18.12.16

 

 

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Em tempos, quando o Menino Jesus, ou tu, faziam anos, a família e os amigos da casa ofereciam-te objectos desconcertantes e inúteis, chamados brinquedos. Tu, está claro, ficavas muito contente com os presentes, por virem embrulhados em papéis vistosos, por constituírem uma novidade, aliás provisória (lamentável defeito da novidade!) mas principalmente por ser costume ficarmos contentes quando alguém nos oferece qualquer coisa. Na verdade, ou seja, no dia seguinte (a verdade só é completa no dia seguinte), verificavas que os tais brinquedos não correspondiam às tuas secretas ambições. Ah! O dia seguinte do brinquedo! Como é rápida a decadência do brinquedo, uma vez arrancado ao arranjo da montra da loja, onde brilhou, rodeado por outros brinquedos, valorizado por luzes hipócritas! Os brinquedos deviam ficar eternamente na suas caixas bonitas, ou penduradas nos tectos dos estabelecimentos para serem apontados pelos dedos indicadores dos meninos. É raro um brinquedo corresponder à imaginação da criança que o recebe. Deves lembrar-te de que, por volta dos teus seis anos, não achavas graça nenhuma a um boneco, por mais bonito que ele fosse. Eu, pelo menos, não achava. O que eu queria era um martelo verdadeiro para pregar pregos verdadeiros onde me apetecesse. A lei natural dos contrastes convida as crianças a desejarem ser adultas. Por exemplo: um cavalo vivo, com arreios de “cow-boy”, é artigo muito querido de todos os meninos. Pistolas autênticas, das que dão tiros homicidas, bicicletas de duas rodas, serrotes, etc., são objectos apreciadíssimos pela infância, que também aceita, resignadamente, as respectivas imitações, de lata, de três rodas, e sem dentes.

 

 

 

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Tenho um amigo um bocado parecido comigo nestes assuntos de educação infantil. Tem dois filhos a quem tudo permite e a quem gostaria de realizar todos os sonhos. Há tempo, um dos pequenos pediu-lhe um serrote com dentes afiados, e o pai fez-lhe a vontade. O serrote marcou época em casa do meu amigo. Vários móveis de estimação foram serrados pelo garoto que, trocadilho aparte, tem «bicho carpinteiro». O pai do serrador desgostou-se com a proeza do filho e julgo que lhe tirou o serrote. Mas teve desgosto quando lhe tirou o serrote. Disse-me, confidencialmente, que nunca mais o seu querido filho teria um brinquedo que lhe desse satisfação comparável à daquele serrote verdadeiro. «Resta saber — concluiu — se é melhor evitar a perda de móveis insubstituíveis ou a perda duma partícula da alegria de viver do meu filho». Mas, repito, não ê possível apertar em tão poucas linhas a extensa filosofia do brinquedo.

 

 

 

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[...] As crianças portuguesas já trazem de longe, quando nascem, uma indisciplina, uma desordem que não lhes consente manusear dinamite sem perigo de explosões. Logo, não as podemos presentear, aos dez anos, como acontece aos meninos alemães, com espingardas de tiro rápido, nem com cavalos de carne e osso, como é uso conceder às crianças inglesas. Sejamos prudentes com os nossos filhos, deliciosamente meridionais, imaginativos e bravos! Fabriquemos, para eles, alguns brinquedos mansos e já consagrados, mas tanto quanto possível aportuguesados.

 

 Olavo d’Eça Leal

in Revista Panorama, número 12, ano 2º, 1942

 

 

 

 

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Olavo d’Eça Leal (1908-1976) pertenceu à geração de intelectuais e artistas portugueses que colaboraram na revista Contemporânea e no Salão dos Independentes. Escritor e célebre radialista da Emissora Nacional, a sua obra inclui o teatro, a poesia, as artes plásticas, a ficção e a literatura infantil. Escreveu e produziu dezenas de peças para a rádio e televisão, foi jornalista, ilustrador, e coleccionador ecléctico.

 

Em 1939 publica um livro para crianças, Iratan e Iracema, os Meninos mais Malcriados do Mundo, com ilustrações de Paulo Ferreira, que recebe o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho. Esta história ao jeito de folhetim radiofónico infantil foi lida pelo autor aos microfones da Emissora Nacional no programa "Meia Hora de Recreio" em trinta e oito fragmentos. Em 1943 é editada a sua História de Portugal para os Meninos Preguiçosos (1943) ilustrada por Manuel Lapa.

 

Desenhos, pinturas, livros e objectos de Olavo d’Eça Leal reunidos ao longo dos últimos quarenta anos pelo seu filho Tomaz encontram-se expostos na Casa da Pinheira [The House of the She-Pine Tree] - Casa-Museu e Guest House situada numa antiga quinta do século XIX próximo da aldeia do Sabugo.

 

 

 

 

 

Agradecimentos: Tomaz d’Eça Leal, Casa da Pinheira , Hemeroteca DigitalAlmanak Silva, Restos de Colecção, JuvenilbaseWikipedia

    

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24.8.16

 

 

 

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Telefonema transatlântico (1927)  

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Escrita em dia

 

 

 

“Senhoras analfabetas a porem a escrita em dia” disse para mim mesmo, numa de Alexandre O’Neill, quando as vi as duas ao fundo da Comida de Santo, raparigas do meu tempo, exercitando as mandíbulas mais na conversa do que no feijão preto. Passou-se isto antes do Facebook e da restante variedade das chamadas redes sociais – antes do skype, embora já houvesse telefones (modernice que o Marechal Foch, comandante das forças francesas na Primeira Guerra Mundial, detestava, delegando sempre que possível num ajudante de campo e desejando vivamente o seu desaparecimento em tempo de paz) telefones que permitiam e permitem, valha-nos isso, namorar horas a fio, com fios ou sem fios através do éter, emitindo ou recebendo sopros delicados nas orelhas quando tenha de se julgar em vez de se poder experimentar.

 

Esta estranheza com o que é novo e algum medo dele existiu sempre mas é muito pior do que alguma vez foi (isto é, passou a haver muito mais gente assustada com o progresso do que encantada com o progresso, pelo menos no Velho Mundo) porque, por um lado, o ritmo das mudanças técnicas nunca acelerou tanto quanto agora e, por outro lado, também graças a esse ritmo, tudo se sabe in real time (como há quem goste de dizer nestes nossos dias em vez de dizer ‘no mesmo momento’ ou ‘na mesma altura’). Dantes não era assim: a batalha de Waterloo que fixou por quase um século o destino da Europa, derrotando Napoleão e reforçando o poder da Inglaterra e dos alemães, foi travada um pouco ao sul de Bruxelas entre o nascer e o pôr-do-sol do dia 18 de Junho de 1815 mas o resultado dela, levado por estafeta que ia mudando de cavalos – com o Canal da Mancha de permeio - só foi conhecido em Londres quatro dias depois. Washington Irving, romancista americano do século XIX escreveu um conto que ficou célebre, apareceu em antologias, foi ensinado em cursos de literatura, traduzido em dezenas de línguas e se chamava O homem que dormiu vinte anos. O herói, para lhe chamar assim, dormira efectivamente duas décadas e, depois de acordar na mesma cama, encontrara ao levantar-se, no dia-a-dia restabelecido, muitas coisas novas que nunca conhecera antes e muito o perturbavam. Tenho-me lembrado dele mas pensando que, pelo andar da carruagem, daqui a quinze ou vinte anos, outro ficcionista americano dotado poderá publicar novo best-seller sob o nome “O homem que dormiu vinte minutos”.

 

Muito do que se passa agora nas tecnologias de ponta é inédito: entra na categoria das novidades absolutas mas mudanças vertiginosas de outra natureza já várias vezes assustaram gente. Por exemplo, inflações galopantes, de que a alemã dos anos 20 por ajudar à subida de Hitler ao poder ficou célebre, deram quotidianos bizarros. Amiga exilada no Brasil em 1975, no supermercado punha-se à frente do empregado que ia aumentado os preços de uma ponta à outra da loja e teve uma criada que comprava cuecas pagando em dez prestações porque assim lhe saíam muito mais baratas. 

 

 

 

 

 

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21.8.16

 

 

Penguin-1248 Salinger Catcher on the Rye-rc.jpg

 

 

 

Seymour'd told me to shine my shoes just as I was going out the door with Waker. I was furious. The studio audience were all morons, the announcer was a moron, the sponsors were morons, and I just damn well wasn't going to shine my shoes for them, I told Seymour. I said they couldn't see them anyway, where we sat. He said to shine them anyway. He said to shine them for the Fat Lady. I didn't know what the hell he was talking about, but he had a very Seymour look on his face, and so I did it. He never did tell me who the Fat Lady was, but I shined my shoes for the Fat Lady every time I ever went on the air again — all the years you and I were on the program together, if you remember. I don't think I missed more than just a couple of times. This terribly clear, clear picture of the Fat Lady formed in my mind. I had her sitting on this porch all day, swatting flies, with her radio going full-blast from morning till night. I figured the heat was terrible, and she probably had cancer, and — I don't know. Anyway, it seemed goddam clear why Seymour wanted me to shine my shoes when I went on the air. It made sense.

 

J.D. Salinger in Zooey (1957)

 

 

*

 

 

What stays to me the most from your books is the Fat Lady from Franny and Zooey. I remember Seymour telling his siblings to polish their shoes for the fat lady [...] I remember Zooey explaining years later to Franny that there wasn’t really a Fat Lady, that the Fat Lady is God, or that faceless unknown person in the audience for whom a performer must always do his or her best, even when we don’t feel like it, or when we’re confronted with a cold, unresponsive, audience.

 

Stephen Collins in Letters to J.D. Salinger, edited by Chris Kubica, Will Hochman

 

 

 

Letters to J.D.S..jpeg

 

 

 

 

 Leia também neste blog o post Everyone is the Fat Lady 

 

 

 

 

 

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13.8.14

 

 

 

 Paula Rego - A dança

 

 

 

 

 

Quem sabe, sabe.

 

 

Entre as duas guerras (a de 1914-1918 e a de 1939-1945, lembro às leitoras mais novas), a propósito da explosão de exibicionismos que borbulhavam nas années folles, André Gide (francês e Prémio Nobel da literatura em 1947, lembro às leitoras menos dadas a leituras) dizia ver à sua volta mais artistas do que obras de arte. Nessa altura não havia nem internet nem twitter nem facebook nem blogs e, com o que hoje se chamam plataformas a coisa mais parecida seria o cinema, que Meliès e os manos Lumière tinham solto em Paris e vingara na Europa e nos Estados Unidos como a prole de um casal de coelhos na Austrália — mas hedonismo, egotismo e narcisismo são antigos e para lhes dar asas cada uma sempre usou o que tivesse à volta (ensimesmada: quando perguntaram às águas do lago se Narciso era mesmo belo, estas responderam que não sabiam porque quando ele vinha olhar-se nelas, elas aproveitavam para se olharem a si próprias nos olhos dele — ou, pelo menos, foi o que Oscar Wilde contou, não sei se antes se depois de ter conhecido Gide em Paris, onde viria a morrer. O mundo é pequeno).

 

De artistas e de obras de arte pouco ou nada sei mas há mais de dez anos virei comentador e, de silêncios aconchegados, longe da balbúrdia pátria, vou mandando bocas. Agora, chegado no começo do mês de Bruxelas, lendo os jornais e olhando para o que Conchita Cintrón chamava la pantalla chiquitita, suspeito que neste maravilhoso país que tão generosamente acolhia Freddy Kotter no seu seio a algazarra dos comentadores cobre de uma espécie de smog as coisas a comentar. Não é que estas faltem — desde o esforço vão do governo para transformar os portugueses em alemães (por via fiscal, ainda por cima) com Herr Gaspar, primeiro, e Frau Albuquerque, depois, a encaminharem-nos com um vasculho, como dantes os vendedores de perus pelas ruas de Lisboa, até à sanha súbita contra várias gerações da família Espírito Santo, reminiscente do azar dos Távoras — mas, bombardeadas pela cacofonia pátria, essas coisas e outras de menor porte deformam-se como as nossas caras na galeria de espelhos de uma feira de diversões.

 

Disse à Vera, dona do blog, que estava a pensar deixar de escrever o Bloco-Notas mas ela disse-me que eu não podia fazê-lo e que o mundo agora era assim, que todos podiam deitar palavra e que havia leitoras para tudo quanto se escrevesse. É, com efeito, um pouco tarde para protestar contra o ensino obrigatório, contra enciclopédias que anunciam à cabeça não garantirem que a informação que nos dão seja verdadeira e contra o ulular desafinado dos comentários de nós todos. Mas eu sou um pequeno-burguês de Évora e às vezes sinto-me como patrício meu, sentado sobre tábuas pousadas em tripés na primeira fila de um circo de província. A gaiola dos leões desconjuntou-se, o público saltou para fugir, e o meu patrício com as partes pudendas entaladas entre duas tábuas, sem se poder levantar, gritou: “Sentem-se, caralho, que os leanitos nã fazem mal”!  

 


18.10.13

 

Quarta Semana:

 

Esta semana chegou finalmente a oportunidade de assistir a um discurso do presidente. Full treatment.

Presidente feliz com lágrimas, de acordo com o Público. De 2a a 5a decorrreu na “Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação” a primeira audiência pública sobre a guerra civil de 75 em que andaram todos a matar-se uns aos outros. Para quem não leu o Adelino Gomes, já várias vezes tinha sido marcada e outras tantas adiada. É um assunto do mais sensível já que muitos responsáveis políticos de hoje (tanto governo como oposição) foram responsáveis por grandes matanças na época. Desta vez fez-se mesmo. Era aguardado com enorme expectativa e durante as sessões Dili andou colada aos rádios para ouvir os depoimentos; os motoristas aqui do PNUD não saíam dos carros o dia inteiro, sintonizados na Rádio Timor-Leste, e quando saíam era para se juntarem em volta dum transistor. 

 

Note-se bem que isto na altura era Portugal. As nossas maravilhosas RTP, RDP e Lusa têm correspondentes em Dili. Adivinha quantos jornalistas portugueses estavam nas audiências? Quantos passaram por lá, nem que seja 5 minutos? Resposta – Um. Quem? Adelino Gomes que veio de propósito de Lisboa (no voo mais barato que encontrou e pagando do bolso dele as despesas em Dili...). Timor não é notícia. Como não estão a matar ninguém, não interessa para nada. Foram mortos uns milhares em 75 e nunca se falou disso? As feridas são fundas e a gente também teve responsabilidade. Mas o que é que isso interessa agora? Os jornalistas portugueses em Dili foram para a praia.

 

 

 

 

Aconselho vivamente a leitura dos artigos do Adelino Gomes, não posso acrescentar nada. Resta-me a minha própria comoção ao ver toda a gente a chorar com o discurso do Xanana (a começar pelo próprio, voz quebrada, olhos e nariz vermelhos, assoando-se, limpando a cara com o lenço, no meio das suas longas pausas habituais, desta vez mais longas ainda). Nem as moscas (abundantes) se ouviam.

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Foto de Pedro Martins

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui 

 

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12.4.13

 

contracapa 

 

Esta antologia poética e um álbum de fotografias* recentemente lançados são interessantes testemunhos da cultura pop/rock em Portugal.

 

A geração que cresceu nos anos 60 em Portugal, na qual me incluo, deve a sua educação neste género musical à excelência da nossa rádio. Dessa época recordo em particular o programa "Em Órbita", que servia diáriamente um menu de luxo e no fim de cada ano apresentava aos ouvintes o seu top 10, excluindo Bob Dylan, colocado pelos responsáveis acima destas classificações.

 

Vinte anos mais tarde, no início dos anos 80, foi o fim do programa radiofónico "A Idade do Rock" que inspirou João Menezes Ferreira a lançar-se neste projecto de antologia bilingue, agora concretizado e a que nenhum apreciador do género pode ficar indiferente. No meu caso pessoal, revisitar o universo pop/rock anglo-saxónico é recordar parte importante da minha adolescência e juventude e imensos bons momentos da minha vida adulta***. Estou curiosa de redescobrir os textos, nas duas línguas.

 

*

  

 

São 563 letras do universo pop/rock entre 1955 e 1980 recolhidas e traduzidas para português ao longo de três décadas. [...] Para o autor, muita desta história vive-se na profunda intimi­dade com a beat generation e com uma linhagem em que os melhores poetas não só se ligam aos beatniks como prolongam ainda uma linha de heróis - "são sempre os mesmos: William Blake, Mallarmé, Rimbaud, Baudelaire, Walt Whitman, Garcia Lorca, Yeats" - vinda desde o século XVIII. É precisamente neste enfiamento que reside um dos mais ro­bustos argumentos de Estro in Wat­ts: o de que esta poesia não deve ser menorizada perante aqueloutra publicada em livro apenas porque "tem repetições, acompanha o rit­mo de elocução verbal e tem uma métrica que é a da respiração". "Es­tes grandes poetas seriam sempre grandes poetas de livros, mas esco­lheram a música porque acharam que era esse o veículo." [...] "Esta cultura foi, para mim, uma escola. Há uma geração pós-25 de Abril que se reclama mar­xista. O meu marxismo foi a música, foi o rock. Aprendi a ser adolescen­te não tanto lendo livros teóricos mas a viver isto." Agora, com este conjunto de 563 poesias de 170 au­tores, talvez muitos dos que priva­ram com estas canções no devido tempo possam prestar uma outra atenção aos textos.

 

Excertos do texto de  Gonçalo Frota in jornal Público aqui 

 

 

 

 

 

Notas:

 

* O livro de fotografias Roll Over adeus anos 70 de José Paulo Ferro, que apresentarei em post separado.

Edições Documenta com o apoio da Fundação EDP.

 

** A minha telefonia nos anos 60 aqui

 

*** Leia a este propósito o post "Michael Jackson" aqui

 

a pop francesa e o programa "Em Órbita" aqui 

 

um bom comentário sobre Estro in Watts aqui

 
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29.1.13

 

 

 

 27 May 1977 -French writers Bernard-Henri Lévy and André Glucksmann

converse on the set of the television show Apostrophes

Photo: © Sophie Bassouls/Sygma/Corbis



J'ai, pour commencer, été qualifié de philosophe à mon corps défendant. J'avais certes parcouru la suc­cession d'examens et de concours qui vous sacrent professeur de ladite discipline. Je n'estimais pas que les palmes du « philosophe » pussent pour autant être déposées sur mon front. Je croyais que les détenteurs de ce titre prestigieux se comptaient sur les doigts de la main : Platon, Aristote, Descartes, Kant, Hegel. Peut-être Heidegger l'avait-il mérité du temps de sa jeunesse mais il compromit son titre en appelant étu­diants et collègues à suivre le Führer. Pis encore, cha­cun ayant droit à l'erreur, il avait, après la capitulation du Reich, tenté, trente longues années, comme un gros chat, d'enterrer ses déjections dans le sable de sa théorie. Du moins me semble-t-il après lecture attentive. Passons.


Si, jeune homme, je plaçais la barre de la « grande philosophie »  très haut, trop  haut  pour moi, mes contemporains au contraire la situaient très bas, plus bas que terre, car la prétention à la «sagesse» était passée de mode. Ils se voulaient alors savants et objec­tifs; ils s'affichaient sociologues, structuralistes, lin­guistes, économistes, dépositaires de savoirs plutôt qu'animés du désir de savoir. Le marxisme-léninisme, version École normale supérieure, régnait. Le vent tourna, dans les années 75-80, quand beaucoup de mes semblables se mirent à signer «psychanalyste et philo­sophe», «mathématicien et philosophe», biologiste et... historien et... écrivain et philosophe. La 2 CV Citroën se vit sacrer dans les gazettes «voiture philo­sophique». Que s'était-il passé? En déboulonnant les idoles du marxisme hégémonique dans l'intelligentsia parisienne, peut-être ai-je contribué à ce renverse­ment. Lorsque de bonnes plumes rejoignirent mes blasphèmes, Bernard-Henri Lévy et les médias bapti­sèrent un peu abruptement cette cohorte provisoire et volatile  «nouvelle  philosophie».  Si la science du matérialisme historique pliait sous les coups, force était de conclure que la volée de bois vert administrée, au nom de la philosophie, sur les adeptes de la dicta­ture du prolétariat n'était pas aussi  frivole  qu'on aimait à le dire.


Je ne laissai pas d'être surpris du retentissement de mon essai intitulé La Cuisinière et le Mangeur d'hommes sous-titré insolemment : «Essai sur le marxisme, l'Etat et les camps de concentration». Le voisinage des termes sonna comme un coup de carabine dans un ciel serein. Mon éditeur avait laissé dormir le manus­crit dans son tiroir pendant plus de six mois, anticipant la diffusion médiocre d'un texte qui heurtait ses convictions de gauche. Sorti le 15 juillet 1975, sans intervention télé, un seul passage radio sur Europe dans la folie des départs en vacances, mais soutenu par un bouche-à-oreille flatteur et imprévu, porté par quelques articles spontanés et enthousiastes de gens que je ne connaissais pas ou mal (1) , il tourna très vite au best-seller.


Des dizaines de milliers d'exemplaires s'arrachèrent dans les librairies et s'échangeaient sur les plages. C'était drôle, curieux, inattendu. J'avais écrit dans l'isolement le plus extrême, sans souci du public, juste pour exprimer la rage et le désir que je partageais avec quelques amis de «ne pas mourir idiot». Le brûlot véhiculait une révolte à fleur de peau contre le plus grand mensonge du siècle : le communisme. Il était rédigé par quelqu'un qui y avait goûté dans son enfance et que le Tout-Paris estimait «de gauche». Je jouissais d'une «bonne réputation». ... 



André Glucksmann

in Une rage d'enfant

[Chapitre 8. A quoi sert la philosophie ? * pp. 172-174]

Hachette Littératures

© Plon, 2006

 

1. Remerciements à Maurice Clavel, Jean Daniel et Bernard-Henry Lévy.

 

* Où il est suggéré que se connaître soi-même, c'est connaître Typhon en nous. D'où l'utilité des infos de 20 heures et l'examen des liaisons dangereuses: Freud et Junon, Alcibiade et Socrate, le prince Potemkine et le neveu de Rameau, Poutine et moi.

 


aqui

 

 

 

 

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31.12.12

 

 


postal (2012)


Radio Presenter Sister Melianise Gabreus, Les Cayes, Haiti
© Paolo Woods
World Press Photo 2012 aqui





21.7.12

 

 

 
Frédéric Mitterrand
foto: A. Chardeau © Radio France


 

 

16 mai 2012 : dans son bureau quasiment vide de la rue de Valois, le ministre de la culture et de la communication, Frédéric Mitterrand, regarde, à la télévision, la passation de pouvoir entre Nicolas Sarkozy et François Hollande et emballe ses derniers cartons. C’est son dernier jour au ministère.

 

 

Émission "Les Pieds sur Terre" par Sonia Kronlund sur France Culture ici 


 

 


 

 

Nota: Esperemos vê-lo regressar em breve à tv, à rádio, à escrita.

 

Mais sobre Frédéric Mitterrand neste blog aqui 

 

 

 

 

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12.2.11

 

 

 

 

 

 

Por incrível que (me) pareça, não consigo lembrar-me se tínhamos televisão em casa enquanto vivemos em Madrid, de 1967 a 1969. Do que me lembro é de ouvir este programa na rádio, todos os dias, religiosamente, na companhia do meu irmão, que era pequeno mas já adorava música. Ao sábado íamos juntos à loja de discos da calle Serrano comprar um "single" com a semanada.

 

A fabulosa música popular nesses anos obliterou a TV .

 

 

"Los 40 Principales" aqui

 

 

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6.12.10

 

 

 

 


30.11.10

 

 

“Salut les copains” era a revista que as francesas liam no liceu francês. Embora algumas estrêlas da “geração yéyé” tenham alcançado popularidade além fronteiras, e tiveram-na sem dúvida nenhuma em Portugal, a sua projecção foi restrita à excepção do caso de Serge Gainsbourg, cujo “Je t’aime moi non plus” esteve no topo dos “charts” britânicos, conquista lendária celebrada no recente biopic do compositor.

 

Eu era fã de Françoise Hardy, Sylvie Vartan, Adamo, Polnareff, para nomear apenas alguns, mas a música vinda de Inglaterra e da América já exercia uma atracção irresistível. Com a chegada do programa “Em Órbita”, transmitido pelo Rádio Clube Português, a pop francesa desapareceu aos poucos do meu radar, mas não as canções, a moda, os filmes e os livros que vinham de França.

 

 

sobre o programa "Em órbita" leia aqui

 

 

 

 

 

 

L'interjection yéyé est, au départ, la transcription française du yeah, une déformation de «ye», qui ponctue les chansons de rock et de twist américaines. Les paroliers ont préféré « yé » à une traduction plus littérale en ouais. De là , « yéyé » désigna le courant musical.

Le 22 juin 1963, entre 150 000 et 200 000 jeunes se retrouvent place de la Nation à Paris, pour fêter le premier anniversaire du magazine Salut les copains. A l'exception de Johnny Hallyday, aucune idole ne va pouvoir atteindre le podium. Il y a trop de monde et la sécurité n'est pas garantie.

Quelques jours plus tard, dans une chronique publiée dans le journal Le Monde, le sociologue Edgar Morin baptise ces jeunes les yéyé. Par extension yéyé désigne donc aussi un phénomène de mode des années 1960.

 

Les artistes du Yé-yé:

 

* Claude François * César et les Romains * Christophe * Dalida * Françoise Hardy * France Gall * Sheila * Sylvie Vartan * Chantal Goya * Frank Alamo * Eddy Mitchell * Johnny Hallyday *Jacques Dutronc * Michel Polnareff * Liz Brady * Cosette * Dani * Gillian Hills * Jacqueline Taïeb * Jocelyne * Michèle Richard * Pierre Lalonde * Ronnie Bird * Les Surfs * Richard Anthony * Serge Gainsbourg.

 

Leia a história da revista "Salut les copains" aqui

 



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