25.12.16

 

 

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Nativity, 1470-1475 - Piero della Francesca

 

 

 

 

 

 

 

 

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18.12.16

 

 

Olavo 1.jpg

 

 

Em tempos, quando o Menino Jesus, ou tu, faziam anos, a família e os amigos da casa ofereciam-te objectos desconcertantes e inúteis, chamados brinquedos. Tu, está claro, ficavas muito contente com os presentes, por virem embrulhados em papéis vistosos, por constituírem uma novidade, aliás provisória (lamentável defeito da novidade!) mas principalmente por ser costume ficarmos contentes quando alguém nos oferece qualquer coisa. Na verdade, ou seja, no dia seguinte (a verdade só é completa no dia seguinte), verificavas que os tais brinquedos não correspondiam às tuas secretas ambições. Ah! O dia seguinte do brinquedo! Como é rápida a decadência do brinquedo, uma vez arrancado ao arranjo da montra da loja, onde brilhou, rodeado por outros brinquedos, valorizado por luzes hipócritas! Os brinquedos deviam ficar eternamente na suas caixas bonitas, ou penduradas nos tectos dos estabelecimentos para serem apontados pelos dedos indicadores dos meninos. É raro um brinquedo corresponder à imaginação da criança que o recebe. Deves lembrar-te de que, por volta dos teus seis anos, não achavas graça nenhuma a um boneco, por mais bonito que ele fosse. Eu, pelo menos, não achava. O que eu queria era um martelo verdadeiro para pregar pregos verdadeiros onde me apetecesse. A lei natural dos contrastes convida as crianças a desejarem ser adultas. Por exemplo: um cavalo vivo, com arreios de “cow-boy”, é artigo muito querido de todos os meninos. Pistolas autênticas, das que dão tiros homicidas, bicicletas de duas rodas, serrotes, etc., são objectos apreciadíssimos pela infância, que também aceita, resignadamente, as respectivas imitações, de lata, de três rodas, e sem dentes.

 

 

 

Olavo 2.jpg

 

 

 

Tenho um amigo um bocado parecido comigo nestes assuntos de educação infantil. Tem dois filhos a quem tudo permite e a quem gostaria de realizar todos os sonhos. Há tempo, um dos pequenos pediu-lhe um serrote com dentes afiados, e o pai fez-lhe a vontade. O serrote marcou época em casa do meu amigo. Vários móveis de estimação foram serrados pelo garoto que, trocadilho aparte, tem «bicho carpinteiro». O pai do serrador desgostou-se com a proeza do filho e julgo que lhe tirou o serrote. Mas teve desgosto quando lhe tirou o serrote. Disse-me, confidencialmente, que nunca mais o seu querido filho teria um brinquedo que lhe desse satisfação comparável à daquele serrote verdadeiro. «Resta saber — concluiu — se é melhor evitar a perda de móveis insubstituíveis ou a perda duma partícula da alegria de viver do meu filho». Mas, repito, não ê possível apertar em tão poucas linhas a extensa filosofia do brinquedo.

 

 

 

Olavo 3.jpg

 

 

[...] As crianças portuguesas já trazem de longe, quando nascem, uma indisciplina, uma desordem que não lhes consente manusear dinamite sem perigo de explosões. Logo, não as podemos presentear, aos dez anos, como acontece aos meninos alemães, com espingardas de tiro rápido, nem com cavalos de carne e osso, como é uso conceder às crianças inglesas. Sejamos prudentes com os nossos filhos, deliciosamente meridionais, imaginativos e bravos! Fabriquemos, para eles, alguns brinquedos mansos e já consagrados, mas tanto quanto possível aportuguesados.

 

 Olavo d’Eça Leal

in Revista Panorama, número 12, ano 2º, 1942

 

 

 

 

Olavo-dEa-Leal10.jpg

 

Olavo d’Eça Leal (1908-1976) pertenceu à geração de intelectuais e artistas portugueses que colaboraram na revista Contemporânea e no Salão dos Independentes. Escritor e célebre radialista da Emissora Nacional, a sua obra inclui o teatro, a poesia, as artes plásticas, a ficção e a literatura infantil. Escreveu e produziu dezenas de peças para a rádio e televisão, foi jornalista, ilustrador, e coleccionador ecléctico.

 

Em 1939 publica um livro para crianças, Iratan e Iracema, os Meninos mais Malcriados do Mundo, com ilustrações de Paulo Ferreira, que recebe o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho. Esta história ao jeito de folhetim radiofónico infantil foi lida pelo autor aos microfones da Emissora Nacional no programa "Meia Hora de Recreio" em trinta e oito fragmentos. Em 1943 é editada a sua História de Portugal para os Meninos Preguiçosos (1943) ilustrada por Manuel Lapa.

 

Desenhos, pinturas, livros e objectos de Olavo d’Eça Leal reunidos ao longo dos últimos quarenta anos pelo seu filho Tomaz encontram-se expostos na Casa da Pinheira [The House of the She-Pine Tree] - Casa-Museu e Guest House situada numa antiga quinta do século XIX próximo da aldeia do Sabugo.

 

 

 

 

 

Agradecimentos: Tomaz d’Eça Leal, Casa da Pinheira , Hemeroteca DigitalAlmanak Silva, Restos de Colecção, JuvenilbaseWikipedia

    

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25.12.15

 

 

árvore VFP 2007.jpg

 

Aguarela de Vasco Futscher Pereira (2007)

 

 

 

 

Before the ice is in the pools, 
Before the skaters go, 
Or any cheek at nightfall 
Is tarnished by the snow, 
Before the fields have finished, 
Before the Christmas tree, 
Wonder upon wonder 
Will arrive to me!



Emily Dickinson

 

 

 

 

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23.12.15

 

 

 

presépio - Novais 1936.jpg

 Presépio de Estremoz. Alentejo, Portugal.   

Foto: Estúdio Novais, 1936 

 

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Natal

 

 

 

Há meio século, quando eu vivia em Oxford e ia muitas vezes a Londres (ou uns anos mais tarde quando eu vivia em Londres e ia poucas vezes a Oxford) o Luís de Sousa (que nessa altura vivia em Londres e agora vive em Oxford) contou-me que um professor de história de arte de cujo nome me esqueci e dava aulas já não sei em qual dos colégios da Universidade de Londres, quando chegava às escolas ou maneiras da pintura europeia das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX ensinava aos alunos: “No Impressionismo, pinta-se o que se vê; no Expressionismo, pinta-se o que se sente; no Neorrealismo, pinta-se o que se ouve” (as aulas eram em inglês e o professor dizia social realism em vez de neorrealismo mas é o mesmo).

 

A sentença ficou-me gravada no canto da memória onde estão arrumados os julgamentos estalinistas dos anos trinta na Rússia, quando centenas e centenas de funcionários do partido comunista da União Soviética, dos mais altos aos mais baixos na nomenklatura, em tribunal confessaram falsamente (com boa consciência) terem traído a pátria e o partido, às vezes ao serviço de potências estrangeiras, sendo condenados à morte e executados, para exemplo do povo em geral e opróbrio de suas famílias, bem como arrumada nesse canto está a lembrança de um dia no Outono de 1991 em Argel, em visita oficial, com a cidade, entre europeia e africana, pobre, mal cuidada mas ainda bonita ao sol, fazendo-me pensar que Lisboa seria assim se Vasco Gonçalves se tivesse aguentado uma dúzia de anos no poder – e como vai ser também guardado o momento contado por amiga que há dias num elevador apinhado de Luanda, ouviu jovem triste do MPLA responder ao “Então?” matinal de um colega, dizendo: “Sofremos felizes”. 

                                  

Sou um dos muitos portugueses que consideram que o país, logo a seguir ao 25 de Abril, ficou a dever a liberdade da democracia à visão e à coragem de Mário Soares. Durante quatro décadas não tive disso a menor dúvida e não a tenho agora. Pelo contrário: nas últimas semanas, maus augúrios levam-me a recear mais pobreza e mais demagogia inspiradas de cima – e a apreciar melhor ainda a barragem de bom senso e decência oposta por Soares a disparates de esquerda e de direita.

 

Mas é semana de Natal, não neva na província, esqueço estas coisas todas e lembro um poema (neorrealista?) de que gosto muito.

 

 

Natal

 

 

Foi numa cama de folhelho,

entre lençóis de estopa suja

num pardieiro velho.

Trinta horas depois a mãe pegou na enxada

e foi roçar nas bordas dos caminhos

manadas de ervas

para a ovelha triste.

E a criança ficou no pardieiro

só com o fumo negro das paredes

e o crepitar do fogo,

enroscada num cesto vindimeiro,

que não havia berço

naquela casa.

E ninguém conta a história do menino

que não teve

nem magos a adorá-lo,

nem vacas a aquecê-lo,

mas que há-de ter

muitos reis da Judeia a persegui-lo;

que não terá coroas de espinhos

mas coroas de baionetas

postas até ao fundo do seu corpo.

Ninguém há-de contar a história do menino.

Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

 

 

 

Álvaro Feijó

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                        

    


25.12.14

 

 

Natal Anunciador.jpg  Anunciador simbólico da missa do galo

 

 

País de tão poéticas tradições natalícias como o nosso, em verdade, nada precisa de ir buscar à casa alheia, nem sequer o maçudo e empanturrante Bolo-Rei — o francês Gâteau des Rois  — nem de incutir na imaginação da infância, agora dotada de precoce discernimento, o mito dos saptinhos na chaminé. Dêm brinquedos às crianças, muitos brinquedos, mas eduquem-nas na compreensão de que só pelas graças do Menino Jesus é que os pais conseguiram os meios de lhos oferecer.

 

E depois de tudo isto, ainda um apelo final é de fazer. Não haverá por aí alguém que se disponha a cometer o belo crime de atacar a serrote a Árvore de Natal e a estafar de uma vez para sempre esse intruso e barbaçudo Pai-Natal da floresta germânica, de blusão e botifarras?

 

Que belos dias passados na prisão para expiar esse delito!

 

 

Francisco Lage

in "O Natal Português na Igreja, no Teatro, na Tradição, na Rua e na Família"

Panorama, nº 4, III série , Dezembro 1956

 

Foto: Mário Novais

 

 

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24.12.14

 

flight-into-egypt-1.jpg

 Fuga para o Egipto, Giotto 1311

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

Boas Festas

 

 

 

A quadra de presentes é propícia ao calibrar das posses de cada um e sente-se no ar um perfume de luta de classes de que não me lembrava há muito tempo (“consciência de classe que parecia adormecida”, escreve-me amiga em Portugal). Apesar de distracções na televisão, na telefonia, nos jornais, na internet, nas redes sociais - guerra sem quartel entre sunitas e xiitas; tropelias de Putin; aquecimento global provocado pelo homem (brinca, brincando, crescemos de dois mil para sete mil milhões em pouco mais de meio século: europeus, porém, somos cada vez menos); epidemias que resistem a remédios - mau viver insidioso alastra em cada vizinhança.

 

Como só más notícias se vendem – e compram – entram-nos desgraças pela casa dentro amanhadas “de cinco maneiras diferentes”, como os linguados do restaurante Sua Excelência quando o Queiroz recitava o menu. Contra mim falo, mas parece às vezes haver hoje mais comentadores do que coisas a comentar. Entretanto, espreguiçando-se estremunhada, a luta de classes que ninguém é capaz de definir mas em que muitos gostam de acreditar – um bocadinho assim como a Graça de Deus – arreganha os dentes. Já tínhamos passado por isso e eu julgava que o assunto estivesse arrumado. Nem pouco mais ou menos.

 

Os muito ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Muita gente na finança – banqueiros e para-banqueiros, grandes, médios e pequenos – tomou o freio nos dentes desde que a União Soviética colapsou e deixou de ter medo fosse do que fosse. Sem perceber que o fim do comunismo não fora a irradicação de uma doença mas sim o fracasso de um remédio – nunca é demais repeti-lo – abandonou o cuidado dos outros. Mas enquanto os Estados Unidos, arrancando com um programa de estímulo, saíram da crise que lá começara em 2008, a Europa, com a grilheta da austeridade a arrastar-lhe os pés, abeira-se da deflação. Irlanda, Grécia e Portugal devem mais do que deviam quando os programas de ajuda começaram - e nunca poderão pagar. Uma falsa convicção germânica de virtude obnubila responsáveis políticos e fá-los insistir no mau caminho.

 

Quando a economia, em vez de crescer, mirra, e os filhos vivem pior do que viveram os pais, os europeus, desabituados há muito tempo de tais desconfortos, tornam-se agressivos. Xenofobia pavoneia-se em França, na Alemanha, na Grã-Bretanha; protecionismo empobrece as nações. Quando não haja estrangeiros nem infiéis para bode expiatório avança a “luta de classes” - exemplo da tentação universal de fazer passar inveja por virtude - com tradição em Portugal, primeiro às escondidas da PIDE, depois posta ao léu pela Revolução dos Cravos. Esquecida a seguir – e lembrada agora.

 

A menos que os políticos entendam, percam medo da Alemanha, esqueçam austeridade e se metam a ajudar a economia com bom senso e coragem precisos, o que espera a Europa é - com vénia a Mestre António Garcia - uma broncalina do camandro ou uma Bernardette do caboz.

 

Boas Festas, mesmo assim.

 

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23.12.14

 

Natal consoada Panorama.jpg

 

 Aparador da Consoada

Composição do natural, de Francisco Lage*

 

 

Rabanadas da consoada  (Douro)

 

 

Pão de forma                          1

Ovos                                         6  a  8

Manteiga                                50  gramas

Açúcar                                    1  quilo

Canela                                    q.b.

 

 

Põe-se o açúcar a ferver com água suficiente e deixa-se tomar ponto de espadana.

 

Corta-se o pão às fatias finas, não se utilizando as dos topos. Batem-se os ovos e neles se mergulham as fatias até ficarem bem repassadas. Fritam-se logo a seguir na calda, a que se juntou a manteiga, até que os ovos que as emvolvem fiquem bem cozidos. Com uma escumadeira vão-se retirando as fatias e colocando numa travessa funda. Polvilham-se de canela e regam-se com o resto da calda em que se fritaram.

 

 

 

 *

 

 

Sonhos fofos

 

 

Ovos                                        6

Farinha                                  1  chávena

Manteiga                              60  gramas

Açúcar                                   90  gramas

Canela                                   q.b.

Sal                                          q.b.

Fermento em pó                1  colher de chá

Calda de açúcar                  q.b.

 

 

Põem-se a ferver o leite, a manteiga, o açúcar, a canela e o sal; levantando fervura vaza-se-lhe para dentro, de repente, a farinha e mexe-se até que fique enxuta e cozida.

 

Deixa-se então esfriar um pouco e juntam-se o fermento e os ovos, um a um, ligando-os muito bem com a massa. Amassa-se com a mão até ficar uma massa leve. Fritam-se colheradas desta massa em bastante óleo ou azeite fervente. As colheres devem ser de sobremesa e pequenas pois os sonhos crescem bastante enquanto se fritam.

 

Cobrem-se depois os sonhos com calda de açúcar não muito espessa e aromatizada com baunilha e servem-se frios.

 

 

 

M.A.M. [pseud. colectivo de Maria Adelina Monteiro Grillo e Margarida Futscher Pereira]

in Cozinha do mundo português [p. 661 e p.664] 

Porto: Livr. Tavares Martins, 1962

 

* Imagem: Foto Mário Novais

Revista Panorama, Número 4, III Série, Dezembro de 1956

in Caderno "O Natal Português" de Francisco Lage

 

 

 

 

FELIZ  NATAL 

 

 

 


22.12.14

 

Presépio Popular de Barcelos .jpg

 

Presépio popular de Barcelos

Panorama nº 24 - III Série - Dezembro de 1961

 

 

 

 

Associação Portugal à Mão aqui 

 

 

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21.12.14

 

Natal 1930 img912 - Version 2

Arminda D'Korth Brandão

Lisboa, Dezembro de 1930

Foto: M. Dinis

 

 

 

Foto gentilmente cedida por Henrique D'Korth Brandão, a quem muito agradecemos.

 

 

Em 2015 visitaremos o espólio fotográfico de João Christiano D'Korth (1893 - 1974) [irmão de Arminda D' Korth Brandão, na foto].

 

 

Nota:

para ampliar foto visite os meus álbuns no FLICKR aqui

 

  


23.12.13

 

 

Fatias de família (Alto Alentejo)

 

 

Pão                                 500 gramas

Açúcar                           500 gramas

Ovos                              4

Pau de canela              q.b.

Canela em pó              q.b.

Vinho                            1/2 decilitro

 

 

 

Corta-se o pão em fatias e aloura-se um pouco no forno. Dispõem-se numa travessa funda e regam-se com o vinho açucarado a ferver e temperado com o pau de canela.

 

Quando estiverem molezinhas retiram-se as fatias do molho e escorrem-se. Põe-se ao lume, numa caçarola, o resto do açúcar e um pouco de água até ganhar ponto. Depois vão-se mergulhando as fatias nos ovos batidos, uma a uma, e fritando na calda do açúcar. Estando todas cozinhadas, regam-se com o resto da calda e polvilham-se com canela.

 

 

 

M.A.M. [pseud. colectivo de Maria Adelina Monteiro Grillo e Margarida Futscher Pereira]

in Cozinha do mundo português. Porto: Livr. Tavares Martins, 1962, p. 633

 

 

 

 

 

 

 

 

As 1001 receitas deste livro foram coligidas e experimentadas ao longo de muitos anos por Maria Adelina e Joaquim Monteiro Grillo — o poeta Tomaz Kim — e meus pais, Margarida e Vasco Futscher Pereira. A edição, em 1962, deveu-se a Maria Adelina — Nita Monteiro Grillo — cuja dedicação ao projecto o levou a bom porto.

 

 

É recordado como o melhor livro de Cozinha Portuguesa no blog Prosimetron aqui e aqui.

 

 

 

 

 

 

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22.12.13

 

 

 

   João Bénard da Costa

 

 

 

[...] Naquele tempo, as crianças como eu não recebiam os presentes na noite da véspera. Os adultos escondiam cuidadosamente da nossa vista o que tinham comprado em nome do Menino Jesus (Pai Natal não existia ainda). Deitavam-nos, prevenindo que noite, muito noite, o Menino desceria pela chaminé da lareira da sala, para pôr as prendas nos sapatinhos que lá tínhamos deixado, antes de ir para a cama. Só as podíamos ver de manhã. E — não fosse o diabo tecê-las — avisavam-nos que ai de nós se quiséssemos entrar lá, antes de eles lá nos levarem, de manhã e nunca muito de manhãzinha, pois que pais deitam-se tarde e não se levantam cedo.

 

Pela calada da nossa noite, enfeitavam a sala e distribuíam por oito sapatos (éramos quatro, nessa altura) as compras do Menino. Depois, a casa levantava a âncora para a travessia da noite, como me lembro de ter lido em Gide.

 

Mas a excitação fazia-me (fazia-nos) acordar muito cedo. Logo que via o Outão diante de mim, percebia que a hora era próxima. Os minutos pareciam horas. Sombreados e luzeiros fixavam-se — como numa pintura — e não os via moverem-se. Se o Menino não tivesse vindo? Se não acontecesse nada? Terrível era a tentação de me levantar e ir espreitar, mas o medo da desobediência e do tabu, tolhia-me. Houvesse uma Eurídice por perto, não sei se teria resistido. Mas, como já disse, não havia.

 

Até que a porta se abria e me chamavam, com inconfundível alegria. Na sala, rompíamos os quatro ao mesmo tempo e, por mais esperado que fosse, o milagre era, de ano em ano, maior. Tudo aquilo, tudo aquilo só para mim. E era tão forte que um ano houve em que perguntei à minha Mãe como é que havia gente que não acreditava em Deus. A prova, irrefutável, era aquele maná caído do céu nos meus sapatos, coincidindo quase exactamente com tudo quanto eu tinha pedido.

 

Depois, muito depois, chegou o tempo de eu fazer de Menino Jesus para os meus filhos e depois, muito depois, o tempo de. obrigado pelo tempo deles, fazer de Pai Natal para os meus netos. Mas sempre que vejo as crianças precipitarem-se para o monte de embrulhos, maravilhosos e maravilhados, repete-se-me a antiquíssima questão e a antiquíssima certeza. A manhã de Natal de outrora, a noite de Natal de hoje é a prova da existência de Deus.

 

A mais absurda das provas? Obviamente, não vou argumentar. Mas já me apeteceria discutir se será mais absurda que as chamadas «provas racionais», nomeadamente as do santo de Aquino. Sosseguem que não vou por aí.

 

Apetece-me continuar em registo mágico, que é o registo destes musgos e destes presépios, destas palhinhas e destes reis. Sophia contou-me (Os Três Reis do Oriente) que Gaspar. Belchior e Baltazar viram a estrela que «mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria». E reconheceram-na logo «porque ela não podia ser de outra maneira». Quem reconhece a alegria das crianças, como quem vê a «carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência», não pode reconhecer estas coisas sem Te ver. «Como poderei suportar o que vi se não te vir?». É o oposto e é o mesmo.[...]

 

 

João Bénard da Costa

In Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 1º volume pp.386-387 

[crónica Uma frincha na janela, 26-12-2003] 

© Assírio & Alvim

 

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21.12.13

 

 

  

Figuras de barro de Estremoz 

foto:  capa de Revista Panorama nº 12, III Série, Dezembro 1958

 

 

 Bom Natal

 

 

 

 

 

Outro presépio de Estremoz neste blog aqui

 

Mais sobre bonecos de barro aqui e aqui

 

Blog do Museu Municipal de Estremoz aqui 

 

 

 

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25.12.12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

22 x 38 x 23 cm 

Image from the CD-Rom The Madre de Deus Crib

photographs: José Pessoa/Cintra&Castro Caldas

© Instituto dos Museus e da Conservação / Museu Nacional do Azulejo  2007

 

on-line collective catalogue of Portuguese Museums  MatrizNet



 

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20.12.12

 

 

 Timor, anos 20 do séc. XX?

 


Jesus mouris iha manu kokoreek!  Jesus nasceu ao cantar do galo!

A luz do petróleo incendiava a casa de estrelas. E íamos, toda a gente, a família e os que viviam connosco em família, festejar o nascimento de Jesus que o galo anunciara.[…] Recebíamos presentes trazidos do bazar e que tinham entrado em casa às escondidas. Não eram bem brinquedos, mas coisas que nos enfeitavam — tecidos bonitos, alfinetes de ouro, chinelas bordadas...

A Princesa minha mãe morreu, era menina ainda. Mas o Natal ficou nos meus olhos e na minha alma como afirmação de que Jesus passeara por toda a ilha de Timor tal como o fizera desde Belém a Jerusalém.

 

*

 

Na linha de cultos lunissolares, que imprimiu e imprime sinais e marcas indeléveis na alma dos Timorenses, a consubstanciação de Maromak como ente supremo, Deus, não representava qualquer oferta de paz ou de alívio. Pelo contrário o conhecimento, a consciência de Maromak impunha receio e inquietação. […] Carregado de superstições, crente da existência de espíritos vagueando, dominado pela vontade e atitudes de bruxos e feiticeiros, responsabilizado pelos oráculos ou sacerdotes, o Timorense não pôde despir-se de todas as suas vestes ancestrais para com simplicidade tornar-se cristão. Isso explica em grande parte que ainda hoje se prenda tanto à terra e considere os objectos mais variados e lugares, montes, rios, árvores e casas como tabus ou luliks. De facto, entre o Homem e a Terra, e entre o presente e o passado há tão intimas e tão vivas alianças que dir-se-ia ser fácil fazer reviver todas as gerações do passado. De crenças totemísticas, há também animais luliks ou tabus, o que explica a atitude suave de todo o timorense para com os animais. Deve assinalar-se, para melhor acentuar a importância dos luliks na vida dos autóctones de Timor, que tabu significa exactamente uma prática supersticiosa da Oceânia que dá carácter sagrado a determinado ser ou a determinada coisa, proibindo o contacto com ele ou o seu uso. [...] O Cristianismo só o entendem na medida em que lhes garante o caminho para encontrar a Deus, mas querem, na busca, ter presente o melhor e mais subtil do seu passado. Por isso os uma-luliks ou templos permanecem na sua beleza estranha e misteriosa encastoados na paisagem grandiosa da ilha e cultuados pelos que têm os pés mergulhados no húmus mais fundo e mais rico daquele chão. Muitas das cerimónias dos uma-luliks, as de maior relevo, conduzem os crentes a um tal estado de histerismo que findam em incontroláveis orgias. As famílias autóctones cristãs já se despegaram dessas orgias, porque receberam a suavidade da Presença de Jesus e a magnitude da Sua mensagem. [...] Como no tempo em que eu era pequeno e a Princesa minha mãe menina, os autóctones cristãos dessa ilha suave e viril, fruto de uma inexplicável simbiose de beleza e força, cultuarão o Menino Jesus na noite de Natal. E tal como eu, também os meninos de agora ouvirão das bocas de suas mães as palavras de anúncio do Anjo Gabriel:

Ave Maria, graça barak liu iha Ita-Boot; Maromak ho Ita-Boot; Ita-Boot di'ak liu feto hotu-hotu; Ita-boot nia Oan, Jesus, di’ak liu.

Santa Maria, Maromak nia Inan, haro-han ba Na'i Maromak tan ba ami-ata salan, oras ne'e ho oras ne'ebé ami-ata becik atu mate. Amen.

 

 

Fernando Sylvan aqui

Excertos de “Iha Kalan Boot – Jesus Mouris –  Iha Manu Kokoreek” 

Foto (data desconhecida) e texto publicados em Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961 - Edição do SNI, Lisboa

 


 

 

 



28.12.11

 

 

 

 

 

Anúncio da Mobil
contracapa de Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

nº 4 - IV Série - Dezembro de 1962

 

 

 

Outro anúncio da Mobil aqui e mais sobre a campanha da Mobil nas tags design e publicidade

 

Sobre a Mobil Oil Portuguesa veja aqui

 

 

 

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25.12.11

 

 

 

 

cartão de Boas Festas

de uma série, pintado por Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984)

 

Edição Papelaria Progresso, Lisboa, 1965

 

 

 

Mais sobre a Papelaria Progresso aqui e aqui

 

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22.12.11

 

 

 

 

 

Postal de Boas Festas c. 1957

Foto Casa Jorge Lourenço, Cascais, Portugal

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18.12.11

 

 

 

 

 

A Virgem e o Menino

Ângelo da Fonseca (1902-1967)

 

 

 

Também em Goa, pobres e ricos, muito portuguêsmente, fazem presépio. Certas famílias, com alguma antecipação, semeiam nachiniru, cereal que grela rapidamente, em terra espalhada sobre uma pequena tábua. Quando as folhinhas começam a aparecer, formam um tapete verde sobre o qual é armado o presépio de palha.

 

*

 

Os preparativos iniciam-se com grande antecedência, principalmente com a confecção de certos doces típicos, que não faltam em nenhuma mesa, como os mandarês, hóstias grandes feitas de abóbora, secas ao sol e fritas em óleo de coco no momento de servir, assemelhando-se a bolachas muito finas, de excelente paladar. Outro doce peculiar a esse dia é o dodol, preparado com farinha de trigo, sumo de coco, jagra, castanha de caju e manteiga. O dodol ocupa sempre na sua confecção duas ou mais pessoas, que se revezam, pois cansa muito mexê-lo continuamente. De resto, a maioria dos doces goeses é feita por esse processo, como o doce de grão, o doce  bagi, a mangada, a cocada, e outros. [...] E não podemos esquecer os neureus, semelhantes a rissóis mas recheados com coco ralado, cozido em mel de açúcar ou lentilhas, sendo tudo frito em óleo de coco ou assado no forno. E ainda os oddés (lê-se ores), feito- de farinha de trigo amassada em agua e sal, redondos e fritos também em óleo de coco a ferver.

 

*

 

Outro elemento digno de menção especial é a iluminação das casas. Desde as vésperas de Natal até aos Reis, todos os lares católicos irradiam externamente uma luz suave proveniente de lanternas chinesas de diversos formatos e desenhos, com velas de cera acesas. [...] Um elemento, porém, é comum a todas: a estrela! É feita de bambu e forrada de papel de seda, branco ou de cores, e presa a um pau comprido espetado no chão. À noite, quando iluminada, dá-nos a impressão de uma estrela suspensa no céu límpido, evocando a que surgiu aos Reis Magos, assinalando o caminho de Belém.

 

*

 

E a véspera de Natal termina com a Missa do Galo. Todos voltam lentamente para casa, cheretas a servir de lanternas, abrindo buracos na noite. Os doces ficam à espera, pois a consoada é a 25, no próprio dia de Natal, em puro convívio familiar, regalando-se então todos com a boa comezaina, variada e gostosa.

E a meio do dia surgem os farazes.

Os farazes são talvez a classe mais baixa, sem casta, descendente dos primitivos habitantes dravídicos. Vivendo em comunidade mais ou menos tribal e dedicando-se à manufactura de utensílios de bambu, constituem uma das camadas populacionais de Goa mais sinceramente católicas, desprezados como são pelos brâmanes e pelas outras castas arianas. Isso recorda-me palavras que o grande poeta Paulino Dias, na sua narrativa dramática Os párias, põe na boca de um faraz:

 

Os nossos maiores, Pralada, Ravana, Hiraniaxipú, Bali, bateram os Árias e comeram a sua carne. É a vingança, ó Jiubá, dos crimes das eras, os crimes de defender a sua choupana, a sua mulher e os seus filhos. Hoje o estrangeiro os devora com garganta de cobre aquecido. Eu sei que num país depois do mar os Árias são expulsos, feridos, sem poderem passar pelas ruas, entrar nos Dharmasadas e nas pousadas. Pagam pelo que nos fazem, ó Jiubá. Nós temos ainda os deuses deles, Shivá, Rama e Parvati, e eles não nos deixam pisar o degrau do seu templo. Mil vezes melhores os cristãos e muçulmanos que nos aceitam como irmãos.

 

 

Vimala Devi

in "Natal de Goa"

Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961

Edição do SNI Lisboa

 

 

Notas:

 

Vimala Devi, Paulino Dias e outros autores da literatura indo-portuguesa  aqui

Angelo da Fonseca aqui

 

 

Museum of Christian Art, Goa aqui 

 

 

 

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15.12.11

 

 

 

 

Maquineta Adoração dos pastores*

Século XIX, início

 

 

 

Maquineta de autoria desconhecida, mas que traduz de modo eloquente o gosto pelo presépio no século XVIII português. Nesta tripla Adoração – as Sagrada Família, dos Anjos e dos Pastores – podemos observar que remetem para um certo arcaismo, como a posição das mãos e os cabelos soltos da Virgem, evocação das imagens de Dionísio e António Ferreira, ou a indumentária de dois dos músicos, memória de figurinos seiscentistas.  

 

 

 

* Presépio da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva

 

  Imagem e texto encontrados aqui

 


 


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12.12.11

  

 

 

 

Capa de Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo 

nº 4 - IV Série - Dezembro de 1962

 

 

 

 

 

Imagem: Presépio - Trecho — Josefa de ÓbidosMuseu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

 


Sobre a revista Panorama leia aqui

Outras imagens do Natal na pintura portuguesa aqui

 

 

 

 

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9.12.11

 

 

 

 

 

Capa de Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

nº 24 - IV Série - Dezembro de 1967

 

 

Imagem: Presépio de madeira policromada que preenche o relicário de Santa Catarina de Sena.

Século XVII. Museu de Grão Vasco, Viseu.

 

Sobre a revista Panorama leia aqui

 

 

 

 

Museu de Grão Vasco aqui

Visita virtual aqui

 

 

 


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25.12.10

 

 

 

 

Foto: Presépio de oito figuras

Estremoz, Portugal

 

 

Mais sobre o Presépio de Trono ou de Altar aqui

 



23.12.10

 

 

 

 

Gerard David c. 1490

 

 

 

Évangile selon saint Matthieu

Mt 1,18-25

 

Marie, mère de Jésus, ayant été fiancée à Joseph avant qu'ils eussent habité ensemble, elle se trouva enceinte par la vertu de l'Esprit Saint. Joseph, son mari, étant juste et ne voulant pas la dénoncer publiquement, forma le dessein de la répudier secrètement. Comme il y pensait, voici qu'un ange du Seigneur lui apparut en songe, disant: «Joseph, fils de David, ne crains pas de prendre chez toi Marie, ton épouse, car ce qui est conçu en elle est l'œuvre de l'Esprit Saint. Elle enfantera un fils, et tu lui donneras le nom de Jésus car il sauvera son peuple de ses péchés.»

Or tout ceci advint pour accomplir cet oracle prophétique du Seigneur : «Voici que la Vierge concevra et enfantera un fils, auquel on donnera le nom d'Emmanuel, nom qui se traduit : " Dieu avec nous ". » Une fois réveillé, Joseph fit comme l'Ange du Seigneur lui avait prescrit; il prit chez lui son épouse et, sans qu 'il l'eût connue, elle enfanta un fils auquel il donna le nom de Jésus.

 

 

 

[...] G.S. : Que serait une famille, aujourd'hui, dans laquelle la mère serait vierge, où une vierge serait mère?

 

F.D. : Mais c'est ce que nous rencontrons chaque jour. Tout fils voudrait que sa mère fût vierge. C'est un fantasme qui vient de la nuit des temps, lorsque le fils était dans l'utérus. Là, il n'a aucun rival. Il ne connaît l'existence de l'homme de sa mère que lorsqu'il est doué d'audition, de vision et de discrimination des formes de ceux qui entourent sa mère. Donc, pendant un très long temps de sa vie, le garçon, par ses désirs hétérosexuels imaginaires qui sont anticipateurs de sa vie d'adulte, peut croire qu'il comble le désir de sa mère. Adolescent, il voudrait continuer sa vie sur les données archaïques de son désir.

 

G.S. : Mais la virginité dont parlent les évangiles c'est quand même autre chose que des fantasmes mal liquidés!

 

F.D. : Oh oui... Être vierge c'est être disponible. Pour la femme vierge, pour l'homme vierge, la parole devient plus importante que la chair. Ici, la parole de Dieu est plus importante que la chair.

C'est pour cela, me semble-t-il, que l'Église veut que Marie soit vierge avant et après l'accouchement, comme si elle avait accouché d'une parole, — comme si c'était une parole, la Parole de Dieu, le Verbe, qui était sortie d'elle, et non une masse charnelle qui aurait jailli, dans l'espace, à travers son corps charnel de génitrice.

 

G.S. : En chaque être humain, qu'il soit homme ou qu'il soit femme, il y a un homme et une femme, il y a donc Joseph et Marie, il y a l'aimant qui donne et l'aimant qui reçoit.

 

F.D. : Nous avons tous une disposition à la maternité qui peut être vierge et rester vierge, de même qu'une disposition à la paternité. Qu'est-ce à dire, sinon que nous pouvons porter les fruits d'une parole reçue d'un autre?

Notre pensée peut être fécondée par une idée venue d'ailleurs, sans savoir qui nous l'a donnée. Or, ce qui est psychologiquement vrai ne pourrait-il pas l'être spirituellement?

C'est cela que représente Marie : elle est une image, une métaphore de la parfaite disponibilité. C'est cela que représente Joseph : sa virginité, sa chasteté comme époux et père médiatisent la même vérité : être disponible. Chacun d'eux, elle éveillée, lui endormi, accueille la Parole de Dieu.


[...] G.S. : Terminons. On dirait que, pour vous, toutes les questions concernant la virginité de Marie, le statut marital de Joseph, etc., toutes ces questions sont finalement sans grande valeur.

 

F.D. : En effet, pour moi, ce sont de fausses questions, parce que tout ce qui est de la vie spirituelle est un scandale pour la chair. Tout ce qui est de l'ordre de la logique de la chair n'a pas de sens à partir du moment où nous sommes questionnés par la vie spirituelle, quand nous sommes désirants de vie spirituelle. [...]

La prière est au-delà de tous nos phonèmes, au-delà de tous les sons. Elle est dans un mutisme que ne connaissent pas les êtres humains entre eux. Un mutisme claironnant de désir dont tout homme, toute femme, à un moment de sa vie, sent la force qui l’appelle à vivre une vie spirituelle. Ce désir peut le rendre intrépide.

 

 

Francoise DoltoGérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (La "Sainte Famille" , Tome I)

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



21.12.10

 

 

 


Gerard David c. 1506

 

 

Évangile selon saint Luc

 

Lc 1, 26-38

 

En ce temps-là l'ange Gabriel fut envoyé par Dieu dans une ville de Galilée appelée Nazareth vers une vierge qui était fiancée à un homme nommé Joseph, de la maison de David, et le nom de cette vierge était Marie.

L'ange étant entré dans le lieu où elle se trouvait, lui dit : «Je vous salue. Marie, pleine de grâces; le Seigneur est avec vous; vous êtes bénie entre toutes les femmes. »

En entendant ces mots, elle fut troublée et se demandait quelle pouvait être cette salutation. L'Ange lui dit : « Ne craignez pas. Marie, car vous avez trouvé grâce auprès de Dieu : voici que vous concevrez dans votre sein et que vous mettrez au monde un fils; et il recevra le nom de Jésus. Il sera grand et sera appelé Fils du Très-Haut, et le Seigneur Dieu lui donnera le trône de David, son père; et il régnera éternellement sur la maison de Jacob et son règne n'aura pas de fin. »

Marie dit à l'Ange : « Comment cela se fera-t-il car je ne connais pas d'homme? » L'Ange lui répondit : «L'Esprit Saint surviendra en vous et la venue du Très- Haut vous couvrira de son ombre. C'est pourquoi l'Être saint qui naîtra de vous sera appelé Fils de Dieu. Et voici qu'Elisabeth, votre cousine, a conçu elle-même un fils dans sa vieillesse, et celle qu'on appelait la stérile est à son sixième mois car rien n'est impossible à Dieu. »

Alors Marie dit : « Voici la servante du Seigneur, qu'il me soit fait selon votre parole. »

 


 

 

G.S. : Joseph est un homme sans femme. Marie est une femme sans homme. Jésus est un enfant sans père. Peut-on alors parler de vraie famille?

 

F.D. : Oui, on peut parler de vraie famille, au point de vue de la responsabilité devant la loi.

La famille animale n'existe pas devant la loi. La famille est un terme humain qui entraîne devant la loi la responsabilité réciproque des parents pour l'éducation d'un enfant. [...] Mais votre question vient de ce que, dans cette partie des évangiles, il y a du mythe.

 

G.S. : Mais alors, qu'est-ce qu'un mythe pour vous?

 

F.D. : C'est une projection des imaginaires préverbaux, du ressenti du vivre dans son corps. Quand je dis mythique, je dis au-delà de l'imaginaire particulier de chacun; c'est une rencontre de tous les imaginaires sur une même représentation. [...]

Pour la « Sainte Famille », comme disent les catholiques, il ne fait aucun doute que les évangiles qui racontent l'enfance de Jésus s'expriment par des images mythiques, mais ils véhiculent aussi un mystère, une vérité.

Il y a du mythe dans ces passages d'évangiles. C'est certain. Mais, pour moi, croyante et psychanalyste, il n'y a pas que cela.

Que savons-nous avec nos connaissances biologiques, scientifiques, de l'amour et de son mystère? Que savons-nous de la joie? De même, que savons-nous de la parole? N'est-elle pas fécondatrice? N'est-elle pas parfois porteuse de mort? [...] Et si la parole reçue par Marie était l'instrument de la greffe de Dieu sur ce rameau de David? [...]

 

G.S. : L'Ange annonce à Marie : « La puissance du Très-Haut te couvrira d'ombre. » Où est Joseph?

 

F.D. : Mais l'ombre de Dieu, tout homme ne l'est-il pas pour une femme qui aime son homme?

La puissance et l'ombre de Dieu qui couvrent Marie peuvent être la charnalité d'un homme qu'elle reconnaît comme époux.

 

G.S. : Pourtant, il semble que Joseph ne se reconnaît pas l'époux de Marie ou du moins comme le géniteur de Jésus. En effet, il veut répudier Marie quand il apprend qu'elle est enceinte. Et Marie dit par ailleurs : « Je ne connais pas d'homme. »

 

F.D. : II faut chercher à découvrir ce que veulent dire ces textes.

Cette révélation de la conception de Jésus est faite à Marie dans sa veille et à Joseph dans son sommeil, dans un rêve. C'est dire que les puissances phalliques, créatrices féminines du désir de Marie sont éveillées, disposes, tandis que les puissances passives du désir de Joseph sont au maximum.

Autrement dit, Marie désire. Elle sait, par l'intervention de l'Ange (là c'est une manière de parler mythique), qu'elle deviendra enceinte. Mais, comment? Elle n'en sait rien. Mais, comme chaque femme, elle espère, elle désire être enceinte d'un être exceptionnel.

Quant à Joseph, il sait par l'initiation reçue dans son sommeil, que pour mettre au monde un fils de Dieu, il fallait que l'homme se croit y être pour très peu.

Nous sommes loin, voyez-vous, de toutes les histoires de parturition et de coït. Ici est décrit un mode de relation au phallus symbolique, c'est-à-dire au manque fondamental de chaque être. Ces évangiles décrivent que l'autre, dans un couple, ne comble jamais son conjoint, que toujours il y a une déchirure, un manque, une impossible rencontre, et non pas une relation de possession, de phallocratie, de dépendance.

En Joseph, rien n'est possessif de sa femme. De même que rien, en Marie, n'est a priori possessif de son enfant. Fiancés, ils font confiance à la vie, et voilà que le destin de leur couple en surgit. Ils l'acceptent.


 

Francoise DoltoGérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (Tome I)

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



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18.12.10

 

 

 

Capa de Panorama Revista de Arte e Turismo, nº 28 - IV série

Dezembro de 1968


 

 

Editada mensalmente pelo SPN, Secretariado da Propaganda Nacional (em 1945 SNI, Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo) — e terminada com a dissolução deste organismo, à queda do regime do Estado Novo em 1974, sob a superior direcção de António Ferro até 1949 (e tendo como director gráfico Bernardo Marques até então e Júlio Gil depois de uma interrupção em 1950) Panorama foi a primeira revista portuguesa de vocação modernizante. em grande parte consagrada às artes plásticas — embora, pela própria função cultural e propagandística da instituição editora, entre estas fossem especialmente tratadas as de carácter decorativo e de atracção turística, domínios em que a própria revista lançou iniciativas de relevo. Não deixaram por isso os números da sua primeira série, correspondentes à acção de A. Ferro durante a década de 40 (depois, com maior acentuação política, a revista entrou em franca decadência cultural) de prestar atenção à pintura, à escultura, ao desenho e também à arquitectura, sobretudo para encarecer a acção fomentadora do Estado Novo. Esta vinculação política, de carácter oficial, levou Panorama a documentar sectariamente as iniciativas do SPN-SNI, e as suas exposições, com esquecimento de outras — e propositadas ignorâncias das Exposições Gerais de Artes Plásticas ou da Exposição Surrealista de 1949 e da de Azevedo-Lemos-Vespeira de 1952 e outras, depois, de idêntico carácter modernizante contestatário, nas décadas seguintes. Bem paginada e ilustrada, documentalmente, com colaboração de bons desenhadores e excelentes capas (Bernardo Marques, Emmerico, Paulo, Ofélia, Anahory, Lapa), Panorama tinha menor interesse nos textos publicados, de carácter magazinesco, embora com algumas assinaturas de relevo (J. Osório de Oliveira. Reynaldo dos Santos, Reis Santos, Diogo de Macedo, João Couto).

 

 

inCatálogo da exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa

Comissário: Fernando de Azevedo

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1982

 

 

Imagem:

Grupo do Grande Presépio do Mosteiro da Madre de Deus. Oficina de António Ferreira. Séc XVIII. Museu Nacional de Arte Antiga.

Foto: A. Santos d’Almeida

 

 

imagens da revista Panorama aqui e aqui


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25.12.09

 

 

 

Adoração dos Magos

Diego Velázquez, 1619

 

 

 

Lend. Sec.17

 

Nota: É uma verdadeira chácara (1) porque em perguntas e respostas com certo sainete de graça e chacota. D. Fr chamou-lhe romance (o editor das obras) em Leão de Fr 1665 onde vem em castelhano pg 19 segundos três versos.

 

 

 

 

Zagal tu vens de Belém

No me dirás que há de novo ?

— Que chamou elrei a cortes

O povo, nobreza e clero         (2)

 
Que intenta sua majestade

 

Que, sem falta, é bom intento ?

— Jurar príncipe a seu filho

Que há de ser rei destes reinos.

 

Eu pensei que o mundo todo

Se rogava ao juramento

— Não que é já tão cristão

Que não jurará sem rogos

 
Pelos egrejos quem veio

Prestar o sagrado preito ?

— Os anjos eram que são

As dignidades do céu.
 
E do braço da nobreza

Quem veio ao juramento ?

— Não chegaram, porem já

Três reis hão-de chegar presto.

 
Quem recebeu a homenagem
No popular achamento?

— Os pastores que madrugaram

A obedecer seu  império
 
E  quem por parte d’elrei
As cortes  fez o    *
— Foi a voz de um paraninfo (3)

Todo o mundo era em silêncio

 

Que partes tocou elegante

E persuasivo em efeito ?

— A paz publicou aos homens

E glória intimou aos céus.

 

Não se tratou mais nas cortes

Outro importante manejo ?

— Sim: a defesa do mundo

Que em grande perigo o vemos

 

Pois há quem a elrei não sirva

Ao menos por seu proveito ?

— A um mesmo fim miram todos

Mas nem todos a um só meio

 

E que tal estava o quadro

De adornos e paramentos ?

— Um quadro - e de mão divina

Só lá vi, era um presépio

 

Mui rico seria o trono

De gran’ máquina por certo?

— Não resplandecem seus lustres

Como admiram seus mistérios.

 

E o que deram para a guerra

Dentre paraíso e inferno?

— O próprio do rei pedido
Dois milhões são desejados

 

Do príncipe que se diz

Muitos anos o logremos?

— Que já morre pelo povo

E disso há de morrer cedo

 

Pois dizem que com o pai

Se parece por extremo

— Tanto que quem vir o filho

É como ver o pai mesmo.

 

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

NOTAS :

1.chácara é termo que designa um certo tipo de romance popular

2.variante: egrejos nobres e povo

3.paraninfo : padrinho apresentante

 

 

 

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23.12.09

 

 

 

 

 

cartoon de Roz Chast (encontrado aqui)

 

 

 

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22.12.09

 

 

 

 

 

 

Oh by gum by Golly

were buying

Mistletoe

and Holly



 Rene Ricard

 

 

mais sobre o autor aqui

 

Imagem: fotograma do filme Meet Me in St Louis de Vincente Minnelli (EUA, 1944)

 

 

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19.12.09

 

 

 

Les Parapluies de Cherbourg de Jacques Demy (França, 1964) Música de Michel Legrand

 


25.12.08

Boas Festas!

Descubra as diferenças

 

São Francisco, 1958

 

Eu sou a segunda, a contar da esquerda, na primeira fila. Morávamos desde 1955 em S. Francisco, onde o meu pai era o cônsul de Portugal. Atrás de mim está a minha irmã Cristina. A minha mãe escreveu no meu “Livro de Bébé”:

 

 

Natal de 1958

 

Soraya e Afsaneh Eghbal, Teresa, Carlitos, Mariano, Diego e Belen La Vera, Dominique e Nathalie de Fossey, com a Vera e Cristina na nossa casa, dia de Natal.

 


 

 

As primeiras eram filhas do cônsul do Irão em Francisco e os segundos eram filhos do cônsul de Espanha. Os meus pais gostavam muito de Ahmad Eghbal e da sua mulher, que era francesa, bem como de Carlos e Teresa de La Vera, que reencontrámos dez anos mais tarde em Madrid. Dos Eghbal não soube mais nada mas agora, ao "googlar" o nome, descobri que Afsaneh escreveu dois livros. O primeiro, publicado em 1983, tem por título L'espèce errante.

 

 


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