Mundo Português, Lisboa 1940

Nau Portugal aqui

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FAMÍLIAS - NOMES

 

Os Castagna vieram de Malta em meados do século XIX, e foram comerciantes com loja de câmbio na Rua dos Capellistas, ou Rua Nova d'El-Rey.

 

Os D'Korth eram médicos que emigraram da Antuérpia para a cidade da Horta e daí para Montevideo, Porto e Lisboa. O tio João Grande era irmão de minha avó [materna] e casou com uma irmã de meu avô [materno]: cunhados, irmãos e vizinhos, numa espécie de imagem de espelho a revelar as duas famílias de que descende minha mãe: os (Carvalho) Brandão, brincalhões e mais down-to-earth, vindos da Mealhada-Anadia para Lisboa onde meu bisavô abriu loja na rua Augusta em 1913. Os de Korth, reservados de aparência e assaz altivos.

 

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Pintura a óleo representando o bisavô João Gregório D'Korth (1853-1925) a tocar violino com o "seu" quarteto; pintado pela minha bisavó, Marianna Castagna D'Korth, em 1900, na casa da Estrada das Laranjeiras a Palhavã. A casa foi demolida para dar lugar á Praça de Espanha e o quadro desapareceu também.

 

 

Henrique D'Korth Brandão

Lisboa 2015

 

 

 

 Álbuns no Flickr:

Exposição do Mundo Português

 França Anos 30

Marrocos Anos 40

 

 

 

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17.4.15

 

My Years in Angola (1950-1970)
Andries Pieter van der Graaf
 
Previous posts:

By 1962, Portugal started to get over the 1961 scare, and Adriano Moreira, Minister for the Ultramar, was working on the Lei Orgânica do Ultramar, which was to lead to the creation of a Common Market for the Portuguese territories. Work was also being done on the Statute for the Indigenous People, which was to grant them more rights.

 

Governor Deslandes (1) ran up against friction with Lisbon, where people felt that he wanted to govern in too autonomous a fashion.

 

General Venâncio A. Deslandes (1909-1985)

Governor Venâncio Augusto Deslandes and Andries Pieter van der Graaf

 

 

Economic activity took off. In Portugal itself there was now far more interest in Angola's economic potential, and in the following years many government projects were started, such as building roads, airports, schools, hospitals, and so forth. The government also became interested in oil production and iron-ore mining. Industry, fisheries, and tourism all began to be given more attention.

 

 

 

 

 

 

Agfa

 

Loading lorry Casa Holandesa/Zuid Afrikaans Handelshuis (ZAH)

 

 

Coffee exports got going again, and some years later production reached around 200.000 tons. The services of the Instituto do Café (formerly Junta do Café) were improved, and it became an institution guaranteeing the quality of exported coffee.

 

 

Fazenda Sofia 2

 

 

Fazenda Sofia, Cuanza-Sul

Sociedade Agrícola e Comercial Luís Henriques Moutinho S.A.R.L.

Cuanza-Sul (1910-1975)

 

Fazenda Sofia Angola

 

Fazenda Sofia, Angola (2

 

 

 

Commercial banks in Portugal also began to show an interest. Up until then, the Banco de Angola, as both issuer and commercial bank, held the monopoly. However, with the arrival of the Banco Comercial de Angola came an influx of Portuguese banks, followed by the English/Portuguese Banco Totta Standard de Angola.

 

In the meantime, Cabinda underwent a great change. The days when people called for the taxi (as there was only one) instead of a taxi, were over. Banks, shipping companies, and trading companies became established there. With the expansion of oil exploration, terrorist activities tailed off in that area. The interior of Cabinda, a tropical wilderness with various hard woods, including mahogany, was also once again accessible. From time to time the border between Cabinda and Congo was closed off due to political disturbances, but a lively smuggling business continued across the border, making Cabinda a good market for all sorts of products, and our travelling salesmen therefore sold a lot.

 

In the northern coffee regions, the terrorists were able to stand firm, though practically all the connecting roads were in Portuguese hands. Even on these roads, attacks took place on troop columns and convoys. To reach Carmona, in the centre of the coffee production area, the detour via Vila Salazar was still used.

 

 

carmona_aerea

 

Carmona, Angola

 

 

Travel in the interior became progressively safer, and faster with the new asphalt roads. The asphalt road Luanda-Dondo-Quibala-Nova Lisboa-Lobito was completed, and links between Luanda and Lobito (600 km), and Luanda and Nova Lisboa (700 km) were excellent. Moçamedes got a railway link to the iron-ore mines, which had been almost completely taken over by the government. Railway equipment was delivered by Krupp, against payment in iron-ore deliveries over a number of years. A modern ore transfer harbour was built in Moçamedes.

 

In the meantime, disturbances were felt from Zambia, meaning that the eastern border areas to the north and south of the Benguela railway became dangerous. The eastern districts were very suited to terrorist activities: they were far away (some of them were called "terras do fim do mundo" (lands at the end of the world) and rich in cattle, especially red buffalo (pacaça) and various types of antelope. "Aldeamentos" (native housing regroupings) were set up in these areas in order to provide some protection for the population. The capitals remained accessible by Fokker Friendship or other airplanes.

 

A DTA Fokker F-27-200 at Benguela Airport in 1965.

 A DTA Fokker F-27-200 at Benguela Airport in 1965.

 

 

 * * *

 

On November 13, 1968, we received the longest telegram we had ever had in Luanda, with news of the merger between ZAH and CTC (Curaçao Trading Company, later Ceteco).

This was a completely unexpected development, and everyone was stunned. The Dutch staff was split in its opinion on the matter, the Portuguese as a whole were negative (the Portuguese version of "rather the devil you know, than the devil you don't" came up again and again), and I had my hands full trying to get everyone to see things from the bright side; after all, you never know what a good Portuguese worker will do when beset by doubts. Convincing some exceptionally good people to stay with the company, when they received offers from other companies, had been a constant concern before, and this might well have been "the last straw." But there were no mishaps.

 

A period of adjustment and new initiatives began, which it was interesting to be involved in. End January 1971 I handed business administration in Angola over to Mr. de Groot.

 

Farewell, 1971

 

Farewell dinner. From left: De Groot, D. Augusta Neves e Sousa, A.P. van der Graaf and others.

 

It was a pleasure for me to be able to hand over a good, profitable business, with a staff that undoubtedly still had a lot of untapped potential. It is with great pleasure that I think back to the times when we worked together.

 

 

ZAH staff - 49

 

ZAH Luanda office staff, with A.P. van der Graaf (front row, 4th from the right), his wife Joyce, and Chargois (HQ)

 

 

 

 

A.P. van der Graaf and Queen Juliana 

 Knighted by Queen Juliana (Ridder in de Orde van Oranje-Nassau)

 23 April 1968

 

 

 

 

 

Andries Pieter van der Graaf Jan/Feb 1974

Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

 

A.P. e Elizabeth

 Andries Pieter van der Graaf and daughter Elizabeth (Betty), Angola 1968

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e cederam fotografias do espólio do autor.

 

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

 

Links to previous posts in this blog:

My Years in Angola (1950-1970)

My Years in Angola (2)

My Years in Angola (3)

My Years in Angola (4)

 

Link to photo album "Vintage Angola" on Flickr: 

https://www.flickr.com/photos/vfutscher/sets/

 

 

 

 

 

Notes:

1.

Venâncio Augusto Deslandes (1909 - 1985)

 

Not to be confused with his ancestor of the same name (V.A.D. 1829-1909) referred to several times in this blog.

 

Venâncio Augusto Deslandes (1909- 1985), Air Force General, Ambassador to Spain, Governor-General and Commander-in-Chief of the Armed Forces of Angola, Chief of Defence Staff.

 

General Deslandes took office while the UPA* terrorism crisis continued to devastate northern Angola. Once the situation was under control, and all the north reoccupied, General Deslandes launched a vast development plan for Angola, which included the creation of a university in Luanda. This initiative and the success of his administration met with strong resistance from the Minister of the Overseas, Adriano Moreira, who soon removed him from office. (In Memória da Nação and Wikipédia, excerpt translated by Elizabeth Davies)

 

*UPA – União dos Povos de Angola, founded in 1959, by Holden Roberto.

 

More on General Venâncio A. Deslandes in Memória de África

 

 

Venâncio Augusto Deslandes (1909 - 1985)

 

A não confundir com o seu antepassado do mesmo nome (V.A.D. 1829-1909) várias vezes referido neste blog.

 

Venâncio Augusto Deslandes (1909-1985) General da Força Aérea, Embaixador em Espanha, Governador Geral e Comandante-Chefe das FA de Angola, Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas.

 

O General Deslandes assumiu funções quando o terrorismo da UPA* assolava ainda o Norte de Angola. Controlada a situação, e concluída a reocupação de todo o Norte, o General Deslandes lançou um vasto plano de fomento para Angola que incluia a criação de uma Universidade em Luanda. O sucesso da sua administração e a sua iniciativa encontraram forte resistência no Ministro do Ultramar, Adriano Moreira, que rapidamente o demitiu. (Fontes: Memória da Nação e Wikipédia)

 

*UPA – União dos Povos de Angola, fundada em 1959, por Holden Roberto. 

 

Mais sobre o General Venâncio A. Deslandes em Memória de África

 

 

 

 

 

2. 

Photos 

Fazenda Sofia: Many thanks to Sofia and Fernando Luís Plácido de Abreu.

 

Carmona: cc3413.wordpress.com

 

DTA Folker: http://en.wikipedia.org/wiki/TAAG_Angola_Airlines

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


10.4.15
My Years in Angola (1950-1970)
Andries Pieter van der Graaf
 
Other posts:
 

 

 

In the 1950s, interest began in Angolan mineral resources, and Petrofina was the first to start drilling for oil. Oil discoveries remained limited, but oil did bring with it all sorts of other activities to Angola, and "Angola has never been the same again." Some years later, Petrofina built a small refinery just outside Luanda, and in spite of a difficult relationship with the government (which imposed all sorts of restrictions, royalties, and bureaucracy), production capacity kept increasing.

 

 

Cabinda - Petroleo 5

oil rig, Cabinda

 

 

 

 

In 1957, Gulf Oil was given rights to drill off the coast of Cabinda, and in 1958 large-scale shipments of equipment came to Cabinda from America. American firms, such as Union Carbide, came to Angola to carry out soil resource studies, but their reports, to the extent that they were known, were not very positive. Work on iron ore had already begun, e.g., near Vila Salazar, as well as in the south, near Nova Lisboa and Sá da Bandeira.

 

16 Luanda port

 Luanda Port

 

In 1960, the revolution took place in the Belgian Congo, which meant that many Belgian refugees, but also those of other nationalities, came to Luanda. The first sign of political unrest in the Portuguese African territories was the hijacking of the "Santa Maria" in January 1961.

 

 

Santa-Maria

 

Paris Match 1961

 

 

People thought that this ship, taken over by Galvão (who had held prominent positions in Angola), might come to Angola, but this did not happen. However, soon after that, during the night of the 3rd and 4th February, a bloody attack took place against whites and blacks in the northern coffee area, during which many hundreds of people, including women and children, lost their lives in the early hours of the morning. It was an act of frightful terror, in which the most appalling acts of cruelty took place.

 

Most certainly elements from the Congo were involved in this, who had gained influence over the local people, and many of the killings were carried out under the influence of drugs, marijuana, etc. This area of small coffee plantations was perhaps one of the most fertile areas for rebellion, for the conditions under which the natives worked were bad, and there had already been signs of dissatisfaction, but to which government officials had paid no attention. At the same time, there was an attack on the Penedo jail in Luanda, with a number of people killed, and some days later more clashes during the funeral for one of the victims. By March, people were already talking about organized terrorism in the northern areas, and refugees streamed into Luanda from those areas, mainly women and children. Luanda was in a state of great agitation, and many families left for Portugal or elsewhere at the first opportunity. The population also turned against the Protestant mission in Luanda, smashing all the windows of its buildings in the city.

 

 

 

Congo émeutes

 

 Congo riots

 

 

For months and months you could hear machine-gun fire at night, coming from skirmishes at the city limits and the outskirts, the native neighbourhoods. Since there was very little military power to protect the people should a large scale attack by the natives take place, people were in a high state of anxiety, aggravated by all kinds of alarming rumours doing the rounds, such as imminent slaughtering of children in the schools, mass poisoning of the drinking-water supply, and so on. From the cotton districts of Cassange, to the east of Malange, again and again came news of mass uprisings, and there were people who believed that a complete encircling of Luanda by the blacks was not impossible.

 

 

angola selo

Angola Stamp

 

 

 

After that we were not able to visit those regions for some time, as it was too dangerous to travel there independently, and even in convoy it was hazardous. Many clients were still unreachable, as they had entrenched themselves behind walls and barbed wire. We had a consignment of "Jacaré" machetes, from Martindale, in our stocks, and these had to be handed over to the police.

 

Luanda's needs increased with refugees and soldiers swelling the city's population, and it was a matter of adjusting as best possible to this situation. Progressively the areas around Luanda were cleared, and people could once again travel in the direction of Cacuaco, and later as far as Caxito, but further north, so some 100 to 150 km from Luanda, travel remained unsafe.

 

to be continued...

 

Andries Pieter van der Graaf Jan/Feb 1974

Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 
March 2012

 

Previous posts:

My Years in Angola (1950-1970)

My Years in Angola (2)

My Years in Angola (3) 

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

Album "Vintage Angola" on Flickr 

 

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e disponibilizaram fotografias do espólio do autor.

 

 

Photos

Oil rig: Fotos Cabinda  

Paris-Match: Pitigrili 

Congo riots: ammafricaworld 

 

 

 

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3.4.15
 
 
My Years in Angola (1950-1970)
Andries Pieter van der Graaf
 
Other posts:
 

 

Besides food (Mozambique tea - chá licungo - , and cashew nuts should also be mentioned), drinks and textiles, there was an assortment of other articles, which pretty well matched the range of articles in the "mercearias" (general stores) in the interior and in the city. These were: storm lanterns, primus stoves, chopping knives, hoes, corrugated panels, plumbing, floor covering, sewing machines, iceboxes, bicycles. In the shop window was a graphic poster of a Raleigh bicycle, with a native on it, chased by a lion. Many Velosolex (motorized bicycles) were also imported, but more in Lobito than to Luanda, where the roads were too steep. In the first years, copper wire, beads and other decorative articles were important. Importing of beads was arranged through Amsterdam from Italy ("missangas"), and from Czechoslovakia ("contas").

 

 

 

 

 

raleigh-bicycle-lion-vintage-bicycle

 

 

 poster of a Raleigh bicycle

 

 

Angola is generally a "price market," but Bacalhau is an exception to this rule. Bacalhau (dried cod) the way the Portuguese like it, is Clipfish, dried on rocks (Stockfish is dried hanging on wooden racks). Codfish came mainly from Norway, with occasional shipments from Iceland and Scotland. For dried cod, or "o fiel amigo" (the faithful friend) as the Portuguese call it, quality is the top requirement, since they are so fond of Bacalhau that no feast day may be celebrated without it, e.g., Christmas.

 

 

In the warehouse

 

 In the warehouse

 

What with one thing and another, the months of November and December were always exceptionally busy for anyone who had anything to do with the "armazém" (warehouse). During this period, a great deal of work was done by the native assistants in the warehouse, and when the bonuses were handed out, they were given extra consideration too. There were some very strong men among them, I especially remember "Maximbombo", the native word for "bus", commonly used in Angola. Many of the natives have Portuguese, or Portuguese-derived names, but there are exceptions to this. For example, Van Dunen harks back to the Dutch administrator Van Duinen; Fançoni to Van Zon, etc. One particularly good tribe came from the Bailundo area, who didn't speak Kimbundo, as they do in the North, but Umbundu. As employees, the natives were still very subservient, something which was to change a great deal in the next decade; they also had very few rights, notwithstanding the official policy of equality and assimilation. The economic colour barrier was enormous.

 

 

 

Luanda was still small. Behind the Avenida Brito Godins, where our "residencia" was situated, there were a few residential areas, but otherwise nothing very much yet. There was no Avenida Marginal, just a sandy shore to the bay, and not far from there was the market, where now the Banco Commercial rises up.

 

13 Luanda, no Marginal

 

Luanda bay, before the Avenida Marginal was built

 

4 Luanda, '50s

 

Luanda in the fifties

 

3 A residencia, front garden

 

 

 A residência, front garden. Circa 1952, with Joyce, Kees and Betty

 

1 Causeway to the Ilha

 

 Causeway to the Ilha

 

 

When I arrived in Luanda, the peak demand for foreign imported cotton prints had already passed. Around Sá da Bandeira you didn't see very much textile, for there the native people kept mostly to their traditional dress, a loincloth, some arm rings, beads and buttons. In this cattle-rich area, the women wore leather strips, onto which sawn-through cone shells had been added. These cost about "an ox" each, and from the number of these shells you could calculate the financial status of the native family.

 

Muhuila married women

 

Muhuila married women

 

 

In the surrounding area, Huila, and Cuanhama, there is still a great deal of traditional life to be seen. A trip into the Huila area stands out as the most interesting one in my memory. The native tribes provided the most picturesque spectacle. They were mostly Huilas and Mucubais, tribes that had resisted the trend to wearing European clothes - in contrast to Northern Angola. They kept to their own ways and it was marvellous to see their dark brown shining bodies, embellished by thick copper wire wound around their necks and legs, all sparkling in the sunlight. The women, with finery differing according to age or status, often wore strings of shells, cowrie and others, and beads. On their backs they wore cone shells, sawn in halves. These came all the way from the coast and were very expensive. I was told that one could tell how rich they were by the number of shells they wore. One of them was worth " an ox ". In their necklaces and bracelets, however, there were often small European objects, such as coins and safety pins and other shiny objects.  

 

 

6 "Trip through South and Central Angola", Muhuila women, with cut off cone shells

Muhuila women, with cut off cone shells, Joyce, Kees and Betty by the car

 

A.P. with Mumuhuila

 A.P. with Mumuhuila tribesmen

 

 

 

The travelling salesmen took as many samples with them as possible of everything that we sold. There was a good variety, and therefore our men were always welcomed by the clients. Still, they always had to keep in mind the custom of never being over hasty. The first day had to be seen as the lead up to the real business visit. First, time needed to be patiently spent on "cumprimentar" (greetings) and "conversa" (conversation). The next day was the day for business. Only then were the boxes of samples brought out from under the canvas of the carrinha (pick-up), and opened.

 

Trip to Nova Lisboa, May, 1965

 Trip to Nova Lisboa, 1965

 

The roads were appalling. Heading inland, there was asphalt only as far as Catete (60km), and on the way to Malange, around Zenza, there was a 30 km stretch of very fine sand, all very well for growing cotton, but not quite the right thing for a road. Driving through those 30 km would take a good three hours. But these trips also had a very attractive side as well. Astonishing vegetation: baobabs ("imbondeiro"), and candelabra-euphorbias along the road to Dondo, and further along perhaps coffee plants in bloom. Towards the south, instead, you would see different types of acacia, and then dry savannah.

 

 

057

baobab tree

 

The hotels along the way were pretty shabby, but they sometimes made good meals: feijoada (a bean stew), guisado (stewed meat and greens), churrasco (piri-piri chicken). Breakfast was "sem garfo" or "com garfo" (with or without a fork). "With" was with meat, almost a full meal, and "without" was coffee and a couple of rock-hard buns with very salty butter. For the lorry drivers there was still another "matabicho" (matar o bicho = to kill the animal; the official Portuguese word for breakfast is "pequeno almoço"): a strong cup of coffee with brandy upon departure at dawn, followed later in the morning with a "matabicho com garfo." Another delicacy of the "mato" was muamba (palmoil stew).

 

 

to be continued...

 

Andries Pieter van der Graaf Jan/Feb 1974

Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

Album "Vintage Angola" on Flickr 

 

 

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e disponibilizaram fotografias do espólio do autor.

 

 

 

 

 

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27.3.15

 

 

My Years in Angola (1950-1970) 

Andries Peter van der Graaf

 

Other posts:

My Years in Angola (1950-1970)

My Years in Angola (3)

My Years in Angola (4)

My Years in Angola (5)

 

 

nestles-milk-banner

 

 

 

 

In the '50s, business with Nestlé was developing very well, for which we held the monopoly. At first condensed milk was the main product, then milk powder replaced it, as well as all sorts of baby food. We were not able to remain sole agent, in part as a result of pressure exerted by C.U.F. (Companhia União Fabril) on S.P.L. (Sociedade Produtos Lacteos).

 

 

 

 

 

 

 

1955-Nestl-em-Avanca

 

S.P.L. (Sociedade Produtos Lacteos)

 

 

For many years it was only possible to import milk products from Portugal (significantly more expensive than Dutch milk powder, for example) as no import licenses were issued for foreign milk. Later on, this situation changed. Only in later years was fresh milk available in the cities, and also sterilized milk, mainly from Cela.

 

 

Cela Igreja_e_Pelourinho_cedida_por_Z_Valada_Feliris_e_Milai

Cela, Angola c. 1960

 

Cela is a colony for white Portuguese settlers, situated in a highly fertile area of Central Angola, along the Cuvo River, most probably formerly a river bed.

 

 

12 Colonization project at Cela

 

 

Cela c.1960

 

 

A lot of money was squandered in Cela because things were done in a disorganized fashion (land planning took place when work had been on-going for over ten years, thousands of head of cattle were imported from Denmark and which were unable to adapt to the climate, colonists were recruited in Portugal more on the basis of connections than suitability). Still, it was an interesting project, to which we also contributed a good deal. One big client was the colonists' Cooperative, though unfortunately they were always short of cash, and couldn't pay their debts.

 

 


10 House of a colonist at Cela

 

Cela c.1960

 

Cooperation is not a strong point in the Portuguese. They are too individualistic for that, they say so themselves. The only Cooperative with which we had no financial problems was one in which the members were mostly Germans. Here and there in Angola there were some groups of Germans, among them the Mannhardt brothers, for example in Calulu, where they very successfully grew coffee.

 

coffee 15

 

A.P. van der Graaf visiting a coffee plantation

 

8 With Dutch padre

 Kees, Betty and Joyce with Dutch Padre

 

Sometimes missionaries came to buy goods from us and I was invited by them to come and have a look at their mission services. These were at Dondi, some 80 miles from Nova Lisboa. It was a Protestant mission, "Congregational", American and Canadian. This was a big mission, providing teaching in a number of subjects including agriculture and other trades, as well as providing medical care, including a leper colony. It covered a large area, many brick buildings in which the various services, hospitals and workshops were housed. 

 

 

 

 

IGREJA LUTAMO 1

 

 

Dondi Mission, Angola

 

Means School, 1950's

 Means School, Dondi, 1950's

 

 

 

What I remember best is the choir singing led by one of the American missionaries. The Bantu have an exceptional sensitivity to sound and rhythm, and the choir master had, I thought, brought them to a high level of performance.

 

Listen here to Angolan Umbundu music 

 

See here ruins of Dondi mission (Images of Angola - Noel Henderson-James, 2011)

 
 

 

... to be continued...

 

 

 

Andries Pieter van der Graaf

Jan/Feb 1974
Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

Album "Vintage Angola" on Flickr 

 

 

 

Notes:

 

Read post # 1:  My Years in Angola (1950-1970) here

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e disponibilizaram fotografias do espólio do autor.

 

Images and Photos:

NestléLeite Condensado

S.P.L.: Restos de Colecção

Means School, Dondi: Nancy Henderson-James

Music:

Angolan Umbundu Music: Nancy Henderson-James

 

 

 

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20.3.15

 

 

A.P. van der Graaf

 

 

Andries Pieter van der Graaf (1909-1996) spent almost his entire professional career (1928-1970) with the Dutch company Zuid Afrikaans Handelshuis (ZAH). In 1950 he was posted to Angola to act as managing director of the Luanda Office. He served as Dutch Honorary Consul from 1952 till 1971.

 

It is with great pleasure that we present in Retrovisor excerpts from a memoir in which he tells about his experiences learning to run a Dutch trading company in Angola in colonial times and his fascination with the country and its peoples.

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

 

 * * *

 

 

I visited Angola for the first time in 1950. ZAH (Zuid Afrikaans Handelshuis) had two offices there, one in Luanda, the other in Nova Lisboa. The area covered by the Nova Lisboa office was mostly that along the Benguela Railway: a section from the coast to the border with the Belgian Congo (Katanga). The purpose of my stay in Nova Lisboa was to familiarize myself with the activities that the business had in Africa. Luanda always brought in good year-end results, but paid very little attention to the advice and instructions coming from Head Office, causing continued conflict.

 

 

 

Untitled

Zuid Afrikaans Handelshuis, Luanda c. 1960

 

 

 

The ZUID building in Nova Lisboa was a warehouse, mostly. Trade was mainly in foodstuffs, textile, construction materials, paint, small agricultural tools, general merchandise, and so on.

 

Massive square piles of cotton cloth were the first thing you saw. The cotton prints that attracted the greatest interest were the ones that had just arrived: "novidades". In the area around Nova Lisboa, "pintados" ("blue print"), originally from Germany (Fritz Becker), were still in general use, and worn by both men and women. It was dark blue material with white lines or spotted patterns.

 

Casa Holandesa

 

 

Casa Holandesa

 

 

Sometimes business contacts arrived from the interior with elephant tusks. Their weight varied from 10 to 40 kg, sometimes even more. Consignments were made up and eventually shipped to Holland, where there was always a great deal of interest in these tusks. The tusks were mainly used to make billiard balls. Other products from the upper plateau which were exported by ZUID were beans, castor seed, manioc (cassava, Portuguese: crueira) and sesame seed; and from the river basins: palm nuts, palm oil; also Arabica coffee, as opposed to Robusta, which was practically the only kind of coffee grown in the north of Angola.

 

 

 

Angola Mapa anos 60

 Map of Angola c. 1960

 

 

 

During the eight months I spent in Nova Lisboa, I made a number of trips to the coast. In the rainy season, these trips often had to be postponed, as the road was poor, and very little was done about this, as the Railways, who had a great say in the matter, felt that good road connections would harm the railway's interests.

 

7 Ferry across the Quanza

 

Ferry across the Cuanza

 

 

On the road from Sá da Bandeira (formerly "Lubango") to Moçamedes, I saw groups of zebra grazing near the road, and further off, herds of springbok, leaping to get out of the way. There are very few springbok left nowadays. The Portuguese name for them is "cabra de leque." "Leque" means "fan," and when alarmed, the hair on their backs stands up on end.

 

 

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 Cabra de Leque

 

 

Benguela itself still had the appearance of an old slave town, with the old walled enclosures still there, where the slaves were kept after their arrival from the interior until being shipped away. Other than that, the most striking things were the red-colored earth and the orange blossoms of the acacia rubra (flame tree).

 

 

Nova Lisboa, Angola 1960

 Nova Lisboa c. 1960

 

 

 

 

 

Benguela

 Benguela, c. 1960

 

 

I remember that one morning, a young native man who always travelled with us to help with the bags, told me that "the rain had rained during the night." This was the first time I had come across the typically Bantu personification of natural phenomena.

 

 ... to be continued... 

 

 

Andries Pieter van der Graaf

Jan/Feb 1974

Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

Other posts:

My Years in Angola (2)

My Years in Angola (3)

My Years in Angola (4)

My Years in Angola (5)

 

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

 

Album "Vintage Angola" on Flickr 

 

 

Notes:

Map of Angola: Veteranos da Guerra do Ultramar

Nova Lisboa and Benguela: Tempo Caminhado 

 

 


4.3.15

 

C073_SA_LE_BEY_DE_TUNIS_.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Duas citações ao almoço e três ao jantar

 

 

 

O pai tinha ido passar um par de semanas a Madrid, na clínica do Dr. Lopez Ibor, psiquiatra reputado (e membro do Conselho Privado do Conde de Barcelona); a mãe fora com ele não sei se por conveniência clínica se por estratégia matrimonial; não me lembro do que fizeram os meus irmãos nem se a casa de Lisboa foi fechada (a idade não perdoa…); eu fiquei aboletado em casa de amigos.

 

Nesse tempo comia-se em casa. Dois dias depois da minha chegada o tio Clarimundo, pater famílias que presidia a mesa, proibiu-me de fazer mais de duas citações ao almoço e três ao jantar. Nunca mais me esqueci porque, até nesta idade — que dantes se considerava avançada — a tentação de citar continua a ser grande. Não, como às vezes supõem os desmemoriados, por pedantismo de bom aluno a querer fazer boa figura mas para facilitar conversa e discussão. O recurso à memória é muito tentador porque, ao longo dos séculos, houve gente que disse, numa das línguas que eu conheço, muito melhor do que eu alguma vez seria capaz, coisas que me apetece dizer por virem a propósito e acertarem em cheio no alvo visado — e as suas formulações grudaram-se-me à cabeça.

 

Nasci com memória como nasci canhoto e de olhos castanhos: é dom sem mérito moral (se tivesse nascido nas classes menos favorecidas talvez tivesse arranjado trabalho num circo), se não faz de mim um Apolo tampouco de mim faz um Quasimodo, mas reconheço duas razões que recomendam limites ao seu abuso público. Uma é pôr limites a caracter maníaco que às vezes tome. Eça de Queiroz contou de amigo tão escrupuloso na atribuição de fontes que chegava a dizer: “Na frase de Carlos Valbom: Estou triste”. A outra é tentar manter boas maneiras. É mal-educado querer parecer mais culto, mais inteligente, mais lido do que os outros ou as outras com quem se esteja a conversar, quer cara a cara e bafo a bafo, como era a prática, quer ao telefone ou das muitas outras maneiras que a modernidade vem pondo ao nosso alcance (uma das razões que torna às vezes tão difícil convívio com a gente muito competitiva que abunda no nosso mundo pós-moderno).

 

Seja como for, isto da memória tem que se lhe diga. A velho amigo meu, colega perguntara na Faculdade: “Tu estudas Medicina Legal compreendendo ou empinando?” A dicotomia não é tão tonta quanto possa parecer. As pessoas mais inteligentes com quem privo são quase todas, como uma delas gosta de dizer, “Alzeimerizadas de nascença”. Se essa maciça falta de memória lhes trouxe esforços suplementares quando as meteram na linha de montagem da educação – o Sistema Galaico-Duriense, os Reis de Portugal, etc., etc. – trouxe-lhes também enormes benefícios de agilidade mental pois não lhes sendo dado, como diria o colega do meu amigo, “empinar raciocínios”, foi em exercícios permanentes que desenvolveram a gramática intelectual precisa para confrontar o mundo.

 

NB  Chamara-lhe “O Bey de Tunis”, não me lembro porquê. Fui escrevendo, saiu isto e mudei o nome.

 

 

 

 

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29.12.14

 

Romanceiro Capa 1.jpg

 

Romanceiro

Manuscrito do Autor

[autógrafo de Almeida Garrett]

 

 

 

A compra pelo Estado Português do espólio garrettiano designado por “Colecção Futscher Pereira” [1], anunciada pelo Secretário de Estado da Cultura no dia 18 de Dezembro, fecha um ciclo iniciado há dez anos pela descoberta, por minha irmã Cristina Futscher Pereira (1948-2005), de manuscritos inéditos de Almeida Garrett que contribuem de forma decisiva para o estudo do Romanceiro português.

 

Fica deste modo assegurada a ampla divulgação deste espólio, o maior desejo de Cristina, além da permanência dos autógrafos em Portugal, nas melhores condições [2]. Por fim, e também importante, com esta aquisição a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas valoriza aos olhos do público a recolha pioneira de Garrett de temas da nossa tradição oral. São relatos de eventos históricos e histórias de amor, transgressão e violência, de grande suspense e final incerto, que mantêm plena actualidade no século XXI.

 

Para a família, a colecção permanecerá ligada à memória de Cristina, de Venâncio Augusto Deslandes e de iniciativas e amizades inspiradas pelo Autor [3]. Entregamos estes papéis com muita satisfação e um bocadinho de nostalgia.

 

 

 

*

 

 

 

 Notas: 

 

1.  A Colecção engloba mais de 400 páginas manuscritas, grande parte delas inéditas, compreendidas no período de 1839 a 1853/54.

Artigo de Luís Miguel Queirós no Público sobre a aquisição da colecção pelo Estado Português. 

 

2.  “O espólio agora adquirido será objecto de um contrato de depósito na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, enriquecendo, desta forma, o já importante espólio garrettiano de que [a instituição] dispõe”, de acordo com o comunicado divulgado pelo Gabinete do Secretário de Estado da Cultura citado pela Agência Lusa.

Espólio Garrettiano da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra [Youtube] 

 

3.

-  Blog garrettiano O Divino , 2004-2005

 

-  A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

Edição oferecida pelo "Diário de Notícias" aos leitores no 140º aniversário do jornal, a 29 de Dezembro de 2004

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

- No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro [Ermitão] 

Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana

Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. 

 

- As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’ [Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários]

Sandra Boto

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

  

 

 

 

Sobre a Colecção Futscher Pereira e Venâncio Augusto Deslandes leia também aqui 

 

 

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21.12.14

 

Natal 1930 img912 - Version 2

Arminda D'Korth Brandão

Lisboa, Dezembro de 1930

Foto: M. Dinis

 

 

 

Foto gentilmente cedida por Henrique D'Korth Brandão, a quem muito agradecemos.

 

 

Em 2015 visitaremos o espólio fotográfico de João Christiano D'Korth (1893 - 1974) [irmão de Arminda D' Korth Brandão, na foto].

 

 

Nota:

para ampliar foto visite os meus álbuns no FLICKR aqui

 

  


2.8.14

 

 

 

S. João do Estoril , Portugal. Princípios do século XX

 

 

As nossas férias eram passadas em S. João do Estoril em Agosto e em Ferreirim em Setembro. Para S. João em geral vínhamos de comboio, o que não era complicado ou demorado. As poucas vezes que viemos de táxi o que me impressionava era a estrada ser tão abaulada, diziam que era por causa da chuva... como era estreita, e tinha dois sentidos, o carro desviava-se para a berma, e os que vinham em sentido contrário passavam melhor! Em cada Verão o meu Avô contratava o Sr. Feliciano (dono de um táxi) que era muito simpático, para nos levar a passear a Sintra. A Avó Alda gostava muito da frescura de Sintra, o passeio era sempre o mesmo, e só íamos uma vez. Assim era uma tarde muito desejada, que me dava um enorme gozo e prazer...

 

Tudo o que havia "de melhor" era usado em Lisboa, o menos bom no Estoril, e o mais velho e estragado ia para Ferreirim. A minha Mãe aproveitava tudo e por vezes ficávamos surpreendidos como "tudo fazia jeito" nos Buxeiros...!

 

Na praia da Poça tínhamos um grande grupo de amigos. As casas eram alugadas ao ano, e assim as famílias vinham para as mesmas casas todos os anos.

 

Poucos tinham casa própria.

 

 

 

 

S. João do Estoril , Portugal. Meados do século XX

Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Horácio Novais, 1930-1980.

 

 

 

 

 

Marido Alda Rosa-pb

 José Manuel da Silveira de Sousa

 

 

Também na nossa adolescência, não falhávamos um "sábado á noite" no "Casino Estoril", onde aproveitávamos para dançar... Sempre gostei muito  de  vir  para  S. João do Estoril, era divertido. O tempo era muito preenchido e passava rapidamente... tínhamos muitos amigos, uns mais amigos que outros!!!!

 

Alda Rosa Bandeira de Lima Osório Bernardo de Sousa

in  Memórias e Saudades

2011

 

 

Nota: ver também os posts "Chalet Alda" e " Festas e Mascaradas"

 

Agradecimentos: Alda Rosa Bernardo de Sousa, Maria do Rosário Sousa Machado, blog Restos de Colecção, Biblioteca de Arte Fundação Calouste Gulbenkian

 


21.7.14

 

Em tempo de Verão regresso aos álbuns de família e colecções privadas que aqui tenho explorado. 

 

À excepção da fotografia do chalet, as imagens deste post foram encontradas na blogosfera portuguesa. Não achei fotografias de fandangueiros, saltimbancos, mulheres dos bolos e banheiros nas praias de Portugal do princípio do século XX.

 

Sobre este álbum de recordações de Alda Rosa, “para os filhos, netos e bisnetos”, editado em 2011 e do qual foram feitos 3 exemplares impressos, leia neste blog o post Festas e Mascaradas. 

 

Agradecimentos especiais a Alda Rosa Bernardo de Sousa, Maria do Rosário Sousa Machado e blogs Restos de ColecçãoTeatro e MarionetasAmérico e Galafanha.  

 

 

 

 

Chalet Alda , S. João do Estoril c. 1900

 

 

No meu tempo de menina, as horas em que se ia à praia eram totalmente diferentes das de hoje. íamos de manhã, e á tarde ficávamos no jardim. Só em dia de pic-nic é que ficávamos na praia até mais tarde. Estes almoços eram de "garfo e faca" e toalha posta na mesa. De casa vinham salada russa e um prato quente trazidos pelas criadas. Os banheiros emprestavam-nos uns banquinhos e umas tábuas que serviam de mesa e as cadeiras eram também deles. Claro que com tanta mordomia estes pic-nics não podiam repetir-se muitas vezes.

 

Mesmo para se comer na praia só havia barquilhos e bolas de Berlim. O homem dos barquilhos apregoava: Barquilheiro!!! Trazia uma lata alta com uma roleta, o comprador fazia girar a roleta que ditava a sorte de comer pelo mesmo preço mais ou menos barquilhos. O homem das bolas de Berlim apregoava: bolas de Berlim, perlim pimpim! Assim andavam pela praia estes vendedores. A senhora Ana dos bolos só apareceu mais tarde...

 

 

 

 

 

 

             
Barquilheiro, Roleta de Barquilhos

 

 

 

 

Para divertir as crianças aparecia o "Fandangueiro". Trazia um pequeno estrado, e fazia o seu número de sapateado (com a música do fandango). Também para nos entreter havia o homem dos cães. Trazia 4 ou 5 cães e com cães fazia o seu número. A um dos cães ele mandava «morrer à moda da China com três cartuchos...!» e o cãozinho deitava-se fingir que tinha morrido.

 

O "Catitinha" aparecia na praia todo vestido de preto pois tinha perdido uma filha. Protegia e gostava de crianças: apertava a mão a cada criança e apitava. Os miúdos corriam para ele, apesar de ser uma figura sinistra, com um grande cabelo branco...

 

Os "Robertos" apareciam com a sua voz de flauta e o número de pancadaria a que nos habituaram. No fim pediam dinheiro pelas "actuações" que tinham feito!

 

 

 

 

Robertos na Foz do Douro, início do século XX

 

 

 

 

Para os banhos de sol os banheiros também forneciam encostos e os toldos eram ao mês. Os banheiros tinham "chatas" que levávamos até fora de pé, para aí tomar banho. Muitas vezes atirávamos água uns aos outros e ali se fazia uma guerra com água, que muito nos divertia. As "chatas" eram cada uma do seu banheiro, e não havia rivalidade, era só brincadeira.

 

Também íamos ao Rádio Clube Português patinar...

 

Com tantos programas, as férias em S. João do Estoril eram muito apreciadas...

 

 

Alda Rosa Bandeira de Lima Osório Bernardo de Sousa

in  Memórias e Saudades

2011

 

 

 


25.4.14

 

 

Foto: Alfredo Cunha
mais aqui

 

 

No largo do Carmo, estava a força de Santarém e estava sobretudo Salgueiro Maia. Nas longas horas que com ele ali vivi e confraternizei, pude apreciar a tranquila audácia dum homem que, com duas autometralhadoras e centena e meia de recrutas, estava a destruir cinquenta anos de história, de farroncas de força e de poder, mantendo em respeito uma força profissional e adestrada como era a Guarda Nacional Republicana. Salgueiro Maia estava cercado; pelo Rossio quase até ao alto da Calçada do Carmo, pela Rua da Trindade e Largo da Misericórdia, onde se encontravam entrincheiradas as forças da GNR. No Chiado, até aos largos, os blindados hostis da Cavalaria 7, e julgo recordar que também da Cavalaria 2 e Metralhadoras 1. Mas nem sequer um sentimento de dúvida ou de incerteza pairou na praça. Levada pelo sopro da liberdade, a multidão acorria e o quadro do povo expressava ali a vontade da nação contra qualquer veleidade de repressão sangrenta.

 

 

Francisco de Sousa Tavares in "O Meu 25 de Abril"

artigo do jornal “Público”  27/04/91 aqui

 

 

 

 

 

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25.10.13

 

Quarta Semana:

 

As acácias vermelhas estão a voltar. Nos tempos da colónia as ruas eram cheias de acácias vermelhas, diz quem ainda se lembra. Depois os indonésios arrancaram-nas todas. Porquê? Maldade pura, não há outra explicação. Não se pense que alguém exagerou nas descrições da crueldade dos indonésios em Timor. Foi o padre Felgueiras que me contou os piores horrores. 86 anos quase todos passados aqui, jesuita. Em Santa Cruz morreram duzentos jovens abatidos a tiro e muitos outros “desapareceram” como toda a gente sabe. Mas o que eu não sabia é que aos feridos, levados para o hospital militar, foi-lhes deitado ácido sulfúrico pela goela abaixo. É só um pequeno exemplo.

 

 

 

 

Timor-Leste é verde, tropical húmido e no entanto nas montanhas à volta de Dili praticamente não há árvores, num fenómeno de desertificação marcado e estranho. Com tanta chuva está a desertificar? É certo que a população empobrecida dá cabo de muitas árvores para lenha e que as cabras não ajudam, mas também não há assim tanta gente nem tantas cabras. Então? O exército indonésio durante 24 anos destruiu sistematicamente a floresta que abrigava as ferozes FALINTIL. Sem raízes que agarrem a terra, as chuvas torrenciais arrastam-na. Se acaso for reversível, vai demorar muitos anos e custar muito dinheiro para reflorestar. A propósito, quando depuseram as armas, as ditas ferozes FALINTIL eram uns 120 homens descalços e famintos com, por junto e a retalho, talvez 29 balas e umas espingardas enferrujadas. Mas davam conta da cabeça de um exército bem armado, bem vestido e bem alimentado. Fica sempre bem recordar os heróis.

 

 

 

 

 

Não sei se é porque nos gramam mesmo ou se é só porque abominam profundamente indonésios e australianos. Hoje um taxista pergunta-me “Australian?”, não, portuguesa. “Ah, desculpe” como se me tivesse insultado.

 

Pantai Kalapa, a praia dos coqueiros, a minha. Muitos esgotos a correr para o mar, impensável tomar banho. As marés vivas arrancaram grandes pedaços de coral que lançaram na areia; hoje ao passear apetecia-me apanhar não conchinhas mas enormes pedregulhos. Fica para a próxima maré viva.

 

... and I reluctantly say farewell to bloomy Dili...

 

 

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003.

 

Uma entrevista com Isabel Feijó sobre o seu trabalho em Timor aqui

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui

 

Fotos de Pedro Martins

 

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10.10.13

Terceira Semana:

 

Esta semana a minha vida melhorou consideravelmente. Pantai Kalapa. Frase mágica, tipo abre-te sésamo! Entro num taxi, qualquer taxi, vocifero pantai kalapa e trazem-me direitinha ao hotel. Tornei-me uma mulher independente! Posso ir para qualquer lugar que, quais pedrinhas do polegarzinho, sei sempre voltar a casa. Claro que militantemente na defesa da língua portuguesa começo por dizer avenida de Portugal, passo em seguida a praia dos coqueiros mas na ausência absoluta de reacção, vergo-me ao peso da evidência e atiro-lhes com pantai kalapa. Há dias o taxista era um velho, disse hotel Esplanada. Reacção zero. Avenida de Portugal. Idem. Pantai Kalapa. “Ah...”. Passado mais um bocado. “Que horas são, por favor?” Mais um bocado. “E em Portugal que horas são?” Mais uma pausa. “Em Portugal está frio? Lá têm 4 estações?”. Riu-se como um perdido quando lhe disse que em Portugal estava um frio de rachar e ficou muito interessado em saber que as estações se chamam Primavera, Verão, Outono e Inverno.  Depois deve ter esgotado a sua memória do português porque não disse mais nada. Coitado e estava comovido. Eu também fiquei como é obvio. 

Os taxistas dão sempre pano para mangas em qualquer parte do mundo e Dili não é excepção. Um dia desta semana resolvi ir almoçar a um japonês no centro (o PNUD é um bocado fora, não é longe, mas andar na rua com sol a pino é impensável). Apanho um taxi cheio de penduricalhos de terços e santinhos. O motorista estava a ouvir música tipo igreja mas ao perceber que eu era portuguesa resolveu ser simpático e pôr uma cassette especial para mim. Quim Barreiros. Mais tarde vim a saber que a rádio da igreja transmitia abundantemente música pimba. O bispo foi alertado para o perigo de ter pessoas com uma grande boa-vontade em relação à língua portuguesa mas um total desconhecimento da dita e apressou-se a corrigir. Agora é mais música delicodoce ultrapirosa brasileira e portuga e canções de emigrantes género Linda de Susa.

 

 

 

 

Quanto à língua portuguesa, claro que não se pode dizer que aqui se fale muito, mas ainda assim fala-se muito mais do que esperava e sobretudo é verdade que fazem um enorme esforço para aprender. As empregadas do hotel, onde a língua de trabalho é o inglês, no princípio parecia que não falavam uma palavra lusa para além de bom dia e boa noite e obrigada, que de resto se diz também assim em tétum. Hoje, de repente ouço – boa noite senhora, como está? quer fazer já o seu pedido? já terminou, posso retirar? mais alguma coisa? Não sei o que se passou. Suponho que tivessem vergonha de falar tuga. Há um ano, os ministérios e o parlamento tinham dificuldades de entendimento medonhas porque uns falavam ou escreviam em indonésio, outros em inglês, outros em português outros em tétum. Hoje toda a legislação e documentos oficiais é escrita em português excepto a que sai do ministério das finanças que vem em inglês. Única excepção. 

 

Acontecimentos relevantes na semana? Dia dos Direitos Humanos no Estádio Nacional e passagem de testemunho da polícia ONU para a polícia de Dili. Nunca tinha visto um Presidente da República passar revista às tropas em t’shirt, mãos nos bolsos, sem saber o que fazer aos óculos escuros. Nem nunca vi nenhum PR em cerimónia oficial a subir as escadas aproveitando para ajeitar o tapete vermelho que estava perigosamente descomposto. 

 

E para acabar – o mercado. Um mercado no terceiro mundo tropical é sempre um fascínio de cores e cheiros e apetece logo ter uma casa para levar as frutas todas e experimentar ervas e legumes estranhíssimos e comer tomates com sabor e coisas dessas. Carne não, santo deus, as moscas!... abençoados supermercados com frigoríficos. Nem peixe, que o vendem na praia acabado de pescar.

 

 

 

 

E antes de ir para a cama, fiquem sabendo que aqui as osgas cantam e há uns lagartos vermelhos que falam. Não estou a brincar, pensei que eram passarinhos. Deve ser por estarmos perto de Darwin...

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Fotos de Isabel Feijó e Pedro Martins

 

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11.7.13

 

 

 

 

Um enorme jacaré de 4,5 m de comprido morto em 1910 pelo 2º tenente Almeida Pinheiro, imediato da canhoneira chaimite e por um sargento do mesmo navio em frente da praia da catembe (Lourenço Marques)*.

 

 

 

 

 

*Legenda manuscrita no verso da fotografia, gentilmente cedida por Laura Castro Caldas, a quem muito agradeço.
 
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30.6.13

 

 

 

Portugal, 1950

Fotos: Fernando Lezamenta Simões (1920-2011)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

auto-retrato, 1950

 

No verão passado digitalizei boa parte de três álbuns de fotografias de Fernando Lezameta Simões, gentilmente cedidos por sua filha Rita Simões Saldanha, a quem mais uma vez agradeço. Veja outras fotos de Fernando Lezameta Simões neste blog nas tags "automóveis", "barcos", "verão", e "tauromaquia".

 

Fernando Henrique - Tanas, para os amigos - nasceu na Freguesia de São Mamede em Lisboa a 8 de Março de 1920 e lá viveu até casar em 9 de Fevereiro de 1944 com Maria Helena Morais da Costa Araújo, que conhecera na infância, em São João do Estoril. Tiveram quatro filhos.

 

Rita, sobre o Pai:

 

Aos 17 anos deixou de estudar para ir trabalhar com o Pai, Carlos Freitas Simões, na empresa familiar de comercialização de produtos próprios, como arame e pregos, e importados, como espingardas e canas de pesca, estabelecida na Rua do Comércio 38.

 

Fez a tropa em Tavira e era muito popular e divertido. Casou com a noiva que conheceu em bébé no Beco (S. João do Estoril). Foi um Pai extremoso, e fez muitas vezes o lugar da Mãe, sobretudo afectivamente.

 

Viveu sempre apaixonado pela mulher que com a sua doença de nervos o fez sofrer muito e morreu como um passarinho.

 

 

 Um neto de Fernando L. Simões:

 

Foi ele que trouxe o ski para a familia ; hoje em dia vivo profissionalmente do ski, logo cada vez que dou uma aula....penso nele.

 

Foi ele que me ensinou o conceito de familia, pois todas as sextas- feiras ao longo de 30 anos reuníamos a familia em sua casa ao jantar para óptimos serões, conversas e jantares.

 

Era um óptimo contador de histórias.....e eu vou contar uma delas:

O Meu avô, quando o meu Tio Dudu foi operado aos olhos, para além de distribuir balões por todas as crianças do hospital....deu um ramo de flores em forma de agradecimento à enfermeira chefe ; um ano depois quando o meu avô voltou para consulta de rotina a enfermeira chefe disse....como está Sr Simões ; o meu avô ficou surpreso por ela ainda se lembrar do nome dele.......ela disse-lhe......nunca me hei-de esquecer do seu nome....no dia em que me deu as flores estava a caminho do metro....estava a chover e deixei cair as flores no chão.....um homem me ajudou......hoje é o meu marido !!!!

 

 

 

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14.6.13

 

Margarida Futscher Pereira
verso

 

 

 

 

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6.6.13

 

 

 

Stella Freitas da Costa

 Antonio Guijarro 1958

 

verso



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3.6.13

 

 

 

 

 

 

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26.5.13

 

 

 

 

 

 

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24.5.13

 

 

 

 

 

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16.5.13

 

 

 

 

 

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5.5.13

 

 

 

 

 

Postal de minha Mãe para sua irmã Stella, de um conjunto oferecido por meu primo Miguel Freitas da Costa, a quem muito agradeço.

Outro postal de Margarida para Stella aqui


Uma foto de Stella e Miguel em 1947 aqui


Todos os postais para Stella na tag "postal"

 

 

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