15.8.16

 

Wartime Lies L. Begley.jpg

 

 

 

 

… upon rereading my book, it is clearer to me than ever, that it is quintessentially a work of fiction and not an autobiography or memoir, and that I had to write the story of Maciek and Tania in the form of a novel. The form was no less necessary than the emotional distance from the events I was going to evoke conferred by exile and the passage of time.

 

Perhaps I should briefly explain what I mean when I refer to the form of the novel. I understand the convention of the realist novel — a tradition in which I place myself — to require the novelist to write avowedly invented stories that so engage the reader's interest and sympathy that, while the spell lasts, he believes they are true or, at least, suspends disbelief. Novelistic invention does not, of course, preclude use of the novelist's own experiences and observations — of himself and others — in addition to material whose connection to his actual experience may be tenuous or indiscernible as he puts words down on paper. That is because the act of writing has the power to release thoughts and images of which one has had no premonition; one did not know they were within one's ability to summon up. Of course, when the novel has at last been finished, none of the material included in it has conserved its nature, whether it be personal experience, make believe, or serendipitous dis­covery; all of it has been transformed, as though the writer were a silkworm, and the bits and pieces of memory, associations, and knowledge leaves of a mulberry bush. These characteristics of the novel as form have an importance for me that I cannot overstate. They give the freedom to invent, consistent with the profound moral and psychological truth of the story being told, that treasure as my essential prerogative, and, like the passage of time and exile, they provide a psychic screen that has permitted me to approach matters, including the annihilation of Jews in Poland, that would otherwise seem intractable, even forbidden.

 

It should by now be clear that my insistence on the fictional nature of Wartime Lies is not a form of coquetry, and has nothing to do with some bizarre need on my part to avoid embarrassment to my mother or me. Neither of us has any more cause to apologize for or be ashamed of our lies or degradation during those war years than did Tania or Maciek — if I exclude the profound shame and disgrace of belonging to the same animal species as the men and women whose cruel and vile deeds I describe.

 

 

Louis Begley

in Wartime Lies [Afterword]

© Louis Begley, 1991 Afterword © Louis Begley, 2004

 

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22.10.14

 

Economist Merkel.jpg

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

Deutschland über alles?

 

 

As duas grandes guerras da primeira metade do século XX foram manifestações trágicas da impossibilidade de fazer conviver Alemanha unida e forte com as outras grandes potências do Velho Mundo. A chamada construção europeia começada com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço — destinada a impedir que Alemanha e França se fossem armando uma contra a outra — a seguir à rendição incondicional de Berlim em 1945 foi congeminada por democratas franceses e antinazis alemães (mormente Robert Schuman e Jean Monnet, do lado de cá do Reno, e Konrad Adenauer, do lado de lá) longe das disposições draconianas da paz de Versailles de 1919 que haviam ajudado Hitler a subir ao poder. Durante meio século fez caminho seguro e chegámos à União Europeia.

 

Na Europa Ocidental, o progresso parecia imparável. As circunstâncias eram propícias. Medo salutar de Estaline provocara a invenção das Comunidades Europeias e da OTAN e, depois dele morto, a União Soviética continuara a meter respeito; os Estados Unidos garantiam guarda-chuva nuclear e, primus inter pares na Aliança Atlântica, desimaginavam os aliados das suas brigas históricas. A Alemanha, primeiro de rastos e ocupada militarmente e a seguir dividida (De Gaulle dizia gostar tanto dela que preferia que houvesse duas) não tinha poder político mesmo depois da República Federal — folgada por limitação de despesas militares e por perdão de dívidas de guerra — ter construído grande poder económico (o milagre alemão).

 

A reunificação conseguida por Kohl com licença de Gorbachev, apadrinhamento de Bush e susto de Mitterrand e Thatcher, mudou as coisas. Tornou a haver poder político alemão. Pela primeira vez, famosamente no fim de 1991 durante a crise jugoslava, impondo reconhecimento prematuro da independência da Croácia aos seus onze parceiros da CEE. E desde então, sem tréguas, até ao beco onde a zona euro está metida. A crise começada em 2008, exacerbada em 2010 pela constatação do estado calamitoso das finanças gregas, acordou veia moralista implacável em Berlim. Desde os anos 20 do século XX, para os alemães, a inflação é pecado mortal. Para os franceses, uma pitada dela é o sal da economia. Como a Alemanha é mais forte — apesar de infraestruturas em péssimo estado, burocracia paralisante e defesa pelas ruas da amargura — tem vindo a impor austeridade aos seus parceiros do sul, empobrecendo toda a zona euro e empurrando-nos para a deflação. Se Merkel for iluminada pela visão de Bismark, de Kohl ou de Schmidt dará guinada para o crescimento. Se não for, pela terceira vez em 100 anos a Alemanha, mesmo em paz, terá sido incapaz de dar bom viver aos vizinhos.

 

NB – Amiga cujo saber prezo acha que o mal é outro. As nações são ovos cozidos e com ovos cozidos não se fazem omeletes (De Gaulle dixit). Fazem-se bons pratos; muitos se cozinharam desde 1957. Mas o euro, tal como concebido e imposto, foi conto do vigário que lesou muita gente e espevitou forças centrífugas na União. Quiçá.

 

 

 

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23.7.14

 

 

 

Malaysia Airlines Ukraine Crash Slideshow 16.jpg

 

 Destroços do voo 17 da Malaysia Airlines próximo de Hrabove, leste da Ucrânia, manhã de 19 de Julho de 2014.

(Dmitry Lovetsky/Associated Press)

 

 

 

 

 

A Cereja no Bolo

 

 

“Primeiro julguei que tivesse sido o Mossad, para distrair a nossa atenção de Gaza” disse a rapariga, sentada de Ipad ao colo. “Mas o que se foi sabendo não dava para isso. Entre russos e ucranianos…”

 

Conversa em Bruxelas, quando não restavam dúvidas quanto à origem do míssil terra-ar que deitara abaixo um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo sobre o leste da Ucrânia. Mas para muitos europeus dos nossos dias, criados no soft power e na correcção política, a maldade de Israel não tem limites e Vladimir Putin até nem é mau de todo, dada “a sobranceria com que os Estados Unidos trataram a Rússia a seguir ao fim da União Soviética”. Santa simplicidade.

 

Nesse fim de semana, em Paris e noutras cidades de França, numerosos manifestantes solidários com o povo da Palestina, enquanto partiam montras e ameaçavam sinagogas, gritavam palavras de ordem antissemitas — “Mort au juif!” — como não se via e ouvia em França já há muitos anos. (Coincidência de datas: o primeiro-ministro presidiu a cerimónia de desagravo comemorativa da concentração de 13.152 judeus, incluindo 5.051 crianças, num velódromo parisiense — o Vel d’Hiv — a 16 e 17 de Julho de 1942 antes de serem despachados para extermínio em Auschwitz). O antissemitismo francês tem tido altos e baixos.

 

Quanto ao avião da Malásia e a Putin, a verdade veio depressa ao de cima. Entre gabarolices e aldrabices, os rufias da República de Donesk, locais ou mercenários russos, deixaram poucas dúvidas sobre a selvajaria da sua proeza, e meios nacionais americanos de observação (NSA, etc.) revelaram com precisão cirúrgica o que se passara. Em muitas capitais do mundo, o patrão do Kremlin, cuja fanfarronice nacionalista inspirara a desordem armada no leste da Ucrânia — e cuja intendência lhe fornecera logística — é visto como corresponsável pela criação de ambiente propício à prática da atrocidade. Na União Europeia, até alemães e italianos concordaram no endurecimento de sanções à Rússia.

 

Quanto a Gaza, o horror de civis mortos e feridos por fogo israelita continua e continua também a incompreensão do que se está a passar. Gaza, com uma das mais altas densidades de população do mundo, é gigantesco e trágico escudo humano da armadilha onde Israel tem caído desde que se retirou do território em 1994. O Hamas dispara de lá todos os dias foguetões sobre Israel e cava túneis para por eles fazer mais ataques. Quando Israel pretende atingir rampas de lançamento ou quer escavacar túneis mata e fere inevitavelmente civis. A tática do Hamas não é original (em 1992, muçulmanos da Bósnia mandavam morteiros contra sérvios de pátios de hospitais) mas a escala desta vez é épica. E, lembrava Marx, alterações quantitativas conduzem a alterações qualitativas.

 

O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, tem agora muito menos apoios no mundo árabe. Mas a direita israelita de hoje está como Abba Eban disse um dia dos árabes: não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade.

 

 

 

 

 

 

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28.5.14

 

 

 

 Soldados alemães encaminhando judeus para a morte, 1943

 

 

 

 

 

Antissemitismo

 

 

Sábado passado, um casal israelita, uma senhora francesa e um rapaz belga foram assassinados a tiro de kalashnikov no átrio do Museu Judeu de Bruxelas; o assassino e cúmplice que lá o levara sumiram-se de automóvel. No mesmo dia, à saída da sinagoga de Créteil, perto de Paris, dois irmãos judeus ortodoxos foram brutalmente sovados. Ataques físicos a judeus estão a aumentar na Europa desde há três anos. Tinham sido precedidos por anos de ataques verbais em panfletos, espectáculos e intervenções de um ou outro político.

 

O antissemitismo é uma das culpas pesadas da história da Europa: pogroms  na Rússia e na Europa Oriental a partir do século XIII; a Inquisição, expulsões e opressão de cristãos-novos em Portugal e em Espanha, do século XV ao liberalismo; em toda a parte menoridade cívica a que só a Revolução Francesa pôs cobro; nos anos 30 do século XX e durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler e o extermínio dos judeus, praticado na Alemanha nazi e em países por esta ocupada (crueldade inaudita na Roménia; zelo burocrático inexcedível nos Países Baixos). Depois do fim da guerra, dos julgamentos de Nuremberga, da criação de Israel, da definição de genocídio como crime contra a humanidade, o antissemitismo deixou de vigorar como norma ou costume aceitável em países europeus mas não foi completamente extirpado, continua lá, dormente ou, sobretudo à esquerda, metamorfoseado em oposição à acção — quando não à própria existência — do estado de Israel.

 

É difícil de extirpar por uma razão simples: aquilo que condenamos hoje por antissemitismo era a maneira habitual de tratar os judeus em toda a cristandade. E quando, a pretexto de defender interesses e direitos dos palestinos, gente protesta contra Israel e os sionistas, fá-lo muitas vezes recorrendo a mentiras inventadas pela polícia secreta do Czar Nicolau II, compiladas no chamado (e apócrifo) Protocolo dos Sábios do Sião, de que Hitler se serviu para convencer os seus compatriotas da existência de uma conspiração judaica que queria tomar o comando económico do mundo. As televisões dos países árabes — mesmo do Egipto e da Jordânia que reconhecem Israel — estão cheias de telenovelas que atribuem aos judeus esse propósito (e propósitos piores, como o rapto de crianças árabes para lhes beber o sangue). Em muita escola da região, o Estado de Israel não consta dos mapas. A opinião pública é sistematicamente alimentada por mentiras que impeçam ambiente propício à solução política do problema israelo-palestino. E a Europa vai pagando.

 

O antissemitismo europeu é mais subtil. Por exemplo, evoca o Muro de Berlim (que impedia alemães de Leste de fugirem do estado policial onde viviam) a propósito do muro que Israel constrói à sua volta (para impedir que terroristas lá venham assassinar homens, mulheres e crianças).

                

Austeridade, erradamente aplicada para tentar debelar a crise, faz vir à tona os nossos demónios. Vamos levar tempo a metê-los outra vez no fundo.

 

 

Imagem aqui    

 

 

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12.2.14

 

 

Lo mismo.

Goya - Los Desastres de la Guerra - No. 03 

 

 

 

 

 

O sem-fim

 

 

A Guerra de Espanha fora a derrota da democracia pelas forças negras do fascismo ou fora a última Cruzada? Mobilizado como médico militar nos Açores, o pai visitava colega de curso preso na Ilha Terceira por ter combatido numa Brigada Internacional. Amigo dos irmãos da mãe, filho de notário de Évora, morrera abatido no avião de caça franquista que se voluntariara para pilotar. Paixões extintas?

 

A Segunda Guerra Mundial veio a seguir, 21 anos depois de acabar a Primeira (tão má que os franceses lhe chamaram, esperançados, “la der des der”, a última das últimas). Poucos anos depois de nazismo e fascismo perderem em 1945, começou a Guerra Fria entre democratas e comunistas que acabou com o colapso da União Soviética em 1991. (Não passou a Quente por Washington e Moscovo disporem de arsenais nucleares capazes de destruírem várias vezes a humanidade, dando juízo a cabeças políticas e militares. O Dr. Strangelove ficou-se pelo cinema. Mas quando Zawahiri, chefe de Al Queda, excomunga grupos seus que matam na Síria, por serem indisciplinados e agirem por conta própria, a violência serve a anarquia. Bombas atómicas nas mãos de anarquistas fanáticos seriam realmente um grande perigo).

 

Depois do fim da Guerra Fria um académico americano julgou que a História tinha acabado: íamos todos ser capitalistas e democráticos. Por seu lado Vladimir Putin declarou que o desaparecimento da União Soviética fora a maior catástrofe geopolítica do século XX. O americano estava enganado — a História voltou em força — mas o engano não teve a menor importância. A convicção de Putin, essa, é assustadora quer quanto ao que se imagine ser a evolução interna da Rússia regida pela sua batuta quer quanto à atitude da Rússia em relação ao “estrangeiro próximo”. Ainda a História. No começo do Código da Imperatriz Catarina, redigido no século XVIII, diz-se que a Rússia é grande demais para ser governada por mais do que uma só pessoa. E, quer antes quer depois de S. Vladimiro os converter ao cristianismo em Kiev, os russos só aceitaram as fronteiras que têm quando alguém do outro lado lhes bateu o pé e disse: daqui não passam!

 

A Ocidente nada de novo. Em França e Espanha governos incapazes de convencerem os seus do que era economicamente possível — como Schroeder fez — armaram-se em modernos noutras questões — homossexualidade, aborto — e despertaram Pétainismos e Franquismos latentes que agora pintam a manta. Alemães —  que fizeram de súcia com a Rússia pipeline no Mar Báltico para evitar a Polónia — não querem incomodar muito Moscovo. Ensimesmados, os ingleses afastam-se da Europa e deixam de ser ponte para os americanos. Em suma, os europeus preferem fugir a chatices a pensar no futuro. Washington, virada também para dentro por Congresso demente e Presidente frouxo, já não mete o respeito que metia ao mundo.

 

Em Kiev o frio não arrefece os espíritos. A janela de oportunidade fecha no fim dos jogos de Sochi. Alguém ajuda os ucranianos a baterem o pé?

 

 


14.12.13

 

 

 

 

 

Com a chegada do Bloco-Notas de José Cutileiro ao Retrovisor, e a pensar nos seus leitores, dediquei umas horas a arrumar a casa, ou seja a criar novas categorias ou etiquetas, as chamadas tags. A primeira crónica — O baú do Kremlin — inaugurou as categorias Alemanha, Rússia e Capitalismo.

 

Acrescentei ColonialismoComunismoCristianismoNazismoTerrorismo 

e Estados Unidos, temas que têm sido abordados neste blog e que faz agora todo o sentido terem tag própria.  

 

Tenho sido económica nas tags porque comecei com categorias o mais latas possível, que permitem agregar material muito diverso e se vão destacando na chamada nuvem de tags (na coluna da direita) à medida que cresce o seu conteúdoMuitos dos escritores citados neste blog estão assim simplesmente agrupados na tag Autores

 

Boa parte do material dos espólios familiares está em ÁlbumÁlbuns, Casas, Recordações.

 

Próximas "gavetas" a arrumar melhor serão Photographia, Fotografia e Snapshot. Na primeira estão guardados os textos de Autor sobre fotografia e as imagens até aos anos 20 do século XX.

 

Para encontrar um nome nos arquivos aconselho pesquisar neste blog, no topo da coluna direita.

 

 

Boa navegação!

 

 

A crónica O baú do Kremlin aqui

 

O Bloco-Notas de José Cutileiro sai à quarta-feira.

 

 

 

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2.12.13



The Case of Hungary: Carlos Sampaio Garrido and  Alberto Teixeira Branquinho



When the Germans occupied Hungary in March 1944 it was already clear that Germany would lose the war and no longer possible to ignore the fate of the Jews. So, when movements began to eliminate the Hungarian Jews, several countries acted to try and stop it. Led by the recently created War Refugee Board the Americans repeatedly warned the Hungarian government not to collaborate in persecutory policies against Jews or others, and took steps with neutral countries to protect the Hungarian Jews.

Between March and December the Hungarian government, deeply divided and headed alternately by two pro-German Prime Ministers and a reluctant one, with the Russians on their borders and under great pressure from the Nazis, wavered in the zeal with which it handled “its Jewish question”. Taking advantage of such wavering the diplomatic representatives of neutral countries were able to join efforts to help the Jews of Budapest and – with the aid of the Allied bombings – did much to protect them from the first wave of deportations in July. From the end of August, it being impossible to prevent the German determination to eliminate the Jews from Budapest, this effort was expressed by the issue of thousands of Swiss, Swedish, Portuguese, Spanish and Vatican documents of protection, in collaboration with the Jewish Committee “Vaa’da”, under Otto Komoly.


The Portuguese government appears to have had no difficulty in authorizing its Legation in Budapest to act together with the representatives of neutral countries in protecting Hungarian Jews, granting then diplomatic asylum, as well as provisional and/or collective passports. This was done on the understanding that granting nationality was out of the question, beneficiaries undertaking not to invoke their Portuguese passport to request Portuguese citizenship and accepting that the validity of the documents expired at the end of 1944.
By this time it was a question of being on the winning side. The neutral Catholic countries – Spain, the Holy See and Portugal– toyed with the idea of an alliance under which they would convince the Allies to sign a separate peace with Germany to avoid the destruction of Germany and stop communism. Immediately after the German occupation, in response to the Allies’ representation that the Sztojay government was a puppet government, Portugal downgraded its diplomatic mission to Budapest, recalling its Minister to Lisbon, and replacing him by a Charge d’Affaires “so as not to give the idea that it was breaking diplomatic ties but to mark the decreased independence of the Hungarian State”.


 


Minister Sampaio Garrido had been in Hungary since 1939 and no doubt had seen a lot, for the persecution of Jews was not introduced to the government of Regent Horthy by the Germans. In the midst of the climate of terror caused by the Gestapo’s arrival in Budapest, Sampaio Garrido had taken the initiative of sheltering a group of people who were probably friends of his in the Portuguese Legation. At the beginning of May, however, he had to inform Lisbon that the Legation had been attacked by the Gestapo and his guests taken to the Budapest Police from where he had had great difficulty in removing them. Although surprised, the government in Lisbon was not angered. Gently calling the attention of its Minister to the fact that he “should” have warned the MNE, it undertook to honor the protection granted by Garrido to his protégés.





Alberto Teixeira Branquinho took over his post as Charge d’Affaires in Budapest on 5 June and with it the responsibility of protecting “its” refugees. In August, when the situation again worsened, the new Charge d’Affaires, invoking the actions of the Swedish Minister in Budapest (Danilsson, a personal friend of Teixeira de Sampaio, Secretary General of the MNE), obtained permission from Lisbon to widen the nature and quantity of Portuguese protection, mainly by issuing Schutzpässe. These protection papers did in fact protect many Jews until Regent Horthy’s deposition by the national socialist Szalasi, Prime Minister and self-proclaimed vice-regent. At the end of October, Szalasi decided that he would only respect protection papers issued by countries that recognized his government as legitimate. At that point, the Portuguese government recalled its Charge d’Affaires.

After 29 October the Portuguese representation in Budapest was in the hands of the vice-consul, Jules Gulden, who continued to keep an eye on the Portuguese protégés. In his book American Jewry and the Holocaust, The American-Jewish Joint Distribution Committee, 1939-1945, Yehuda Bauer says “Jules Gulden not only offered hundred of visas to Portugal but also issued 1 200 protection papers”. In a letter he wrote to the MNE on 18 December about the situation he had left behind in Budapest, Jules Gulden, now a refugee in Geneva, did not mention the subject.

After the departure of its representatives, Lisbon continued representations in Berlin to protect the refugees left behind in the Portuguese Legation and to protect the bearers of Portuguese protection papers. There could be no disrespect for the prerogatives of sovereignty. Officially, Portuguese diplomatic action in Hungary helped save about 1 000 people.


 

Manuela Franco

 

in "Politics and Morals " [click on the title to read full text]





 

16 Jun. 1944

Confidential telegram nº 69 from the Portuguese Legation Budapest to the MNE informing of the worsening situation of the Jewish persecution, in particular in the countryside and of the inhuman way Jews are deported to Germany.



 

Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 

 

Documentary Exhibition


 

The Diplomatic Insitute

 site and blog

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29.11.13

 

 

 

 


A avaliar pelas aparências dir-se-ia que Aristides de Sousa Mendes era o próprio anti-herói. Senhor beirão, brasonado, proprietário, conservador, católico devoto com uma família extensa, nada parecia separá-lo dos seus pares. Como diplomata, a sua carreira, mesmo nos baixos, permaneceu perfeitamente dentro dos cânones até à aposentação compulsiva em 1940, aos 55 anos. Um homem maduro, com mundo, politicamente atento, avisado pela burocracia de Lisboa, estava agudamente consciente da retribuição que as suas acções iriam provocar.

De facto, diante dos milhares de refugiados apinhados junto ao Consulado Geral de Portugal em Bordéus, deu voz a essas preocupações:


Como informei toda a gente, o meu Governo recusou terminantemente todos os pedidos para concessão de vistos a todos e quaisquer refugiados. [...] Todos eles são seres humanos, e o seu estatuto na vida, religião ou côr são totalmente irrelevantes para mim. [...] Sei que a minha mulher concorda com a minha opinião e estou certo que os meus filhos compreenderão e não me acusarão se, por dar vistos a todos e cada um dos refugiados, eu fôr amanhã destituído do meu cargo por ter agido [...] {contra} ordens que em meu entender, são vis e injustas. E assim declaro que darei, sem encargos, um visto a quem quer que o peça. […]


 

                


Ao agir no plano do real, acudindo na medida das suas possibilidades à situação dramática dos milhares de pessoas em perigo, sabendo que teria de enfrentar uma hierarquia que considerava o diplomata um militar à paisana, Aristides de Sousa Mendes gritava para Lisboa que a liberdade de consciência não é assunto de conveniência. O crime de Sousa Mendes fora tornar claro ao regime que as arquitecturas políticas sobre que assentava o seu perfil internacional e as suas linhas de defesa burocrática eram, realmente, apenas, construções.

O diplomata foi punido mas o “crime” foi abafado. E a maior parte das pessoas que se apresentaram às fronteiras portuguesas foram admitidas, na certeza de que a Espanha não as aceitaria de volta. Pretender que nada acontecera era a maneira mais expedita de reduzir o impacto do precedente e de lidar com a situação tida por desprestigiante de nem o Ministério do Interior nem o Ministério dos Negócios Estrangeiros terem sabido evitar o acontecido. E a habilidade do regime em transformar o vício em virtude ressalta de um Editorial do Diário de Notícias de 14 de Agosto, uma lauda ao humanismo português, que Aristides de Sousa Mendes recortou e enviou ao MNE para juntar à sua defesa...

 

Manuela Franco

in "Razões e Humanidade" [texto na íntegra aqui]


Fotos  aqui  e Documentos aqui



 



 

 

Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial 

Exposição documental

 

Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 


site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

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25.11.13


Portugal participou na II Guerra Mundial como neutro. A lúcida apreciação das condicionantes internas e internacionais, especialmente a experiência da recente guerra civil espanhola, a posição geoestratégica da península ibérica, aconselhavam-no. E, em 1939, a neutralidade era ainda um conceito político-jurídico de aplicação relativamente simples. Mas, para além do soez plano de conquistas territoriais e de esferas de influência, a Alemanha movia uma guerra ideológica, total. Perante a aplicação dos mandamentos do movimento totalitário, o estabelecer em terras conquistadas da vassalagem à mundivisão nazi, a destruição segura dos valores em que a civilização ocidental até então tinha funcionado, a semântica da neutralidade foi-se alterando. Tornou-se uma posição de difícil gestão, tanto mais quanto Portugal era governado em regime autoritário, por um ditador que operava sobre certezas, no caso um conjunto de princípios feitos à medida de um Mundo que a própria guerra se encarregava de destruir.


As certezas são inimigas da verdade. No caso português, escondida pela auto-satisfação de nos termos poupado ao conflito, quem sabe até termos ganho algum dinheiro com ele, a verdade ficou por captar até ao fim da guerra, com o luto oficial por Hitler e, até aos nossos dias, com a apreciação legalista, apolítica e amoral que ainda prevalece sobre a neutralidade portuguesa. Na equidistância perante os dois lados, no não ter compreendido que vencedores e vencidos não se equivaleriam, que o Estado nazi não comportava regeneração, em suma, no fugir a tomar partido no conflito político e moral postulado na II Guerra Mundial, Salazar remeteu a nação portuguesa para a periferia da modernidade e para fora da história da Europa. A democracia demoraria mais trinta anos a chegar a Portugal que, só então, reencontraria o caminho político de regresso à Europa.


Sabe-se que durante os anos da II Guerra Mundial passaram por Portugal dezenas de milhares de refugiados, sobretudo judeus. Muitas vidas foram poupadas pela actuação decidida de três diplomatas portugueses documentada na presente exposição: Aristides de Sousa Mendes, Cônsul de Portugal em Bordéus, Carlos de Sampaio Garrido, Ministro de Portugal na Hungria e Alberto Teixeira Branquinho, Encarregado de Negócios de Portugal em Budapeste. O primeiro, em Junho de 1940, elevou-se pela força do seu carácter acima do pânico dominante e, agindo por decisão e risco individual, no momento certo, abriu as portas de Portugal aos fugidos de França. Seria esmagado pelas certezas de um Salazar vencido pela criação de um facto político cuja reversão arrastaria questões complicadas de enquadrar nos parâmetros escolhidos para a neutralidade portuguesa. Os segundos, em 1944, confrontados com a ocupação alemã da Hungria e o programa acelerado de eliminação dos húngaros judeus, empenharam o seu sentido de valores e a sua coragem na concretização de uma operação de salvamento programada pelos representantes dos países neutros em Budapeste, e que contou com a aprovação e o envolvimento activo de Lisboa. Humana e politicamente de natureza e dimensão muito diferentes, estes dois episódios ilustram bem o evoluir da política portuguesa quanto aos refugiados do nazismo: uma atitude inicial muito restritiva, que se foi flexibilizando progressivamente com o andar da guerra, chegando mesmo a assumir formas de acção positiva quando o regime começou a ter por certa a derrota alemã e a imaginar que a neutralidade proporcionaria uma plataforma de protagonismo político no pós-guerra.

 

Manuela Franco

in "Moral e Política" [o texto na íntegra aqui ]

     " Politics and Morals" [text  here]




 



Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial

Exposição Documental 

Documentary Exhibition


Na escolha dos documentos patentes nesta exposição sobre a acção de três diplomatas portugueses guiamo-nos principalmente pela possibilidade de proporcionar um máximo de leitura directa de dois momentos reveladores da administração da neutralidade portuguesa.

No caso de Aristides de Sousa Mendes, os acontecimentos foram rápidos, as posições extremadas, e o material do processo que lhe foi movido mostra, mesmo ao leitor mais desprevenido, o quadro moral e político em que o drama se desenrolou. Limitamo-nos aqui a juntar alguns documentos que contribuem para contextuar o caso, tanto quanto às atitudes – antecedentes – das autoridades portuguesas perante a questão dos refugiados, como em conclusão, nos pareceu interessante mostrar o ponto de vista crítico da política de vistos de Lisboa que o Cônsul em Marselha, um diplomata completamente alheio ao processo Sousa Mendes, comunicava a Lisboa no final de 1940.

No caso da Hungria, a correspondência trocada entre Lisboa e as Legações de Portugal em Budapeste, em Berlim, e em Berna – onde Sampaio Garrido, saído da Hungria, passou quase todo o Verão de 1944 – permite seguir, às vezes dia a dia, um processo onde o empenho pessoal de dois diplomatas galvanizados pela arrogância do ocupante alemão e pelo terror das perseguições movidas aos judeus de Budapeste, encontrou eco numa Administração politicamente orientada para transformar em créditos na paz, uma neutralidade que entretanto se tornara incómoda.

Esperamos que a presente exposição possa ser uma achega para o concretizar da profecia feita por Salazar, a 18 de Maio de 1945, perante a Assembleia Nacional, no seu discurso “Portugal, a Guerra e a Paz”: “A História, serena e imparcial, como os literatos dizem que é, há-de um dia catalogar os nossos actos desta guerra e classificar a nossa neutralidade”.

 

 


 

 

 Artigo censurado (versão integral aqui)

 

 

 

 

 

Foto: Refugiados em Lisboa durante a II Guerra Mundial aqui  

 

 

Exposição e Textos aqui


Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 

Documentary Exhibition

 




site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

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10.3.13

 

 

 

R.B. Kitaj  The Rise of Fascism, 1975–1979 Pastel, coal and oil on paper

© Collection of R.B. Kitaj Estate

 

 



... la méditation sur le totalitarisme, c'est-à-dire sur la négation totale de l'homme et de ses droits, conduit Hannah Arendt à ratifier la critique réactionnaire des droits de l'homme. Cet itinéraire est singulier.

 

Singulier peut-être, mais imposé par la force des choses. Du déracinement des apatrides à l'internement concentrationnaire, la négation de l'humain a pris la forme de la désolation, c'est-à-dire de la privation de sol, de l'expérience radi­cale et désespérée d'une absolue non-apparte­nance au monde. Il faut un monde à la liberté. Ce n'est pas n'importe où, n'importe comment, mais au sein d'un peuple, dans un certain milieu vital, à l'intérieur d'une communauté politique, que l'homme peut vivre en tant qu'homme parmi les hommes, c'est-à-dire «exprimer des opinions signifiantes et mener des actions effi­caces1». Voilà ce que nous apprend, a contra­rio, un siècle dévasté par la volonté totalitaire de dissoudre le monde humain dans le progrès de l'Histoire. Lutte des races, ou lutte des classes, il n'y  a  de  lois  dans  l'univers  totalitaire que comme lois du mouvement : il n'y a de réel que le processus historique, il n'y a de vivant que l'humanité en marche et, au bout du compte, il y a la formule glaçante de l'Angkar (l'organisa­tion des Khmers rouges): « Te perdre n'est pas une perte, te conserver n'est d'aucune utilité 2. » Sous le règne de l'Homme, les hommes finissent par être tous superflus. En d'autres termes, la négation ontologique de l'individu accom­pagne l'anéantissement du monde dans le fleuve du devenir. C'est l'événement donc, et non le caprice, qui a conduit Hannah Arendt à refuser de choisir entre l'ordre et le mouvement. Elle a vu le mouvement engloutir simultanément toute stabilité et toute initiative.


Oui, Hannah Arendt est conservatrice, car elle a peur. Elle n'a pas peur pour ses biens. Ayant éprouvé la fragilité de la permanence, elle a peur pour le monde. Proche ici de Simone Weil, elle a peur pour cette chose belle, gra­cieuse, fragile et périssable qu'est la patrie non mortelle des mortels que nous sommes. Elle a peur pour la loi positive qui entoure tout nou­veau venu de barrières et, en même temps, assure la liberté de mouvement, la possibilité qu'il advienne quelque chose de nouveau et d'imprévisible. Elle a peur pour la trame symbo­lique, la communauté de sens qui nous relie non seulement à nos contemporains mais aussi à ceux qui sont morts et à ceux qui viendront après nous. Elle a peur pour le passé, pour le temps humain, pour la continuité qu'instituent les objets et les œuvres, pour le cadre durable au sein duquel peuvent se déployer l'action et la création.


Non, Hannah Arendt n'est pas conservatrice, car elle n'aspire pas davantage au rétablissement de l'ordre qu'à l'instauration d'une société organique où les tâches s'accompliraient naturelle­ment, sans discussion, sans invention, sans projet, indépendamment des volontés indivi­duelles. Il ne s'agit, en aucune façon, pour elle, de restreindre la faculté d'agir à ce que la tradi­tion prescrit ou de fondre la multiplicité des per­sonnes dans l'unité substantielle de je ne sais quel Volksgeist. Le monde dont elle a le souci est bien un héritage, mais cet héritage ne se pré­sente ni comme un modèle de comportement, ni comme une identité collective. Arendt est simplement payée pour savoir que l'autonomie n'est pas donnée comme une nature, qu'elle n'est pas une propriété inaliénable de chacun de nous. Le siècle lui a appris à faire la différence entre les conditions d'une vie humaine et les conditionnements ou les aliénations de la liberté. Burke : l'homme est d'abord un héritier. Paine : l'homme est d'abord un individu. Arendt : le déshérité ne peut pas accéder à une existence individuelle.



 

Alain Finkielkraut 

in L'ingratitude (IV. L'impudence des vivants) 

Conversation sur notre  temps avec Antoine Robitaille


pp. 156-158

© Éditions Gallimard, 1999 et 2000


Notes:


1. Hannah Arendt, Les origines du totalitarisme, l'impérialisme, Seuil,1984, p.286


2. Cité dans Le livre noir du communisme, Robert Laffont, 1997, p.654




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29.1.13

 

 

 

 27 May 1977 -French writers Bernard-Henri Lévy and André Glucksmann

converse on the set of the television show Apostrophes

Photo: © Sophie Bassouls/Sygma/Corbis



J'ai, pour commencer, été qualifié de philosophe à mon corps défendant. J'avais certes parcouru la suc­cession d'examens et de concours qui vous sacrent professeur de ladite discipline. Je n'estimais pas que les palmes du « philosophe » pussent pour autant être déposées sur mon front. Je croyais que les détenteurs de ce titre prestigieux se comptaient sur les doigts de la main : Platon, Aristote, Descartes, Kant, Hegel. Peut-être Heidegger l'avait-il mérité du temps de sa jeunesse mais il compromit son titre en appelant étu­diants et collègues à suivre le Führer. Pis encore, cha­cun ayant droit à l'erreur, il avait, après la capitulation du Reich, tenté, trente longues années, comme un gros chat, d'enterrer ses déjections dans le sable de sa théorie. Du moins me semble-t-il après lecture attentive. Passons.


Si, jeune homme, je plaçais la barre de la « grande philosophie »  très haut, trop  haut  pour moi, mes contemporains au contraire la situaient très bas, plus bas que terre, car la prétention à la «sagesse» était passée de mode. Ils se voulaient alors savants et objec­tifs; ils s'affichaient sociologues, structuralistes, lin­guistes, économistes, dépositaires de savoirs plutôt qu'animés du désir de savoir. Le marxisme-léninisme, version École normale supérieure, régnait. Le vent tourna, dans les années 75-80, quand beaucoup de mes semblables se mirent à signer «psychanalyste et philo­sophe», «mathématicien et philosophe», biologiste et... historien et... écrivain et philosophe. La 2 CV Citroën se vit sacrer dans les gazettes «voiture philo­sophique». Que s'était-il passé? En déboulonnant les idoles du marxisme hégémonique dans l'intelligentsia parisienne, peut-être ai-je contribué à ce renverse­ment. Lorsque de bonnes plumes rejoignirent mes blasphèmes, Bernard-Henri Lévy et les médias bapti­sèrent un peu abruptement cette cohorte provisoire et volatile  «nouvelle  philosophie».  Si la science du matérialisme historique pliait sous les coups, force était de conclure que la volée de bois vert administrée, au nom de la philosophie, sur les adeptes de la dicta­ture du prolétariat n'était pas aussi  frivole  qu'on aimait à le dire.


Je ne laissai pas d'être surpris du retentissement de mon essai intitulé La Cuisinière et le Mangeur d'hommes sous-titré insolemment : «Essai sur le marxisme, l'Etat et les camps de concentration». Le voisinage des termes sonna comme un coup de carabine dans un ciel serein. Mon éditeur avait laissé dormir le manus­crit dans son tiroir pendant plus de six mois, anticipant la diffusion médiocre d'un texte qui heurtait ses convictions de gauche. Sorti le 15 juillet 1975, sans intervention télé, un seul passage radio sur Europe dans la folie des départs en vacances, mais soutenu par un bouche-à-oreille flatteur et imprévu, porté par quelques articles spontanés et enthousiastes de gens que je ne connaissais pas ou mal (1) , il tourna très vite au best-seller.


Des dizaines de milliers d'exemplaires s'arrachèrent dans les librairies et s'échangeaient sur les plages. C'était drôle, curieux, inattendu. J'avais écrit dans l'isolement le plus extrême, sans souci du public, juste pour exprimer la rage et le désir que je partageais avec quelques amis de «ne pas mourir idiot». Le brûlot véhiculait une révolte à fleur de peau contre le plus grand mensonge du siècle : le communisme. Il était rédigé par quelqu'un qui y avait goûté dans son enfance et que le Tout-Paris estimait «de gauche». Je jouissais d'une «bonne réputation». ... 



André Glucksmann

in Une rage d'enfant

[Chapitre 8. A quoi sert la philosophie ? * pp. 172-174]

Hachette Littératures

© Plon, 2006

 

1. Remerciements à Maurice Clavel, Jean Daniel et Bernard-Henry Lévy.

 

* Où il est suggéré que se connaître soi-même, c'est connaître Typhon en nous. D'où l'utilité des infos de 20 heures et l'examen des liaisons dangereuses: Freud et Junon, Alcibiade et Socrate, le prince Potemkine et le neveu de Rameau, Poutine et moi.

 


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9.1.13

 

 

 

 Danilo Kis



FIDÈLE À RABELAIS

ET AUX SURRÉALISTES

QUI FOUILLAIENT LES RÊVES




Je feuillette le livre de Danilo Kis, son vieux livre de réflexions, et j'ai l'impression de me retrouver dans un bistro près du Trocadéro, assis en face de lui qui me parle de sa voix forte et rude comme s'il m'engueulait. De tous les grands écrivains de sa génération, français ou étrangers, qui dans les années quatre-vingt habitaient Paris, il était le plus invisible. La déesse appelée Actualité n'avait aucune raison de braquer ses lumières sur lui. «Je ne suis pas un dissident», écrit-il. Il n'était même pas un émigré. Il voyageait librement entre Belgrade et Paris. Il n'était qu'un «écrivain bâtard venu du monde englouti de l'Europe centrale». Quoique englouti, ce monde avait été, pendant la vie de Danilo (mort en 1989), la condensation du drame européen. La Yougoslavie: une longue guerre sanglante (et victorieuse) contre les nazis; l'Holocauste qui assassinait surtout les Juifs de l'Eu­rope centrale (parmi eux, son père); la révolu­tion communiste, immédiatement suivie par la rupture dramatique (elle aussi victorieuse) avec Staline et le stalinisme. Si marqué qu'il ait été par ce drame historique, il n'a jamais sacrifié ses romans à la politique. Ainsi a-t-il pu saisir le plus déchirant: les destins oubliés dès leur nais­sance; les tragédies privées de cordes vocales. Il était d'accord avec les idées d'Orwell, mais com­ment aurait-il pu aimer 1984, le roman où ce pourfendeur du totalitarisme a réduit la vie humaine à sa seule dimension politique exactement comme le faisaient tous les Mao du monde? Contre cet aplatissement de l'exis­tence, il appelait au secours Rabelais, ses drôle­ries, les surréalistes qui «fouillaient l'inconscient, les rêves». Je feuillette son vieux livre et j'en­tends sa voix forte et rude: «Malheureusement, ce ton majeur de la littérature française qui a commencé avec Villon a disparu.» Dès qu'il l'eut compris, il a été encore plus fidèle à Rabelais, aux surréalistes qui «fouillaient les rêves» et à la Yougoslavie qui, les yeux bandés, avançait déjà, elle aussi, vers la disparition.


Milan Kundera

in Une rencontre* p.160-161

© Milan Kundera 2009 - Éditions Gallimard 2009                                                

 

 

 

* ... rencontre de mes reflexions et de mes souvenirs; de mes vieux thèmes (existentiels et esthétiques) et mes vieux amours (Rabelais, Janacek, Fellini, Malaparte...)...






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6.8.11


Encore aujourd'hui, toute une vie plus tard, il suffit d'un instant de rêverie éveillée, n'importe où, n'importe quand, ou d'un instant de distraction délibérée afin de m'évader d'une conversation oiseuse, d'un récit mal fagoté, d'un spectacle médiocre, pour que brusquement, sans rapport apparent avec les préoccupations ou les désirs circonstanciels, se déploie dans ma mémoire un envol d'éclatante blancheur d'images au ralenti. Ailes de mouette, à l'aube, derrière les baies vitrées d'une chambre d'hôtel, en Bretagne ? Focs des voiliers sous la lumière d'étain de la baie de Formentor ? Brouillards laiteux, effilochés par les vents tournoyant dans le détroit d'Eggemogging ?


Il m'arrive de ne pas identifier ces images. Je reste alors au seuil de leur lisibilité, remué par une émotion indéfinissable : quelque chose de fort et de vrai demeure caché, m'échappe et se dérobe. Quelque chose se défait, sitôt surgi, comme un désir inassouvi. Mais il arrive aussi qu'elles se précisent, qu'elles cessent d'être floues, de me flouer.


Je reconnais le long couloir de l'appartement de la rue Alfonso-XI, à Madrid, résonnant du bruit de nos courses, des portes ouvertes à la volée. Je reconnais dans la pénombre d'un soir de la fin de l'été les meubles précieux recouverts de housses blanches. Et c'est alors que réapparaissent, liés au souvenir enfantin, étrangement gouvernés par lui, tous les autres : un envol de pigeons, place de la Cybèle ; les mouettes de Bretagne ; les voiles de Formentor ; les brouillards de Little Deer Isle. Et le souvenir d'Odile, voltigeant à travers un salon parisien, arrachant joyeusement les linceuls éclatants des fauteuils et des canapés, les transformant en oriflammes du plaisir annoncé, tout en chantant à tue-tête l'air du toréador de Bizet.


Au « Petit Schubert », boulevard du Montparnasse, quelques jours après mon arrivée à Paris, j'avais eu Odile M. dans mes bras. Je me suis demandé si quelqu'un n'allait pas subitement surgir pour me l'enlever. À Eisenach, dans le vieil hôtel où les Américains avaient installé un centre de rapatriement, l'officier français des commandos m'avait enlevé Martine. Mais au « Petit Schubert » le temps a passé, il ne se passait rien. Rien d'autre que la lumière allumée dans les yeux d'Odile, la présence accrue de son corps. Elle était toujours dans mes bras. Elle ne semblait appartenir à personne. Personne ne semblait avoir sur cette jeune femme droit de préemption ou de cuissage. Elle allait être à moi.


Les jours ont passé, les semaines: elle était à moi. Mais sans doute faut-il renverser ce rapport d'appartenance. C'est moi qui lui appartenais, plutôt, puisqu'elle était la vie et que je voulais appartenir à la vie, pleinement. Elle a réinventé pour moi, avec moi, les gestes de la vie. Elle a réinventé mon corps, un usage de mon corps, du moins, qui n'était plus strictement celui d'une économie de survivance, qui était celui du don, du gaspillage amoureux.


Pourtant, malgré elle, malgré moi, malgré l'exubérance de cet été du retour, la mémoire de la mort, son ombre sournoise, me rattrapait parfois. Au milieu de la nuit, de préférence.

 

Jorge Semprún

in  L’Écriture ou la Vie    p.200-201

© Éditions Gallimard 1994

 

Para Isabel Feijó (4 Janeiro 1959 - 5 de Agosto 2011) 

 



19.6.11

 

 

 

 

 

netsuke

aqui

 

 

 

 

It could write itself, I think, this kind of story. A few stitched-together wistful anecdotes, more about the Orient-Express, of course, a bit of wandering round Prague or somewhere equally photogenic, some clippings from Google on ballrooms in the Belle Epoque. It would come out as nostalgic. And thin.

And I'm not entitled to nostalgia about all that lost wealth and glamour from a century ago. And I am not interested in thin. I want to know what the relationship has been between this wooden object that I am rolling between my fingers — hard and tricky and Japanese - and where it has been. I want to be able to reach to the handle of the door and turn it and feel it open. I want to walk into each room where this object has lived, to feel the volume of the space, to know what pictures were on the walls, how the light fell from the windows. And I want to know whose hands it has been in, and what they felt about it and thought about it - if they thought about it. I want to know what it has witnessed.

Melancholy, I think, is a sort of default vagueness, a get-out clause, a smothering lack of focus. And this netsuke is a small, tough explosion of exactitude. It deserves this kind of exactitude in return.

 

 

Edmund De Waal

in  The Hare with Amber Eyes - A Hidden Inheritance  (prefácio)

© Edmund de Waal 2010

 

 

 

 

 

 

aqui

 

 

 

 

 

 

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11.6.11

 

 

 

 

 Rui Chafes, O teu coração está a dormir, não o acordes demasiado cedo*  (2008)

 

 

 

[...] Tenho consciência de que, em idênticos cruzamentos da história, os abismos são muitos e de que algumas gerações que nos precederam, a pretexto de largar para grandes voos, caíram em grandes precipícios. Trata-se duma espécie de «Patologia das Sociedades Civilizadas», título que parece do Dr. Segismundo Freud, se é que não será mesmo dele. Algumas vezes, a rebelião contra as incomodidades sociais exprime-se, inesperadamente, pela sua identificação com as ideologias racionais. Quando, na Alemanha dos fins dos anos 20, princípios dos anos 30, a situação económica se deteriorou, muitos marxistas esfregaram as mãos de contentes porque as profecias de Karl Marx se iriam cumprir. O que aconteceu foi o que se viu: a ânsia duma mudança urgente, as aspirações unicamente dirigidas para o bem-estar material não se ligaram aos desejos de liberdade mas ao fenómeno inverso; ao medo da liberdade; as pessoas identificaram-se com uma forma de dependência duma atitude existencial que trocava a liberdade pelo paternalismo e pela protecção. Elas estavam sensíveis aos apelos feitos ao seu lado emocionalmente irracional, místico e infantil, porque esses apelos vinham reforçar a necessidade de se apegarem a figuras de autoridade que prometiam uma «nova vida».

 

Isto é só para dizer que, ao lado desses abismos, há uma forma sadia de encarar o romantismo, atitude a que, se fosse possível, eu chamaria «ingenuidade controlada», o que equivale a dizer que, muitas coisas em que a gente acreditava estão certas, só que mais ninguém acredita nelas e elas, em certa medida, viviam dessa crença. O Diabo, as almas do outro mundo e todos os fantasmas em geral, habitam um espaço de que eles não são os representantes maiores: esse espaço constituído pelo misterioso e pelo irracional vive da nossa própria crença e não estão dispostos a conviver com quem os recusa. Isto faz parte duma questão maior que é a de uma longa e não sei se eterna contradança entre a natureza e a cultura, nomeadamente quando ela incorporou uma excessiva dose de Razão. Não podemos dispensar a culturização do mundo, mas a verdade é que, desde que a Razão se apoderou dela, a cultura está prestes a destruir-nos, porque não há maior barbárie do que a da loucura da Razão. É então que a natureza reúne as suas forças e dá um grito. Neste mundo, racionalizado e politizado até à exaustão, o romantismo é capaz de ser esse grito que visa um «para além» do político. Hoje, não necessitamos de nenhum discurso político nem que seja o da «desconstrução» do conceito hegeliano do Estado. Necessitamos, isso sim, de um clima de interrogação onde seja possível analisar a metamorfose das condições interiores da alma. Eu sei: a gente diz «alma» e vocês riem-se mas, o que temos mais para enfrentar a barbárie?

 

 


António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

* peça fotografada por LMD, 2010 (aqui); no âmbito da exposição KHORA, Fundação Carmona e Costa

 

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3.3.11

 

 

 

D. Day

Foto de Robert Capa

 

 

 

Merci aux Américains, aux Anglais, aux Canadiens, aux Australiens, aux Polonais qui m'ont sauvé un reste de famille, merci à ceux qui permirent aux Français d'aujourd'hui de n'être pas contraints à penser nazi ou stalinien, merci à ceux qui brisèrent le mur de l’Atlantique et nous aidèrent jusqu'à la chute du mur de Berlin. Sans D. Day, pas de nouvelle Europe à 6, à 15, à 25 et plus. Je suis encore, privilège de l’âge, habité par la joie cosmique, extatique, qui éclatait au-dessus de ma tête d'enfant, lorsque les grandes personnes prononçaient le mot «libération».

 

II fallut attendre le milieu des années 70 pour qu'un président de la République fédérale reconnaisse clairement et distinctement que l’Allemagne, à l'issue de la Deuxième Guerre mondiale, ne fut pas «envahie», mais «libérée». C'est pour que la différence entre les deux mots affiche son évidence décisive que mes proches et mes lointains, à Lyon, à Omaha beach, à Stalingrad sont morts. On parle à tort et à travers, par les temps qui courent, de «légitimité internationale». La seule, la vraie fût inaugurée sur les plages normandes. Si l’ONU, malgré son côté capharnaüm, ne ressemble pas tout à fait à la triste SDN, c'est que ses fondateurs à San Francisco avaient juré que le Japon et l’Allemagne ne seraient ni conquis ni colonisés, mais purement et simplement libérés du fascisme. D'où deux principes qui, étayant silencieusement la Charte des Nations Unies, surdéterminent ses inévitables ambiguïtés et contradictions : 1/le droit des peuples à être libérés, 2/ l'autolimitation du droit du vainqueur, interdit de conquête mais introducteur de démocratie.

 

Le droit des peuples à être libéré d'un despotisme extrême - droit au D. Day - prime sur le respect ordinaire des frontières et le principe séculaire de souveraineté. Eu égard à la Déclaration universelle des droits de l'homme, expérience des totalitarismes aidant, le très essentiel droit des peuples à disposer d'eux-mêmes ne doit ni garantir ni impliquer le droit des gouvernants à disposer de leurs peuples. Le débarquement en Normandie fonde les interventions récentes au Kosovo, en Afghanistan et en Irak, même sans couverture du Conseil de Sécurité. Pour une raison décisive : la légitimité inaugurale qui présida à la constitution de l'ONU l'emporte en autorité sur la jurisprudence ordinaire des institutions issues de cette légitimité fondatrice. […]

 

Les Etats-Unis peuvent-ils encore se réclamer du droit d'ingérence baptisé dans le sang versé pour libérer l'Europe? Oui. Malgré les ignominies récentes commises dans les prisons irakiennes? Oui. Car dans le pire comme pour le meilleur, les Etats-Unis demeurent une démocratie. Et même la plus exemplaire des démocraties, la seule à ma connaissance qui n'ait pas censuré, en pleine guerre, la publication des crimes commis par ses soldats. La seule où la presse et la télévision dévoilent en quelques semaines l'ampleur des exactions et scrutent librement les tenants et les aboutissants du crime accompli. La seule où les commissions d'enquête parlementaire citent à comparaître un président, des ministres, des généraux, les chefs des services secrets en les interrogeant sans ménagement ni restriction.

 

 

André Glucksmann

in Le Discours de la Haine pp. 128-129

© Editions Plon, 2004

 


26.2.11

 

 

 

 

Warsaw Pact invasion of Czechoslovakia in August of 1968

Photo: Ladislav Bielik  aqui

 

 

 

At Wenceslas Square at the center of Prague, below the bullet-scarred facade of the National Museum, tens of thousands of people with transistors to their ears milled around in streets filled with crushed automobiles and pieces of masonry that had been shot down from the surrounding buildings. Walls were covered with painted slogans. Trucks draped with Czechoslovak flags rammed into the Russian tanks and the air rang with the sound of intermittent gunfire.


Standing in the crowd, I felt that this was the supreme moment of our lives. During the night of the invasion, when we lost everything, we found something that people in our world hardly dare to hope for: ourselves and each other. In all those faces, in all those eyes, I saw that we all thought and felt alike, that we all strove for the same things.


Prague resisted in every way it could. Street signs disappeared or were turned around so that the invaders were unable to find their way through the city. License plate numbers of Soviet Security cars were painted in large digits on the walls. Radio and, later, television broadcasts were transmitted from makeshift facilities that were moved from place to place, eluding the Russians. At the same time, the train carrying Russian radio station-detector equipment was lost on its way to Prague. For days it was shunted from siding to siding by Czechoslovak railwaymen. And throughout the city, hungry Russian soldiers who could not get a crumb of food or glass of water from the population wandered through streets where all the traffic signs pointed in one direction: back to Moscow.

 

 

Heda Margolius Kovály

in  Under a Cruel Star – A Life in Prague 1941-1968

Translated from the Czech by Franci Epstein and Helen Epstein with the autor

Holmes & Meier, New York

© Heda Margolius Kovály, 1986

 

 

 

 

 

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26.10.09

 

 

 

 

 

 

Untitled 1982

Jean Michel Basquiat

 

 

 

 

À la lumière des guerres, crises et révolutions, la modernité européenne s'est révélée porteuse du pire comme du meilleur. Ses armes magiques — la politique sécularisée, l’économie rationalisée, l’innovation scientifique et intellectuelle — sont des techniques et à ce titre «capables des contraires» (Aristote). Elles placent les contemporains devant la responsabilité de bien ou mal en user. Dès qu'on reconnaît que les marchés, les États et autres prestigieuses organisations modernes sont, et ne sont que des outils susceptibles d'améliorer ou de détériorer la vie en commun, il faut conclure qu'en dernière instance ni l'État, ni le marché, ni les techniques en général ne se contrôlent eux-mêmes. Ces créations humaines ne comportent aucun système de freinage incorporé. Force est alors de concocter une procédure extrinsèque de contrôle et de limitation, dont l'opinion publique, toute faillible qu'elle soit, se retrouve, dans la cité occidentale, responsable.

 

Longtemps tête pensante de la modernité civilisée et par là même vouée aux contraires, l'Europe se projeta simultanément école du progrès, des guerres et des révolutions. Ayant plongé avec armes et bagages dans les horreurs du XXe siècle, elle connut le vertige absolu de l'étripement des nations qu'elle redoubla par les barbaries totalitaires. Guerre extérieure, guerre civile, guerre dans chaque conscience, c'est l'enchaînement déjà détaillé par Thucydide. De la tuerie extérieure à la folie intérieure, le cycle infernal menace en permanence de se répéter. […]

 

Le contrat dissuasif, qui fonde la Communauté européenne, est triple. Antifasciste d'abord, le spectre de Hitler rappelant que la pulsion de mort hante les sociétés évoluées, éduquées, industrialisées, et combien elle prend aisément, par temps de crise, le dessus. Anticommuniste ensuite, la communauté s'est édifiée à l'ombre du rideau de fer. Anticoloniale enfin, cette clause non écrite s'imposa tacitement quand chaque nation découvrit à ses frais qu'une participation à l'aventure européenne exige qu'on se libère de ses enlisements outre-mer. Dans les trois cas, la perspective d'une catastrophe commune impose de rigoureuses limites aux conflits des nations, à la lutte des classes et aux guerres de race et de religion. Dès 1848, Marx a très précisément formulé l'alternative sur laquelle butèrent les élites européennes un siècle plus tard : l' affrontement ouvre « soit sur une transformation révolutionnaire de la société tout entière, soit sur la ruine commune des classes en lutte» (le Manifeste). Tandis que le XIXe siècle, Marx en tête, n'avait d'yeux que pour le premier terme de l'alternative, la «transformation révolutionnaire», le XXe apprit à ses dépens ce qu'il en coûte de négliger le second volet: la «ruine commune», témoin les dizaines de millions d'Européens disparus dans les tourmentes, prolétaires, bourgeois, paysans, intellectuels mêlés. Bien que l'habituelle rhétorique politique chante l'optimisme et la confiance retrouvés, une insondable méfiance historiquement motivée fonde le nouveau contrat européen : tout pouvoir à l'État et à la patrie ? Nenni, voyez 1914. Tout pouvoir au parti et à l'idéologie ? Plutôt crever! Les forces politiques, économiques, syndicales, sociales, etc., se contrôlent-elles réciproquement ? Tant mieux. Ou bien se neutralisent et se paralysent-elles? À chaque citoyen, dans la mesure de ses possibilités, de prendre ses responsabilités.

 

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan  p. 240-241-242

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

 

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20.10.09

 

 

 


Photo: Tomasz Kizny 

 

 

L'univers concentrationnaire entraîne l'éclipse de Dieu. Il interpose entre l'homme et le divin la Révélation d'un mal total. Un mal extrême, tel qu'il est impossible d'en imaginer plus destructeur. Un mal général, dont la contagion et la reproduction toujours possibles interdisent de garantir son éradication. Si la foi fonctionne en preuve ontologique, elle découvre sa contre-preuve dans l'épreuve humaine de «faire le mal pour le mal» (P. Levi), la capacité d'instaurer le néant tout en affirmant l'être. «Il est généralement dans le fait d'être homme un élément lourd, écoeurant, qu’il est nécessaire de surmonter. Mais ce poids et cette répugnance n'ont jamais été aussi lourds que depuis Auschwitz. Comme vous et moi, les responsables d'Auschwitz avaient des narines, une bouche, une voix, une raison humaine, ils pouvaient s'unir, avoir des enfants: comme les Pyramides ou l'Acropole, Auschwitz est le fait, est le signe de l'homme. L'image de l’homme est inséparable, désormais, d'une chambre à gaz (1)»
.

La foi avait allégrement assumé la non-existence des Êtres Suprêmes sur la terre. Elle remettait leur venue au monde à plus tard. Elle promettait d'y travailler. La nouvelle mort de Dieu bouscule pareilles professions de foi. C'est l'essence de nos grandes notions qui se vide dans une irrattrapable hémorragie... Dieu tout-puissant où es-tu? Perdu ? Absent ? Malentendant? Quand l'horreur surgit, si le Seigneur est toute-puissance, ou bien il n'est pas toute-sagesse, ou bien il n'est pas toute-bonté. Si le Seigneur est omniscient et s'il est charitable, il faut croire qu'il est impuissant. Le concept traditionnel de l’être parfait devient fou (2). Son double profane, le concept d'Humanité, ne se porte pas mieux. Il dégringole en sa compagnie. At Auschwitz not only man died, but the idea of man, poursuit Élie Wiesel. Pas seulement l'homme mais l'idée de l'homme meurt (3).


«Tous les sentiments humains, l'amour, l'amitié, la jalousie, l'amour du prochain, la charité, la soif de gloire, tous ces sentiments nous avaient quittés en même temps que la chair que nous avions perdue pendant notre famine prolongée... Le camp était une grande épreuve des forces morales de l'homme, de la morale ordinaire et quatre-vingt-dix-neuf pour cent des hommes ne passaient pas le cap de cette épreuve... Les conditions du camp ne permettent pas aux hommes de rester des hommes, les camps n'ont pas été créés pour ça.» Passant les portes du Goulag, Varlam Chalamov a répondu en écho (4). Les rescapés parlent toutes les langues, ils viennent d'horizons, de pays, de partis, de conditions diverses. Après l’orage, s'ils survivent, ils empruntent des chemins divergents. Néanmoins le défi que tous lancent est identique. La négation totale de ce qu'ils tenaient auparavant pour souhaitable, imaginable, permis et défendu, pensable ou impensable impose, bon gré mal gré, une remise à plat radicale des catégories évidentes, «les hommes normaux ne savent pas que tout est possible»(5).

 

 
 
André Glucksmann
in La troisième mort de Dieu  p. 168- 167
© NiL éditions, Paris 2000

notas:


1) G. Bataille, Oeuvres complètes tome II, Gallimard, 1970, p. 226.

 

2) «Auschwitz a été pour moi une telle expérience qu'elle a balayé tout reste d'éducation religieuse... Il y a Auschwitz, il ne peut donc pas y avoir de Dieu. Je ne trouve pas de solution au dilemme. Je la cherche, mais je ne la trouve pas.»

Primo Levi, in Conversation avec Primo Levi, Gallimard, 1991, p. 74-75.

 

3) C. Wardi, Le génocide dans la fiction romanesque, PUF, 1986, p. 46 s.

 
4) Varlam Chalamov, Récits de Kolyma, Maspero, 1980, p. 31, II.
 
5) David Rousset, L'Univers concentrationnaire, Hachette poche Littérature 1998, p. 181. 

 

 

 

 

 

 

Imagem: fotografia de Tomasz Kizny. Um artigo sobre o trabalho deste fotógrafo aqui

 

 

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17.10.09

 

 

Execução 1941.jpg

 

 

 

Il suffit peut-être de formuler la question au plus simple, de demander : « Pourquoi les Juifs ont-ils été tués?»  Elle dévoile d'emblée son obscénité.

 

C. Lanzmann, réalisateur du film Shoah

 

Dieu n'a pas de pouvoir sur cette seule chose : faire que ne soient pas les choses qui ont été faites.

Aristote, Éthique à Nicomaque
 

 

L'Europe a exporté ses croyances jusqu'au milieu du XXe siècle. Là, elle s'arrête pile. Les récits des pères missionnaires, qui la passionnèrent et qui l’ont instruite depuis Christophe Colomb, ne suscitent pas même un intérêt poli. Ses missi dominici révolutionnaires ont souffert très vite d'une désaffection analogue. Ils passent désormais leur vie à contempler leur jeunesse, avec l'oeil vide d'un visiteur de musée Grévin, à peine curieux des poupées de cire. Tout juste trouve-t-on une oreille pour les héritiers des grands explorateurs, ces médecins et ces reporters, qui, revenant d'un Eldorado mythique, nous racontent des horreurs.

 

Qu'est-il arrivé ? Rien, sinon un ciel qui tombe sur la terre. Rien, sinon la lumière crue d’une première guerre mondiale. Rien, sinon la révélation que Dieu n'existe pas dans le monde. Mais les Européens courtois faussèrent compagnie à si sordide désillusion et repartirent de plus belle. En 40 comme en 14. Avec un petit plus. Leurs fois, désormais autogérées, s'affirmaient démentes, imperméables aux démentis. Elles se confirmaient dans leur échec même, car plus l'homme va mal, plus il aspire au bien. En 1945, enfin, la nouvelle «expérience du front», répétition au carré des boucheries, débranche la guerre civile. Et cette fois en silence. Une débauche de cris, d'imprécations, de manifestes avaient salué le retour des tranchées. Après la Seconde Guerre mondiale, alors que les discours sonnent creux, ce sont les images qui hurlent la fracture des temps. «La première rencontre... est une sorte de révélation — révélation caractéristique de la nature des temps modernes: le négatif en épiphanie. Ce furent pour moi les photographies de Bergen-Belsen et de Dachau, que je découvris par hasard chez un bouquiniste de Santa Monica en juillet 1945. Rien de ce que j'ai pu voir depuis lors — en photographie ou dans la vie réelle — ne me fit jamais une impression plus vive, plus instantanée et plus profonde. Il me semble vraiment que je pourrais diviser ma vie en deux séquences : celle d'avant la vue de ces photographies — j'avais douze ans — et celle d'après, bien que je n'aie pu comprendre de quoi il s'agissait réellement que quelques années plus tard. La vue de ces photographies pouvait-elle en quoi que ce soit m'être bénéfique ? C’était simplement les images d'un événement dont j'avais à peine entendu parler, sur lequel je n'avais aucune prise — de souffrances qui étaient pour moi à peine imaginables, et je ne pouvais absolument rien pour les soulager. J'éprouvais en les regardant l'impression d'une rupture. Une limite était atteinte. Pas simplement celle de l'horreur: je me sentais frappée, blessée de façon irrévocable. (1)».

 

Bouche bée, la population d'Europe dut, bon gré mal gré, affronter sur grand écran et clichés pleines pages les instantanés de l'enfer. Les Allemands furent contraints, s'ils habitaient les environs, à la visite guidée des charniers d'épouvante. Pour les autres, les troupes américaines organisaient des projections. Obligatoires. Tu vois, tu manges. Tu te défiles, ventre creux. Les cartes d'alimentation sont distribuées aux séances de «ciné». Premier peuple aux paupières coupées, cherchant trois générations durant des échappatoires sans jamais réussir à fermer les yeux. Premier peuple à bénéficier de l'imprévue lucidité (2).

 

La chair calcinée ou gazée ne fait pas verbe, du moins pas sur-le-champ. Les images et les témoignages ont propagé une onde de choc qu'aucun discours encore ne rattrape. Stupeur et tremblement. Sartre, l'athée, découvre le «mal absolu», il emprunte la dénomination au pieux Maritain. II signe, par ailleurs, et sans lien explicite, l'acte de décès de Dieu. «Il nous parlait et maintenant il se tait (3).» Buber, le juif croyant, cite ce texte et vitupère ; il refuse le sacrilège; et nomme, à sa façon, le silence théologique, qui recouvre l'Europe. Il voit: «Le soleil s'obscurcit.» Il dit: « L'éclipse de la lumière céleste et l'éclipse de Dieu caractérisent l'heure que nous vivons.» D'un point de vue théorique, mort et éclipse font deux. Du point de vue factuel, touchant «l'heure où nous vivons», c'est tout un. Buber et Sartre énoncent à la fin des années 40 un constat, que le pape entérine un demi-siècle après: l'Européen vit «comme si» Dieu n'existait pas.

 
André Glucksmann
in  La troisième mort de Dieu p. 159- 160-161
© NiL éditions, Paris 2000
 
notas:
 
1. Susan Sontag, La Photographie,Le Seuil, 1979, p. 30-31.
 
2. Je n'y reviens pas ; c f. A. Glucksmann, Le Bien et le Mal, Robert Laffont, 1997.
 
3. Sartre, Situation I, «Un nouveau mystique», Gallimard, 1993.
 
 
Imagem: aqui

 

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17.9.09

 

Ao longo dos anos 80 e 90, quanto mais o pensamento de Godard recusava a leitura mais comum do autorismo, mais se acentuou a tendência para que fosse ele próprio, de corpo, alma e "nome", a ocupar o centro dos seus filmes — tendência de que JLG/JLG, por motivos óbvios, é o ponto culminante. Godard, como ele próprio diz, já não assina os seus filmes, e no entanto eles exibem, cada vez com maior veemência, a mais forte de todas as marcas pessoais: a presença do corpo ou, mais do que isso, a presença do homem, dentro da obra.


Dir-se-ia que começa por haver aqui uma espécie de franqueza. Godard expõe-se perante o mundo e, na forma como se presta a essa exposição, está já a dizer qualquer coisa que vai muito para além de quaisquer palavras — como se na sua figura, a figura que ele encarnou desde sempre (a de realizador de filmes), se cristalizasse uma hipótese de discurso sobre o próprio cinema. Em Le Mépris, por exemplo, vemo-lo a assumir, discretamente, lá para o fim do filme, o papel de assistente de realização de Fritz Lang, no "film on film" (uma versão da "Odisseia") que este roda no sul de Itália. Apetece dizer que, num filme em boa parte construído em homenagem a Lang (e ao cinema que ele, em 1963, podia representar), esse "cameo" tão discreto de Godard, tão discreto que a um olhar pouco atento até pode passar despercebido, representa o ponto máximo dessa homenagem. E exprime, mais do que a admiração de Godard por Lang, a relação de tipo mestre/discípulo que Godard mantém com os "clássicos", e não apenas os do cinema. Para o entendimento de Godard, e segundo a sua ideia de que o cinema é o último capítulo na história da arte ocidental, os "clássicos" são todos aqueles que existiram antes dele e que ele admira, de épocas, disciplinas, escolas e tendências indiferenciadas.


E são alguém com quem é preciso aprender - a expressão "fazer como x ou como y" é recorrente no discurso do cineasta, e aponta também a necessidade por ele sentida de, a cada instante, se posicionar perante o curso da história e do mundo.

 

 

 

 

 

 


 

 

 Encontrar pontos de referência, agarrar-se a eles, sintetizá-los e, através do cinema, "projectá-los" (para utilizar uma palavra cara a Godard). Um pouco como Serge Daney, mais tarde, se viria a auto-qualificar de "passeur", Godard podia ser um "projector": alguém que se servia do cinema como forma de utrapassar o caos do mundo e da história para de lhe conferir uma organização, e manter a esperança de que o cinema, precisamente porque "projecta", seja capaz de transmitir ao mundo essa organização.A frase que Godard atribuía a Bazin na epígrafe de Le Mépris não diz outra coisa: "Le cinéma substitue à notre regard un monde qui s'accorde à nos désirs".

 

 

Substitui, substituiu, substituía ou podia substituir? A crença, chamemos-lhe assim porque há (houve) mesmo qualquer coisa de religioso nessa relação, de Godard no cinema, está hoje um pouco abalada. Existe, no seu discurso, a sensação de que o cinema foi, acima de tudo, uma oportunidade perdida. E não se trata apenas da lamúria cinéfila (que se ouve desde que há cinéfilos, nos anos 10 e 20 já havia quem decretasse luto pelo cinema) que periodicamente vem anunciar a "morte do cinema". Há alguma coisa de terrivelmente coerente na maneira como Godard, falando do cinema como de um "país", associa o seu fim ao de uma qualquer civilização outrora gloriosa. O cinema tinha "deveres" a cumprir e não os cumpriu - e o momento determinante, o momento em que o cinema fracassou por não saber estar à altura desses "deveres" foi, para Godard, um pouco na esteira de Deleuze, o momento do III Reich e dos campos de concentração e extermínio: "dizemos 'nunca mais', mas as imagens dos campos, preferimos não as mostrar". Se, para Godard, há uma continuidade na história das formas que coloca no mesmo plano um quadro de Da Vinci e uma fotografia do cadáver de um judeu em Auschwitz, é apenas lógico que, a partir do momento em que essa fotografia existe, todo o cinema que lhe é posterior tenha que ser diferente. Ou seja, no pensamento de Godard, é nessa altura que, no cinema, surge a "ferida" de onde nasce aquilo a que chamamos a "modernidade", o momento a partir do qual as coisas já não podem ser aquilo que foram.

 

 

Luís Miguel Oliveira

in Godard 1985 1999 

 

"Um lugar na terra como no céu (notas a partir da representação de Jean-Luc Godard)"

Edição Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, 1999
 
Imagem: Histoire(s) du Cinéma  (França 1988/98)

 

 

  

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13.9.09

 

 

 

 

 

 

 O cinema olhou sempre menos para o mundo do que olhou para o mundo a olhar para ele. E quando apareceu a televisão, esta rapidamente substituiu o mundo e deixou de olhar para ele. Quando se vê televisão, nunca se vê que a televisão nos está a ver. Mas quando Ingrid Bergman esconde uma chave na mão, essa chave está a olhar para nós. E isso acontecia numa altura em que não queríamos ver o mundo no estado em que os campos o tinham deixado.


O cinema desapareceu nesse momento. Desapareceu porque prenunciou os campos. Chaplin, que era um caso único, conhecido como nunca ninguém foi conhecido, Chaplin, em quem toda a gente acreditava, pois bem, quando fez  The Great Dictator ninguém acreditou nele. Podiam ter acreditado ao menos um pouco. E quando Lubitsch ousou dizer "So they call me Concentration Camp Ehrhardt", as pessoas disseram: "De que está ele a falar? Está doido!". Mesmo sendo ele judeu, um imigrante, plenamente consagrado na comédia. De repente, as pessoas deixaram de rir. Alguma coisa aconteceu.


Retrospectivamente, foi nessa altura que disse a mim próprio que enquanto realizador, enquanto fazedor de filmes, estou em território ocupado. Estou na Resistência. Faço-o mais ou menos bem. Sou provavelmente como René Hardy ou Trepper, como naqueles romances de que gosto tanto onde se trabalha para todos os lados, já sem realmente saber para qual. Estamos em território ocupado. Na minha opinião, quando Lelouch tem sucesso, é um Otto Abetz para um Resistente em França. E Tavernier é um "vichyista", na minha opinião. Foi deste ponto de vista que escrevi a Malraux - e Deus sabe como admirava Malraux, e ainda admiro - sobre La Religieuse. Escrevi: "Escrevo-lhe de um lugar distante - a França Livre".


Mas como, apesar de tudo, esta não é uma ocupação real, somos um pouco marginais e estamos um pouco falidos. É por isso que de vez em quando temos que dizer: vamos tentar outra vez. Questionamo-nos sempre no fim, bem, na alvorada do crepúsculo das nossas vidas. É então que nos perguntamos a que história(s) pertencemos...

 

 

 

 

 

 

 

 

O cinema começou mudo, e foi muito bem sucedido. O som, como a cor, foi sempre uma opção. Tinham os seus próprios processos, mesmo que não fossem tecnicamente perfeitos — ainda hoje não são... Mas não queriam o som. Mitry e Sadoul descreveram como Edison demonstrou o seu cinema falado, mas tudo estava já em marcha no Grand Café. Primeiro houve doze discípulos, depois trinta, quarenta, e finalmente quatrocentos milhões. Só mais tarde quisemos o cinema sonoro, o que, para mais, se explica muito bem por circunstâncias sociais. O sonoro veio num momento histórico, quando Roosevelt falou mais alto, a democracia falou mais alto, e disseram: New Deal. E depois de alguns "crashes" da bolsa, o fascismo falou mais alto, e Hitler disse aquilo que disse. O "dizer", mas um dizer "errado", passou a dominar. Não foi Freud quem tomou o poder na Alemanha, foi Hitler (e no entanto eram vizinhos, e viviam a poucas ruas de distância).


Apesar da Inquisição espanhola, apesar das guerras napoleónicas, apesar de tudo, tinham acontecido algumas conquistas humanísticas nada insignificantes. Para as preservar - apesar do horror absoluto dos campos de concentração - o que aconteceu foi que, definitivamente, "ver" e "dizer se tornaram uma só coisa", e portanto os outros objectivos tiveram que ser redefinidos. E só o cinema o podia fazer. [...]


Não é uma questão de ser testemunha. É porque era o único instrumento - nem o microscópio, nem o telescópio, só o cinema. Achei sempre alguma coisa de tocante na obra de um realizador de que só gosto moderadamente, George Stevens. Em A Place in the Sun, há um sentimento profundo de felicidade que muito raramente se encontra noutros filmes, inclusive filmes muito melhores. Um sentimento de felicidade simples, profano, um momento com Elizabeth Taylor. E quando descobri que Stevens tinha filmado os campos, e que nessa ocasião a Kodak lhe tinha dado os seus primeiros rolos de película 16mm colorida, percebi como é que ele pôde fazer esse grande plano de Elizabeth Taylor irradiando uma espécie de felicidade assombrada...

Jean-Luc Godard em entrevista a Serge Daney (“Libération”, 26 de Dezembro de 1988)
Tradução: Luís Miguel Oliveira
in Godard 1985 1999
Edição Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, 1999

 

 

link do postPor VF, às 19:22  comentar

8.9.09

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

Só a exuberância cinematográfica e a insolência de Quentin Tarantino nos poderiam dar a provar, por fim, o doce sabor da vingança impossível. Ou não se assemelha o universo alternativo de Sacanas sem Lei, em que um regime que viveu pelo cinema morre pelo cinema, a uma "correcção" da história do próprio cinema, espécie de fantasia teórica vindicativa? (O cinema que, como Godard abundantemente repete nas "Histoire(s) du Cinéma", ficou manchado não só por não ter impedido Hitler, mas por tê-lo servido).

 

 

"Sim, um dos elementos mais intrigantes que me fez querer escrever esta história foi a ideia de 'vingança judaica'. Não sei que reacções o filme vai desencadear por causa disso. Um dos aspectos sobre as personagens judias, os 'sacanas', é que eles são judeus americanos. Há uma mitologia nisso. Aldo Raine não é judeu, mas podemos imaginá-lo a falar com os sacanas: 'a coisa é assim, meus, os nazis vieram bater nos vossos antepassados europeus, tios, tias e avós, e não havia nada que eles pudessem fazer a não ser aguentar. Mas vocês são os filhos americanos deles, têm o mais forte exército do mundo a apoiar-vos...'. E também há uma filosofia por trás da razão por que Aldo está a usar soldados judeus: o facto de os soldados gentios americanos terem o privilégio de ser soldados. Normalmente, os judeus têm o dever de ser soldados por estarem a lutar uma guerra santa, sob pena de serem apagados da face da terra. Sei que pelo menos os machos judeus-americanos das últimas gerações vão adorar isso. Não sou perito no que toca a gerações mais velhas, mas sei que os americanos judeus da minha geração, ou mesmo os mais novos, estão fartos das outras histórias sobre o Holocausto, querem outra coisa".

 

 

Filme de género que convoca todos os géneros, conto de fadas a que não falta sequer uma cinderela, Sacanas sem Lei é mais uma bela carta de amor do 'cine-filho' Quentin Tarantino, escrita à sombra dos mestres, a começar em Ford (A Desaparecida) e a acabar em Dreyer (Joana d’Arc), sempre com Godard em pano de fundo, na originalidade da banda sonora, no aproveitamento da diversidade linguística e na insistente interrogação do próprio cinema.

 

"J’aime l’idée que le pouvoir du cinéma combatte les nazis. Mais pas juste comme une métaphore. Littéralement".

 

 

Quentin Tarantino  aqui 

Dossier do jornal Público de que me servi para este post: aqui

Imagem: via Photobucket 



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