4.1.17

 

 

terra_doente2xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Ano Novo, vida nova

 

 

Pelo menos desde a passagem de ano de 1986 a 1987 – isto é, a primeira já com Portugal membro das Comunidades Europeias – tal exortação exprimia ‘pensamento desejudo’ - assim o meu chorado Gérard traduzia ‘wishful thinking’ - e não previsão sensata dos dozes meses que se seguiriam, partindo evidentemente do princípio que a contagem não fosse interrompida por girândola nuclear, deliberada ou acidental, sempre possível quando a segurança de cada um dos dois lados é garantida pela convicção mútua de que quem sair a matar mata mesmo mas será morto também. Tão convencidos estávamos todos disso que, como o leitor “tenebroso e cruel e tonto e traste” que comprara sonetos garantidos por dois anos ao meu chorado Alexandre, críamos nos marcianos mas não víamos a bomba. Não víamos nem vemos. (Alexandre; Gérard: com a idade, os mortos vão-se metendo mais e mais nas conversas. Lembram-se de coisas de que nós já não nos lembramos).

 

Falo no réveillon de 1986 a 1987 porque o quarto quartel do século XX começou em Portugal de maneira mais animada que a dos nossos vizinhos da Europa Ocidental. Estes, engordados e anafados em casulo formado no abrigo do confronto Leste-Oeste, estavam tão iludidos pelo seu próprio bem-estar que se persuadiram de que viviam em paz por terem passado a ser bons, por terem deixado de querer matar os outros, sem perceberem que a paz lhes era imposta por russos e americanos, a quem zaragata aqui não conviria (salvo evidentemente se um dos dois tivesse previsto nela estratagema para enfraquecer fatalmente o outro, o que não aconteceu). A Rússia perdeu a Guerra Fria de dentro para fora (costuma dizer-se a URSS mas tal exactidão formal torna as coisas mais confusas em vez de as tornar mais claras) porque o seu sistema político se desagregou por si, tal como George Kennan, diplomata-historiador, previra em 1946 quando estava encarregado de negócios dos Estados Unidos da América em Moscovo, onde Estaline viria a declará-lo persona non grata.

 

Portugal era diferente. Em parte para fugirem à tropa em África, milhares de migrantes portugueses em França, Alemanha, e outros países europeus beneficiaram das trente glorieuses – ganhava-se sempre mais do que se tinha ganho no ano anterior – mas, nas parvónias de onde diziam que vinham, a melhoria tinha sido pouca. No começo de 1974 os portugueses não esperavam vida nova. Até que, de repente, veio o sobressalto de trocar África pela Europa, de passar de patrão dos pretos a criado dos brancos. De anacronismo serôdio a modelo do futuro, para alguns entusiastas - para gente sensata, menos pobreza e mais liberdade. E, passados uns anos de turbulência, tornou a ser ano novo, vida velha mas num patamar mais alto.

 

Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 15:51  comentar

16.11.16

 

 

Lord Ismay2.jpg

Lord Ismay, primeiro Secretário-Geral da OTAN, entendia que esta servia 

"to keep the Americans in, the Russians out and the Germans down."

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

A partilha do fardo

 

 

 

         

A eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos da América foi tomada por muitas europeias e muitos europeus como uma ofensa e uma má criação. Nesse espírito, algumas administrações nacionais tão alapardadas ficaram (não se fazem coisas assim aos amigos!) que, por sugestão do alemão, vinte e cinco ministros dos negócios estrangeiros de países da União Europeia bem como a Alta Representante (vice-presidente da Comissão que põe outro chapéu para presidir às reuniões dos MNEs do clube: na União Europeia, diria Oscar Wilde, as coisas nunca são puras e raramente são simples) tiveram jantar de trabalho em Bruxelas para primeira troca de impressões sobre esse importante evento transatlântico (o inglês dissera que não deviam estar bons da cabeça, o francês lamentara educadamente ter obrigações mais importantes em Paris, o húngaro metera os pés pelas mãos com desculpas de mau pagador para disfarçar a euforia pro-Trump de Vitor Orban, primeiro ministro húngaro, e os três fizeram gazeta – o que, se nos lembrarmos que o Reino Unido e a França são os dois únicos estados-membros da União com forças armadas capazes de meterem respeito seja a quem for, mostra a aparente frivolidade do exercício).

 

Mas não há com efeito razão para grande tranquilidade europeia quanto à nossa defesa e à defesa dos nossos interesses. A OTAN, estabelecida em 1952, chama-se por extenso Organização do Tratado do Atlântico Norte e o Tratado do Atlântico Norte fora assinado em Washington em 1949 pelos Estados Unidos da América, o Canadá e uma dúzia de países da Europa Ocidental. Outros se foram juntando: quando Guerra Fria acabou havia 16 Aliados, depois foi um vê se te avias com todos os ex de Leste a quererem-se profilaticamente proteger da eventual sanha do Kremlin (já não existia U.R.S.S. mas a Mãe Rússia mete medo igual aos vizinhos; os que dizem que isso é mentira e que foram os Estados Unidos e seus aliados ocidentais que quiseram cercar a Rússia de perto, devem ser lembrados que os três países bálticos e a Polónia, vizinhos da Rússia e aliados na OTAN não foram por ela atacados militarmente desde o fim da Guerra Fria mas a Geórgia e a Ucrânia, também vizinhos dela mas fora da OTAN, o foram tendo além disso a Rússia anexado a Crimeia). Desde o começo que os Estados Unidos gastaram mais na defesa de todos do que os outros em absoluto e per capita. “Burden sharing” – a partilha do fardo – passou a ser pomo de discórdia mais vivo desde que a Guerra Fria acabou, tendo havido muitas discussões sobre o assunto, embora Clinton, Bush e Obama nunca tenham feito ameaças como Trump agora fez e nunca Bush e Obama tenham admirado Putin como Trump agora admira.

 

 

 

Nota Bene Portugal não foi dos primeiros assinantes do Tratado de Roma porque não era uma democracia e só entrou para as Comunidades Europeias depois de o passar a ser. Mas, sem o ser, assinou o Tratado de Washington e foi membro fundador da Aliança. Com coisas sérias não se brinca.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

28.9.16

 

 

 

trabalhadores_de_uma_fabrica_de_bombas_na_inglater

 

Fábrica de armamentos em Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Pátrias

 

 

 

“O patriotismo é o último refúgio do bandalho” proclamou o Dr. Samuel Johnson, lexicógrafo inglês do século XVIII - na Europa, pátrias começavam a ganhar mais importância do que fés e dinastias - cujo humor cáustico continua a ser apreciado. Reforçadas por revoluções europeias de meados do século XIX, pátrias mostrariam a sua força crescente contra outras lealdades na Primeira Guerra Mundial: as classes operárias alemã e francesa, marimbando-se para exortações a que proletários de todo o mundo se unissem, mataram-se zelosamente uma à outra nas trincheiras da Flandres. “Patriotismo é amor dos nossos; nacionalismo é ódio aos outros” lembrou por seu lado Roman Gary, nascido judeu polaco, morto – por suicídio – cidadão francês, cuja origem estrangeira levara a baixarem-lhe a Note d’amour na academia aeronáutica, se juntara aos aviadores da França Livre de De Gaulle e foi, até hoje, o único escritor a ganhar o Prémio Goncourt duas vezes – a segunda sob pseudónimo, a mangar com o júri - publicando também romances em inglês e casado algum tempo com Jean Seberg de quem se separou e que se suicidou antes dele. Na sua vida e à sua volta desenrolaram-se muitas das barbaridades do fim da primeira metade do século XX no centro da Europa.

 

Nós portugueses, a irmos para nove séculos de história dentro das mesmas fronteiras – que os Amigos de Olivença me perdoem a pequena inexactidão – oito se quisermos contar com Tavira, não damos valor ao sossego ontológico desta periferia com vista para o mar. Devíamos dar. Javier Solana contou-me ter conhecido em Bratislava senhor muito velho que ao longo da vida mudara sete vezes de nacionalidade sem nunca ter mudado de casa. A mim explicou-me há meio século proprietário alentejano, para me contar da vida sob a Primeira República (1910-1926): “Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há”. Para nós, as leis mudaram poucas vezes e, sobretudo, nunca nos mandaram dizer que eramos outros. Logo a seguir aos anos do fim do Império, anos em que tinham realmente querido dar-nos cabo do juízo (diante de mim, no Clube de Évora, um deputado à Assembleia Nacional e dois grandes lavradores do distrito disseram a jornalista francês de Le Monde, vindo por haver ‘eleições’: “Portugal é uno do Minho a Timor” em uníssono sem sombra de ironia na voz), amigo meu que ensinava em Genebra recebia compatriotas incessantemente preocupados com a “identidade nacional” - o que o deixava perplexo porque, dizia, não havia país mais idêntico que Portugal.

 

Talvez por isso, cá o Dr. Johnson não vigore: os bandalhos terão de encontrar outro refúgio. Lá fora, estão ultimamente na maior: patrioteiros como Marine Le Pen em França, Trump nos E.U.A., Putin na Rússia, Orban na Hungria, Duterte nas Filipinas, etc., etc. trazem à superfície o pior na sua gente, voltam-na contra outras gentes e aceleram o mundo para novo desastre.

 

As luzes que em 1914 se apagaram na Europa apagam-se agora pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

3.8.16

 

 

Bad-war.jpg

 

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Fim de festa

 

 

 

 

Saiu o ano, entrou o ano. No topo do Estado dois chatos tristonhos deram lugar a dois faroleiros alegres e parece que o povo gosta assim. Ao menos anda a gente distraída, Senhor Doutor. Não ficámos menos pobres mas passámos a viver com mais gosto, dizem-me médicos de Lisboa e mestres d’obras de província. E nesta aventura inédita a que chamamos Europa – já lá vai mais de meio século sem andarmos à estalada uns aos outros (e sem batermos em pretos) – há muitos que nos invejam por esse mundo fora, apesar do mal que gostamos de dizer de nós próprios. Mas será preciso acordarmos e ganharmos juízo porque a papa doce está a acabar.

 

Não acabaria nunca enquanto a União Soviética existisse e a Alemanha estivesse dividida. (Gosto tanto da Alemanha que prefiro que haja duas – lembrava o General De Gaulle). O medo que o Camarada Estaline e os seus herdeiros nos metiam nos ossos tinha efeito salutar nas nossas decisões de europeus do Ocidente: dava força e razão ao que nos unia, punha de lado o que nos afastava e a construção europeia não parava. Se idade e doença não tivessem levado tão depressa desta para melhor os dois predecessores imediatos de Gorbachev, a perestroika e o colapso da União Soviética só teriam chegado dez anos depois, com a União Europeia já pronta para entrega aos europeus, chave na mão, pelo empreiteiro Delors ao serviço do casal franco-alemão (gravado para todo o sempre na sabedoria das nações por Mitterrand e Kohl de mão dada em Verdun).

 

A reunificação alemã deu cabo desse casal. Como no drama de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa, que dantes se estudava no liceu, o primeiro marido afinal ainda estava vivo. “Perdida, desonrada, infame” grita da filha inocente a bígama involuntária quando tal descobre, antes de se fechar num convento a expiar a culpa até ao fim da vida. Para a Alemanha Reunida, o centro da Europa passou a ser a Leste. Tem algum respeito ainda pelo Noroeste protestante, à cabeça os holandeses, heróis de Srebrenica e gente de contas certas; Inglaterra indispensável para equilibrar França que não só descobriu que não manda na Europa (tempo foi em que Kohl dizia que o Chanceler alemão, quando ia ver o Presidente francês, devia começar por fazer três reverências) mas também que nem sequer em si própria manda - com os ingleses a irem-se embora, como é que vai ser? – e os de Sul e Sueste que se arranjem, punidos com cegueira analfabeta, norteada por calendários eleitorais teutónicos. Até à reunificação, a Alemanha Ocidental expiara exemplarmente a sua gigantesca culpa (ajudada por perdão de dívida que afastava fantasias de ir para Leste) mas, depois de reunida, a tentação de ser alemã e não cidadã europeia cruza cada vez mais cabeças, deixando mais nódoas negras nos vizinhos.

 

Enquanto a Europa se afunda. Quando agora o Sultão de Istanbul acusa as potências ocidentais de conspirarem contra ele, as potências em vez de mandarem canhoneiras para o Bósforo desfazem-se em desculpas de mau pagador.

 

 

link do postPor VF, às 14:04  comentar

20.7.16

 

 

donald-trump-nigel-farage-1.jpg

 Donald Trump e Nigel Farage

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Mundo novo

 

 

 


Pedro Pires de Miranda, com quem tive a honra de trabalhar quando ele era ministro dos negócios estrangeiros (“A política externa é óptima: só se tem inimigos!” disse-me uma vez - e outra vez, quando eu o informava que com três pessoas não conseguiria levar a cabo tarefa de que me encarregara, perguntou-me “Já experimentou com duas?”) pediu-me ao jantar em que o conheci que eu lhe pusesse, para o dia seguinte, em meia página, as diferenças entre as posições da OTAN e do Pacto de Varsóvia na Conferência Europeia de Segurança, em Estocolmo, onde ele viera acompanhar Mário Soares, Presidente da República, ao funeral de Olaf Palme (primeiro ministro sueco assassinado) e onde eu vivia, chefiando a delegação portuguesa à Conferência. No papel que lhe entreguei quando ele ia apanhar o avião escrevera meia dúzia de frases. A primeira, em inglês (língua franca da diplomacia, onde eu estava, e dos negócios, donde ele vinha), tocava no nó do problema: “We are right and they are wrong” (Nós temos razão e eles não). O mundo era menos complicado do que é agora.


Pedro foi-se embora há pouco tempo, eu ainda por cá ando mas nos trinta anos desde esse enterro nórdico especial (o assassino de Palme andava a monte, não se sabia quem era nem se havia cúmplices, desabaram sobre a cidade num fim de semana chefes políticos do mundo inteiro e, para preocupação suplementar dos serviços de segurança suecos, Shimon Peres, PM de Israel, no sábado, em vez de ir como os outros em carros mais ou menos blindados, foi a pé aos lugares onde tinha de se ir) desde esse enterro, dizia, os que tínhamos razão, ganhámos a guerra fria – e a Rússia perdeu-a - sem termos de dar um tiro. Éramos os melhores, os mais fortes, os mais ricos e ainda por cima, para algumas almas optimistas a História tinha acabado. Só que, como escreveu Nelson Mandela, quando se chega ao cimo da montanha que se está a subir descobre-se que há outra montanha que tem de se subir também, depois dessa mais outra ainda e por aí fora.


Ora para as montanhas que se seguiram e para a cordilheira que se vislumbra até onde a vista alcança nem nós nem os americanos - Atenas e Roma do mundo de hoje, houve quem gostasse de pensar - temos mostrado grande jeito. Perante a decadência do Ocidente (será finalmente desta?) avultam novos poderes – China, Índia; menos grandes mas incomodamente perto, a Rússia de Putin, segunda potência nuclear do mundo, batoteira das Olímpiadas, invasora de vizinhos e a Turquia, onde o islamista Erdogan venceu golpe militar pondo o povo na rua pelo FaceTime do seu iPhone – mas o podre vem de dentro.


Na pátria da Magna Carta, políticos encartados mentiram escandalosamente a eleitores que mostraram ignorância abissal e fartura sem remédio das “elites” - como se chama agora a quem saiba ler e escrever e tenha onde cair morto. Do outro lado do Atlântico, “Nós, o povo” reduziu a duas as pessoas entre quem escolher para suceder a Barack Obama e uma delas é Donald Trump. 

 

 

 

   

link do postPor VF, às 08:00  comentar

22.6.16

 

 

 

Philippe Wojazer Reuters.jpg© Philippe Wojazer/Reuters

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Europa sem ingleses ? Não, obrigado

 

 

 

Desde o Tratado de Windsor - e da batalha de Aljubarrota – Portugal e a Inglaterra têm tido relações privilegiadas que resistiram ao ultimato inglês de 1890 e a pressão alemã durante a II Guerra Mundial para que a nossa neutralidade nos impedisse de aceitar a instalação de base militar inglesa (e, depois, americana) na Ilha Terceira dos Açores.

 

Potências marítimas, confrontadas por poderes continentais, demo-nos bem assim quando a Europa passou a ser o centro do mundo e também agora, que a União Europeia já não o é. Na quinta-feira (eleições e referendos são às quintas-feiras no Reino Unido), os ingleses - a escoceses e irlandeses do Norte o problema não se põe -, em inusitada manifestação colectiva de falta de bom senso, poderão optar por sair da União. Não acredito que o façam mas, se o fizerem, Portugal deveria começar a pensar em sair também.

 

Temos recebido muito da União, como tínhamos recebido muito das Comunidades Europeias que a precederam. Sem a Inglaterra, porém, a União será um animal político muito diferente do que é agora, contrário ao nosso interesse.

 

Com o Tratado de Roma de 1957, França, Alemanha, Itália e Benelux criaram a Comunidade Económica Europeia. O Reino Unido - isto é, a Inglaterra - não se quis então juntar aos seis fundadores. Poucos anos depois passou a querê-lo mas De Gaulle opôs-se. O alargamento a Reino Unido, Irlanda e Dinamarca fez-se em 1973; quando Portugal aderiu em 1986, já a Inglaterra era um dos ‘Quatro Grandes’. A chamada Construção Europeia fora possível porque, a seguir a seis anos de guerra, os europeus, sobretudo a Alemanha, estavam de rastos e URSS (potência atómica desde 1949) e EUA partilhavam o domínio do mundo em Guerra Fria. Os EUA protegiam a Europa Ocidental: defendiam-nos da Rússia - e defendiam-nos também uns dos outros. Sem uma Rússia que nos aterrorizava e uma Alemanha de rastos não se teria chegado à União Europeia.

 

A URSS colapsou e a Rússia revanchista de Putin não mete medo que se lhe compare. O terror soviético animava forças centrípetas vitais para a Europa; sem ele medram forças centrífugas de nacionalismo (patriotismo é amor aos nossos; nacionalismo é ódio aos outros, Romain Gary). Entretanto, a Alemanha levantou-se do chão, reunificou-se, fez do Eixo Franco-Alemão a trela com que Berlim puxa Paris, ajeitou os Tratados e, sem Inglaterra a bater-se por liberdade económica, defesa forte a Leste e Sul e bom senso em geral, acabaria obtendo em paz – mais por erros dos outros do que por desígnio próprio – o que lhe escapara nas guerras lançadas em 1914 e 1939: domínio incontestado da Europa.

 

Não há país mais longe do fascismo do que a Alemanha de hoje mas há vigências antigas. A saga da austeridade atasca a economia do Continente, afunda o Sul, divide Norte e Sul, com os alemães convencidos de estarem a fazer bem, por bem. Querem livrar-nos dos nossos Demónios e não entendem que a gente queira livrá-los dos Demónios deles. Assim não.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar

2.3.16

 

 

Lord Ismay .jpg

Lord Ismay, 1º secretário-geral da OTAN, no seu gabinete, palais de chaillot,  1953

© OTAN/NATO

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Olhar por nós

 

 

 

 

Com segurança não se brinca. Seis anos de guerra sem quartel acabando em rendições incondicionais da Alemanha e do Japão em 1945 temperaram os Estados Unidos, deixando-os aptos a chefiarem aquilo a que chamávamos o Mundo Livre durante a Guerra Fria.

 

Em geração próxima – Churchill seria um dos vencedores de duas guerras mundiais; Hitler, um dos vencidos –, a seguir à vitória de 1918, o Senado desfizera os sonhos do Presidente Wilson, recusando que os EUA se juntassem à Sociedade das Nações. Entretanto, as condições leoninas impostas à Alemanha vencida ajudaram ao colapso da República de Weimar e ao triunfo eleitoral do nazismo. (Convém nestes dias de Trumps, Le Pens e Putins, lembrar que Hitler não tomou o poder pelas armas; apanhou-o do chão em eleições livres e limpas).

 

Assim, em 1945 a Alemanha, ou pelo menos a parte dela que coube ao Ocidente, foi poupada a exacções ruinosas. Pelo contrário, em 1953, quando até mesmo os franceses tinham percebido que o inimigo passara a ser a Rússia e deixara de ser a Alemanha, quase toda a dívida que restava das duas guerras lhe foi perdoada para a ancorar melhor ainda no Ocidente. Washington queria ter os pés bem assentes no chão: só depois de alguns europeus terem criado organização de defesa própria – a União da Europa Ocidental – os americanos se dispuseram a negociar com eles e alguns outros, quase todos democracias (Portugal era a excepção e a base das Lajes a razão dela - com segurança não se brinca) o Tratado de Washington, assinado em 1949. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO) estabeleceu-se em 1952. A maior e mais reputada aliança militar do mundo contemporâneo desimaginou durante quarenta anos a URSS de aventuras insensatas e ganhou a Guerra Fria sem ter de dar um tiro (salvo em exercícios de fogos reais).

 

Desde essa altura houve quem achasse que devia acabar: amantes imprevidentes da paz, que não são poucos e nunca aprendem; anti-americanos primários, convencidos de que a Rússia deixara de ser problema e, sobretudo, a Rússia de Putin que diz ser o alargamento da OTAN a Leste uma provocação agressiva (dado que Geórgia e Ucrânia, vizinhos da Rússia que estão fora da OTAN, são atacados pelos russos, e outros vizinhos, dentro dela, não o são, é preciso ter lata).

 

Único instrumento colectivo de defesa de que dispomos, para além de continuar a meter respeito profilático desempenha outro papel crucial: refreia nacionalismos militaristas dos Aliados, pondo os europeus na bicha e não virados uns contra os outros. Defender-nos-á de eventuais invasores - terroristas, cibernéticos, nucleares, convencionais. (E, se o Kremlin ganhar um dia boa-fé, será interlocutora ideal na discussão de interesses europeus e americanos).

 

Só não serve para a vergonha actual: 500 milhões, prósperos e anafados, enxotando como pestíferos escassas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças fugidos de guerra nas suas terras, no engodo enganado dos valores europeus.

 

 

 

 

 

 


17.2.16

 

 

Churchill afp getty images.jpg

 O busto devolvido de Winston Churchill

©afp/getty

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Dia Santo na loja?

 

 

 

 

O poeta mexicano Octávio Paz escreveu, famosamente: “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”.

 

Vivi em Maputo entre 1981 e 1983, anos de grande penúria e muita gente a passar fome. Logo a seguir à independência, quase todos os portugueses tinham tido de se ir embora ficando a economia em muito mau estado e a autoridade dos chefes tradicionais era desrespeitada pelo triunfalismo dos quadros da Frelimo. A retórica do poder, anti-ocidental, anti-americana e disparatada proclamava que, guiado pelo marxismo, o país sairia do sub-desenvolvimento em quinze anos. Nas lojas faltava quase tudo. Num grande supermercado da Baixa da cidade com todas as prateleiras vazias salvo uma no meio da sala, cheia de pensos higiénicos para senhoras, lembrei-me de Octávio Paz. “Pobre Moçambique” ocorreu-me. “Tão longe de Deus e tão longe dos Estados Unidos”.

 

Passando para a Europa agora. Acabado o perigo que a União Soviética representava para os Estados Unidos, estes distraíram-se – haverá ainda quem se lembre do “fim da História”? – e, cereja em cima do bolo, em Janeiro de 2009 tomou posse em Washington presidente filho de pai queniano preto e mãe americana branca, nascido no Havai, jurista eloquente cujo hobby era a organização comunitária, avesso a guerras (o seu predecessor metera a América em duas, estúpidas e caras), que devolveu logo ao governo de Sua Majestade Britânica busto de Churchill oferecido a Bush filho (que o pusera na Sala Oval) e, para a celebração dos vinte anos da queda do muro, em vez de ir pessoalmente a Berlim mandou vídeo com discurso seu.

 

O afastamento da Europa não foi só obra sua: houve sempre em Washington políticos isolacionistas e desconfiados dos europeus mas a mistura desses sentimentos antigos com alheamento à Europa inédito em inquilino da Casa Branca não ajuda europeus (e americanos) convictos de que primazia norte americana no mundo, em entendimento forte com a Europa, seria a melhor garantia de paz, liberdade e decência pública imaginável no nosso tempo.

 

Ainda por cima, numa espécie de acerto de contas depois da derrota na Guerra Fria, Putin parece chegar e sobrar para Obama: está a ganhar perigosamente no tabuleiro da Síria devido à inépcia do outro. (Disse-se de Franklin Roosevelt que tinha uma inteligência de segunda mas um temperamento de primeira. Com Obama é o contrário).

 

Os Estados Unidos não se darem ao respeito é muito mau para a Europa. A União Europeia e, antes, a OTAN construíram-se porque Estaline nos aterrorizava e porque os Estados Unidos queriam barbacãs. Putin incomoda os europeus mas não os aterroriza e hoje os americanos não precisam de muralhas dessas – até dos Açores se livram. Ora, sem os americanos, os europeus não se saberão defender de quem os atacar - e mesmo sem ataques não sabem pôr-se na bicha quando é preciso fazê-lo (como se está desgraçadamente a ver quanto aos refugiados). O patrão está fora mas na loja o dia não é Santo – é maldito.

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

14.11.15

 

Vítima Paris 13 Novembro 2015.jpg

 Une victime des terroristes à l'extérieur du Bataclan à Paris, le 13 novembre 2015.

(AP Photo/Jerome Delay)

 

 

 

 

Entre le tortionnaire et le corps qu'il déchire, la dissy­métrie est extrême. Le premier s'affirme délié de tout inter­dit. Le second doit se retrouver lié de partout. « Celui qui a, même une seule fois, exercé un pouvoir illimité sur le corps, le sang et l'âme de son semblable... celui-là devient incapable de maîtriser ses sensations. La tyrannie est une habitude douée d'extension... Le meilleur des hommes peut, grâce à l'habi­tude, s'endurcir jusqu'à devenir une bête féroce», écrit Dos­toïevski. La torture recèle in nuce, à l'état réduit et concentré, encore fruste et élémentaire, un style de rapport humain que seule la littérature russe ose scruter avec patience, avec sang-froid sous l'étiquette «nihiliste». Comme tous les articles en vogue sur le marché des biens et des idées, le mot eut tôt fait de se dévaluer. Ainsi crut-on démonétiser l'idée et exorciser cet inquiétant horizon de la modernité. Peine perdue. Dou­blement. D'une part, la réalité est têtue. Et Dostoïevski au retour de la maison des morts, Tchékhov visitant le bagne de Sakhaline, Soljénitsyne et Chalamov rescapés du goulag s'en­tendent à rappeler l'inhumanité de notre humanité. Par ailleurs, la littérature russe est obstinée et n'a de cesse qu'elle n'examine, tourne, retourne l'unique objet de sa méditation, une barbarie qu'elle a toujours refusé, depuis Pouchkine, d’ensevelir dans les lointains antérieurs des sociétés dites primitives ou des caractères taxés incultes. Et Dostoïevski d’insister: «D’où sont sortis les nihilistes ? mais de nulle part, ils ont toujours été avec nous, en nous, à nos côtés».

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan [4. Le cogito du nihiliste]  p. 125-126

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

link do postPor VF, às 22:32  comentar

16.9.15

 

 

berlim 45.jpg

 

Berlim, 1945 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

E se afinal não fossemos tão bons?

 

 

 

“Dê um beijinho a este Senhor, que era muito amigo do seu bisavô”. Quinze anos - doze a parecerem quinze que a gente nova agora deita muito corpo? - a miúda obedeceu à mãe e estendeu-me bochecha salpicada por grãos de areia pois vinha de fazer surf no Guincho.

 

Longevidade e caldeirada de classes, sexos, ocupações e idades estão a esvaziar de autoridade aforismos do século passado. “O passado é outro país. Lá, fazem as coisas de maneira diferente” – lá e cá também, na manta de retalhos fruta cores a que chamamos presente. “A longo prazo, estaremos todos mortos” – era bom, era: agora, a longo prazo, muitos de nós estarão ainda por cá, meio cegos e meio surdos, a vermos passar a banda.

 

Tudo isto em União Europeia rasgada nos últimos anos por querelas de dinheiro entre a formiga Norte e a cigarra Sul e agora, perante maré de refugiados, entre Oeste generoso de vistas largas e Leste egoísta de vistas curtas. Tão entretidos nisto andamos que parecemos esquecidos de que o milagre que nos aconteceu (mais de meio século de paz; abandono de costumes milenários de provocar, enganar e atacar vizinhos) foi fruto de circunstâncias. Em 1945, nenhum de nós podia com uma gata pelo rabo; tínhamos medo salutar de um inimigo comum, a URSS; amigo comum grande, os EUA, deu-nos dinheiro do Plano Marshall e protecção militar. As circunstâncias agora são outras: somos uma parte próspera do mundo; Putin é velhaco mas não mete medo que se compare ao que metia Estaline; os EUA – a hiperpotência, chamou-lhe Hubert Védrine – já não precisam tanto da Europa quanto precisavam durante a Guerra Fria, ajudam-na menos e esperam mais dela.

 

Escrevi milagre avisadamente. Há dias, numa excelente conferência internacional (daquelas que há quase vinte anos a Fundação Oriente promove no Convento da Arrábida, muito tempo presididas por Peter Carrington e agora por Chris Patten) ouvi três oradores do Japão, da China e da Índia (um diplomata, um académico e um homem de negócios respeitado no circuito das relações internacionais) dissertarem sobre as relações dos respectivos países. Ouvi-os fascinado – foi, para um europeu, viajar para trás no tempo. Governos, oposições formais ou não e as populações em geral, mais ou menos manipuladas pelos governos, vivem em desconfiança dos vizinhos e medo de guerra (há sempre um Belzebu de estimação. Para os indianos é o Paquistão – e ambos têm bombas atómicas). Questões de fronteiras, terrestres (India/China) e marítimas (China/Japão e alguns outros) são regularmente levantadas, mesmo quando não haja tensões. No dia em que o Presidente chinês começou visita de estado à India, avião militar chinês violou o espaço aéreo indiano. A 8.000 metros de altitude, ninguém deu por isso salvo quem trate dessas coisas, mas Nova Deli foi lembrada de que o assunto não está esquecido.

 

Nós dantes também éramos assim, com cláusulas secretas em tratados e tudo, e se não tomarmos juízo, depressa o voltaremos a ser.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 11:36  comentar

2.9.15

 

 

AM Picture Getty.jpg

Angela Merkel (Getty)

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Deutschland über Alles (a bem)

 

  

 

Na Islândia - país com pouco mais de 300.000 habitantes que já quis candidatar-se à União Europeia e depois mudou de ideias - o governo anunciara estar pronto a receber 50 migrantes, dos milhares que este verão demandam a Europa, mas onda de indignação generosa organizou o povo on line enquanto o Diabo esfrega um olho e há lá agora 10.000 ofertas de acolhimento. Há também muitas da Noruega e, dentro da União, a Suécia, apesar de renitência vistosa da sua nova direita, vem logo a seguir à Alemanha em disponibilidade – a grande distância, devido à escala: a Alemanha é o país mais populoso da Europa; os suecos são menos do que os portugueses.

 

No fundo da tabela da solidariedade estão alguns dos países dantes do lado da lá da Cortina de Ferro, dando a Hungria, proverbialmente xenófoba, mais nas vistas do que os outros por ter erguido muro de arame farpado na fronteira com a Sérvia e ter vedado nos últimos dias o acesso à estação central de caminho de ferro de Budapeste. Um mar de migrantes, famílias inteiras que, uma vez na Hungria, se preparavam para apanhar comboio para a Alemanha, pronta a receber quase um milhão e a não os devolver ao país pelo qual tenham entrado na União Europeia, confrontou a polícia na praça em frente da estação. Quando escrevo (terça-feira) por lá estão ainda. Imagens fortes nas televisões de todo o mundo, espelhando o egoísmo escandaloso dos europeus (Mauriac, mais uma vez: “Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a das pessoas sérias e é um horror”), egoísmo confortado pelos que sustentam, pimpões, que os europeus não têm obrigação de tratar de todos os males do mundo. (Creio que o primeiro a dizê-lo foi Michel Rocard). Também acho que não mas o problema não é esse. O problema é que a União Europeia não é, nem deveria ser, uma O.N.G. caritativa – é, ou deveria ser, um poder político.

 

Entretanto, o silêncio de Angela Merkel começava a ser ensurdecedor (pediam-lhe que mandasse na Europa mas como mandar, a seguir ao castigo da Grécia, sem evocar passo de ganso, cruzes gamadas, saudação nazi? Como ser Führer sem ser Hitler? Pediam-lhe também que mandasse nos seus mas era preciso sentir muito bem o vento para saber navegar com ele ou bolinar). Finalmente a Senhora decidiu-se, com bom coração e com boa cabeça - para além do que pareceria possível, deu à Europa a noção de que havia nesta um chefe. À evocação dos valores europeus - que explicita ou implicitamente incluem estado de direito, direitos do homem, decência cívica, solidariedade – juntou lembrança dos benefícios materiais trazidos pelos imigrantes aos países onde chegam (no caso do Velho Continente, mão de obra jovem que permita pagar pensões aos reformados).

 

É projecto político sine qua non para a Europa prosperar no mundo globalizado, meter respeito à Rússia, derrotar o Estado Islâmico e a sua insidiosa quinta coluna.

 

E para tornar a meter Montesquieu na calha. Ou Antero: “Razão, irmã do amor e da justiça”.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 18:39  comentar

5.8.15

 

 

 

Bosch pecados detalhe.jpg

 

Jerónimo Bosch 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Bases e cúpulas

 

 

 

«Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a alma das pessoas honestas e é um horror!» disse François Mauriac. Lembro-me deste desabafo muitas vezes, a ler jornais ou a ver televisão. E, com o patrão do Mundo distraído desde o fim da Guerra Fria, no regabofe da loja a maldade humana borbulha à rédea solta.

 

A Rússia é governada pelo chefe de uma cleptocracia que mente com quantos dentes tem na boca, veta decisão da ONU que criaria tribunal para tratar do abate criminoso de avião malaio sobre a Ucrânia porque os responsáveis foram guerrilheiros pró-russos, ocupa territórios vizinhos (Crimeia; partes da Geórgia), ameaça os países bálticos, provoca a OTAN, manda assassinar inimigos políticos, fomenta na Rússia sentimento paranoide de perseguição pelo Ocidente e apesar disso tudo, ou melhor, graças a isso tudo, goza de popularidade altíssima no país.

 

Na gigantesca panela de pressão que é hoje a China, onde partido comunista único quer fazer vingar capitalismo selvagem em estufa, sem conceder direitos cívicos e políticos, as contradições – como diziam os marxistas – parecem cada vez mais próximas de fazerem saltar a tampa mas talvez seja pensamento desejado (assim o meu chorado Gérard traduzia wishful thinking) de europeus nostálgicos de mando. A bolsa de Shangai conheceu há dias grande queda, as autoridades não sabem como tratar dos fundamentos da questão, confirmando inépcia de que se suspeitava, o crescimento sustentado chinês com que o mundo inteiro conta poderá estar comprometido. Para dificultar ainda mais emendas necessárias a qualquer hipótese de decência política futura, Pequim desencadeou perseguição redobrada aos pouquíssimos advogados de direitos humanos que insistem em praticar no Império do Meio, ajudando quem proteste contra ditadura sufocante. E, para animar xenofobia, sempre útil a quem governe, está a transformar em ilhas penhascos do Mar da China, assustando Japão, Vietname, Camboja, Filipinas. O povo gosta e é sagaz contentar o povo.

 

Nos Estados Unidos, país democrático que festeja a Magna Carta com mais entusiasmo do que os ingleses, entre 17 candidatos (por enquanto) a candidato do partido Republicano à presidência do país em 2016, sondagens põem à frente Donald Trump, bilonário populista xenófobo deliberadamente ofensivo e malcriado cujo pensamento tosco e vulgaridade de sentimentos e maneiras entusiasma os militantes do partido, que são os grandes animadores de primárias.

 

Na Europa onde se vive com mais saúde, segurança e decência política do que no resto do mundo, as bases enervam-se, acusam as cúpulas de elitismo, destestam imigrantes, admiram ditadores estrangeiros, são contra “a Europa”, e enfraquecem-nos no confronto com o resto do mundo. Bases, como sempre, bem piores do que as cúpulas e, se os nossos chefes políticos não lhes souberem deitar a mão, brotarão nesta península da Eurásia (7% da população; 25% do produto; 50% da despesa social) os Hitlers e os Mussolinis vindouros.

 

N.B. O parágrafo acima não se aplica a Portugal. Por razões que historiadores futuros entenderão melhor do que nós, desde o 25 de Abril o país, de bom modo e sem estimular extremismos políticos, desempenhou duas tarefas que muitos achavam acima das suas capacidades: integrou mais de meio milhão de retornados e sobreviveu a programa europeu de austeridade. De se lhe tirar o chapéu.

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:09  comentar

24.6.15

 

waterloo.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

A asneira da austeridade

 

 

Em tempo de vacas gordas, haver ricos conforta os pobres e vive tudo na paz do Senhor. Em tempo de vacas magras, o Diabo põe-se à coca e faz das suas. De entrada, a esperança teima: para o ano vai ser melhor, pensam muitos (e depois pensam poucos). Quando anos passam e quase nada melhora, o azedume rói as almas. O mau viver instala-se a pouco-e-pouco; cava-se um fosso entre o mundo cada vez mais pequeno dos ricos e o mundo cada vez mais vasto dos pobres e acaba por se estragar tudo — mesmo em lugar tão cordato e tão pouco dado a excessos quanto Portugal.

 

Estamos a chegar aí – tal como vários outros países europeus – graças a política de austeridade que de há quase cinco anos a esta parte os países que têm o euro como moeda resolveram adoptar. Em lugares do Sul animados por tradições de guerra civil, como a Espanha e a Grécia, a violência formiga à flor da pele. Mais acima no Continente, os países decisores ou por falta de visão (tais aqueles jogadores de futebol que olham para a bola em vez de olharem para o campo) ou por ignorância de história (a qual lhes diria que, em 1953, a Alemanha Ocidental ter um superavid primário foi crucial para a decisão de lhe reduzir drasticamente a dívida) estão a minar a segurança e o bem-estar dos europeus. É certo que em 1953 os europeus ocidentais tinham pavor salutar da URSS. Mas hoje a Europa inteira deveria ter medo geral profilático: da Rússia; da concorrência desregrada dos outros BRICS; do descalabro sanguinário do Próximo Oriente. Somos uma jangada de paz e decência em mar alto onde borbulham monstros.

 

E nem é hoje a Alemanha que nos empurra para o abismo. Finlândia, Holanda, Eslováquia, Eslovénia falam mais grosso ainda. Mas com chefe à altura de Adenauer, que puxou os seus do fundo do opróbio; ou de Churchill que salvou a Democracia das garras de Hitler e Estaline; ou de De Gaulle que, em 1945, fez da França vencida França vencedora – tudo iria ao sítio. Mesmo sem eles, talvez vá se Angela Merkel tiver unhas para essa guitarra. Talvez as tenha.

 

Escrevo da Nova Iorque dos pobres, onde houve festa da música no Solstício de Verão. No bistrot da esquina, com mesas cá fora, quarteto francês de jazz (The Blues Syndicate, amadores cinquentões) veio dar acompanhamento ao aperitivo e, depois de jantar, ao serão. “Perdemos Waterloo mas ganhámos os blues” disse o guitarrista entre duas peças. Quinta-Feira, à reconstituição comemorativa dos 200 anos da batalha tinham vindo o Rei dos Belgas, o Príncipe Carlos, descendentes de Napoleão, de Wellington, de Blücher, outros estadistas europeus. Os franceses têm mau perder e mandaram só o embaixador em Bruxelas. Os alemães fizeram o mesmo mas porque, desde a atrocidade nazi, ganhar dá-lhes amargos de boca — por muito antigo que o ganho haja sido.

 

Isso deveríamos todos aprender com eles. Na minha experiência, a Alemanha era o único grande país europeu que se portava decentemente com os pequenos e dizem-me que continua a sê-lo.

 

 

 

Imagem: aqui

 

 

link do postPor VF, às 07:06  comentar

3.6.15

 

 

t1212tejero-picasso_feat1_3.jpg

 

Europa, filha do rei de Tyr, raptada por Zeus 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Irmãs da namorada de Zeus

 

 

 

Há anos, no Itamaraty, perguntei a diplomata brasileiro como era o Paraguai. “É assim como o México” respondeu ele “mas, como não mudam de 7 em 7 anos, roubam menos”. Era o presidente que não mudava; pouco tempo depois o ditador Stroessner foi corrido – para exílio no Brasil – pelo que hão de ter passado a roubar mais. Mas o pior não é isso: há mês e meio, miúda de dez anos, grávida depois de violada pelo padrasto, foi levada ao hospital pela mãe pedindo que a fizessem abortar. As autoridades, espaldeadas pela igreja católica, disseram que não (prendendo a mãe como cúmplice). Em vários outros países da América Latina, as gravidezes juvenis também são muito mais frequentes do que na Europa e mais difíceis de prevenir por uma mistura de ignorância, machismo e doutrina católica.

 

Passando para outra das irmãs da namorada de Zeus e para outros desmandos: na sexta-feira passada, federações nacionais de futebol, sobretudo de África, votaram sem hesitação para renovar o mandato de Sepp Blatter à frente da FIFA, apesar de indignação de muitos entendidos e de outras federações. (Michel Platini, presidente da europeia, exortou publicamente Blatter a não se recandidatar). Como a investigação de crimes graves veio do FBI, esboça-se movimento para caracterizar o caso como expressão de imperialismo americano atrabiliário contra costumes, diferentes mas honrados, de gente menos rica e menos forte por esse mundo fora.

 

Um que logo se manifestou nesse sentido, alto e bom som, foi Vladimir Putin que, de súcia com o alto clero da igreja ortodoxa, continua a restringir cada vez mais as liberdades na Rússia – no rosário de repressões: há dias fundações que recebam dinheiro do estrangeiro foram consideradas inimigas da nação e do estado – para consolidar a sua cleptocracia; deverá saber ou suspeitar de trafulhices na escolha do seu país para acolher mundial de futebol e verá também oportunidade de reforçar a sua excelente imagem interna, fomentada por controle quase total de jornais, telefonias e televisões e por serviço de segurança levado ao nível do KGB.

 

O que me levou a outra irmã da Europa, a Ásia, de que a Rússia também faz parte embora não esgote, muito longe disso, as malevolências dela. Igualmente em notícias dos últimos dias, encontramos emigrantes, refugiados de tentativas de genocídio, postos à deriva no alto-mar com promessas de nova vida sem que países que os poderiam ajudar mexam um dedo para tal fazer, da Tailândia à Austrália (esta já na Oceânia, última irmã de Europa). Assim escancarada, a indiferença pelo próximo nesses países não encontra termos de comparação na Europa de hoje. Entretanto, sobre a terra e sobre o mar dessa parte do mundo, acena a presença totalitária e impiedosa da China.

 

No começo e no fim do dia, lembremo-nos da sorte que tivemos em nos ter calhado a filha do Rei de Tyr, raptada por Zeus (disfarçado de touro para escapar à vigilância ciumenta da mulher – o Mediterrâneo mudou pouco).

 

 

 

 

Imagem aqui

 

 

 

link do postPor VF, às 09:32  comentar

8.4.15

 

Fernao-Mendes-Pinto.jpg

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Ave-Marias e Pelouros

 

 

 

“Com muitas Ave-Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo” conta Fernão Mendes Pinto da abordagem ao junco do pirata Cimilau no Mar da China. Os europeus começavam meio milénio de domínio do mundo que estamos a ver acabar “in real time” e sem anestesia.

 

Hoje, Ave-Marias, não sei se chegaríamos ao fim duma, quanto mais de muitas que a fé é pouca e preguiçosa neste recanto temperado do hemisfério Norte — 5% da população, 20% do produto e 50% da despesa social do mundo não se cansa de lembrar Angela Merkel. E pelouros dos nossos dias – armas “state of the art” – custam dinheiro que povos europeus amantes da paz (e de que os deixem em paz) preferem gastar noutras coisas enquanto Rússia e China aumentam substancialmente todos os anos os seus orçamentos de defesa — isto é, de ataque. Continuamos a depender da protecção dos Estados Unidos para nos defender de quem nos queira atacar (ou para que quem tal queira, pense duas vezes e não ataque). Mas é menos certo hoje do que durante a Guerra Fria que ataque a qualquer Aliado seja inexoravelmente tomado por Washington como ataque aos Estados Unidos. Nós — portugueses e outros — estamos muito menos seguros do que estávamos quando a União Soviética existia. Pior ainda, aqui e agora, as pessoas não vislumbram guerra - como não a vislumbraram em 1913…

 

Assim, ganhar força para a luta não vai ser fácil. Na União Europeia e arredores, a combater como Fernão Mendes Pinto, só me ocorrem as hostes do ISIS, as arrebanhadas localmente e as brigadas internacionais emigradas da Europa, rapazes e raparigas que encontraram sentido a dar à vida. A fé é outra mas a mistura de vigor espiritual e engodo material é a mesma. Nos dois casos, creem que Deus os ajudará a limpar a face da terra de infiéis e, com especiarias que abarrotavam o junco do Cimilau ou com petróleo de Mosul, enchem os cofres da causa.

 

E batermo-nos por quem? A União Europeia é uma grande cooperativa de produção e consumo, capaz de nos dar o melhor viver quantificável do mundo mas incapaz de levar seja quem for a morrer ou matar por ela. Para Super-Pátria não dá. Na Europa já se morreu e matou por Deus, por Príncipes e por fim por Pátrias. Hoje, abafadas pelo cobertor comunitário, as pulsões que estas nos dão são como dores fantasmas em membros amputados. Mas é o que há.

 

E, quando a guerra vier, como derrotar a barbaria sem criar outra? Primeiro, é preciso estarmos convencidos de que temos razão e eles não a têm. Segundo, querermos vitória e só vitória. Terceiro, sabermos que ‘quem mata primeiro, ganha’ (lição aprendida em Pretória do motorista Vasco, que usava pistola porque ia e vinha todos os dias do township onde vivia). Quarto, reforçarmos a OTAN (até porque, sem os americanos, quem mandaria?). E, quinto, pormos botas no terreno (só com aviões e drones não se irá lá).

 

E se nos furtarmos a guerra assim? Em vez de passarmos de cavalo para burro passaremos de cavalo para burro morto.

 

 

Imagem aqui

link do postPor VF, às 10:37  comentar

1.4.15

 

 

 

gulag banner.jpg

 Cemitério de vítimas do Gulag em Vorkuta, Rússia. 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Quaresma

 

 

 

Sábado, 28 - Entre cornflakes e café, folheio o International New York Times e leio, ao fundo da página 5, que no quadro do desastre de avião que matou o Presidente Lech Kaczynski e mais 95 altas figuras do estado que viajavam com ele, na Rússia ocidental, em 2010, procurador militar polaco acusou ontem 2 controladores aéreos russos. Depois de quase 5 anos de investigação, um dos controladores, de responsabilidade directa pelo desastre; o outro de responsabilidade indirecta. Poderão ser condenados a 8 anos de prisão. Todavia, acrescentou o coronel procurador, a causa mais imediata do desastre fora a falta de treino e o comportamento negligente da tripulação polaca que havia feito descer demais o avião abaixo do nevoeiro e ignorara sinal automático para retomar altitude. Tripulação que não estava autorizada a conduzir o avião presidencial.

 

As revelações do procurador militar foram logo aproveitadas pelo partido conservador Lei e Justiça, maior partido de oposição polaco, fundado pelo falecido presidente e por seu irmão gémeo Jaroslaw, antigo primeiro-ministro, que tem sustentado sempre que o presidente foi assassinado, possivelmente pelos russos, e acredita também que o governo de Donald Tusk (agora Presidente do Conselho Europeu) ajudou a encobrir os factos. Antoni Macierewicz, um dos barões do partido acusou os investigadores de “desencaminharem o público” e disse que o desastre fora causado por explosão misteriosa a bordo. A Rússia ainda não devolveu os restos do avião, apesar de repetidas insistências polacas.

 

Tragédias, intrigas, mistérios em curso bem como muitas opiniões sábias – que se passaria na cabeça do copiloto de Germanwings?; ditos, reditos e desditos de Bibi sobre todo o mundo e ninguém e dinheiro de impostos devolvido aos palestinos; labirinto de becos sem saída, desenhado pela ignorância curta de vistas de Washington na escolha de amigos e inimigos no Médio Oriente (onde o amigo do meu inimigo também muitas vezes meu amigo é); esforços para limpar o Laos, uma das terras mais bombardeadas deste mundo; decisão final pendente da justiça italiana sobre a americana Amanda Knox (a telefonia veio dizer que fora definitivamente absolvida da acusação de ter morto a amiga); Sigmund Freud na história da psiquiatria; o novo Museu Whitney em Nova Iorque; Silicon Valley e automóveis de luxo velozes; mudanças na banca privada internacional – tudo em 22 páginas, no meio de anúncios de joias, de relógios, de bagagens, de hotéis, tudo de luxo, para entreter convalescentes e mais ociosos nesta véspera de Domingo de Ramos, quase me fizeram falhar o inquérito ao desastre do avião polaco.

 

Teria sido pena. Em poucas linhas, não me deixou esquecer que nessa interface entre Leste e mais a Leste, onde desconfiança mútua impera, má-fé campeia e transparência é opaca, está todos os dias em risco a paz geral da Europa. Todo o cuidado é pouco, a começar com Putin. E, vistas bem as coisas, também a acabar nele. Páscoa Feliz.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

link do postPor VF, às 09:53  comentar

18.3.15

 

 

640px-Tizian_085.jpg

 O rapto de Europa, Ticiano, 1628-1629

 

 

 

  

José Cutileiro.jpg

 

 

 

In real time e sem anestesia

 

 

Coube-nos na roda da sorte assistir à decadência da Europa e, se não tomarmos juízo depressa, caberá pior aos nossos filhos, filhas, netas e netos. Claro que denunciar decadência da civilização ocidental é prática tão antiga quanto a própria civilização, começando na Grécia clássica, continuando em Roma, tocando teólogos medievais, enciclopedistas, monárquicos chocados pela presunção de Saint-Just (“de agora em diante, a felicidade é possível”), anti-darwinistas no século XIX e - no Bible Belt do Sul dos Estados Unidos - no século XXI. De Doutores da Igreja a doutores da mula ruça, passando por amigos de Fräu Tichbein em Emílio e os Detectives, convencidos de que no tempo deles “o céu era mais azul e as cabeças dos bois eram maiores”, toda a gente molhou a sopa. E a ascensão continuou.

 

Desta vez é diferente. Se a malta não se põe a pau (traduzo livremente, do grego demótico, exortação de um ministro do Syriza) a decadência corre o risco de ser definitiva. Mais de meio século seguido de paz, duração inédita na história da Europa, convenceu-nos de que não precisamos de nos armar. Ora tal só aconteceu porque a confrontação entre duas superpotências nucleares responsáveis, os Estados Unidos e a União Soviética, mantinha franceses e alemães e outros antigos inimigos com o freio nos dentes e, se alguém de fora quisesse atacar, Washington, deste lado, e Moscovo, do outro, saberiam mete-los na ordem.

 

Mas a União Soviética acabou. Os Estados Unidos acharam que deveriam olhar menos pelo mundo e a União Europeia foi apanhada nessa volta. Nós, os europeus, estamos convencidos de que, por querermos paz, ninguém quererá atacar-nos. Ora, primeiro, nós não queremos paz – queremos é que nos deixem em paz. E, segundo se, durante a Guerra Fria, a protecção americana fez com que ninguém se metesse connosco, nos tempos que correm as coisas não serão certamente tão simples.

 

Em custos de defesa, a partilha do fardo transatlântico tornou-se ainda mais desigual: os Estados Unidos arcam agora com 70% dos seus custos. Em Setembro passado, em cimeira no País de Gales, os aliados europeus comprometeram-se solenemente a dedicarem - como deveriam – 2% do seu PIB a despesas de defesa. Vários deles estão muito abaixo; o único que lá chegou foi a Estónia. Pior: enquanto França e Reino Unido, os dois grandes poderes militares da União Europeia, se mantinham há anos muito perto dos 2% (por boas e más razões, a Alemanha gasta muito menos e muito mal), Londres anunciou agora reduções substanciais, alarmando os seus militares e Washington.

 

A decisão no País de Gales fora tomada porque Putin, que invadira a Geórgia em 2008, dava mais sinais de perigo. Entretanto, anexou a Crimeia, acicata a guerra civil na Ucrânia – e, vendo que a fibra da Europa em vez de enrijar continua bamba, olha para nós à espera. O pai do meu amigo Henrique, grande caçador, dizia: “A gente, quando vê o coelho, não o mata logo”. Nessa está Vladimir Vladimirovitch.

 

 

link do postPor VF, às 07:37  comentar

25.2.15

 

 

inverno-arcimboldi-giuseppe-arcimboldo.jpg

L'inverno (1569), Giuseppe Arcimboldo

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

O fim da picada?

 

 

Angela Merkel, levando à ilharga François Hollande – o eixo franco-alemão redime Berlim de crimes imperdoáveis – viu as coisas mais de cima do que os seus contabilistas, pôs a mão por baixo de Tsipras, a Grécia não saiu do euro e ainda não foi agora que a construção europeia se desmoronou.

 

Por um triz. Nacionalismos antigos estalaram o verniz fresco da Casa Europeia. Para os alemães, a Grécia reduziu-se a dois séculos de aldrabices (em meados do século XIX desconfiava-se na Europa do teor de moedas de ouro cunhadas por Atenas); para os gregos, a Alemanha reduziu-se ao horror nazi (na Primavera de 1944, escritor berlinense foi denunciado, julgado e decapitado por ‘propósitos derrotistas’ e a viúva recebeu conta de 585 marcos para pagamento das despesas). Agora, inexperiência, má criação e má-fé do novo governo grego, e inabalável curteza de vistas dos burocratas financeiros alemães (recusando-se a perceber que a dívida grega explodiu devido a medidas mal pensadas impostas pela troika; que sem o fim da austeridade não haverá recuperação – para sair de um buraco a primeira coisa a fazer é parar de cavar – e que a dívida grega deverá ipso facto ser revista) animam falso combate entre Norte virtuoso e Sul pecador da Europa. Esperemos que nos próximos meses a obstinação insensata alemã se atenue e os gregos provem que passaram a ser de fiar.

 

Infelizmente esta bulha não é confortada por qualquer visão estratégica da União, porque tal visão não existe. A vontade de defender a Pátria e os orçamentos de defesa mirram de ano para ano. A Sudeste, as barbaridades do Califado – ou estado islâmico do Iraque e da Síria – alarmam os europeus por medo de terrorismo praticado por cá, levam a alguma coordenação policial mas não a medidas de uma Europa que quisesse e soubesse defender os seus interesses e gerir zangas internas sem se enfraquecer.

 

E a Leste é pior ainda. Desde o fim da União Soviética, o Ocidente esqueceu-se da Rússia, esperando que os russos quisessem vir a ser como nós – estado de direito, direitos humanos, respeito pelos vizinhos. Não o quiseram e hoje, sob a égide ávida de grandeza Imperial de Putin (que alguns entre nós admiram) a Rússia ameaça a nossa segurança. A Ucrânia está ser despedaçada: o eixo franco-alemão insiste em Minsk que só pode haver solução política e entretanto a Rússia estabelece militarmente as partes dessa solução que lhe convêm. Em 2008, Geórgia; no ano passado, Crimeia; uma vez o resto da Ucrânia fatiado sem que ninguém lhe trave o passo, talvez a Rússia se vire contra um dos bálticos (a pretexto de proteger minoria russa), apostada em que a OTAN não lhe bata de volta. Os Aliados, com Washington, Londres, Paris, Berlim e Varsóvia à frente, deveriam lembrar ao Kremlin que o artigo 5 do Tratado de Washington (ataque a um é ataque a todos) não foi abrogado.

 

Havia mais sagacidade nos antigos do que na nossa correcção política bem pensante. Se queres paz, prepara guerra, diziam.

 

 

link do postPor VF, às 09:10  comentar

18.2.15

 

 

Foto Sonda Cassini.jpg

 Foto Sonda Cassini

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Agora e na hora da nossa morte

 

 

António Alçada Baptista travou-me o braço e disse-me enquanto atravessávamos o foyer do teatro Maria Matos onde nessa tarde havia uma recepção: “Estou a escrever um livro porreirinho sobre Deus”. Eu chegara de Oxford uma hora antes para meia dúzia de dias na Pátria, não nos víamos há meses e assim recebi anúncio da Peregrinação Interior. Da boca do cavalo, dir-se-ia em inglês.

 

Tempo mais simples do que o nosso de hoje. Três séculos intensos de zaragatas europeias tinham acabado em muitos lugares por separar a Igreja do Estado; blasfémia era pecado mas deixara de ser crime. A fé de cada um - como os gostos de cada um - não se discutia. O nazismo fora derrotado e destruído; o comunismo estava cantonado até que o seu próprio peso o fizesse desmoronar. Na Europa Ocidental vingavam decência entre governantes e governados e comedimento na partilha do latifúndio, inéditos na história.

 

O Portugal de O Tempo e o Modo esperava pelo 25 de Abril e o Deus do António era o Deus hebraico de Abraão, Isaac e Jacob, mais tarde também de Jesus Cristo e, mais tarde ainda, de Abu Al Cassem Ben Abdalá Ben Al Mutalibe (Maomé significaria O Glorificado). Os estragos feitos ao longo da história pelo monoteísmo começavam a ser esquecidos em ambiente que André Malraux apreendera bem: “Somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem”.

 

Éramos. Talvez ainda se escrevam livros porreirinhos sobre Deus, nos quais a leitora encontre apreciação da vida, benevolência e tolerância, longe de polémicas teológicas – longe, na aparência, de qualquer teologia. Mas onde hoje mais ouvimos falar de Deus, é nos feitos do Estado Islâmico do Iraque e da Síria ou de Boko Haram na Nigéria, um Deus antropomórfico, primitivo, cruel, sangrento, cujos fiéis oferecem à outra gente conversão ou morte – ou começam matando, se mais jeito der. Nova Iorque, Washington, Londres, Madrid, Paris, Copenhague – a procissão ainda vai no adro. E, em partes da cristandade – por exemplo, na Rússia – igrejas opressivas recuperam poder temporal.

 

Entretanto, a ciência vai mudando o conhecimento do mundo de maneiras tão inesperadas e com tal rapidez que o presente – e não apenas o passado – às vezes é como se fosse país estrangeiro, com língua e hábitos diferentes dos nossos. Mudanças de paradigma sucedem-se em cascata. E a passagem de novas teorias, intuições, palpites, de mentes científicas para entusiasmos leigos faz-se num momento e sem filtro, devido à panóplia de meios de comunicação hoje ao dispor de cada um.

 

Nesta mistura adúltera de tudo, diz-me amigo entendido em coisas americanas, lá quase todos os movimentos feministas debatem o género da divindade, ao ponto de usarem o feminino nas orações. E que Deus seja um robot, nem macho nem fêmea, dados os progressos em inteligência artificial, etc., será decerto sugerido um dia destes. Separando de uma penada o físico do moral; o que é do que deveria ser. Até à guinada seguinte…

 

 

 

link do postPor VF, às 09:53  comentar

11.2.15

 

baptismo de Kiev 1.jpg S. Vladimiro baptizando os russos em Kiev

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Nem paz nem guerra

 

 

Houvesse a União Soviética durado mais dez anos, a viagem da construção europeia teria continuado sem os equívocos do euro (posto em marcha antes de tempo por visionários seguros dos bois alcançarem depois o carro – por não perceberem que, acabado o medo de Moscovo, deixara de haver espora no flanco do esforço comum); sem explosão de nacionalismos centrífugos e sem termos de pagar excesso de bagagem pela reunificação alemã (quando esta por fim chegasse, a Europa seria já tão forte que quase nem daria por isso).

 

Mas a U. R. S. S. não durou. Tornámos a dar connosco confrontados com a questão do lugar da Alemanha na Europa (tão incómoda desde a primeira reunificação alemã que, no século passado, deu duas guerras mundiais; que, no fim da segunda, conselheiro do presidente americano Roosevelt propusera que se transformasse a Alemanha em país apenas agrícola; e que hoje, encaroçada com fé de aiatola em austeridade ruinosa para a economia e a política europeias, Berlim acelera a diminuição do poder europeu no mundo).

 

Sem inimigo exterior forte e decidido (como foi a União Soviética durante a Guerra Fria),os europeus da União — com mais de mil e duzentos anos de guerras e más vontades desde a coroação de Carlos Magno em Aix-La-Chapelle (Aachen em alemão) em 800 A.D. — parecem, muitos deles, mais inclinados a irem cada um para seu lado do que a meterem ombro à roda de todos. Recomeçaram a reparar nas maldades dos parceiros e parecem ter esquecido as dos antigos inimigos. Para vários partidos de extrema-direita na Europa, Putin dá exemplo a seguir e não desmando a evitar: o Front National de Marine Le Pen tem preferido bancos russos a franceses; o húngaro Victor Orban faz a apologia de regimes autoritários como o russo e o turco; na Grécia o partido de extrema-esquerda Siriza foi buscar à direita nacionalista e xenófoba parceiro para governar. Não se trata de quintas colunas; a Guerra Fria não vai voltar porque era uma guerra santa, entre duas crenças, e uma das crenças deixou de ter fiéis. Mas o tripé onde assenta a nossa democracia – separação da igreja do estado, estado de direito, respeito pelos direitos humanos – está a ser atacado de vários lados e, os nossos filhos e netos, habituados, no seu mundo sem fome e sem guerra, a considerarem esse tripé parte da ordem natural das coisas (e não o que ele é: invenção humana recente, constantemente ameaçada) se não dobrarem vigilância, arriscam-se a perder o luxo de civismo e decência ganho na Europa ocidental desde 1945 e em toda a Europa para cá da Rússia desde 1990.

 

Tirando em fundamentos que não são para aqui chamados — Há ou não há Deus? Que fazemos por cá? — sabe-se hoje mais de tudo, na hora e em toda a parte, do que alguma vez se soube. Mas não ajuda. Do Kremlin, Vladimir Vladimirovic vai fazendo Anchlüss, tomando Sudetas, qualquer dia invade um Báltico — e nós continuaremos a dizer que o problema só terá solução política e Deus nos livre de dar armas a Kiev.

 

 

 

link do postPor VF, às 07:03  comentar

28.1.15

 

cariatides.jpg

Atenas, 2015

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Depois da vitória do Syriza

 

 

 

Das flores postas por Alexis Tsipras diante do muro em Atenas que recorda e condena o fuzilamento de 200 resistentes gregos por soldados alemães do III Reich em 1944, do seu anúncio da intenção de ficar na Europa e no euro, fazendo entretanto coligação de governo com partido de extrema direita, hostil à Europa, depois do anúncio de posições de partida, grega e europeia+FMI, aparentemente irreconciliáveis, seguir-se-ão semanas de regateio digno de bazar turco ou da antiga Praça da Figueira ao fim das quais a Grécia irá ficar no euro (onde nunca deveria ter entrado, mas é assim).

 

Saída seria golpe mortal no projecto europeu. Hoje a alternativa europeia é: ou prosperarmos juntos ou arruinarmo-nos separados. Apesar de haver partidos estridentes contra a União nos quatro grandes países membros (e também nalguns pequenos) o bom senso tem levado a melhor de indignações causadas pela falta de cabeça e de coração dos nossos chefes políticos. Há quem pense que a mediocridade é inevitável depois de tantas décadas sem guerra; eu julgo que ela venha de um encurtar de vistas deliberado para agradar aos eleitores, garantindo paz sem ter de gastar em defesa. Com o fim da Guerra Fria, deixara de haver rapazes maus. Entretanto, essa aldrabice levou um rombo: a Rússia de Putin, na Ucrânia; muçulmanos sunitas salafistas no Estado Islâmico destaparam-na.

 

O projecto europeu fora lançado a seguir a 1945 para acabar com guerras entre a França e a Alemanha e para resistir ao expansionismo da União Soviética. Deu boa conta do recado – tal como a OTAN, a qual se houve tão bem que no conceito estratégico russo congeminado no Kremlin de Vladimir Vladimirovich (“A maior tragédia geopolítica do século XX foi o fim da União Soviética”) ocupa, juntamente com os Estados Unidos, lugar de papão-mor.

 

Tsipras manobra trunfo táctico que o alinha com os bons sonhos inocentes da troika: combater antes de tudo a corrupção - que Pasok e Nova Democracia sempre cultivaram - fazendo cumprir leis, pagar impostos, escolher funcionários por mérito e não por parentesco e compadrio. Em suma: inventando um estado novo. Tentar substituir a Grécia que há, com ascendência fantasiada de zénite intelectual e artístico e misérias e manhas de província otomana, por uma espécie de Holanda de 5ª Divisão.

 

Talvez os europeus, cercados de perigos, decidam que têm de se entender. Fala-se de perdões de dívida: são muitos na história do capitalismo, sobretudo à Alemanha em 1953. Há quem esqueça que então a URSS existia e era vital prevenir tentações neutralistas de Bona. Hoje o quadro é outro mas encontrar-se-á maneira de aliviar o erro da austeridade aplicada como remédio à doença grega (falsa teoria e prática nefasta) sem lesar outros contribuintes europeus.

 

O direito internacional é flexível. Quando, em 1998, Robin Cook disse a Madeleine Albright que, segundo os seus advogados, bombardear a Sérvia seria ilegal, ela respondeu: “Arranje outros advogados”.

 

 

 

 

 


10.12.14

 

 

kohl.jpg

Helmut Kohl

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

E se o povo ordena mal?

 

 

Na Baviera a CSU, irmã da CDU do resto da Alemanha, causou sensação há dias. Estudo apresentado à direcção do partido propunha que imigrantes fossem obrigados a falar alemão – mesmo em casa, quando estivessem só entre si. Até alguns bávaros ficaram perplexos e no resto do país houve indignação — salvo em partidos, pré-partidos, associações, confrarias de uma extrema-direita nacionalista e xenófoba, que pululam de há uns anos a esta parte, mais no que dantes fora a Alemanha Oriental. (“O patriotismo é o amor dos seus; o nacionalismo é o ódio aos outros” escreveu luminosamente Romain Gary).

 

A Baviera é próspera e tem outras boas coisas – automóveis BMW; braços abertos no acolhimento a Ingmar Bergman que lá pôs em cena teatro e ópera sete anos, expatriado até o fisco sueco lhe pedir desculpa por o ter feito escandalosamente prender sem razão – mas a aliança da sua direita com o resto da direita alemã nem sempre é fácil. Uma vez, num almoço de fim de Wehrkunde em Munique, ouvi Helmut Kohl, ainda Chanceler, somando aos convivas da sua mesa os anos que levava de vida política, enumerar a certa altura: “sete anos com Franz-Joseph Strauss como Vice-Chanceler — contam por catorze”.

 

Depois de algumas décadas a seguir à guerra (de 39-45) sem vestígios disso, o populismo começa a morder a Alemanha, agora reunida, não ainda com o sangue na guelra que mostra em França, na Hungria ou no norte de Itália, mas Berlim tem responsabilidade especial e se o borbulhar fascizante continuar talvez Angela Merkel dê uma guinada ao leme do seu (nosso) barco. Levando a sua chefia sem distracções causadas por “essa coisa da visão”, como diria o pai Bush, munida de antenas que captam ondas emitidas pelo povo e imune a sobressaltos que traíssem pulsões ou sentimento, deu nos últimos anos duas grandes guinadas, uma disparatada mas demagogicamente fácil, outra sábia mas politicamente complicada. A disparatada foi aproveitar desastre nuclear no Japão para decretar, à beira de eleições, o fim da energia nuclear na Alemanha. A sábia – e corajosa – foi opor-se ao gangsterismo aventureiro de Putin, que em má hora cometera o erro de lhe mentir, contra a opinião maioritária da sua gente, propensa a achar que o lugar dela é entre o Ocidente e a Rússia, e de industriais famintos de “business as usual”. A sua firmeza, desta vez, deu coluna vertebral à Europa no confronto com Moscovo.

 

Se populismo xenófobo continuar a grassar na Alemanha — e se Angela Merkel perceber que o marasmo económico o anima — talvez a Chanceler dê mais uma guinada. Resolva espaldar o Banco Central Europeu na sua missão de subir a inflação até quase 2%, permitindo-lhe comprar dívida pública, apesar dos tratados — outra vez contra os instintos do povo.

 

Se assim for, diz-me entendido nestas matérias, poder-se-á sair da crise com União e países viáveis. Se assim não for, depois de ter falhado a mal em 1918 e em 1945, a Alemanha agora terá conseguido dar cabo da Europa a bem.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 10:22  comentar

12.11.14

 

Mother-and-Child-with-Orange-1951.jpgMother and Child with orange, Picasso 1951

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Tiago, 4 anos; Europa, 2.500 desde o Século de

 

Péricles.

 

 

 

Garantem-nos que desta vez é mesmo a decadência do Ocidente e a passagem da Europa de cavalo a burro. Em tempo real, sem anestesia. E com rol de queixas: aquecimento global; envelhecimento debilitante; deflação; Ébola e outras pandemias; Rússia que quanto mais come mais vontade tem de comer; sarracenos matando-se uns aos outros em nome de Deus com sanha que tínhamos esquecido (e a decapitar alguns de nós para nos avivar a memória); China – Perigo Amarelo! - a dar má vizinhança marítima e a despejar sobre nós cada vez mais bugigangas que fabrica; zaragatas que dantes não havia ou de que não nos dávamos conta; os bárbaros às portas da cidade — tudo afogado no saber digital como pêssego em calda. Que mundo vamos nós deixar aos nossos filhos? — afligem-se pais e mães.

 

O pai do Tiago fez a pergunta contrária: “Que filhos vamos nós deixar ao mundo?”. Estavam a passar uns dias connosco e nisto de pais com filhos pequenos ficou-me de exemplo a resposta recebida há 20 anos da mulher do meu chefe de gabinete. Era domingo, ainda não havia telefones portáteis, eu precisava de falar com ele, liguei o número de casa e inqueri quando ela atendeu: “Como vai a mãe feliz de duas crianças extraordinárias?” “Desculpe, Senhor Embaixador. A mãe extraordinária de duas crianças felizes.”

 

Tiago é uma criança feliz e a felicidade é contagiosa. O restaurante onde os levámos na sexta-feira tem três salas e a certa altura parlamentou com o pai licença de ir espreitar a que não se via bem da nossa, perto da cozinha. Voltou de olho a brilhar - “Há uma festa!” anunciou, disse que lhe tinham dado um beijinho e quis lá tornar com a mãe. Foram, voltaram, o jantar continuou e de repente, pelas minhas costas chegou à nossa mesa redonda grande fatia de bolo de chocolate, trazida ao Tiago num prato de sobremesa por mulher bonita, alta, de longos cabelos louros, confiante, rendida ao sedutor de 4 anos, e que a seguir voltou, alegre, para a sua festa de anos.

 

E a decadência do Ocidente? Há cada vez mais velhos na Europa e, como Helmut Wohl me disse já há muitos anos, os violinos e os vinhos melhoram com a idade; os pianos e as pessoas pioram. Por muito que se queira contentar a terceira idade, o contentamento não é natural nela. Infelizmente, como em quase todos os países europeus — com saudável excepção da França — todos os anos morrem mais pessoas do que nascem, o velho continente ocupa lugar cada vez mais pequeno no mundo. Mas, enquanto houver mães e pais admiráveis de crianças felizes, que não perguntem que mundo vão deixar aos filhos mas que filhos vão deixar ao mundo, crianças contentes na descoberta da vida desmentirão a decadência do Ocidente.

 

Em Portugal há mais. Tiago e os pais ficaram cá em casa por eu ser padrinho da mãe dele. Amigo que os trouxe do aeroporto não pôde depois levá-los por ir a Lisboa ao baptismo de um sobrinho. Retornados em 75, austeridade agora, férias — a família cobre tudo.

 

 

 

link do postPor VF, às 06:05  comentar

5.11.14

 

russian dolls.jpg

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Raio de vizinho!

 

 

Vladimir Putin insiste em provocar o Ocidente. Para ele o colapso da União Soviética foi a maior-catástrofe geopolítica do século XX. Oficial da antiga KGB, disfarçara esse ressabiamento durante muitos anos e Yeltsin que, de seu livre alvedrio, dissolvera a União Soviética de cima para baixo sem derramamento de sangue, designara-o seu sucessor. Fê-lo como quem, para escolher um melão, o provasse primeiro. Nos seus últimos anos de Kremlin, preocupado com o futuro da democracia na Rússia – Yeltsin era instintivamente um libertário - e com o futuro da família, enleada em negócios com grandes zonas de sombra que sucessor mal inspirado poderia querer investigar e punir, foi nomeando primeiros-ministros a ritmo acelerado, descartando depressa o primeiro, pouco tempo depois o segundo, e ungindo o terceiro seu herdeiro presuntivo. Assim Putin chegou ao Kremlin e, quer ainda em vida de Boris Nicolaievich quer depois da sua morte, a família Yeltsin – parentes e afins - nunca foi inquietada. Quanto à democracia, como se sabe, a conversa tem sido outra.

 

Movido por ambição de restaurar grandezas passadas – para o efeito, Rússia e U.R.S.S. são a mesma coisa (De Gaulle, que percebia a História, nunca dizia l’Union Soviétique; dizia sempre la Russie) – o apetite de Putin foi confortado pelos egoísmos moles dos europeus e pela falta abananada de chefia dos Estados Unidos que está a deixar o mundo sem rei nem roque. E passou das palavras aos actos (mirando al tendido: no dia seguinte ao inquilino da Casa Branca, dando o dito por não dito, desistir de bombardear a Síria, o inquilino do Kremlin publicou artigo de fundo no New York Times a explicar-lhe benevolamente como se devia mandar no mundo). Depois, sem estados de alma, ocupou ilegalmente a Crimeia, organizou referendo a mostrar que era o que os indígenas queriam e alimenta a dissidência na Ucrânia Oriental, reconhecendo voto ilegal lá efectuado Domingo, negando sempre (ele e acólitos, incluindo o MNE Lavrov, apparatchik todo-o-terreno) a participação de soldados russos; mentindo tanto que até Angela Merkel perdeu a paciência.

 

Há dias apertou mais a tenaz. Aviões militares russos, alguns capazes de transportarem bombas atómicas (a que pulverizou Nagazaqui, era de 21 kilotões; as russas de hoje são de 200) violaram espaço aéreo europeu do Mar Báltico ao Mar Negro. Não submeteram planos de voo e iam de transponders desligados – isto é, além de querer acobardar os Aliados perante ataque eventual a um dos Bálticos, a fanfarronada teve riscos próprios – lembre-se a morte de Christophe de Margerie num aeródromo de Moscovo, por bebedeira e inépcia do pessoal de terra.

 

O novo secretário-geral da OTAN, norueguês temperado por curta fronteira com o Urso, talvez ajude a endireitar as espinhas vergadas de Bruxelas e de Washington. Valha-nos isso ou milagre de S. Jorge – senão o dragão moscovita pintará a manta enquanto lhe der na real gana. 

 

 

                                        

link do postPor VF, às 08:01  comentar

10.9.14

 

 

 

© Thomas Peter/Reuters

 

 

 

 

 

 

Mau jeito e má-fé

 

 

Há pouco mais de vinte anos, quando a Federação Jugoslava de que o Marechal Tito, durante a Guerra Fria, forjara reputação de farol de liberdade numa Europa Oriental talhada e adubada por Estaline (embora, quanto a virtude, a Jugoslávia fosse assim como pequena que trabalhasse num bordel, saísse, abrisse casa por conta própria e chamasse ao novo estabelecimento colégio de freiras) começara a desmoronar-se e rebentaram guerras locais, uma entre sérvios e croatas, a chamada comunidade internacional agitou-se, um entusiasta declarou que chegara “a Hora da Europa”, entrou-se na contradança de cessar-fogos e uma missão de monitores europeus fazia relatórios diários. Fixei o começo de um: “Cease fire holding despite major violations”.

 

Em 1992, os monitores europeus não eram os únicos interessados em que as pazes fossem feitas. A Alemanha pró-croata e a França pró-sérvia, encastradas na construção europeia — se não fosse esta, disse Mitterand, alemães e franceses ter-se-iam pegado outra vez — moderaram instintos e tradições. Os ingleses ficaram quase de fora; os americanos começaram por apoiar Belgrado porque não queriam dar mau exemplo à União Soviética; quando esta colapsou desinteressaram-se e depois, como é seu costume, inventaram mais um caso de bem contra o mal (o bem eram os muçulmanos bósnios e o mal, os sérvios).Todas as potências, até os russos de Gorbatchev e de Ieltsin, queriam a paz na região. Guerra só queriam mesmo sérvios e croatas — e eram poucos para arreliarem o mundo.

 

Matavam-se uns aos outros com afã, mas pararam quando os mandaram parar. Disputaram-se nas Kraínas, com a mesma etimologia de Ucrânia: terra de fronteira. As histórias são parecidas: na Ucrânia como nos Balcãs, durante a II Guerra Mundial, comunistas e nazis locais pintaram a manta, deixando nas memórias um duro génio de vinganças. Agora, separada da Mãe Rússia pela primeira vez desde que S. Vladimiro baptizou os russos em Kiev, a Ucrânia divide-se entre um Leste pró-moscovita e um Oeste pró-ocidental, o primeiro ainda mais longe de um estado de direito do que o segundo. O país é vasto mas, se os grandes deste mundo quisessem, a sarrafusca acabava e arranjos de paz seriam negociados. Um dos grandes, porém, quer que a sarrafusca continue.

 

É a Rússia de Putin, vingador de humilhações imaginadas que não quer paz na Ucrânia se não for ele a mandar. A tomada descarada da Crimeia (crime nos nossos dias mas bagatela comparada com tantos feitos militares passados) e mentiras igualmente descaradas do Kremlin, guindaram-no aos olhos dos seus à galeria dos grandes estadistas russos. Para nossa segurança futura é preciso travá-lo.

 

Pregar-lhe moral é igual ao litro. Meter-lhe medo sem ameaça de uso da força, tem feito pouca mossa. Mas é por aí, Alemanha à frente, que teremos de ir, apertando sanções até obtermos o efeito pretendido. E se, afinal de contas, tiver de haver mesmo guerra, preparados para a ganharmos. Somos homens ou somos rapazes?

 

 

 

link do postPor VF, às 10:26  comentar

3.9.14

 

 

 França, 2014

 

 

 

 

 

 

Si t’es pas bi, t’as rien compris

 

 

Se não és bissexual não percebeste nada, dizia frase tirada do texto e posta em relevo, a meio de artigo sobre bissexualidade que parece agora estar na moda entre adolescentes franceses, numa revista para senhoras, também francesa, com fotografias a preto e branco de miúdas e miúdos a beijarem-se na boca, rapaz a rapaz, rapariga a rapariga. Nenhuma intenção pornográfica, só diligência informativa. Aprender até morrer.

 

Sempre, indo para velha, a gente mudava. O que é novo, de há menos de três séculos para cá, é que o mundo parece mudar mais depressa do que nós, e nos últimos tempos, muito mais depressa ainda. Desconfiança das vantagens da Revolução Francesa começou logo com ela e teve, desde então, protagonistas convictos. O meu amigo Chico Quevedo, por exemplo, quando ainda ia de automóvel de Bruxelas para Lisboa acrescentava mais de uma centena de quilómetros de estrada para evitar Paris. A Revolução Industrial também teve logo detractores – o poeta William Blake fulminou “the dark, Satanic mills” — e continua a apoquentar ecologistas mas sai-se muito melhor do que “Liberté, Égalitè, Fraternité” sempre que a gente toma um comprimido de Aspirina e a dor passa.

 

No meu tempo de liceu, de bissexualidade quase não se falava e, de qualquer maneira, tínhamos, por assim dizer, mais ralações do que relações sexuais. Nessas coisas a mudança foi e, pelos vistos, continua ser, enorme — e ainda bem. Como ainda bem também as mudanças em governação: internacional (onde não existe mas se tenta compensar e, com sorte, talvez se preveja melhor do que em 1914) e nacional (onde as pessoas podem cada vez mais dar palavra) mas o desinteresse pela coisa pública e a desconfiança dos políticos alastra assustadoramente. O húngaro Victor Orban, admirador de Putin, foi ao ponto de declarar que a democracia é um mau sistema de governo porque enfraquece os povos e os regimes autoritários são preferíveis porque os reforçam. Tentações assim pulsam cada vez mais pela Europa fora.

 

Europa que, com islamitas do Califado no Iraque e na Síria, por um lado, o Czar Vladimiro, por outro e — cereja no bolo — um banana indeciso na Casa Branca, começa sombriamente a convencer-se de que se não for capaz de se defender de quem lhe queira mal, ninguém o fará por ela. A reconversão urgente e penosa de recursos e de ideias necessária à nossa sobrevivência será aproveitada pelos inimigos da liberdade — desde protectores de interesses corporativos em agricultura, comércio, indústria, serviços até almas ofendidas com a variedade de práticas sexuais aceites. Toda essa gente tem de perceber que onde as suas preferências de ordem e de respeito pelo passado imperam e onde o chefe quer, pode e manda, são, perto de nós, o Califado do Iraque e da Síria, ou, em versão light cristã, a Ucrânia oriental.

 

(Lembrete: os soldados com maior reputação de bravura de toda a antiguidade clássica vinham de Esparta, onde a bissexualidade era de rigueur.)

   

   

  

 

link do postPor VF, às 14:02  comentar

30.7.14

 

 

 

Barack+Obama+Barack+Obama+Golf+Mid+Pacific+9s6H4jz

 

 Barack Obama       foto: Bauer Griffin 

 

 

 

 

 

 

“Patrão fora…

 

 

…dia santo na loja!” Quando o dizer foi inventado os dias santos eram os únicos feriados que havia. Sem vigilância do patrão, cada um portava-se como lhe dava na real gana. (Na escola também, quando faltava o professor. Lembro-me, no pátio da Valsassina, de intervalo das 11 que nunca mais acabava, até que um voltou da secretaria eufórico: “É pá, não há aula! Morreu a mãe do gajo!”). Se a loja do mundo tem patrão, é Obama e, de há uns tempos para cá, anda tão distraído que há quem julgue que ele esteja fora.

 

De entrada quase ninguém deu por isso. O mundo estava farto de George W. Bush, a querer impor democracia aos outros, sem dor ou com dor, como charlatães de feira dantes arrancavam dentes; da sucessão de desastres militares que lhe couberam por causa disso; da sua fala de pobre de espírito – tornara-se caricatura de presidente americano, desenhada por estudante marxista burro. Em Janeiro de 2009, Obama era alívio que chegava, elegante, sereno, prometendo paz e decência. Discursava bem, com mais jeito para falar à gente do que qualquer dos seus predecessores de que alguém se lembrasse. “É um enlevo ouvi-lo” dizia-me admirador do tempo da primeira campanha eleitoral.

 

Depois de 5 anos de desilusão crescente, o ex-admirador diz agora: “Teria sido “speech-writer” ideal de presidente com jeito para mandar nos seus”. Nos seus e nos outros, acrescento eu, assustado por Putin em Moscovo, Xi na China, feixe de pimpões no Médio Oriente e mais malfeitores a granel, em confrontação com Obama em Washington e com Merkel no ramalhete pusilânime e indeciso dos europeus de que ela é a flor principal. “Lá vamos, cantando e rindo” cantava-se na Mocidade Portuguesa do meu tempo. Salvo jiadistas nas Arábias e entusiastas do Tea Party nas profundezas dos Estados Unidos, não ouço ninguém cantar assim agora.

 

Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos no começo da ascendência destes, fixou a regra de comportamento: “Falar baixinho e andar com um grande cacete”. Passado mais de um século, depois de duas guerras mundiais que aumentaram poder e persuasão dos Estados Unidos no mundo, e da guerra fria cujo resultado vindicou definitivamente a superioridade do capitalismo sobre o comunismo como criador de riqueza e de liberdade, e deixou os Estados Unidos a Hiperpotência, estamos a entrar em terra ignota: Obama na Casa Branca com béu-béu de pirolito e sem querer usar cacete.

 

A China acordou, outros espreguiçam-se. Milénios a fio poderes mudaram e a questão não é essa. A questão é que o alheamento de Obama, a falta de mão firme ao leme, desacredita o poder do Ocidente, garantia de relações entre governantes e governados e entre homens e mulheres muito mais humanas e decentes do que as que escapem à sua influência. Meninas infibuladas, prisioneiros de guerra decapitados, funcionários corruptos abatidos por balas na nuca — com a autoridade de Washington a sumir-se, faltas de respeito e provocações multiplicam-se por esse mundo fora.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 10:04  comentar

23.7.14

 

 

 

Malaysia Airlines Ukraine Crash Slideshow 16.jpg

 

 Destroços do voo 17 da Malaysia Airlines próximo de Hrabove, leste da Ucrânia, manhã de 19 de Julho de 2014.

(Dmitry Lovetsky/Associated Press)

 

 

 

 

 

A Cereja no Bolo

 

 

“Primeiro julguei que tivesse sido o Mossad, para distrair a nossa atenção de Gaza” disse a rapariga, sentada de Ipad ao colo. “Mas o que se foi sabendo não dava para isso. Entre russos e ucranianos…”

 

Conversa em Bruxelas, quando não restavam dúvidas quanto à origem do míssil terra-ar que deitara abaixo um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo sobre o leste da Ucrânia. Mas para muitos europeus dos nossos dias, criados no soft power e na correcção política, a maldade de Israel não tem limites e Vladimir Putin até nem é mau de todo, dada “a sobranceria com que os Estados Unidos trataram a Rússia a seguir ao fim da União Soviética”. Santa simplicidade.

 

Nesse fim de semana, em Paris e noutras cidades de França, numerosos manifestantes solidários com o povo da Palestina, enquanto partiam montras e ameaçavam sinagogas, gritavam palavras de ordem antissemitas — “Mort au juif!” — como não se via e ouvia em França já há muitos anos. (Coincidência de datas: o primeiro-ministro presidiu a cerimónia de desagravo comemorativa da concentração de 13.152 judeus, incluindo 5.051 crianças, num velódromo parisiense — o Vel d’Hiv — a 16 e 17 de Julho de 1942 antes de serem despachados para extermínio em Auschwitz). O antissemitismo francês tem tido altos e baixos.

 

Quanto ao avião da Malásia e a Putin, a verdade veio depressa ao de cima. Entre gabarolices e aldrabices, os rufias da República de Donesk, locais ou mercenários russos, deixaram poucas dúvidas sobre a selvajaria da sua proeza, e meios nacionais americanos de observação (NSA, etc.) revelaram com precisão cirúrgica o que se passara. Em muitas capitais do mundo, o patrão do Kremlin, cuja fanfarronice nacionalista inspirara a desordem armada no leste da Ucrânia — e cuja intendência lhe fornecera logística — é visto como corresponsável pela criação de ambiente propício à prática da atrocidade. Na União Europeia, até alemães e italianos concordaram no endurecimento de sanções à Rússia.

 

Quanto a Gaza, o horror de civis mortos e feridos por fogo israelita continua e continua também a incompreensão do que se está a passar. Gaza, com uma das mais altas densidades de população do mundo, é gigantesco e trágico escudo humano da armadilha onde Israel tem caído desde que se retirou do território em 1994. O Hamas dispara de lá todos os dias foguetões sobre Israel e cava túneis para por eles fazer mais ataques. Quando Israel pretende atingir rampas de lançamento ou quer escavacar túneis mata e fere inevitavelmente civis. A tática do Hamas não é original (em 1992, muçulmanos da Bósnia mandavam morteiros contra sérvios de pátios de hospitais) mas a escala desta vez é épica. E, lembrava Marx, alterações quantitativas conduzem a alterações qualitativas.

 

O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, tem agora muito menos apoios no mundo árabe. Mas a direita israelita de hoje está como Abba Eban disse um dia dos árabes: não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:28  comentar

11.6.14

 

 

Yalta, 1945

A Crimeia era a sala de visitas do Kremlin

 

 

 

 

 

 

Olivença sur mer?

 

 

Pedro Monjardino (pai do João e do Carlos) era homem sábio que usava regras simples para primeira abordagem de problemas complicados. Por exemplo, quando no hospital, no consultório, na clínica, alguém espavorido o avisava “Ai Senhor Doutor vem aí um maluco!”, Pedro que era alto e forte, pegava numa cadeira, levantava-a no braço direito e esperava. Das vezes que tal aconteceu, o tresloucado acalmou e deixou-se levar a bem.

 

O Ocidente – a que os alemães ainda pertencem – embora mais lento e menos decidido do que o meu chorado Pedro, conseguiu fazer o homem do Kremlin vislumbrar a bordoada que levaria se não ganhasse juízo. De há semanas para cá Putin começou a emendar a mão; as relações entre Kiev e Moscovo irão melhorar — Países Bálticos e Moldova darão suspiros de alívio — porque entendimento entre os dois é inevitável (e benéfico quer para eles, quer para nós). Mas levará o seu tempo porque ambos vêm de muito longe. Ministro ucraniano explicou-me um dia: “Na universidade estudávamos materialismo dialéctico, marxismo-leninismo, planificação económica, história dos regimes comunistas, Marx, Engels, Lenine, em suma, sabíamos tudo sobre como transformar um regime capitalista num regime comunista. Mas não sabíamos nada sobre o contrário”.

 

Não se irá, porém, a caminho de paz perpétua de Kant enquanto durar a ocupação da Crimeia pela Rússia. Nem é sarilho fácil de resolver. Por um lado, com desplante pré-moderno, a Rússia quebrou compromissos internacionais solenes que tinha assumido quando da independência da Ucrânia após o colapso da União Soviética e a comunidade internacional não pode senão condená-la. Foi golpe dado à legalidade nas relações entre estados que se procura promover desde a fundação das Nações Unidas — com ânimo novo depois do colapso da União Soviética — para bem de toda a gente e de todos os países. Por outro lado, a vasta maioria dos habitantes da Crimeia (salvo cerca de 10%, tátaros que Estaline perseguiu, deportou e entretanto voltaram) sente-se russa. A Crimeia faz parte do imaginário da Mãe Rússia. Não lhes passará pela cabeça voltar à Ucrânia.

 

A Crimeia não fora conquistada pela Ucrânia, fora-lhe oferecida pela Rússia em 1954 e houve casos no mundo mais ou menos comparáveis, como Macau. Quando Robin Cook disse a Madeleine Allbright que os advogados dele pensavam que o bombardeamento da Sérvia em 1999 era ilegal ela respondeu-lhe que arranjasse outros advogados. Assim, na Crimeia, se Putin indemnizasse pelos estragos e não se tornasse a portar mal (dois grandes ses), dever-se-ia encontrar saída airosa para a crise: talvez outro Krutschef ucraniano pudesse oferecer agora a Crimeia à Rússia, recebendo parte da sua riqueza energética em contrapartida. Talvez advogados pudessem negociar arranjo viável que salvasse faces e enchesse bolsos.

 

A Crimeia é grande e rica demais para ficar num limbo, espécie de Olivença à beira do Mar Negro, de que Moscovo e Kiev pudessem fingir que se esqueciam.

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 06:40  comentar

21.5.14

 

 

 

Anúncio do cognac feito pela família de Jean Monnet, inventor da Europa moderna

 

 

 

 

 

Votos, omeletes e ovos cozidos

 

 

De Gaulle menosprezava a construção europeia: as nações eram ovos cozidos e com ovos cozidos não se faziam omeletes.

 

Salvador da França juntamente com os comunistas contra o governo de Vichy, tratando depois da vitória a Alemanha de Bona com magnanimidade (gostava tanto da Alemanha que dizia preferir que houvesse duas), deixou o poder sobre quezílias da paz em 1946, atravessou o deserto em Colombey-les-Deux-Églises de onde o foram buscar em 1958 para presidir à República e salvar segunda vez a Pátria. Em 1969 voltou para Colombey e, morrendo a fazer uma paciência de cartas em 1970, foi poupado à reunificação alemã.

 

Quando Mitterand, inquilino do Eliseu da altura, se deu conta do risco desta já não havia nada a fazer – no Kremlin, Gorbachev fora persuadido por um Kohl determinado como Bismark e pródigo como o Emir do Qatar; de Washington, Bush pai forçara a mão a Londres e Paris. Chirac, sucessor de Mitterand, percebera que tinha acabado a papa doce e começara tentativas de reintegração da França na estrutura militar da OTAN que Sarkozy finalizaria enquanto, colando-se a Angela Merkel, fingia que ainda mandava na Europa. François Hollande tentou entrada de leão mas terá saída de sendeiro.

 

A União que vai a votos esta semana para o Parlamento Europeu não é a do tratado de Maastricht. Não por termos passado de 12 a 28 países mas por duas outras razões. A União Soviética colapsou e acabou o medo dela que unia o Ocidente (Putin é incómodo mas não mete medo comparável porque, por um lado, não prega ideologia subversiva e, por outro, conta com quinta coluna de industriais alemães, banqueiros ingleses e vendedores de armamento franceses ao pé dos quais os partidos comunistas mais estalinistas do Ocidente durante a Guerra Fria eram brincadeiras de criança). E à nossa Alemanha Ocidental com a capital em Bona, discreta para se fazer perdoar pelo Holocausto e mais crimes, sucedeu país da Europa Central com capital em Berlim que retomou alento, herdou tiques geoestratégicos (do reconhecimento da Croácia em 1992 até ao moralismo luterano/calvinista com que sufocou os países do Sul 20 anos depois), manda mais na União do que qualquer outro mas continua uma democracia exemplar.

 

Hoje, em autocarros de Bruxelas, anúncios exortam-nos a votar para escolher “o governo da Europa”. É propaganda mentirosa (o governo da Europa está nas capitais dos países e não nas instituições de Bruxelas) mas não é só propaganda. Na selva da globalização nós, os europeus, só nos safaremos unidos. E contra nacionalismos populistas a União só terá força se os povos sentirem que precisam dela. O caminho passa também pelo Parlamento Europeu por pouco votado, frívolo, irresponsável e distante que nos pareça hoje.

 

Perante concorrência desenfreada e impiedosa do resto do Mundo está-se a descobrir que os ovos afinal talvez não estivessem tão cozidos como isso tudo. A omelete não será baveuse mas, se não a quisermos comer, morreremos de fome.

 

 

 

 



pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo